CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, janeiro 22, 2023

MANAUS DE ONTEM

 

No sentido horário: Cervejaria XPTO, bairro de Aparecida (sem utilização); Hospital da Beneficente Portuguesa (fachada); Penitenciária Central (desativada); Cine Eden (inativado); Sede do Atlético Rio Negro Clube (em processo de falência) e Centro Cultural Chaminé (sem funcionamento) 
(fotos de Gunter Engel)

domingo, novembro 01, 2020

CINEMA DE L. RUAS


 Esta postagem tem o objetivo de recordar o autor de Aparição do Clown, morto em 2000, e que ontem completaria 90 anos. Compartilho a publicação do matutino Diário do Amazonas (8 agosto 2010), cujo texto pertence ao jornalista Sávio Stoco.

 L. Ruas ganha livro

PRODUÇÃO DE UM DOS FUNDADORES DO CLUBE DA MADRUGADA 

ESTÁ EM CINEMA E CRÍTICA LITERÁRIA DE L. RUAS.

Filósofo, poeta, cronista, professor universitário, radialista, ator teatral e
padre. Tudo isso foi Luiz Ruas (1931-2000), um dos principais fundadores do Clube da Madrugada, movimento cultural amazonense responsável pela difusão das artes modernas no Amazonas.
Em julho, L. Ruas – como costumava assinar suas obras - ganhou um livro resgatando parte da sua produção, a coletânea Cinema e Crítica Literária de L. Ruas, organizada por Roberto Mendonça (Edua, 168 páginas, R$ 20), com textos publicados nas décadas de 1960 e 1970 nos jornais da cidade.

Capa do livro divulgada pelo 
matutino

O Clube da Madrugada contribuiu para que L. Ruas valorizasse o cinema como arte e se dedicasse nos textos, segundo o sociólogo Renan Freitas Pinto, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “Ele teve um papel de destaque em Manaus. Foi uma das vozes mais ativas no movimento Madrugada. Difundia as artes modernas, inclusive o cinema e o teatro. O interesse pelo cinema, essa arte do século 20, contemporânea por excelência, revela aspectos da modernidade do movimento. Nem todos os próprios integrantes do movimento tinham essa visão. Foi um dos que primeiro escreveu trabalhos críticos sobre cinema com visão filosófica”, lembra Pinto, que conheceu o escritor nos cineclubes da cidade.
Um “cabocão muito inteligente”. É como o escritor Márcio Souza, que também o conheceu nos cineclubes, se refere ao padre, com bom humor. “Era bom poeta, ator que causou escândalo em Manaus quando produziu o Auto da Compadecida (de Ariano Suassuna) com o Teatro Escola e coordenava o suplemento literário do Clube da Madrugada”.

Sobre a atividade dedicada ao cinema, Renan disse que não era um dos nomes mais assíduos, mas que sua produção tem importância. “Ele tinha uma visão cristã de cinema, mas o livro reflete bem a visão da época, como as pessoas percebiam o cinema, como a imprensa publicava. Hoje crítico de cinema é coisa de Ibama, animal em extinção. A crítica literária, então já não tem mais volta nos grandes jornais", observou.

Entre os filmes e livros criticados e incluídos no livro, a diversidade se sobressai. De Rashomon (1950), do japonês Akira Kurossawa, ao religioso espanhol Marcelino Pão e Vinho (1955), de Ladislao Vajdao, passando pelo brasileiro A Primeira Missa (1961), de Lima Barreto, e o western norte-americano Rastros de Ódio (1956), de John Ford. Entre as críticas literárias, análises de obras dos amazonenses Luiz Bacellar, Jorge Tufic, a literatura infantil de Monteiro Lobato, o francês Arthur Rimbaud e autores revelações internacionais da época.

