CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, junho 01, 2020

BANDA DE MÚSICA DA PMAM (5)

Desfile de Sete de Setembro, em 1975

Persisto em concluir a retrospectiva sobre a Banda de Música da Polícia Militar do Amazonas. O livro está em revisão final. Para ultimr, aproveitei o isolamento para vasculhar algumas pastas de meu arquivo. E fui recompensado, pois recuperei dois recortes de jornais sobre o assunto. Vou aqui postar.
O primeiro contém uma conversa que mantive com o jornalista Evaldo Ferreira, publicada no Jornal do Commercio (23 e 24 junho 2013); o segundo, uma apreciação de um músico, em reportagem de Joana Queiroz, exposta no matutino A Crítica (13 novembro 2011).

Reportagem no Jornal do Commercio (23 jun. 2013)

O pesquisador Manoel Roberto Lima Mendonça entrou para a Polícia Militar em 1966, como oficial, e só deixou a corporação 30 anos depois como coronel. O militar sempre se dedicou às pesquisas históricas sobre a instituição, intensificadas a partir de sua ida para a reserva. A Banda da Polícia Militar, que este ano completou 120 anos, pela alegria que transmitia por onde passava, mereceu atenção especial do pesquisador, conforme falou abaixo, em entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio - A Banda da PM fez 120 anos no dia 3 passado, mas parece que nem ela própria comemorou o aniversário. Por quem e por que a Banda foi criada? 
Roberto Mendonça - Esta data é convenção, porque não há registro da criação. Então, escrevendo um texto para o jornal, eu sugeri que se adotasse a data do Relatório do então comandante da PM, na época, coronel Raimundo Afonso de Carvalho. Quanto ao por que da criação, a música sempre existiu nos exércitos, seja pela necessidade de comunicação, de controle da tropa, de estímulo aos combatentes e, porque não, de divertimento e lazer.
JC - Nesses 120 anos de existência a Banda da PM nunca deixou de existir? 
RM - Seguramente sim. Quando a PM foi desativada em 1924, por seis meses, a atividade policial subsistiu com outra denominação. E a Banda não foi dispensada. Entre 1930 e 1936, em nova etapa de desmobilização da Força Policial, a Banda continuou ainda que capenga tocando aqui e ali. Parte dela passou a servir no Corpo de Bombeiros, outra parte se desligou e foi cuidar da vida.

RM, o entrevistado
JC - A quantidade de músicos sempre foi a mesma? Quantos eram e quantos são? 
RM - Muito difícil responder a essa primeira questão. Quanto ao número de músicos muda em decorrência de um aspecto: o efetivo da corporação. Na primeira década do século passado, por acaso, havia três bandas: duas na PM e uma nos Bombeiros.
JC - Quais os momentos mais importantes (ou especiais) pelos quais passou a Banda? 
RM - Também fica difícil avaliar este tópico. De minha parte, que conheço a Banda a partir de 1966, penso que no período que vai até 1980, ela se destacava no coreto, tocando na praça, que reunia as famílias para ouvi-la, namorar e jogar conversa fora. Outro destaque acontecia nos clubes, em especial, no Carnaval. A presença da Banda, na verdade de alguns músicos, mas a indicação da Banda, fazia o Carnaval ferver.
JC - Houve uma época em que a banda era um dos maiores atrativos da cidade, desfilando pelas ruas e se apresentando no coreto da praça da Polida. 
RM - Quais eram os meios d5 divertimentos em Manaus há 40, 50 anos? O cinema, o clube familiar, o balneário. Por isso, quando qualquer Banda tocava, era ocasião para divertimento. A cidade era menor, o centro ocupava as praças, com a Banda aos domingos.
JC - Então, a cidade cresceu e "a banda passou". 
RM - A Banda passou inegavelmente. Não soube se modernizar, se compor com a Zona Franca, com a tecnologia. Permaneceu naquele ramerrão, tocando os repetidos dobrados, às vezes, sem um mestre de qualidade. Tornou-se assim, longe do coreto, uma Banda “faixa branca”, destacada para abrilhantar os atos governamentais. Depois, uma disputa interna como há em qualquer organização somente prejudicou esse pessoal.
A PM tem sua imensa culpa, pois até hoje, não há um local adequado para ensaios, para abrigar o pessoal, "para dizer que é meu". A desconsideração vai ao extremo quando se sabe que o espaço ocupado pela Banda era, antigamente, os xadrezes do batalhão de Petrópolis. Autêntico quebra-galho.
JC - Como está a Banda hoje? 
RM - Um pouco de história: até meados do século passado, acredito que pelos anos de 1940, os músicos eram classificados em 1ª, 2ª e 3ª classes. Os vencimentos eram padrão, igual aos dos soldados. Causava um desconforto com os profissionais. Então passaram a integrar a graduação de sargentos. Melhorou o soldo, mas trouxe um grave problema: quem deveria ser promovido? A disputa segue até hoje.


