CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, novembro 24, 2025

YPIRANGA: DE CINE À IGREJA EVANGÉLICA

Acabou a sessão nostalgia, ou melhor, agora somente restou a nostalgia. Quantos frequentaram aquela plateia imensa, a fim de aplaudir os artistas do palco e da tela. Lembro-me de ter assistido o filme sobre um desastre nos Andes - em uma tarde domingo, portanto, vendo geleiras por todos os lados, menos dentro do cinema Ypiranga (mantendo a desusada ortografia). Quando captei a mudança de placa comercial, recorri ao amigo Ed Lincon, que escreveu esta postagem, com a capacidade de quem sabe, porque pesquisou sobre todos os cinemas de Manaus.
“The end” para o Ypiranga! 

Ypiranga - último registro

Ipiranga, o fim de um cinema!

Ed Lincon 

    Recebi por estes dias a informação de que o antigo prédio onde funcionou o maior cinema de Manaus será transformado em igreja evangélica, apagando as lembranças de uma época feliz e sem a violência dos dias atuais. Infelizmente, é o preço do progresso! Depois, o local que serviu como cenário de diversões, namoros, troca de gibis e espetáculos musicais, funcionou por mais de 30 anos como loja de eletrodomésticos. Em seu palco passaram cantores como: Altemar Dutra, Teixeirinha, Moacir Franco, Waldik Soriano, Ângela Maria, entre outros.

    Sua inauguração ocorrida a 8 de outubro de 1959, aconteceu com grande pompa com a presença do governador Gilberto Mestrinho, demais autoridades e, claro, os proprietários da Empresa A. Bernardino. O filme de estreia foi Adeus às armas, com Rock Hudson, Jennifer Jones e Victorio de Sicca.

    Durante muitos anos levou alegria e entretenimento aos moradores da Cachoeirinha e bairros adjacentes.  Grandes produções do cinema americano e mundial foram exibidas em sua tela grandiosa.  No seu belo salão de espera havia os painéis dos filmes a serem exibidos posteriormente. Logo na entrada da sala de projeções, a reprodução do quadro de Pedro Américo, O Grito do Ypiranga, a receber os frequentadores. Havia também o Ipiranga Bar, para a venda de refrigerantes, doces, salgados e sorvetes.

     Assisti vários filmes neste cinema: King Kong, Os Trapalhões na Guerra dos Planetas, Marcelino Pão e Vinho, Cinderela Trapalhão, Tarzan e o Vale do Ouro, Simbad e o Olho do Tigre, Superman, entre outros. 

     Em janeiro de 1980 a empresa Bernardino fechou o Ipiranga para uma reforma em suas estruturas.  A sala de projeções foi diminuída de 1.500, para 500 lugares, além da construção de um salão para fumantes. Reabre em 10 de outubro do mesmo ano, com o filme “O Império contra Ataca”, segunda produção da trilogia “Guerra nas Estrelas” (hoje chamada de Star Wars).

Agora, "ajoelhou, tem que orar..."

    Mas a trajetória do Ipiranga estava fadada ao fracasso.  A sala antes bem frequentada começou a decair cada vez mais, filmes como “Roller Boll, a onda dos Patins”, “A Volta do Incrível Hulk”, “Heidi”, “Annie, a Órfã”, não foram suficientes para atrair público.  Então, os proprietários do Ipiranga passaram a exibir pornochanchadas de péssima qualidade. Outro motivo para o fim do Ipiranga foi a concorrência com os cinemas do Joaquim Marinho, que começavam a ganhar público e lançando filmes simultaneamente com os cinemas do Sul do país, o que não acontecia com as salas da empresa Bernardino, que levavam anos para chegar em Manaus. Despesas com energia elétrica, impostos, pagamentos dos funcionários contribuíram para o fechamento definitivo.  E ele não tardou a chegar. Na tarde de 1º de novembro de 1983, após a exibição de mais uma pornochanchada, “Corrupção de Menores”, o Ipiranga encerrou suas atividades definitivamente.  Com o fechamento, chegava ao fim o último cinema de bairro de Manaus.

domingo, janeiro 26, 2025

DJALMA BATISTA (1916-79)

 A postagem nos foi disponibilizada pelo amigo Ed Lincon, catador de notícias históricas expostas em jornais manauaras. Trata-se de uma singela recordação da morte do cientista Djalma Batista, que ocorreu em 1979. É obvio que muitas outras memórias sobre este ilustre homem de ciências já se encontram disponíveis. O texto foi extraído do matutino A Crítica (8 e 9 ago. 1999), cabendo
esclarecer que ao tempo este jornal não circulava na segunda-feira (9), por isso, a edição de domingo (8) serviu ao dia imediato.