A pesquisa de Roberto Mendonça, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas (IGHA), iniciou em 2004, quando L. Ruas completou, morto, 50 anos que se tornou padre. Outros três volumes estão previstos para lançamento, segundo o organizador. A Poesia do Padre L. Ruas, que sairá pela editora Travessia, e outros dois volumes com os textos em prosa do autor, como crônicas e ensaios.
A obra literária de L. Ruas mais importante é o livro de poesia Aparição do Clown, de 1958. Por sua qualidade, o trabalho mereceu estudos de Rogel Samuel, professor de Letras aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (disponível no blog historiadosamantes.blogspot.com) e de Russell S. King, da University of Nottingham.

terça-feira, abril 07, 2020

DITADURA VARGAS NO AMAZONAS


Quando Getúlio Vargas transformou seu governo em ditadura, manteve na administração do Amazonas ao Dr. Álvaro Maia (foto), sob o título de Interventor Federal. Para atender decisão superior, em 3 de abril de 1937, o Diário Oficial do Estado publicou extenso relatório assinado pelo Interventor, relatando a situação do Estado.


Interessei-me pela Segurança, que à ocasião encontrava-se sob a direção do Chefe de Polícia. Sua autoridade estendia-se até sobre a Casa de Detenção, ou seja, a guarda dos detentos na Penitenciária do Estado, a mesma que findou na avenida Sete de Setembro, e o prédio sem cuidados definha. Outra atribuição (estranha para nossos dias) era a aplicação de censura sobre teatro e cinemas.
Abaixo os textos enunciados:
Casa de Detenção (Cartão Postal)


Casa de Detenção
Entregue à administração do capitão José Marques Galvão, oficial em disponibilidade da Força Policial do Estado, a Casa de Detenção vai se mantendo de acordo com as ordens diretamente emanadas desta Chefia. O ambiente calmo e respeitoso reinante naquele presídio, demonstra que os que ali se encontram estão efetivamente segregados do nosso convívio, cumprindo penas impostas pelas leis garantidoras da tranquilidade social, violada e ofendida pelo delito ou crime por eles cometidos.
Vê-se, logo à entrada, que se está num estabelecimento penitenciário, modesto e pobre, porém, onde existe obediência aos princípios de ordem e disciplina. Instalado há muitos anos no magnifico e confortável edifício situado à avenida Sete de Setembro, servido apenas por seu administrador, um amanuense e um carcereiro, vai funcionando a Casa de Detenção de Manaus, sob o controle direto da Chefia de Polícia com a guarda da força militar para ali enviada todos os dias.
Com a assistência médica de um dos legistas escalados por esta Chefia — Ângelo D'Urso — os presos vão gozando boa saúde. Para esses serviços médicos dispõe o estabelecimento de uma enfermaria e uma ambulância sempre prontas às necessidades que surgem. Graças à gentileza do Prefeito da Capital, inaugurei naquela dependência um serviço dentário permanente, dirigido pelo profissional Henrique Gomes que, sempre atento, comparece, quando não diariamente, pelo menos 3 vezes por semana, para fazer extrações, obturações, curativos e limpezas que necessitarem os presos.
A administração não se descuida da higiene e a conservação do edifício, tanto assim que foram realizados com as sobras das verbas insignificantes de que dispõe, os seguintes serviços de pouco vulto, é verdade, porém de ótimos resultados para o Estado e para os detentos: consertos do soalho da sala da enfermaria, substituição das portões de ferro e das calhas estragadas, reparos nos esgotos, vedagem de goteiras, pinturas, renovação da instalação elétrica, obras nos banheiros, reforma completa dos dois fogões de ferro, caiação dos xadrezes, refeitórios e corredores etc...

Recorte do relatório divulgado no Diário Oficial


Censura Teatral e Cinematográfica.

