CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

3 de novembro de 2012

DIA DOS FINADOS




Vista parcial da torre da capela do
cemitério de
São João Batista, 2010
Cometi ontem um pecado mortal, por não ter comparecido aos cemitérios para reverenciar os meus e outros mortos. Não encontro justificativa.  Preocupei-me com assuntos diversos desse cerimonial... e acabei por transferir a visita para amanhã. No entanto, o day after não vale, ou se antecipa ou se vai no dia mesmo. Trata-se da única visita anual, e eu indesculpavelmente falhei.
 
À noite, quando engrossava a lotação dum shopping, recebi a penalidade. Ao efetuar o pagamento, a jovem atendente, vendo o alvoroço da casa de consumo comentou comigo a perda da tradição dessa data tão significativa. Não alimentei a conversa porque estava me sentido pecador, com obrigação de cumprir uma penitência.

Para remediar meus sentimentos e meu deslize, quero lembrar meus mais próximos mortos: a primeira sensação de perda foi a de minha mãe, Francisca Lima Mendonça, morta aos 34 anos, de tuberculose pulmonar. Aconteceu em 1952, sem que ela conhecesse qualquer antibiótico que, talvez, pudesse adiar a visita da “rasga mortalha”.

Em 1961, morreu minha avó Victoria Malafaya, peruana autêntica, nascida no beiradão do rio Solimões peruano. Foi sepultada no São João, na mesma cova da nora.
Depois, o câncer atingiu a minha madrasta, Dona Dora, de quem já comentei em posts anteriores, e a quem agradeço sempre o apoio incisivo recebido.
Mais recente, e a dor parece ser ilimitada, aconteceu a morte de meu filho Roberto, também aos trinta e quatro anos, que foi se juntar às avós.   

Lendo Baú de Ossos de Pedro Nava, saudoso médico que, ao inventariar suas memórias, assim descreveu o velório de José Nava, seu pai:

(...) Esperando a entronização que não tardou da essa, dos tocheiros e do caixão de veludo agaloado. Naquela altura ele ficou distante, transmudou-se na coisa além das afeições, das convenções, dos contratos, das reciprocidades. Não podia dar mais nada. Receber mais nada. Nada. Não ser. Não ter. As  expressões automáticas ainda lhe atribuíam, irrisoriamente, as últimas possibilidades de posse. O caixão dele, o enterro dele, a sepultura dele – mas nem isso! Porque ele era do caixão, do enterro, da sepultura perpétua. Perpétua? Perpétua é a Morte. A dona é a terra...