 

Título da matéria

 Nascido em Tarauacá - Acre, em [20 fev.] 1916, Djalma Batista, importante cientista, completa nesta segunda-feira, 20 anos de sua morte [20 ago. 1979]. Menino ainda, ele veio para Manaus, onde terminou o curso secundário e, após o ter concluído, seguiu o rumo de retirante na direção de Salvador (BA) para formar-se em Medicina, na conceituada Faculdade da Bahia. Djalma voltou diplomado e cheio de sonhos. Aqui desempenhou importantes funções públicas, sobretudo na área da saúde pública e, sobretudo para a população mais carente. A grande maioria dos escritos sobre tuberculose no Amazonas tem a assinatura de Djalma Batista. Muitas vidas foram salvas em virtude do seu trabalho dedicado e incessante.

O cientista foi responsável também pelo desenvolvimento da cultura, sempre valorizando a região amazônica. De 1959 a 1968, ele presidiu o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), voltado, de forma obstinada, para as causas humanistas. É muito comum, cientistas brasileiros batizarem suas descobertas com o nome de Djalma Batista. Muitos brasileiros e, principalmente os amazonenses desconhecem o fato de que há um fóssil gastrópode denominado “euomphalus batistai”.

 

HUMANISTA

Qualquer pessoa que possa, de forma precipitada deparar-se com a obra de Djalma Batista pode ser levada a pensar apenas em sua relevante contribuição para as ciências biológicas. À primeira vista, é mesmo este o pensamento dominante. Mas os que pensam desta maneira enganam-se redondamente. É notório que ele tanto poderia ser encontrado entre pipetas e tubos de-ensaio quanto debruçado sobre originais de artigos que a revista Centro Médico Amazonense viria a publicar. Um lado altruísta de Djalma era também desconhecido. Era comum ele tirar dinheiro do próprio bolso para impedir que se parasse ou mesmo que se atrasasse uma ação pública que beneficiasse a população.

Mais conhecido livro 
de Djalma Batista

Escritor de vários livros - sua obra mais conhecida é “O Complexo da Amazônia”, que já se tornou um clássico sobre a região, Djalma tem uma fundação com seu nome que, preocupada, executa várias atividades para reverenciar sua memória, dentre elas, um ciclo de palestras sobre vários aspectos da personalidade e da vida profissional do cientista. Num país de memória curta é importante ressaltar o caráter e a qualidade dos seus melhores homens.

 

Manaus, domingo, 8 e segunda-feira, 9 de agosto de 1999

 

quinta-feira, janeiro 02, 2025

MANAUS: O JORNAL & DIÁRIO DA TARDE

Em 30 de outubro de 1930, surgiu em Manaus O Jornal (conhecido pelas iniciais OJ), matutino que liderou a imprensa amazonense durante décadas. Fundado por Henrique Archer Pinto, funcionava em prédio próprio na avenida Eduardo Ribeiro. Rivalizando com o Jornal do Comércio, do velho Vicente Reis, cuja redação ficava praticamente ao lado do OJ na mesma avenida. Segundo o saudoso professor Mário Ypiranga, Henrique e Vicente não se davam bem. O Jornal, no entanto, detinha a maior tiragem, disponho dos melhores jornalistas e a melhor impressão - à rotativa.

Reprodução de foto realizada pelo
autor do post - Ed Lincon

Essa liderança era conhecida por um jingle que rodava nas rádios de Manaus nos anos 1940 e 50: “Só acredito, só posso acreditar, se O Jornal de Manaus confirmar. Olha O Jornal!... O Jornal de Manaus…” Esse matutino detinha uma força junto ao público, permitindo eleger políticos e influenciar os governantes. Promovia concursos públicos, tal como uma espécie de loteria intitulada “Concurso de Palpites”, e também as sensacionais corridas ciclistas e pedestres, além do Festival Folclórico e os concursos de Rainha do Carnaval.