Acabo de instalar esse serviço de grande necessidade para a polícia social e de costumes. Baseado no Decreto Federal 21.240, de 4 de abril de 1932, e seguindo o exemplo dos demais Estados da União, urgia que o Amazonas tivesse a sua organização, modesta que fosse incumbida da censura dos filmes cinematográficos, especialmente.
Apesar de estar essa obrigação estipulada no Art. 16 do Regulamento aprovado pelo Decreto Federal 99, de 30 de outubro de 1925, nada se havia feito até agora sobre o assunto, talvez por falta de um órgão especialmente designado para esse fim. Dei essa incumbência à Delegacia de Segurança Política e Social, visto como reconheço dever  de suas atribuições preservar e defender a higiene moral e da nossa gente.

sábado, outubro 18, 2014

CINEMAS DE MANAUS




Cine Guarany
O cruzamento da avenida Sete de Setembro com a Getúlio Vargas ficou marcado pelo funcionamento de dois cinemas: Politheama (onde funciona uma das Lojas Americanas) e Guarany (local de uma agência do banco Itau). 

A segunda sala era mais disputada, mais benquista, por vários motivos. Creio que o mais denso era o atendimento proporcionado por seu “gerente”, conhecido por vovô Vasco.

Esse sentimento ainda se percebe em comentários pessoais e publicações jornalísticas. Todos recriminam não o apagamento da sala de projeção, mas a demolição implacável do edifício, trocado por um caixote feioso, enfeando ainda mais o local.

Recorto um texto do poeta Farias de Carvalho, de sua coluna Janela de Mundo, no jornal A Notícia, no qual relembrou um dia de aniversário do Guarany.
(O poeta e os cinemas e o matutino aqui nominados já pertencem à nossa melhor lembrança.)


JANELA DE MUNDO (*)


Farias Carvalho
Dia seis [de agosto] transcorreu mais um aniversário de fundação do Cine Guarany. Pela manhã, ainda bem cedo, fazendo a minha costumeira visita à República Livre do Pina, andei dando uns mergulhos dentro de mim
mesmo, nos desvãos do meu mundo interior, nos labirintos da memória, rebuscando fatos e coisas do passado, numa viagem impregnada de lembranças e de saudades.
Aniversário do GUARANY! a meninada acordava em festa, com a moeda de um mil-réis balançando no bolso, fortuna que chegava para a compra do ingresso e sobrava ainda para um copo duplo de refresco acompanhado de um imenso mata-fome.

Desde às primeiras horas da manhã, começavam a se formar as filas enormes, com os guardas de trânsito postados à porta do cinema, em uniforme de gala, o alto-falante voltado para a rua, a todo volume, como um convite musical, chamando a todos para a grande festa popular, em que se realizavam sorteios, ofereciam-se brindes, tudo antes que, na tela, lotadas a plateia e a galeria, Tom Mix ou Buck Jones começassem a cavalgar os seus corcéis fogosos, perseguindo maus encarados, sob a gritaria terrível da meninada, que ficava atirando aviões de papel, caixinhas de chicletes, quase levando a loucura o pobre do Domingos, velho funcionário que fechava as portas laterais e ficava a andar como uma barata tonta, na tentativa de acalmar a fúria dos meninos endiabrados.

Mas, acima de tudo isso, pairando sobre a confusão da inquietação da garotada, agigantava-se a figura do velho Vasco, o querido Vovô da meninada inteira, com os seus cabelos da cor da neve, o seu rosto rosado de camponês sadio, o seu sorriso sempre iluminado, sempre irradiando ternura e bondade.
 
Cine Guarany
Quando o filme começava, ele colocava-se à entrada interior do cinema, para escutar e atender aos mesmos pedidos de sempre: "Seu Vasco, eu tenho só quinhentos réis, deixa eu entrar?'' E ele, inventando uma carranca que era só de araque, acabava encuiando as mãos e, sem poder conter o riso franco, respondia sempre: “Sobe moleque, sobe, vai pra galeria!"

