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Alencar e Silva (1930-2011)l |
Destinado a assinalar no tempo um acontecimento de alta relevância
para o desenvolvimento cultural do Estado, um dia gravou-se no bronze esta inscrição:
"Pois foi. Jovens se reuniram sob as
frondes desta árvore, e aconteceu. Era madrugada. 22 de novembro de 1954. E fez-se.”
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Luiz Ruas, presidente do CM (1957-58) |
Surgido como síntese unificadora da inquietação que vinha movendo
a mocidade amazonense, desde a década anterior, e que buscava abrir espaço ao exercício
da liberdade criativa e à renovação dos padrões artísticos e literários vigentes - o
Clube da Madrugada chegava já amadurecido para os novos tempos sabendo perfeitamente
o que queria.
O poeta Jorge Tufic, que se refere ao CM como uma atmosfera e
um movimento de ideias, identifica nas raízes desse movimento uma série de
fatores causais que se resumem, basicamente, no esgotamento e anacronismo da
vida cultural de Manaus, êxodo da juventude, desfalcando anualmente a população
de parte ponderável de seus valores, e inexistência de universidade. Surgia, assim,
o Clube da Madrugada em meio a uma crise total de valores.
Muitos, evidentemente, foram os presidentes do CM. E todos o
terão conduzido com o acerto esperado, dando cumprimento à pauta do seu ideário
e ao intercâmbio de conhecimentos e experiências em que os madrugadenses
mutuamente se enriqueciam, como que ao clima de um centro de estudos
superiores.
A partir, porém, dos anos 60 e princípios dos 70, houve notável
mudança de ritmo. E Aluísio Sampaio viria como que a encarnar a alma do Clube
como força coesiva e dinâmica que lhe comunicaria novo ânimo e o faria
projetar-se, ostensivamente, em cena aberta, para reafirmar e mostrar, em toda
a sua extensão, a que vinha.
Isto se fez não só por meio da publicação de livros - o que
já vinha ocorrendo desde a década anterior - mas, principalmente, do espaço
gráfico de toda uma página semanal do "O Jornal", na qual se
estampava a produção cultural do grupo e dos novos valores que começavam a
surgir.
Dentro da informalidade que sempre o caracterizou, o Clube da
Madrugada foi extremamente parcimonioso na outorga do título de "Cavaleiro
de Todas as Madrugadas do Universo", contando-se entre as personalidades
agraciadas com essa honraria os escritores Ramayana de Chevalier, Jorge
Amado, Guimarães Rosa, Assis Brasil, André Araújo, Nunes Pereira, Jean-Paul
Sartre, Ferreira de Castro e o jornalista Umberto Calderaro Filho.
Aluísio Sampaio era um obstinado. Seu período presidencial (ou
imperial...) estendeu-se praticamente por toda uma década - o quanto durou a
página dominical do CM - tempo durante o qual só se assinalaria um breve hiato,
no biênio 1965/66, com a presidência de Francisco Vasconcellos, também
brilhante, dinâmica e operosa.
Lembro, a propósito, ter sido ele o iniciador da Coleção
Madrugada, tornando-se, assim, o meu primeiro editor, eis que o meu livro Lunamarga veio a constituir o volume 2 da coleção, nos idos de 1965.
Voltando a tomar as rédeas em suas mãos - ocasião em que se
esboçou uma cisão de consequências positivas, pois que daria lugar à criação do
núcleo local da UBE - pôde Aluísio Sampaio conduzir o CM aos seus objetivos
programáticos, sendo a sua dedicação pessoal responsável pela fase mais
aguerrida e brilhante da entidade. A propósito, não será necessário enfatizar a
competência com que se houve o grande comandante na utilização dos espaços
abertos na imprensa amazonense (além da página no "O Jornal", também
no "Jornal do Comércio" e na "A Crítica"), para a
divulgação dos trabalhos do grupo, cuja produção intelectual se projetava para
além do campo estritamente literário - poesia, conto, crônica e ensaio - e
alcançava a área dos estudos sociais e econômicos.
Efetivamente, o entusiasmo, a operosidade e a força da sua liderança
foram ainda responsáveis pela verdadeira explosão ocorrida no âmbito das artes
plásticas, em Manaus, a partir dos começos dos anos 60, quando o Clube da
Madrugada patrocinou numerosas exposições, coletivas e individuais, dos
artistas locais, pertencentes ou não aos seus quadros. Lembra-se, a propósito,
haver sido um membro do CM, o pintor Moacir Andrade, o primeiro artista
brasileiro a expor em Brasília.
Em 1963, por exemplo, sob a denominação de Feira de Artes
Plásticas, varias amostras foram montadas em logradouros públicos de grande afluência,
como a praça da Matriz (lado da av. Eduardo Ribeiro) e a praia da Ponta Negra,
sendo visitadas por milhares de pessoas, e atingindo-se, dessa forma, o buscado
objetivo de levar ao grande público o trabalho dos nossos artistas, na primeira
tentativa, entre nós, de diluição das barreiras que afastam o povo das exposições
em espaços fechados.
Ao evocar-lhe a figura ímpar de grande animador do Movimento Madrugada, é
de justiça creditar-se ao zelo de Aluísio Sampaio,
pelo menos em parte, numerosas outras iniciativas, como, por exemplo, o
experimento da Poesia de Muro.
(*) Alencar e Silva. Quadros
da Moderna Poesia Amazonense. Manaus: Editora Valer, 2011.
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