Em 1932, Henrique criou o vespertino intitulado Diário da Tarde, com seis páginas diárias e oito aos domingos, enquanto o OJ circulava com oito páginas diárias e doze ou dezesseis aos domingos. Por sua redação passaram jornalistas como Philippe Daou, Milton Cordeiro, Almir Diniz, Ajuricaba de Menezes, Irisaldo Godot, Ulisses Paes de Azevedo, Ana Maria, Heliandro Maia e tantos outros.

Recorte da primeira página do vespertino

Com o falecimento de Henrique Archer Pinto, assumiu a direção do OJ seu filho Aguinaldo, com a morte deste em 1956, e¸ posteriormente do seu irmão Aloisio, assume a viúva de Aguinaldo, dona Maria de Lourdes Archer Pinto, em 1961, que ascendeu ao cargo após ganhar a questão na Justiça.

Todavia, a derrocada se acentuava, em particular com o episódio que ocorreu no início da década de 1970, em função da saída dos jornalistas de Daou e Milton (para cuidar da instalação da TV Amazonas em 1972), e Ulisses Paes e outros, autênticos esteios do matutino. Maria de Lourdes (Betina) restou praticamente isolada no comando e direção do OJ. Era muita atividade para ela realizar, devido sua inexperiência. As dificuldades acumularam-se e não havia solução nenhuma. A redação e a oficina foram esvaziando aos poucos. O material usado prejudicava a impressão devido ao uso intenso e o desgaste, devido a inexistência de manutenção ou renovação. Mais grave, começou a atrasar o pagamento dos funcionários. De outro modo, os concorrentes melhoravam as suas redações e oficinas com impressão no sistema “Off Set”. assim, o OJ foi aos poucos perdendo a liderança da imprensa amazonense.

Breve melhoria ainda aconteceu em 1972, quando o Grupo TAA assumiu a direção de OJ, realizando enorme investimento que permitiu contratar novos profissionais e adquirir novos materiais. Desse modo, a tiragem aumentou, os anunciantes, que haviam abandonado as páginas, voltaram, e o pagamento dos funcionários foi normalizado. Todavia, menos de um ano depois, o grupo se desfez e a direção voltou a Lourdes Archer Pinto, que se viu novamente em “maus lençóis”, fazendo extremo esforço para manter O Jornal em circulação. O então INPS (Instituto Nacional de Previdência Social) cobrava uma dívida vultosa, acumulada durante muitos anos. Na tentativa de quitar o débito, alguns bens foram penhorados. E mais uma ruína: em outubro de 1975, o Diário da Tarde do grupo deixa de circular definitivamente.

A redação ficou reduzida a três funcionários: o secretário, o subsecretário e um repórter esportivo, que se desdobravam para gerenciar O Jornal. Dos dez linotipistas restaram seis, e de cinco máquinas de impressão funcionavam apenas duas, depois, uma, a outra parou por falta de manutenção. Os anunciantes simplesmente sumiram e os poucos exemplares eram destinados aos órgãos oficiais. E o desastre foi se acumulando: o material para impressão começou a faltar, o papel era conseguido utilizando tocos de bobina; o pagamento era realizado através de vales; e os poucos funcionários decidiram faltar ao trabalho. Por fim, os anúncios pertenciam aos amigos que apenas desejavam ajudar.

Contudo, o dia fatídico chegou: em 14 de fevereiro de 1977, às vésperas do Carnaval, a então CEM (Companhia de Eletricidade de Manaus), cortou o fornecimento de energia. Findava assim, triste e melancólico O Jornal, definitivamente fora de circulação. O prédio e os equipamentos foram penhorados para pagamentos de dívidas. Enfim, o prédio foi demolido em outubro de 1980, e, em nossos dias, no local funciona uma agência do banco Santander.

(*) A postagem e a ilustração pertencem ao Ed Lincon, estudioso da história de Manaus, tendo no prelo uma viagem pelos cinemas da Capital. Segue copiando com sua aptidão artística as fotos mais representativas de Manaus. 

quinta-feira, julho 04, 2024

BONDES EM MANAUS

 Em janeiro de 1955, Plínio Ramos Coelho assumiu o governo do Amazonas. O Estado passava por uma séria crise financeira, lembrando apenas o precário fornecimento de energia elétrica. Ao par desta carência, o governo encontrou um amontoado de bondes, que foram adquiridos no início daquele século e, portanto, cinquenta anos depois, sem manutenção adequada, jazia na subusina (depósito). Plínio Coelho tentou recuperá-los para atender a população, que circulava em precários ônibus construídos  de madeira. A aventura do governo durou dois anos, pois em 1957 os bondes desapareceram totalmente.