E era de ver-se, meus irmãos, a correria da turma miúda, da turma pobre dos bairros distantes que, por não dispor dos dez tostões, ficava pechinchando e por fim terminava mesmo entrando com quinhentos,
trezentos, duzentos réis, às vezes até mesmo sem pagar coisa alguma, que era assim, meus irmãos, o vovô Vasco, o imensamente bondoso vovô Vasco, que uma cidade inteira amava profundamente, através de suas
crianças, especialmente as crianças pobres, que, pelo  fato de não terem dinheiro, não ficavam jamais sem as emoções das cargas de cavalaria, trepidando na tela, sob o comando corajoso de Custer, nos combates eternos contra os peles vermelhas. 
De repente, contudo, a voz de um amigo trouxe-me de volta à realidade do presente. E eu olhei para o GUARANY. Foi como se qualquer coisa de mim mesmo quisesse desprender, libertar-se, voltar a saltitar   irrequietante. E eu compreendi, meus irmãos, perfeitamente, que era o menino, o menino de ontem, perdido em bruma e ocasos, que buscava teimoso o reencontro, o reencontro impossível com o passado.

Com duas lágrimas marotas descendo pelo rosto, voltei os olhos para o céu e tive, meus irmãos, sinceramente, a nítida impressão de que do azul, Vovô me fitava sorridente, as brancas mãos unidas como em cuia, a me dizer na linguagem da brisa e da luz: “Eu estou aqui, meu filho, a tua espera. Não te importes com os níqueis e as moedas. Quando vieres, traz uma estrela na alma. Bastará!”

(*) A Notícia, 9 de agosto de 1975

quarta-feira, outubro 05, 2011

CINEMAS DE MANAUS: CINE EDEN

Cine Eden (1946-1973), que virou Cine Veneza (1974-1984), que virou Cine Novo Veneza (1984-1985), enfim, Cine Teatro Guarany (1989-1991)


Ed Lincon

A história desta casa de diversões deve ser repartida em quatro fases. A primeira começa em 1946, quando o português e ex-motorista, Aníbal Augusto de Castro Batista, no prédio que abrigava sua residência e garagem na rua Jonatas Pedrosa, 166/170, e ao lado da casa de Silvino Santos, construiu uma sala de exibição que denominou de Cine Eden.

Quando a casa de espetáculos ficou pronta, Aníbal se viu perdido por desconhecer como fazê-la funcionar. Mas, ao travar conhecimento com Oscar Antunes Ramos, fotógrafo amador e entendedor de assuntos cinematográficos, firmam uma sociedade e fundam a Empresa Cine Eden Ltda. Para gerenciá-la foi contratado Manuel J. Antunes, com larga experiência no ramo.
Cine Eden, em foto de jornal, 1973
A fim de que o Eden entrasse em funcionamento, a empresa adquiriu projetores das marcas Pathé e Super Sólidos, os mais modernos na época, os quais foram montados pelo técnico paulista Mario Schneider (o mesmo que oito anos depois também faria a montagem dos projetores e telas panorâmicas dos cines Avenida, Guarany e Vitória). Um “conjugado elétrico” (gerador) também foi instalado para suprir a deficiência de energia elétrica que assolava a cidade na década de 40 e seguinte. Assim, evitava a interrupção das sessões, como era frequente em outras casas concorrentes.

Com capacidade para mil assistentes e sistema de ventilação dispondo de enormes ventiladores de teto, o prédio tinha a fachada nas cores verde e branca. As entradas eram vendidas na “Garagem Central”, na av. Eduardo Ribeiro, ao preço único de sete cruzeiros e dez centavos.

A inauguração do Eden ocorreu no sábado, 23 de novembro, em duas sessões: a primeira, às 19h30, e a segunda, às 21h30. Em ambas foi exibida a produção hollywoodiana intitulada Brasil, com músicas de Ary Barroso (1903-1964) e estrelada por Aurora Miranda (1915-2005), irmã de Carmem Miranda (1909-1955), e pelo mexicano Tito Guizar (1908-1999).