Recorte da reportagem sobre a Banda de Música (A Crítica, 13 nov. 2011)

terça-feira, junho 12, 2018

CÂMARA MUNICIPAL DE MANAUS

Jefferson Peres

Em 1989, a Câmara de Vereadores de Manaus inaugurou a 10ª legislatura, com 21 vereadores. Os nomes são por demais conhecidos, alguns ainda participando da política. Entre os abaixo relacionados, conta-se um governador e senador (Omar Aziz); um prefeito (Serafim Correa); dois senadores (Jefferson Peres e Vanessa Graziotin), dois deputados federais (João Pedro e Mario Frota), afora os que alcançaram a Assembleia Legislativa e prefeituras do Interior . Enfim, um registro especial para o secretário de Cultura – de duas décadas e quebrados (Roberio Braga).


No mês de março [1990] foram realizadas treze reuniões, sendo dez ordinárias; duas sessões solenes e uma especial.

VEREADORES
(Presenças) (Ausências)
Edgar Martins de Mesquita                    10              03
Manoel de Castro Paiva                           10              03
Messias da Silva Sampaio                        08             05
Roberto Alexandre Alves Barbosa         11               02
Johnny Eduardo D’ Carli                         04             09
Omar Abdel Aziz                                       09               04
Vilson Gomes Benayon                            05              08
Otalina Loureiro Aleixo                           06              07
Manoel Marçal de Araújo                        12               01
João Batista Noronha                              (*)
Antônio Paulo Carioca                             (*)
Cesar Cerqueira Bomfim                         11               02
Robério dos Santos Pereira Braga         10              02 (*)
Vanessa Grazziotin                                   13                =
João Pedro Gonçalves da Costa             09              04
Maria de Lourdes Lopes de Oliveira     11               02
Omar Aziz
Serafim Fernandes Corrêa                      13                =
José Mário Frota Moreira                       02              11
José Jefferson Carpinteiro Peres           13               =
Domingos Sátiro Leite Filho                   11               02
Miquéias Mathias Fernandes                  11              02

(*) Ausências justificadas

Francisco Monteiro de Lima
Diretor de Assuntos Parlamentares
atualizado em 13.06.2018

terça-feira, dezembro 11, 2012

BASE AÉREA DE MANAUS (3ª parte)


O Campo de Pouso da Base Aérea de Manaus e o Aeroporto de Ponta Pelada: resultados de uma aproximação americana (*)

 
2 ESFORÇO DE GUERRA

Aeroporto de Ponta Pelada (cartão postal)

Com a tomada das áreas de produção de borracha asiática conquistadas pelos japoneses (reservas que totalizavam 97% da necessidade da indústria bélica Aliada), manobras foram empregadas direcionando a diplomacia americana para o território brasileiro (CORRÊA, 1967). Como resultado dessa aproximação americana, Corrêa (1967) destaca que convênios foram fechados, entre ambas as Nações, em 3 de março de 1942, e estas, por sua vez, resultaram no envio de matéria-prima para a indústria bélica Aliada e na concessão de apoio estratégico no território brasileiro; em troca, o Brasil recebeu um projeto siderúrgico e a modernização de suas forças armadas, entre outros progressos. Segundo Martinello (1988), nesse mesmo período, e tendo em vista a carência de borracha, nos Estados Unidos foi proibida a venda de pneumáticos e, ainda, assinado um decreto que racionava a borracha em todo o território americano.

De um momento para o outro, a Amazônia se viu “envolvida no conflito mundial em função do retorno forçado do monopólio da borracha silvestre” (BENCHIMOL, 1992, p. 71). Segundo Benchimol (1992), os americanos colocaram em prática um planejamento ousado, no qual se fizeram necessárias estruturas capazes de atender às necessidades de busca e escoamento da borracha.