Recorte do matutino - AC. 11 abr. 1960
colorizado por Ed Lincon

Ed Lincon, entusiasmado por matéria dos ônibus de madeira, e cuja família conheceu os bondes a fundo, pois seu avô foi motorneiro, emprestou-me esta postagem sacada do jornal A Crítica ( 11 abr. 1960). Também lhe coube a cópia colorizada da postagem.

Lead da matéria de AC. 11 abr. 1960

Está definitivamente afastada a hipótese de Manaus voltar a possuir bondes no seu sistema de transporte coletivo. Os elétricos que tantos bons serviços prestaram à população, hoje não passam de um montão de ferro velho sem nenhuma utilidade, servindo apenas para comprovar a criminosa atuação de administradores sem escrúpulos e sem responsabilidade, que deixaram destruir um patrimônio considerado do mais alto valor.

A história relacionada com os transportes elétricos nestes últimos anos, principalmente depois de um trabalho de recuperação que se pretendeu fazer, com alardes e foguetórios, e até com um governador transformado em motorneiro, nos mostra fatos que denunciam criminosa irresponsabilidade. Isso, principalmente, pelo caráter político mostrado à coisa que, se tinha como certo o seu efeito nas massas, tinha por igual a certeza de gastos desnecessários numa das mais fantásticas burlas ao povo deste Estado. Iremos aos poucos até atingir esse ponto culminante da história dos bondes.

INSTALAÇÃO DOS PRIMEIROS BONDES

Os primeiros bondes que circularam em Manaus foram adquiridos no governo de Eduardo Ribeiro, o “Pensador” e a sua instalação deu-se no governo de Fileto Pires. O primeiro fato histórico relacionado com o sistema de transportes recém introduzido na capital do Estado, foi o de terem os bondes formado o cortejo fúnebre que conduziu Eduardo Ribeiro à sua última morada, justamente aquele governante que adquirira a frota popular. E a sua exploração coube a firma Travassos & Maranhão, que antecedeu à empresa inglesa The Manáos Tramways and Ligth Co.Ltd.

 O serviço de bondes era feito por 45 veículos, considerados da mais alta qualidade e qualificados como os melhores do Brasil. Mas, os anos foram passando, o material desgastando e o serviço tornando-se ineficaz até que poucos ou quase nenhum bonde era empregado no transporte coletivo.

RECUPERAÇAO OU GOLPE POLÍTICO?  

Em 1955, quando era administrador dos Serviços Elétricos do Estado o engenheiro Carlos Eugenio Chauvin, foi determinada pelo governador da época que se procedesse a recuperação dos bondes parados e amontoados na subusina de Cachoeirinha. Não se tratava de uma recuperação verdadeira, mas, apenas de uma manobra de caráter político, que serviria tão somente para projetar o Executivo como órgão realmente interessado em trabalhar pela solução dos problemas que afligiam a população, e dentre os quais figurava em plano de destaque o dos transportes coletivos. Verdade é que essa recuperação, que se fosse concretizada em toda a sua plenitude, não seria mais que o cumprimento de uma obrigação do governo, não passou de uma simples pintura. Na parte ligada ao maquinário pequenos reparos foram feitos pelos próprios empregados das oficinas dos Serviços Elétricos do Estado apenas com a supervisão técnica do engenheiro Carlos Eugenio Chauvin. E cada bonde supostamente recuperado custou aos cofres públicos importância superior a 50 mil cruzeiros. (...)

sexta-feira, maio 17, 2024

PIQUETE DE CAVALARIA PMAM

Quando de sua criação na primeira década do século passado, esteve situado na atual avenida Duque de Caxias, pertencente à Força Policial estadual. A localização, atento à entrada do aquartelamento, era (e continua) pela rua Dr. Machado, ora limitado pela Maternidade e o igarapé do Mestre Chico. Com o definhamento do Estado, desapareceu a Cavalaria policial, e o terreno esteve desocupado até que foi construída a Maternidade Balbina Mestrinho. No entanto, aquela localização seguiu conhecida durante décadas, no bairro da Praça 14, como Piquete.