Ainda na noite de abertura foi exibido o complemento nacional Reportagens “Cinédia” 10X30, e Ceilão, curta metragem à cores. A empresa contratara diretamente no Rio de Janeiro com as seguintes empresas distribuidoras: Art Filmes Ltda.; Distribuidora e Importadora de filmes Ltda.; e Republic Pictures do Brasil e Unidas Filmes Ltda.

A empresa Eden preparou uma surpresa para os frequentadores. O lançamento de duas películas mexicanas de grande destaque: O Corsário negro e A Corte do faraó, este, um misto de musical e aventura. Igualmente foram exibidos no Eden dois filmes portugueses produzidos em estúdios lusitanos: José do Telhado e Cais do Sodré.

Quando o Eden completou um ano de funcionamento, os proprietários deram ao povo manauara uma sessão de gala dupla da grande produção da Monograma: Dillinger, com entrada normal a Cr$ 5,00 e Cr$ 3,00, para estudantes.

Já no ano seguinte, sem recursos para a aquisição de novos filmes e diante da exaustiva repetição de seriados: Tambores de Fu Manchu, Adaga de Salomão, Perigos de Nioka, O Segredo da Ilha Misteriosa, entre outros, acabam por levar a empresa à falência. Então, a 23 de julho de 1948, o edifício foi vendido ao empresário Alberto Carreira, proprietário da empresa J. Fontenelle & Cia., que decide manter Oscar Ramos na gerência do Eden e do Polytheama. Ramos e sua família passam então a residir no prédio do cine.

Não é de agora, àquele tempo a bagunça promovida tumultuava as sessões das salas de espetáculos de Manaus. A coluna de cinema de A Tarde (27ago.1948), de Aristóphano Antony (1918-1968), fazia “Reclamações justas...” às autoridades: "Diversas têm sido as reclamações, que nos chegam sobre o molecório nas sessões de cinema da cidade. Raro é o dia em que a barulheira e a pornografia produzida por elementos que não têm educação doméstica, ausenta-se do recinto para sossego dos espectadores. A polícia de costumes deve agir sem panos quentes e mostrar aos mocinhos que o lugar é impróprio para excessos, seja de que natureza for".

O cine Eden, apesar de seu porte, nunca foi uma sala muito popular e menos ainda de elite, era considerado um “poeira” (sala desprovida de luxo e conforto) a exemplo de Guarany, Popular, Ideal e Vitória.

Mas, nem só da projeção de filmes vivia este cinema. No palco do Eden também havia shows com cantores, como o ocorrido na noite de 15 de maio de 1948, na despedida do tenor pernambucano José Brasileiro. Na segunda parte do espetáculo foi exibido o filme Paraíso de virgens.

Os seriados ambientados no velho oeste americano conquistavam inúmeros fãs. Em 1949 estiveram em cartaz: O Domínio das mulheres e O Valentão das mulheres, com Bill Eliott (1915-1965); Aconteceu no sertão, Cavalgada de ouro, Na velha senda, com Roy Rogers (1911-1998); O Vaqueiro vingador e O Renegado dos montes, com Charles Starrett (1903-1986).

Em 2 ago.1951, a empresa Fontenelle suspende a exibição no cine da Jonathas Pedrosa, para a instalação de novo gerador de energia, e também novos projetores da marca Century Western Standard Sound, movidos por um poderoso motor diesel de 18HP. A reabertura ocorreu dois dias depois, com a exibição do épico A Queda da Bastilha.

A 5 de dezembro de 1957, os jornais publicam este aviso: A Empresa Fontenelle Ltda. avisa aos distintos frequentadores, que o Cine Eden permanecerá fechado por alguns dias, ocasião em que serão efetuados diversos reparos, tais como: pintura do prédio, instalação de um gerador elétrico, colocação de uma tela de 14 metros de comprimento, que será a maior do norte do Brasil, e adaptação de lentes para Cinemascope, Vistavision e Panorâmica. A reabertura verificou-se no dia de Natal.