Atendendo ao esforço de guerra, o Brasil assistiu, em seu território, à construção de áreas as quais se destinaram especificamente às operações aéreas e de auxílio ao escoamento de borracha. É interessante observar que, segundo Alves (2002), um decreto presidencial, de junho de 1941, antes mesmo da assinatura dos acordos firmados em 3 de março de 1942, já autorizava a construção de aeroportos e bases aéreas por empresas americanas.

Apesar de um decreto oficializar atividades americanas em território brasileiro, esta atuação, como se viu em relação à Amazônia, só ocorreu a partir de 1943, com a abertura da pista de pouso de Ponta Pelada.

Ponta Pelada não foi escolhida por acaso: sua localização, próxima à margem (esquerda) do rio Negro, facilitava o transporte rápido e eficiente da produção gomífera que, vinda de barco dos seringais, chegava a Manaus e, logo em seguida, era transportada para Miami, no território americano (CORRÊA, 1967).

Somado à necessidade do momento, o Decreto nº 1.020, de 07 de maio de 1943 (MANAUS, 1943?), reafirmou a importância do esforço de guerra. Utilizando-se de argumentos que justificassem a implantação de uma nova pista de pouso na cidade de Manaus, o interventor amazonense ratificou a necessidade de um novo espaço para as aeronaves que percorreriam as rotas nacionais e internacionais.

Como demonstra o texto da lei:

O Interventor Federal no Estado do Amazonas, usando das atribuições que lhe confere o art. 181da constituição brasileira, combinada com a alínea I do art. 7º do Decreto-lei Federal nº 1.202, de 08 de abril de 1939 e tendo em vista o que dispõe o art.5º, letras “e” e “n” e art. 6º do Decreto-lei nacional nº 3.365, de 21 de junho de 1941 e, considerando que a necessidade da construção de um campo de pouso para aeronaves, que percorram rotas nacionais e internacionais, se impõe ao Governo do Estado, como medida inadiável e de alto alcance administrativo; considerando, que em se tratando de melhoramentos dessa natureza, que visem proporcionar a criação e a disseminação de centros de população e o funcionamento de outros meios de transporte coletivo, “tudo deve ser sacrificado no interesse do Estado”.

Art. 1º - Ficam declaradas de utilidade pública as terras de domínio do Estado, situadas entre a cidade de Manaus e a Vila do Paredão, à margem esquerda do rio Negro, abrangendo uma área de 1.577 hectares, com perímetro de 16.329,80 metros lineares, compreendidos na demarcação efetuada pela diretoria dos serviços técnicos, limitando-se ao Norte e a Oeste com terras desocupadas; ao Sul com a margem esquerda do Rio Negro e a Leste com Igarapé do Picanço, tudo de acordo com a planta anexa ao respectivo processo. (MANAUS, 1943?).

Não deixando de reconhecer a importância desta medida para a região, a lei citada estabeleceu em seu artigo 1° que as terras supracitadas seriam destinadas à construção de um aeródromo, inserindo-se em uma área de 1.577 hectares. A construção da pista de Ponta Pelada consolidou e somou-se às inúmeras medidas que perfaziam as necessidades dos acordos firmados entre ambas as nações, necessidades estas as quais buscavam especificamente executar o escoamento da borracha de forma rápida.

Para a construção desta pista de pouso de Ponta Pelada, os americanos trouxeram as máquinas, o auxílio técnico e financeiro. Devido à situação atípica com que os Aliados se depararam, a pista de Ponta Pelada ficou pronta em semanas (BENCHIMOL, 1992). Ainda sobre as estruturas do aeroporto de Ponta Pelada, o Rubber Development Corporation (RDC), responsável por sua construção, solicitou ao governo brasileiro que, além das áreas delimitadas para a abertura da pista de pouso e construção do aeroporto, o governo teria que fornecer madeira e todos os tipos de matérias-primas para as
edificações que seriam erguidas.