Foto do Piquete, de 1964, reconstruída por Ed Lincon
 
Em 1972, o comando da corporação decidiu construir um quartel no local do lendário Piquete. Deste, guardou-se com devotamento o Portão que guarneceu o Piquete. O portão segue adornando o pátio frontal do atual CPM (Comando do Policiamento Metropolitano).

Ed Lincon, estimado artista e caçador de relíquias históricas, encontrou uma foto do Piquete em saudoso jornal da cidade. A foto era quase um fantasma. Ele a refez com sua arte, deu-lhe cores e, certamente, trata-se do único instantâneo do desaparecido Piquete. Grato, Ed Lincon, sua obra segue exposta.

domingo, outubro 08, 2017

ED LINCON - DESENHISTA

Desenhos que merecem uma publicação.








quinta-feira, janeiro 10, 2013

ALUIZIO FERREIRA DA SILVA (1938-2012)



Aluizio Ferreira e o Fusca-Taxi
Seu Aluizio morreu hoje de madrugada, enfrentando na UTI do Hospital 28 de Agosto, desde o início do ano, enfermidades que sua idade ampliava e o deixava cada vez mais abatido. Há longo tempo morador da rua São Domingos, 95, no Aleixo, foi velado na funerária Sagaz e sepultado no cemitério São João Batista. Ali ele se reencontrou com a finada esposa, morta há dez anos.
Mas, quem é seu Aluizio? Para mim, é o pai do Ed Lincon. Ed  tornou-se meu amigo pesquisando em diversos acervos da cidade. Que colaborou comigo na conquista de um prêmio na Academia Amazonense de Letras (2006). E que se seguiram outras tantas pesquisas. Atualmente, ele tem me abastecido de recortes de jornais, material que reproduzo no Blog do coronel Roberto.
Seu Aluizio, torcedor do Fluminense, também é o saudoso pai da Heloisa e da Eliane, e do Júnior, os quais moram harmoniosamente no mesmo endereço. Tem mais. Ele era irmão do Wilson Ferreira, um valente jogador de futebol dos tempos do Parque Amazonense. Os admitidos na terceira idade o conheceram por Catita, jogador do Atlético Rio Negro Clube. Aliás, seu Aluizio tentou o futebol ao lado do irmão, mas o finado Josué avô o dispensou por considerá-lo violento com os adversários.
Então ele encontrou emprego como motorista, primeiro na Soresa, representante local da VASP. Apenas seis meses. Passou então a dirigir a Kombi da Selvatur, de Vasco Vasques, um dos proprietários do Hotel Amazonas. Foram anos e anos transportando frequentadores e hóspedes do hotel e circulando pela cidade.
Ed Lincon em palestra
Encerrado o contrato com a Selvatur, tomou a indenização e adquiriu seu taxi, um modesto Fusca. Com ele voltou à praça e seguiu circulando. Nesse vai e vem, gravou os caminhos e as caras de Manaus, por isso, declaro nesse instante ter perdido o “assessor para assuntos de ruas e fachadas da capital”. Era ele quem nos tirava de enrascadas, quando eu ou o Ed precisava identificar alguma edificação ou logradouro.
Seu Aluizio nasceu no Boulevard Amazonas, hoje Álvaro Maia, próximo a um terreno baldio que deu lugar ao Hospital Getúlio Vargas. Agora, ele descansa ali próximo, no cemitério São João Batista.
Para as minhas despedidas, vou lembrar seu amor pela rua que morava. O vereador Expedito Teodoro, quando vereador, conseguiu aprovar um decreto que modificava um número expressivo de ruas. Conseguiu em parte efetivar o edito.  Falhou somente quando resolveu substituir a denominação da rua São Domingos para Constelação de Touro... seu Aluizio contribuiu para que os homens da rua não aceitassem.
Descansa em paz, meu amigo, que São Domingos lhe estenda a mão.

sábado, agosto 11, 2012

AUTOCINE MARROCOS (1975-76)


Ed Lincon*
Cinema ao ar livre, na estrada Torquato Tapajós

 Você sabia que em Manaus já existiu um cinema drive-in?  Aquele tipo de cinema ao ar livre, criado pelos norte-americanos, em que os carros ocupam o lugar de cadeiras e poltronas? Pode parecer estranho, mas é verdade, já tivemos o nosso cine drive-in, o Autocine Marrocos, que ficava localizado na estrada Torquato Tapajós, ao lado do Clube Municipal.