No início de 1963, a empresa fecha o Eden para uma reforma geral, arrendado para a Empresa Sul, de São Paulo, que passaria a explorá-lo. O cine foi reaberto a 21 de setembro, com um coquetel promovido pelos proprietários aos integrantes do GEC (Grupo de Estudos Cinematográficos), Joaquim Marinho, Ivens Lima, Guanabara de Araújo, Marcio Souza, Genésio Bentes, Albertino Jorge, Cosme Alves Netto, entre outros, sendo projetado, em sessão especial, A Face oculta, com Marlon Brando (1924-2004).

No mesmo ano, esta empresa seria comprada por Severiano Ribeiro que, também, arrenda as demais salas da Fontenelle, que assim finaliza suas atividades no ramo cinematográfico em Manaus.

Como já foi dito e repetido, o surgimento da TV em Manaus, em 1969, colaborou fortemente para a decadência dos cinemas da cidade. Em 1970, a situação de abandono era tanta, que o jornal A Notícia (3 abr.) chamava a atenção dos frequentadores para que, “ainda antes de sentarem, examinem as cadeiras do cine Eden, pois afora a sujeira, os senhores podem cair. Porém, não pensem somente nas cadeiras deste cine, nem confundam as trovoadas provocadas pelo 'projetor', com seu teto ameaçador”. A nota também avisava sobre o perigo de ratos que infestavam o local.

Para fiscalizar as casas de diversões, a prefeitura de Manaus organizou uma comissão sanitária, esta detectou inúmeros problemas. Em editorial, A Crítica (27 out.1971) recomendava o melhoramento dessas salas para que atraíssem a frequência da população, já que a fiscalização imposta pela prefeitura nada resolvera.

A 19 de outubro de 1972, a prefeitura estabeleceu o prazo de 60 dias para que os proprietários e arrendatários de casas de diversão realizassem as melhorias e adequações necessárias. Tendo o apoio do Instituto Nacional do Cinema (INC), no que competia à exigência de melhores acomodações e conforto dos usuários.

De Eden a Veneza

O cine Eden adentra o ano de 1973 completamente sem condições de funcionamento. Vistoriado pela comissão sanitária da Divisão de Saúde da PMM, chefiada pelo médico veterinário Dr. Carlos Durand, o qual, a 21.fev., entregou ao titular da extinta Sedeco (Secretaria do Desenvolvimento Comunitário), Josué Filho (1946-), um relatório contendo os problemas enfrentados por Guarany, Odeon e Eden. Esta mesma comissão havia fechado no ano anterior as salas Ideal e Popular.

Deteriorado, o Eden funciona até 30 de junho, quando em duas sessões noturnas exibe o filme Essa pequena é uma parada. O matutino A Crítica, de 5 de julho, questiona a razão do fechamento da quase totalidade dos cinemas de Manaus, e, em especial do Eden:

o fato que ora ocorre em Manaus, talvez seja inédito em qualquer capital brasileira. Os cinemas foram fechados quase todos de uma só vez, sem explicações por parte das empresas. (...) Para o povo, amante de uma sessão cinematográfica ainda restam duas alternativas, porque o Guarany e Ipiranga continuam abertos e muito breve, o Eden estará entrando em cena...

O prédio do cine Eden em reparos pelo Prosamim, 2010
A reforma do Eden, cujo nome foi alterado para Cine Veneza, custou cerca de dois bilhões de cruzeiros e a inauguração, que estava prevista para 30 de março do ano seguinte, somente se realizou a 10 de abril. Contou com a presença de diversas autoridades, entre essas, a do governador João Walter de Andrade, que cortou a fita simbólica, Na ocasião foi exibido o filme O destino do Poseidon (1972).

Cobrando Cr$ 10,00 pela entrada inteira e Cr$ 5,00 para crianças e estudantes, a empresa Bernardino avisava que os filmes anunciados estariam em cartaz somente uma semana. Também haveria lugar para os chamados “filmes de arte” dos mestres: Fellini (1920-1993), Jean Luc Godard (1930-), Miguelangelo Antonioni (1912-2007) e outros.