Consequentemente, o órgão ficaria isento de impostos e qualquer outro tipo de taxa; em troca, ao final do contrato, os bens imóveis seriam entregues ao governo brasileiro (CORRÊA,1967). No local, para cumprir a finalidade a que se destinava (fornecer o apoio à aviação), instalou-se uma central meteorológica e de comunicação. Somou-se também ao projeto a construção de casas, um terminal de passageiros e armazéns. Um ponto interessante a se observar nesse contexto diz respeito ao grande número de visitantes que passaram a frequentar a área de Ponta Pelada, devido à rotina atípica que transcorria naquele que transcorria naquele local (PERES, 1984). (segue)

(*) Revista UNIFA, Rio de Janeiro, v. 25, n. 31, dez. 2012.

domingo, novembro 25, 2012

CLUBE DA MADRUGADA – 58 ANOS (2ª. Parte)

Alencar e Silva (1930-2011)l
Acredito que a última publicação conhecida sobre o Clube da Madrugada foi realizada por um dos seus fundadores: Alencar e Silva, que morreu em setembro de 2011. Portanto, dono de respeitável conhecimento sobre o Movimento, que segue lembrado. Aproveito o texto para penitenciar-me de um pecado mortal cometido no texto anterior: é que, ouvindo o autor de Lunamarga, ainda existem outros fundadores bem vivos.  Com a palavra, o saudoso Alencar e Silva. (*)

Destinado a assinalar no tempo um acontecimento de alta relevância para o desenvolvimento cultural do Estado, um dia gravou-se no bronze esta inscrição: "Pois foi. Jovens se reuniram sob as frondes desta árvore, e aconteceu. Era madrugada. 22 de novembro de 1954. E fez-se.”
Luiz Ruas, presidente do CM (1957-58)
Alude o breve texto à criação do Clube da Madrugada. E os jovens que então ali se reuniram, teriam seus nomes para sempre inscritos na legenda gloriosa como seus fundadores. Foram eles: Saul Benchimol, Luiz Bacellar, Farias de Carvalho, Theodoro Botinelly, Fernando Collyer, José Pereira Trindade, Francisco Baptista, João Bosco Araújo, Antônio Gurgel do Amaral, Celso Mello, Humberto Paiva e Camilo Souza.






E aos quais se juntariam, em seguida, Jorge Tufic, Guimarães de Paula, L. Ruas, Francisco Vasconcellos, João Bosco Evangelista, Astrid Cabral, Carlos Gomes, Pedro Amorim, Aluísio Sampaio, Jefferson Péres, Arthur Engrácio, Elson Farias, Antísthenes Pinto, Max Carphentier, Alcides Werk, Ivens Lima, Edison Farias, Sebastião Norões, Benjamim Sanches, Ernesto Penafort, Ernesto Pinho Filho, Erasmo Linhares, Edson de Souza, Carlos Genésio, M. Braga, Wagner Pinto, Anísio Mello, Maria José Hosanah da Silva, Pinheiro Pucu, Evandro Carreira, Fábio Lucena, Leopoldo Péres Sobrinho, Adrino Aragão de Freitas, Mauro Tavares, Flávio Roberto de Souza, Afrânio de Castro, Moacir de Andrade, Oscar Ramos Filho, Álvaro Páscoa, Hahneman Bacellar, Van Pereira, Getúlio Alho, José Maciel e outros.

Surgido como síntese unificadora da inquietação que vinha movendo a mocidade amazonense, desde a década anterior, e que buscava abrir espaço ao exercício da liberdade criativa e à renovação dos padrões artísticos e literários vigentes - o Clube da Madrugada chegava já amadurecido para os novos tempos sabendo perfeitamente o que queria.

O poeta Jorge Tufic, que se refere ao CM como uma atmosfera e um movimento de ideias, identifica nas raízes desse movimento uma série de fatores causais que se resumem, basicamente, no esgotamento e anacronismo da vida cultural de Manaus, êxodo da juventude, desfalcando anualmente a população de parte ponderável de seus valores, e inexistência de universidade. Surgia, assim, o Clube da Madrugada em meio a uma crise total de valores.

Muitos, evidentemente, foram os presidentes do CM. E todos o terão conduzido com o acerto esperado, dando cumprimento à pauta do seu ideário e ao intercâmbio de conhecimentos e experiências em que os madrugadenses mutuamente se enriqueciam, como que ao clima de um centro de estudos superiores.

A partir, porém, dos anos 60 e princípios dos 70, houve notável mudança de ritmo. E Aluísio Sampaio viria como que a encarnar a alma do Clube como força coesiva e dinâmica que lhe comunicaria novo ânimo e o faria projetar-se, ostensivamente, em cena aberta, para reafirmar e mostrar, em toda a sua extensão, a que vinha.