Inaugurado no dia 10 de setembro de 1975, pela empresa Mazeltob Ltda., dos empresários Abraham Benmuyal e Syme Pazuello, o Autocine Marrocos. foi um empreendimento inédito e pioneiro no Amazonas e no-Norte do Brasil, com capacidade de estacionamento para 300 carros. Sua tela panorâmica de 18x10m era uma das maiores existentes na época e seu funcionamento obedecia a todos os padrões dos autocines espalhados pelo território brasileiro.

Para a inauguração do Autocine  Marrocos foi escolhido o filme até então inédito em Manaus, Contrato em Marselha, com Anthony Quinn, Michael Caine e James Mason. A empresa Mazeltob Ltda. decidiu exibir somente filmes que nunca haviam sido mostrados ao público amazonense pelos cinemas que existiam na época – Guarany, Ypiranga e Veneza (ex-Eden). O Autocine Marrocos funcionava todas as noites, de segunda a domingo, em dois horários, às 20h e 22h, sendo que aos sábados e domingos as crianças pagavam meia-entrada.
Recorte de A Crítica, 31 agosto 1975
  
Infelizmente, o Autocine Marrocos foi uma iniciativa que não teve      longa duração, vindo a encerrar suas atividades no dia em que completou um ano de funcionamento, em 10 de setembro de 1976, quando exibiu o filme A Cartomante. Seus projetores foram vendidos para o empresário Joaquim Marinho, que mais tarde montaria seu próprio cinema, o Cine Chaplin (1980- 2002).

No final do ano de 1980, a empresa de Cinemas Bernardino Ltda. também tentou montar o Autocine Adriano, no Parque das Laranjeiras, próximo ao aeroclube. Mas ficou apenas na introdução do projeto.

Hoje, poucas pessoas que frequentaram o Autocine Marrocos se lembram de sua existência, talvez por ter sido meteórica.
Anúncio publicado em A Crítica, 09 maio 1976

* pesquisador sobre os cinemas de Manaus, que publicou este texto no Jornal do Commercio, Manaus, 24 outubro 2004.

domingo, julho 29, 2012

Centenários anúncios de cinemas


       
Jornal do Commercio,
14 julho 1912
Manaus ja possuiu um bom número de cinemas, antes que a TV – especialmente esta – fechasse todas essas casas. Os nomes são repetidos pelos enquadrados na terceira-idade. Há nesses uma parcela de saudosismo, de repetir como mantra que o passado era “melhor”. Não sei se dirão o mesmo do cinema instalado na cidade.
Em nossos dias, as casa de exibição modernizaram-se, reuniram-se em shoppings e estão cercadas de recursos tecnológicos, capazes de permitir que o mesmo filme tenha projeção nacional.

Mas o amigo Ed Lincon (edlincon@hotmail.com) continua recolhendo dados sobre os cinemas de Manaus, que  existiram no século passado. Interessa-lhe tudo, dados de funcionamento, de fotos e fatos publicados, propriedade e por ai afora.

São deles as ilustrações aqui publicadas. Apenas o cine Guarany tem sido decantado pelos artistas e historiadores manauenses, os demais foram meros participantes.
Cine Guarany, em seu lugar agência do banco Itau

Jornal Correio do Norte, 14 março 1912

Jornal do Commercio,
22 agosto 1912

terça-feira, julho 24, 2012

Os cinemas Avenida

Existiram em Manaus três cinemas Avenida. O primeiro durou apenas meses entre 1908-09; o segundo marcou presença em 1912; e finalmente, o mais conhecido pela sua duração e progresso, pois foi inaugurado em 1936 e desapareceu, compelido pela energia da TV, em 1973. Curiosamente, todos tiveram endereço na mesma artéria, na avenida Eduardo Ribeiro, ao longo de dois quarteirões.

