CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

16 de novembro de 2012

BOMBEIROS DE MANAUS EM 1972

Major Nicanor Gomes,
comandante dos Bombeiros, 1972
Há 40 anos, mudaria amplamente o panorama dos Bombeiros; seria o último ano sob o escudo da prefeitura de Manaus, esta veria a substituição de Paulo Pinto Nery por Frank Lima.
O efetivo na abertura desse ano: comandante, major Nicanor Gomes da Silva, e Raimundo Duarte Paiva (que refizera sua situação na corporação), capitão subcomandante. Havia mais seis oficiais; um subtenente; 18 sargentos; nove cabos e 53 bombeiros. Total – 87 homens. A despeito do rigor, a disciplina aqui e ali se esboroava, porém, no mesmo diapasão a mão disciplinadora do comandante resistia com energia.    
 
Em 1.º de maio, aprovado pelo prefeito Paulo Nery, foi instituído o Quesito de Incêndio e Salvamento, que foi utilizado até o início dos anos 1990. Autêntico back-up  do congênere da Guanabara, este documento metodizava a descrição dos diversos tipos de desastres. Antes, essa atividade dependia do humor e do influxo ortográfico do comandante do socorro, daí se encontrar no acervo dos municipais uma variedade de narrativas. Algumas, apesar de dramáticas, hilariantes.

O Quesito, quanto às Normas de Confecção e Entrega, atendia as seguintes instruções: 
                   1 – O Quesito será único para cada corrida realizada, embora tenha sido nela empenhados vários socorros;
                        2 – Será confeccionado pelo comandante do socorro que primeiro tiver chegado ao local, seja ele oficial ou praça;
                        3 – Nos casos de corridas, em que apenas um socorro tenha comparecido, o prazo de entrega à secretaria do Corpo será de 72 horas, contadas da rendição da parada, ao sair o responsável de serviço;
                        4 – Nos casos em que mais de um socorro tenha comparecido ou sido empenhados no local, os impressos de auxílio deverão dar entrada em 48 horas, contadas na forma do item anterior, também na secretaria;
                        5 – Os quesitos terão numerações que lhes caracterizarão os seus números de ordem de corrida, observando-se a sua contagem de zero hora do dia 1.º de janeiro às 24 (vinte e quatro) horas do dia 31 de dezembro de cada ano;
                        6 – Na confecção do Quesito, o chefe do primeiro socorro fará constar todas as ocorrências de todos os socorros que tenham comparecido, de forma a permitir que ele, por si só, constitua o relatório geral das atividades da Corporação no local do sinistro;
                        8- Na confecção do Quesito, os comandantes de socorros deverão seguir as normas que abaixo são estabelecidas para resposta a cada um dos itens.

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Quartel do Corpo de Bombeiros de Manaus, na avenida
Sete de Setembro, que existiu até 1974
A propósito do Dia do Bombeiro Brasileiro (2 de julho), o vereador João Zany dos Reis, antigo membro da Polícia Militar e bombeiro municipal por afinidade, todavia admirador e colaborador dos voluntários, homenageou a corporação. Para isso, Zany justificou sua propositura notando que, criado o primeiro Corpo de Bombeiros do Brasil no Rio de Janeiro, “outras corporações similares foram sendo organizadas e o espírito de luta do Soldado do Fogo tornou-se uma constante, fato que o tem consagrado credor de estima pública”. Endossa, porém, seu discurso com garantida dose de politicagem, ao apresentá-lo “mal alimentado, com vencimentos deficientes, sem estímulo, mas num desprendimento impressionante”. Capaz de lutar contra o fogo movido pela “coragem, bravura e amor aos seus semelhantes”.                                                    
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Em 7 de julho, João Mendonça de Souza, superintendente da Fundação Cultural do Amazonas, recorreu aos Bombeiros. Motivo: o reparo nas instalações elétricas da Biblioteca do Estado.  Não dispondo a Fundação de uma escada, solicitou-a por empréstimo, prometendo que “terminado o referido trabalho será devolvida”. Seguiu a escada e a respectiva guarnição. Para a instituição que combatera o incêndio da Biblioteca (1945) unicamente com entusiasmo, aquele pequeno serviço constituía-se deleite.                                                                

Perseguindo a meta de instruir seu pessoal, o comando aproveitou para cooperar na instrução de funcionários de empresas. Os instrutores do CBM eram forçados à preparação de aulas, de modo transverso, se atualizavam, e com essa atividade obtinham subsídio financeiro.
Um Curso de Combate a Incêndios, ministrado a “funcionários de diversas firmas comerciais e industriais desta cidade”, ocorreu no Instituto Cultural Brasil Estados Unidos (Icbeu), patrocinado pela Capitania dos Portos e Costas. Integraram o corpo docente o major Nicanor Gomes, como supervisor; 2.º sargento Agenor Dabela Marinho e 3.º sargento Bernardo Pereira de Oliveira, como instrutores (Boletim, 22 de agosto).

Em outubro, inicia-se o fechamento desta fase municipal dos Bombeiros, etapa que perdurou por 22 anos (1951-73). Os municipais principiam a se despedir, ao conhecer os acertos governamentais transferindo esses serviços para a órbita estadual. Para mim, que transitei pelo acervo do Corpo para formatar essa exposição, jamais anotara a liberação de tantos recursos, de tantas verbas para este fim. Eu estava ciente de que os municipais quase desapareceram por inanição, devido a escassez de recursos; e os voluntários, tal qual “primo rico”, usufruíram de farto quinhão. Angariaram donativos não apenas de doadores, mas também de governos (estadual e municipal) que tinham compromisso de manter o Corpo oficial. Paciência!

A arrumação dos troços para a mudança começava. Exigia pouca mão de obra, pois tudo se manteria na mesma paragem, apenas um novo comandante passaria a dar novas ordens. Em 12 de outubro, consoante a Lei n.º 1.146, o prefeito de Manaus recebeu licença para “firmar convênio com o Estado, para a regulamentação dos serviços de prevenção contra incêndios, combate ao fogo e socorros públicos”. Com a legislação encetada, carecia aos Bombeiros aguardar a “papelada” que, no Amazonas, se arrastou por mais de noventa dias. Ao mesmo tempo em que a Prefeitura despedia seus Bombeiros, agraciava-os com substancial aumento salarial, não somente retroativo a maio, mas com o encargo do pagamento  encerrar-se com a transferência.   

Em dezembro, o Corpo de Bombeiros de Manaus recebeu a visita de uma missão francesa. A cooperação técnica desembarcava sob os auspícios da agência local da Aliança Francesa, representada por Mr. Ange Guimera, vice-cônsul francês, e Mr. Guy Mourillas. E estava chefiada pelo coronel Robert Abadie, do Corpo de Bombeiros de Paris (FRA). E mais, assessorada por monsieurs Jean François Veillard, enviado da empresa Camiva (Constructeurs Associés de Matériels d´Incendie, Voirie, Aviation), e Michael Haudebault, do Groupe Sicli - Bureau Commercial Parisien. A equipe realizou exploração fotográfica aérea e terrestre estudando os riscos de incêndios existentes na cidade de Manaus, bem como para elaborar um diagnóstico das precariedades do CBM.