Isto se fez não só por meio da publicação de livros - o que já vinha ocorrendo desde a década anterior - mas, principalmente, do espaço gráfico de toda uma página semanal do "O Jornal", na qual se estampava a produção cultural do grupo e dos novos valores que começavam a surgir.

Dentro da informalidade que sempre o caracterizou, o Clube da Madrugada foi extremamente parcimonioso na outorga do título de "Cavaleiro de Todas as Madrugadas do Universo", contando-se entre as personalidades agraciadas com essa honraria os escritores Ramayana de Chevalier, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Assis Brasil, André Araújo, Nunes Pereira, Jean-Paul Sartre, Ferreira de Castro e o jornalista Umberto Calderaro Filho.

Aluísio Sampaio era um obstinado. Seu período presidencial (ou imperial...) estendeu-se praticamente por toda uma década - o quanto durou a página dominical do CM - tempo durante o qual só se assinalaria um breve hiato, no biênio 1965/66, com a presidência de Francisco Vasconcellos, também brilhante, dinâmica e operosa.

Lembro, a propósito, ter sido ele o iniciador da Coleção Madrugada, tornando-se, assim, o meu primeiro editor, eis que o meu livro Lunamarga veio a constituir o volume 2 da coleção, nos idos de 1965.

Voltando a tomar as rédeas em suas mãos - ocasião em que se esboçou uma cisão de consequências positivas, pois que daria lugar à criação do núcleo local da UBE - pôde Aluísio Sampaio conduzir o CM aos seus objetivos programáticos, sendo a sua dedicação pessoal responsável pela fase mais aguerrida e brilhante da entidade. A propósito, não será necessário enfatizar a competência com que se houve o grande comandante na utilização dos espaços abertos na imprensa amazonense (além da página no "O Jornal", também no "Jornal do Comércio" e na "A Crítica"), para a divulgação dos trabalhos do grupo, cuja produção intelectual se projetava para além do campo estritamente literário - poesia, conto, crônica e ensaio - e alcançava a área dos estudos sociais e econômicos.

Efetivamente, o entusiasmo, a operosidade e a força da sua liderança foram ainda responsáveis pela verdadeira explosão ocorrida no âmbito das artes plásticas, em Manaus, a partir dos começos dos anos 60, quando o Clube da Madrugada patrocinou numerosas exposições, coletivas e individuais, dos artistas locais, pertencentes ou não aos seus quadros. Lembra-se, a propósito, haver sido um membro do CM, o pintor Moacir Andrade, o primeiro artista brasileiro a expor em Brasília.

Em 1963, por exemplo, sob a denominação de Feira de Artes Plásticas, varias amostras foram montadas em logradouros públicos de grande afluência, como a praça da Matriz (lado da av. Eduardo Ribeiro) e a praia da Ponta Negra, sendo visitadas por milhares de pessoas, e atingindo-se, dessa forma, o buscado objetivo de levar ao grande público o trabalho dos nossos artistas, na primeira tentativa, entre nós, de diluição das barreiras que afastam o povo das exposições em espaços fechados.

Ao evocar-lhe a figura ímpar de grande animador do Movimento Madrugada, é de justiça creditar-se ao zelo de Aluísio Sampaio, pelo menos em parte, numerosas outras iniciativas, como, por exemplo, o experimento da Poesia de Muro. 

(*) Alencar e Silva. Quadros da Moderna Poesia Amazonense. Manaus: Editora Valer, 2011.

sábado, abril 21, 2012

Evocação de Manaus - 2

O título desta, já declarei antes, tomei do livro do saudoso senador Jefferson Péres, no qual nosso conterrâneo relembrou a Manaus de sua vida ou sonho. Mas, o recorte do jornal e outras imagens pertencem ao amigo Ed Lincon.

Entre outras saudades, Péres relembra o transporte coletivo. Ao tempo da transição entre o bonde estabelecido pelos ingleses e os primeiros ônibus, fabricados em fundo de quintal. O Zepelin foi um deles, um ônibus com nome e formato semelhante ao dirigível que se esborrachou em Paris (FRA), desastre que pôs fim àquele meio de transporte aéreo.

