CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de novembro de 2012

A PM DO AMAZONAS & CANUDOS (5/5)

O Comando Geral da Polícia Militar relembra hoje o retorno de sua tropa expedicionária a Canudos (BA), evento que completa 115 anos.
De minha parte, autor de Cândido Mariano & Canudos, a fim de repassar o envolvimento da força estadual amazonense no conflito, reproduzo o quinto capítulo do trabalho que escrevi para o Museu Tiradentes.

A PARTICIPAÇÃO  DO  AMAZONAS
A última jornada – de Monte Santo a Canudos -- encontra-se melhor descrita pelo comandante Mariano. O batalhão do Amazonas surpreende, inovando o fardamento para enfrentar a circunstância. Seu comandante ordena a substituição do boné pelo chapéu de palha. O fato não passa despercebido a Euclides da Cunha: A tropa (...) do Amazonas, com o uniforme característico que adotara desde a Bahia: cobertos, oficiais e soldados, de grandes chapéus de palha de carnaúba, desabados, dando-lhes aparência de numeroso bando de mateiros. Afinal, decorridos 42 dias desde a partida de Manaus, o batalhão amazonense adentra o teatro de operações.

Batalhão do Amazonas em Canudos, no centro, Candido
Mariano (de cavanhaque), foto de Flávio de Barros
Abeirava-se a derrocada de Canudos, sobretudo porque a presença da Brigada Policial trouxe um forte alento aos combatentes; até então a refrega não passava “de tiroteios mais ou menos violentos, que recrudesciam à noite”. De novo, a demora em investir contra o reduto de Conselheiro se devia a disputa nada lisonjeira entre comandantes. Todos buscavam sua parcela de notoriedade. Não se pode esquecer a disposição dos conselheiristas que seguiam fustigando a tropa, lutando a sua maneira: homens conhecedores da região, acostumados às dificuldades de alimentação e escassez de água; ainda assim capazes de longos deslocamentos, “conduzindo consigo mesmos a quantidade de mantimentos indispensáveis, um pequeno mantimento para não morrerem à fome” (Aristides Milton. A campanha de Canudos. Rio: 1902).

Ao amanhecer de 25, conta o tenente Macedo Soares, “Sotero de Menezes formou as forças sob o seu comando e à frente delas transpôs as barrancas do Vaza-Barris, investindo vigorosamente sobre o grande núcleo de edificações próximas a Igreja nova”. Em depoimento, Candido Mariano assinala que “fui ferido gravemente em um dos combates finais e, no qual, ataquei os jagunços e fiz diminuir consideravelmente a área sitiada. Fui elogiado por este motivo e censurado reservadamente, por ter empenhado a luta sem ordem, embora com franco sucesso” (Jornal do Commercio. Rio, 4 ago. 1911). Do mesmo modo se manifestam os correspondentes jornalísticos. Um jornal carioca informa aos seus leitores:

finalmente foi no dia 24 de setembro completamente fechado o sitio de Canudos. (...) e o 1º corpo de polícia do Amazonas, este sob o comando do tenente coronel Candido Mariano, um bravo que no dia seguinte, 25, avançou com o seu batalhão, conquistando à viva força mais de 2000 casas, adiantando as nossas posições de tal modo, que foi necessário que pó general Artur o mandasse chamar e o ameaçasse com prisão a fim de se conter. (Gazeta de Noticias, Rio, 4 out. 1897).

Descontados os excessos, o embate de 25 de setembro acarreta inúmeras controvérsias entre os comandantes. No mínimo, era preciso ousar, como bem demonstra o comandante amazonense. O resultado deste combate apressa a destruição de Canudos, porquanto “trouxe grande explosão de entusiasmo e alegria entre as praças, cujo nível moral subira de modo notável”.

A 27, falece o capitão Talisman Floresta, da força amazonense, que se encontrava hospitalizado em Monte Santo (BA). Sem causa designada, sem ferimentos, sem sequer ver Canudos. E, segundo apurou a expedição, Antônio Conselheiro falecera;  desse modo, poupado de assistir a destruição de seu Belo Monte. Quê influência, seu desaparecimento, teria manifestado entre seus seguidores? Decidiram abandonar a luta? Ou se render? Esta opção foi documentada, com um triste fim: a degola foi ampla, dando fundamento ao autor de Os sertões que alcunhasse a campanha de “uma charqueada”. 