Em dezembro de 1976, as pornochanchadas dominavam a programação dos três únicos cinemas da cidade: o Guarany, apresentava Traficantes do sexo; o Ipiranga, Killer Kid, vivo ou morto e o Veneza, A ilha das cangaceiras virgens. Essa era uma forma que a empresa empregava para concorrer com a TV. De todas as salas desta empresa, o cine Veneza era o campeão em reclamações.  (segue)

Começa aqui a segunda fase da história desta casa de diversões, quando adquirido pelo grupo Daou/Bernardino. O prédio logo entrou numa reforma geral, reduzindo a capacidade da sala para 600 lugares, agora com cadeiras estofadas. Na entrada, a empresa montou um bar e sorveteria.

quinta-feira, setembro 16, 2010

CINEMAS DE MANAUS (IV)

Cinema Avenida (Final)
 
Ed Lincon

Nas noites de sexta-feira, o cine Avenida promovia a “Sessão Chic das Moças”, rodando filmes adequados aos valores comportamentais da sociedade manauara: A Noiva, Suplício de uma saudade, Três dias de vida, O Coração não envelhece e Sonho de Estrelas, só para exemplificar. Essa sessão era especialmente frequentada por casais enamorados.

Para ampliar o conforto, em fevereiro de 1954, a Empresa Bernardino instalou cadeiras estofadas no cine Avenida. Mas, apesar de ostentar o título de “cinema da elite”, nele havia somente ventiladores de teto e, ao contrário de outros cinemas de Manaus, não possuía palco para a realização de espetáculos.

Em agosto, o técnico Mario Schneider, da Companhia Black de São Paulo, instalou no Avenida a tela panorâmica e os projetores da marca “Gaumont-Keller” (os existentes neste cine foram montados no cine Vitória). A estréia da tela panorâmica, marcada para 7 de setembro, ocorreu na 2ª quinzena desse mês, devido o atraso na chegada do filme Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin.

Em 1955, veio mais um melhoramento na luxuosa sala da av. Eduardo Ribeiro: a instalação do “cinemascope”. A estréia sucedeu na noite de 16 de julho, apresentando O Príncipe Valente, com James Mason e Robert Wagner. “O sistema proporcionava maior raio visual, emprestando à película maior campo de ação e permitindo, igualmente, a apresentação, em primeiro plano de tantos atores quantos a cena requer e, de modo simultâneo, uma vista panorâmica de ação filmada”, explicava o Jornal do Commércio (Manaus, 14.7. 1955).

A 18 de agosto de 1956, faleceu no Pará o fundador da empresa, Antonio Lamarão. Na igreja de D. Bosco, foi rezada a missa de 30º dia, encomendada por seus amigos e ex-sócios, Adriano Bernardino e Aurélio Antunes.

Todos os anos, em 27 de março, a empresa Bernardino comemorava o aniversário do cine Avenida, exclusivamente com a exibição de filmes. No 21º aniversário desta sala, o jornal A Gazeta (Manaus, 27.3.1957) destacou:


Ponto obrigatório de frequência da melhor sociedade amazonense, que dirigentes da Empresa, para brindar seus clientes, o aniversário do Cinema AVENIDA, por isso mesmo, é uma efeméride que leva satisfação e alegria também aos seus frequentadores, aos quais a empresa proprietária, numa justíssima homenagem, pela preferência, brindará durante todo o dia de hoje, com um excelente programa de muito bem escolhidas películas.