Jefferson Péres, em sua Evocação, assim relembra esse período:

Jornal do Comércio, Manaus, 29 junho 1948
No final dos 40, os serviços da Manáos Tramaways  passaram a se deteriorar. Com a encampação da velha concessionária inglesa, essa deterioração se acelerou e os bondes começaram a ser desativados. Foi quando surgiram os primeiros
ônibus na cidade. Eram carros improvisados, toscos, com carrocerias de madeira, construídas aqui mesmo, e eram tão raros que chegavam a ser individualizados por nomes próprios, como Pirata da Perna-de-Pau e Periquito da Madame, marchinhas carnavalescas em voga. Depois, surgiu um de melhor acabamento, o Zepelin, em forma de dirigível, que fez enorme sucesso pela sua aparência exótica.

Agora, é o Jornal do Comércio que narra a prova do Zepelin:

Em construção pelo Sr. Joaquim Barata
Júnior o original veículo, que poderá
transportar 64 passageiros sentados, estando
seu custo em 200 mil cruzeiros.

Vai Manaus contar, a partir de domingo vindouro, quando será inaugurado, de mais um confortável ônibus. O "Zepelin", como será chamado esse transporte de passageiros, não tem o que o que tirar, quanto à sua feição, do aparelho que lhe deu o nome.
Zepelin em frente à sede do Atlético Rio Negro Clube

A nossa reportagem, informada da existência desse ônibus, de forma sui-generis, aqui para nós do Amazonas, esteve, ontem nas oficinas do Sr. Joaquim Barata Junior, à avenida Sete de Setembro, o qual é seu proprietário, e ali pode constatar, realmente,  que se esta construindo um ônibus como nos haviam informado.

Aliás, é de se ressaltar que àquele local tem comparecido grande número de curiosos, que procuram se informar do bojudo Zepelin, que dentro de poucos dias estará voando por toda a Cidade.

Chegados ao local da construção, fomos recebidos pelo Sr. Joaquim Junior, que se colocou a nossa inteira disposição, tendo nos contado que se baseou na construção, em um ônibus com aquela forma, existente no vizinho Estado do Pará. Contou-nos aquele senhor ter sabido, de fonte não muito certa, que o proprietário do transporte "Zepelin", de Belém, havia feito o registro de patente no Rio de Janeiro, o que não permite seja feito outro, isto é, por outra pessoa, mesmo dentro daquele Estado, senão pelo dono do, registro. Agora mesmo, ao que consta, o proprietário' dessa invenção recebera uma proposta de um industrial de São Paulo, para compre daquela patente, pela soma de Cr$ 300.OO0,OO, no que não foi atendido.

-- E, como foi que conseguiu permissão para aqui fazer a construção? Indagamos.
-- Ora, Sr. Repórter, é muito simples. Eu também desejo ver o Amazonas orgulhoso, por este bonito feito. Entretanto, o meu “Zepelin” não está parecido, nem um pouco, com o de Belém. Andei, para tanto, dando uns "driblings”, a fim de que, no caso de ser verdadeira essa versão do registro de patente, pelo comerciante paraense, eu poder provar que o "Zepelin” amazonense não é igual ao paraense.
Zepelin, diante do Ginásio Amazonense ou Colégio
Estadual, fotografado da Praça da Polícia
A construção do "Zepelin" de Manaus já está por Cr$ 200.000,00, podendo conduzir 64 passageiros' sentados. Possui chassis próprio para ônibus, com teto interno forrado a couro e poltronas estofadas, com molas no assento e no encosto.
O seu comprimento é de 12 metros, medindo 2m80 de diâmetro circunferencial, na sua parte mais bojuda.

O "Zepelin" amazonense será inaugurado no próximo domingo, quando fará várias voltas pela cidade com as autoridades e imprensa, que serão convidadas para esse fim, pelo Sr. Joaquim Barata Junior.

quinta-feira, abril 19, 2012

Evocação de Manaus

O título pertence ao saudoso senador Jefferson Péres, no livro em que nosso conterrâneo relembrou a Manaus, tendo como subtítulo, “como eu a vi ou sonhei”. Hoje, autêntico sonho.

Monumento ao barão
de Sant'Ana Nery, 1905
Para ilustrar, reproduzo a já desaparecida Praça Osvaldo Cruz, agora um estacionamento desclassificado, na entrada do Porto. Não sei se você vai reconhecer o logradouro. Fica o desafio.