A sala de exibição denominada Cinema Avenida, localizou-se junto ao famoso “Canto das Novidades”, de Andrade, Santos & Cia., (onde estiveram, pela ordem, o Bar Americano, a agência do banco Credireal de Minas Gerais e, atualmente, o C & A). Funcionou de 28 de novembro até o início de dezembro de 1909, e esteve equipada com projetores da Pathé-Fréres e Gaumont.

Anúncio do cinema em Jornal do Commercio,
12 nov. 1912
Três anos depois, ao lado do “Restaurant Français” (mais tarde, Bar e Sorveteria Avenida e, atualmente, Bradesco), a 20 de outubro de 1912 foi inaugurado o segundo Cinema Avenida, de J. Moraes & Cia. Empregava a orquestra regida por Landry, Campos e Pagani. Tal qual o antecessor, este também teve existência meteórica, encerrando definitivamente em janeiro de 1913.

Somente em 1935, os sócios Antônio Lamarão e Aurélio Antunes fundaram a empresa Cinema Avenida Ltda. Para isso, a empresa adquire o edifício de nº 427 da famosa avenida, onde funcionara a Manáos Arte (1926-1934), para nele instalar a sala de cinema que receberia o nome de Avenida. O estabelecimento pertencia a firma J. G. Araújo & Cia. (casa especializada na venda de artigos fotográficos, projetores Krupp Ernmann e Pathé Baby, bicicletas, pneus e representação dos automóveis Willys).

A 1º de dezembro, Lamarão inicia as obras de reforma e adaptação do edifício. Reconstruído com luxo e conforto, a pré-inauguração do cinema foi realizada à 26 de março de 1936. O evento ocorreu às 21h, em sessão especial para imprensa e autoridades, com a exibição do filme americano Voando para o Rio, estrelado pela atriz mexicana Dolores Del Rio (1905-1983), Fred Astaire (1889-1987) e Ginger Rogers (1911-1995). 

Equipado com o “moderno” sistema de projeção Wide Range, da Western Electric, que combinava som e imagem, o Avenida foi o segundo (Alcazar, o primeiro no início dos anos 30) a usar esse processo, denominado de Movietone. Dispunha de 642 lugares e, na estreia, cobrou o ingresso a 3$200 (três mil e duzentos réis). No dia 27 de março, o cine Avenida foi oficialmente aberto ao público. 

Esquina da av. Eduardo Ribeiro com Saldanha Marinho,
onde funciona hoje o Bradesco e, ontem, o "segundo" cine Avenida
Denominado pelos jornais como o “Cinema da elite manauense”, o Avenida logo se tornaria o preferido da cidade, e famoso também pela presença constante do casal Aurélio Antunes, acompanhando o movimento da bilheteria, e da sua esposa, Maria Amélia Cezar Antunes, a dona Yayá.

Tradicionalmente usando seu vestido tubinho florido e os longos cabelos negros amarrados atrás, dona Yayá era uma atração à parte. Seja pelo jeitão espalhafatoso, seja pela maquiagem exagerada que a caracterizava, com isso tornou-se bastante conhecida pelos frequentadores do Avenida. Dona Yayá contava trechos dos filmes em exibição, visando atrair os mais hesitantes em entrar, em especial, as normalistas do Instituto de Educação.

O casal permaneceu à frente do cinema Avenida até quando este encerrou suas atividades. Sobre essa personagem carismática, o saudoso senador Jefferson Peres (1932-2008), em seu livro Evocação de Manaus, traça um breve perfil: 

No Avenida, além do dono, tínhamos também a presença diária, obrigatória, inarredável, de sua esposa, d. Yayá. Sempre com o rosto pintado de batom e ruge de tom arroxeado, lá estava ela, infalivelmente, em todas as sessões, sentada numa poltrona de palhinha, no hall de entrada, ou debruçada no gradil, ao lado da borboleta. Às vezes, ficava à porta, procurando aliciar espectadores com a recomendação: Entre, o filme é ótimo! E ante a incredulidade do interlocutor, acrescentava: E colorido! Para ela uma prova irrecusável de boa qualidade.

"Terceiro" cinema Avenida, fechado em 1973, em foto
após o fechamento
Nota: Estes recortes pertencem ao Ed Lincon, que sabe tudo sobre os cinemas de Manaus. Ao visitá-lo, dia 20, por motivo de seu aniversário, fui brindado com agradáveis notas sobre os cinemas e o material desta postagem.