Cine Avenida, Manaus, 1973
No período de 17 a 22 de novembro de 1966, foi realizado em Manaus, o I (e único) Festival de Cinema Amador do Amazonas, patrocinado pelo Clube da Madrugada, J. Borges Filmes, Rádio Rio Mar e A Crítica. O encerramento ocorreu na noite de 21, no cine Avenida, em sessão especial para convidados.
Contrariando as previsões de que só teria sucesso de bilheteria nos cinemas suburbanos, o filme “Paixão de um Homem” levou ontem, ao Cinema Avenida (em plena Eduardo Ribeiro), uma das maiores enchentes já recebidas por aquela casa. O principal figurante da película é o discutido cantor Waldik Soriano, que, com o chapéu e o óculos que marcam a sua personalidade fez a fila do “Avenida” atingir a Rua Joaquim Sarmento. 
A intenção era mostrar a loja Bemol, sucedânea do cine Avenida,
todavia, hoje as barracas não permitem 
A comissão julgadora do I Festival de Cinema Amador era composta por: Madalena de Almeida (Jornal do Brasil); Décio Luiz (da J. Borges Filmes e TV Continental); Padre Luiz Ruas (1931-2000) e José Gaspar (1937-). Saiu vencedor do Festival o curta-metragem Carniça, de Normandy Littaiff, sob protestos dos demais participantes.

Tal qual sucedeu a outros cinemas da cidade, a televisão afastou o grande público. As chanchadas nacionais foram substituídas pelos faroestes italianos, conhecidos popularmente como “Western Spaghetti”: Viva Django, Os Abutres têm fome, 7 Dólares ensangüentados, A Marca da forca, etc. O baixo custo no aluguel dessas fitas ainda garantia pequena lotação aos domingos.

Em outubro de 71, a comissão formada pelos vereadores Francisco Flores, Aluizio Oliveira e Praxíteles Antony, visitou os cinemas da cidade e constatou vários problemas. Entre esses, a falta de higiene, conforto, conservação e segurança. Consultados os proprietários, todos alegavam os mesmos motivos: um, a televisão, que afugentou os freqüentadores; outro, o ingresso a Cr$ 1,50 (um cruzeiro e cinquenta centavos), mais barato que o cobrado nos cinemas do Sul, que cobravam entre quatro e cinco cruzeiros. Mais dois, as cadeiras quebradas pelos espectadores; e a exigência de ingressos padronizados pelo INC, impostos etc.

Em junho de 1972, a Prefeitura de Manaus determina o fechamento de todos os cinemas da cidade, exceto o Avenida. O INC, por seu delegado regional, Afonso Lopes, diverge da Comuna, por entender que cabia à entidade o serviço de fiscalização das casas de diversões. O cine Avenida apesar da crise, ainda desfrutava de boa frequência, como atesta o Jornal do Commércio (27.02.1973).

A 16 de março de 1973, o controle acionário da A. Bernardino passou para o grupo Phellipe Daou. Daou cogitou montar ao lado do cine Avenida uma espécie de cinema-modelo: Cine Hora, equipado com bastante luxo e conforto e capacidade para 200 ou 300 lugares. Esse projeto, todavia, não se concretizou.
A campanha encetada pela Prefeitura já havia ocasionado o fechamento de quase todos os cinemas da cidade. Ainda resistiam o Avenida, o Guarany e Ipiranga. A agonia do “fecha ou não fecha” do Avenida prolongou-se até o encerramento de suas atividades na noite de 2 de julho de 1973. Projetou nessa noite o filme Fugindo do Inferno. Lamentou A Crítica:


Manaus hoje deve estar regredindo, pois todos os cinemas foram fechados, seja por qual for o motivo, isso significa uma grande perda para a população. Os cinemas Polytheama e Éden fecharam no último fim de semana. O Avenida ia continuar por mais algumas horas. Ontem chegou a sua vez. As placas com os cartazes desapareceram. A porta ficou fechada e o movimento cotidiano em frente àquela casa de diversões acabou. Tudo ficou no maior silêncio e dentro do prédio, um empregado cuidava da limpeza para conservar a casa.
A seguir, o imóvel foi vendido para a firma Benchimol, Irmãos Cia. Ltda., que ali instalou mais uma loja de eletrodomésticos.