Nesse local, no governo de Silvério Nery (1900-04) foi erguido o monumento ao barão de Sant’Ana Nery, irmão do governador. Apesar de nascido em Belém do Pará, o barão era um intelectual com formação francesa, morador de Paris (FRA), onde morreu. O monumento possuía bastante realce, mas, a partir da reforma que o prefeito coronel Teixeira impôs no Centro Histórico, a estátua começou a sumir. Dela resta em nossos dias somente a cabeça, que pertence ao acervo do Centro Cultural Palácio Rio Negro.



De cima para baixo, Praça Osvaldo Cruz, década 1950; 1960 e 1970

segunda-feira, maio 23, 2011

3º ano de morte de Jefferson Péres

Maio, 23

2008 - Morreu em Manaus, José Jefferson Carpinteiro Péres, senador da República. Sua atuação senatorial promoveu uma repercussão nacional. Mas, coincidência ou não, após sua morte uma série de mortes (naturais, claro) atingiu os integrantes da Academia Amazonense de Letras, a qual pertencia o saudoso amazonense.

Placa identificativa da Academia que, recentemente, foi surrupiada
Até janeiro passado, além de Jefferson Péres, foram-se os "homens de letras", mais ou menos nesta ordem: Jauary de Souza Marinho; Narciso Freire Lobo, Anibal Beça Neto, Oyama Cesar da Silva Ituassu; Paulo Herban Maciel Jacob; Áderson Pereira Dutra, Waldemar Baptista de Salles, Anísio Thaumaturgo Mello, Rui Alberto Costa Lins; Demosthenes Carminé.

Em substituição aos mortos, ingressaram na Casa de Adriano Jorge: Euler Esteves Ribeiro; Abrahim Sena Baze; Almino Alvares Affonso; José Roberto Tadros; e Maria José (Mazé) Mourão.
Salão do Pensamento Amazônico, na Academia Amazonense
de Letras
Duas cadeiras estão ora em disputa: a 24, patrono Joaquim Nabuco, cuja candidata é Marilene Corrêa; e a 40, patrono Paulino de Brito, cujo candidato é Francisco Vasconcelos. Assim, ainda estão abertas três vagas.

A única comemoração neste 3º ano de sua morte foi a realização da Missa na Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, em Adrianópolis.

domingo, maio 23, 2010

Memorial Amazonense XXII

Maio, 23

1910 – Centenário de nascimento, em Manaus, Stenio Neves, que se notabilizou na cidade ao exercer o cargo de Chefe de Polícia (1957). Os integrantes da terceira-idade hoje ainda recordam do método pouco ortodoxo empregado pelo chefe. O de permitir que policiais seviciassem presos, em especial os ladrões, na estrada então conhecida por BR-17 (em nossos dias, a estrada Manaus-Itacoatiara). A má fama custou-lhe o cargo, substituido pelo bacharel José Bernardo Cabral, e um inquérito, do qual é desconhecida a conclusão.
Chefatura de Polícia, na rua Marechal Deodoro


Por isso, Stenio era bastante temido, daí se assegurar à época que, “em Manaus se podia dormir de portas abertas,” tal o nível de segurança conseguido pela polícia.


Era filho de Antonio Lucas Neves e de Jesuina Neves e foi casado com Tandecy Biar Neves.

Dário da Tarde, Manaus, set. 1956


Stenio começou no serviço público em março de 1938, nomeado datilógrafo da diretoria dos Serviços Técnicos do Estado. A partir de 1950, manteve amizade pessoal com os políticos trabalhistas (Plínio Coelho e Gilberto Mestrinho). Com isso, oportunizou sua nomeação de Prefeito de Manaus (1955-56), e de Chefe de Polícia, de maio a agosto de 1957.
Ainda dirigiu a Guarda Civil, organismo subordinado à Polícia Civil, em 1958. Morreu em 1978.
A Crítica. Manaus, 3 maio 1957


1913 – Severino Corrêa da Silva foi nomeado comandante da Companhia de Bombeiros, subordinada a Polícia Militar. Nascido em Pernambuco, passou pelos Bombeiros do Pará antes de desembarcar aqui. Foi genitor do coronel Manoel Corrêa da Silva, comandante da PMAM na década de 1950.


2008 – Falece em Manaus, José Jefferson Carpinteiro Péres, senador da República.