Mas a luta ainda continua. Em 1º de outubro, a infantaria do Exército redobra o combate sobre o arraial, certamente, o último combate. No dia imediato, os sitiados içam uma bandeira branca, a primeira em quase um ano de fortes combates. Entrega-se “cerca de quarenta mulheres e crianças, e alguns homens cobertos de ferimentos”. A proposta de paz foi rejeitada pelo comandante Artur Oscar. A 3, Antônio Beatinho levanta nova bandeira de paz. Neste episódio, cerca de duzentas pessoas abandona Canudos. “Beatinho foi degolado às 8 horas da noite”, testemunha Horcades Alvim.

Finalmente, dia 5, pela tarde findou a repressão contra Canudos. Descrição sensata cabe ao comandante amazonense:

depois de uma resistência louca, digna de melhor causa, o inimigo (...) entregou-se de vez, ou antes, deixou de se fazer ouvir pelo estampido de seus bacamartes, porquanto, tinham perecido na luta todos os seus homens válidos, e quando as nossas forças penetraram no seu último esconderijo, ali se encontrou um montão de cadáveres de homens, mulheres e crianças que foi avaliado em número superior a oitocentos!

O resultado militar nem sempre foi bem aceito pelos críticos e pelos estudiosos da campanha canudense. Um oficial verde-oliva, competente pesquisador do tema, sentencia: “Canudos é o marco principal da história militar brasileira. Aquele triste episódio, onde a força terrestre nacional teve atuação ainda contraditória, (...) definiu a única direção a ser seguida, (...): modernizar-se ou sucumbir”. (Davis Ribeiro de Sena. A guerra das caatingas. Rio : Rev. IHGB, 1991).

O governador do Amazonas, Fileto Pires, que na partida dos combatentes desejara um regresso vitorioso, assinala que “A expedição de Canudos é a página mais fulgurante dos anais amazonenses e a posteridade deve ser imensamente agradecida a esta falange de bravos, que elevando o Estado deixou-lhe um feito valoroso que o sagrou entre os primeiros de seus irmãos”. (Mensagem de 6 jan. 1898)

A campanha é arrematada em 5 de outubro; o batalhão do Amazonas retira-se de Canudos dois dias depois em direção a Monte Santo, escoltando um grupo de prisioneiros, a maioria mulheres e crianças. O retorno, todavia, foi deveras traumático, segundo relata o comandante amazonense, “os soldados vinham todos alquebrados pelas fadigas e febres infecciosas que muito abatiam ao organismo e ao espírito”. E mais, transportando companheiros feridos e escoltando prisioneiros. Por esses entraves, o comboio alcança Monte Santo a 10 de outubro.

O marechal Machado Bittencourt, ministro da Guerra, recebe o batalhão. Entre outras providências, o marechal informa ao comandante Mariano que os policiais nada têm a auferir do Governo Federal, visto que o Amazonas se responsabilizou pelas despesas de campanha. Por essa razão, a tropa prossegue a marcha em direção a Queimadas, estação da estrada de ferro, onde possivelmente acampa a 12, junto a outros grupamentos. Apesar da sofreguidão, aguarda por dois dias o embarque para Salvador (BA).

Em 14, o batalhão do Amazonas retoma a condução na Estrada de Ferro para desembarcar na mesma data, ao lado do 5º corpo da PM da Bahia, na estação da Calçada, na capital. O desembarque foi exaustivamente festejado, como é habitual do povo baiano.

Vibrante e festiva, a baianidade organizou o desfile que teve início às 13h30: banda de música à frente, inclusive a fanfarra amazonense, seguida dos comandantes. Em seguida, as companhias da polícia do Amazonas, “cujas carabinas estavam enfeitadas de crótons e flores, conduzindo a bandeira da Polícia do Amazonas (?), rodeada de povo e representantes daquele estado entre nós”. Enfeixando o desfile, a tropa da polícia baiana e enorme acompanhamento popular. O itinerário foi tão alongado que, próximo das 17 horas, “davam todos entrada no Quartel dos Aflitos, festivamente ornamentado. Depois das continências devidas, a Polícia do Amazonas seguiu para o Forte de São Pedro”.  

Em Salvador, os amazonenses permanecem uma semana, aguardando a trasladação.  Somente em 23 de outubro a tropa amazonense retoma o caminho de casa, embarcando no conhecido transporte Carlos Gomes. Depois de contornar a costa brasileira, desembarca em Belém para, dia 8 de novembro, em Manaus receber as aclamações e os abraços de camaradas e familiares.
 
São passados 115 anos!