CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Joaquim Alencar e Silva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Joaquim Alencar e Silva. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, novembro 18, 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS (3)

A derradeira parte do texto do saudoso poeta Alencar e Silva sobre o Clube da Madrugada, que celebra seu aniversário no próximo dia 22. O original encontra-se no livro póstumo deste poeta - Quadros da Moderna Poesia Amazonense (2011).


PRELUCIDAÇÃO

Havia, por certo, razões para esse comportamento, ditadas, umas, subconscientemente, pela autocensura que teme contrariar a ordem estabelecida, ou que a aceita, e, outras, pelo natural processo de envelhecimento e asfixia de um quadro marasmático que não tinha por onde renovar-se, de vez que todos os caminhos pareciam estar bloqueados, como no poema de Aníbal Machado, e não havia salvo-conduto para a canção.
Dir-se-ia, então, que não havia bons poetas em Manaus? Havia-os, sem dúvida, e, alguns, mesmo, muito bons, como Hemetério Cabrinha, Américo Antony e Álvaro Maia, para mencionarmos apenas aqueles para os quais a arte poética não era um mero exercício de diletantes, mas, sim, o sopro vital que os acompanharia por toda a vida. Conheci-os bem e de perto e fui amigo dos três. 
Em verdade, só o dom da poesia fazia-se-lhes traço comum, a par do talento que os distinguia e os nobilitava. No mais, pessoas em tudo e por tudo diferentes entre si. Hemetério Cabrinha (1892-1959), o poeta de Vereda Iluminada e Frontões, publicados respectivamente em 1932 e 1959, era carpinteiro de profissão. E notável orador. Reunimo-nos várias vezes no café "Leão de Ouro" e no bar "Avenida" para falar de poetas e poesia. Eu gostava de ouvi-lo. E foi em sua própria voz, um pouco rouca mas bem empostada, que ouvi poemas inteiros do seu primeiro livro, bem como trechos dos poemas, editados em plaquetes, Satã, Caim e O Cristo do Corcovado. 
Certo dia, em 1951 ou 1953, indo eu ao Palácio Rio Negro, encontrei o poeta, já chegando à casa dos sessenta, a envernizar as escadarias internas da sede governamental, e ele, sorridente e orgulhoso do seu trabalho, a exibir-me as fortes mãos de operário manchadas de verniz: "Poeta, as águias voam alto, porém, para pousar nos altos píncaros, é preciso que tenham garras fortes!" Achei linda a tirada do mestre Hemetério Cabrinha. 
E fui à presença de outro poeta, o governador Álvaro Mala, a fim de solicitar, e obter, as quatro passagens que nos levariam (a mim e mais três companheiros) ao sul do país. Da produção poética de Álvaro Maia (1893-1969), também grande orador e excelente escritor, conhecia-se, então, apenas os poemas, poucos e bons, que ele se permitira estampar nos periódicos locais — suficientes, todavia, para incluí-lo entre os melhores poetas amazonenses de todos os tempos. 
Sua obra poética só seria conhecida em sua totalidade ao ser editada, em volume único, em 1958, sob o título de Buzina dos Paranás, onde o apuro formal corre em parelha com o seu telurismo e seu sentimento amoroso pela gleba estremecida. 
Quanto a Américo Antony (1895-1970), suponho que se há de lamentar sempre, talvez, não ter o poeta, que era Promotor de Justiça, reunido em livro senão parte mínima de sua obra (Os Sonetos das Flores, de 1959), num volume que, em verdade, não representa o que de melhor o poeta escreveu.
Pode-se, pois, prever, com larga margem de probabilidade, que o melhor de Américo Antony corre o risco de perder-se, na hipótese de sua família não ter diligenciado na recolta do material inédito ou publicado esparsamente nos jornais e revistas locais. (Desde já, todavia, essa hipótese deve ser afastada, eis que, ainda há pouco, nos vimos investido pelos filhos do poeta residentes no Rio de Janeiro — Sra. Isis Antony de Souza Brasil e Marco Aurélio Antony na condição de depositário do acervo de inéditos de Américo Antony, constituído de pouco menos de setecentos poemas, em sua maioria sonetos, e que muito em breve estaremos transmitindo à guarda e providências da benemérita Academia Amazonense de Letras). 
Vê-se, assim, que dos três poetas apenas Hemetério Cabrinha editou regularmente os seus livros, à medida que os escrevia. Foi, também, dos três, o único a não fazer parte da Academia, ainda que méritos lhe sobejassem. 
Por motivos de outra ordem e que se impõem tanto pela sua maior proximidade do ideário renovador do movimento madrugada quanto pelas características de fundo e forma de sua poesia inscreve-se neste pórtico o nome de Djalma Passos (1923-1990), apesar de sua passagem quase que meteórica pela poesia. Isto por que, a partir de 1955, ano em que saiu a sua terceira coletânea de poemas, não mais o poeta assinalou sua presença no território poético, frustrando, deste modo, as expectativas de quantos viram no autor de As Vozes Amargas (de 1952) uma voz, repassada de humanidade, a erguer-se contra as injustiças sociais e a acenar-nos com uma nova luz, e que ainda parece ressoar como o canto de um anjo rebelde pejado de revolta. 
Não se focalizasse, aqui, apenas um segmento da história da poesia amazonense, obrigatória, por certo, seria a menção a vários outros poetas que lhe fecundaram o território sagrado, como Jonas da Silva e Quintino Cunha, os quais, aliás, dividem entre o nosso e os seus estados natais a honra de os contar como seus. 
É claro que um critério mais elástico nos permitiria a inscrição neste preâmbulo de alguns outros nomes que, não obstante a sua contemporaneidade, conservaram-se à margem do movimento renovador, a exemplo de Áureo Mello, todavia, e sem que vá nisso qualquer censura ou juízo de valor, pergunto-me se seria esse o procedimento correto. 
Como quer que seja, parece que as lacunas e omissões em cometimentos da espécie são fatalmente inevitáveis, quando se tem o objetivo de constatar fatos e relatar as impressões mais duradouras por eles suscitadas. (fim)

segunda-feira, novembro 14, 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS (2)

Sede da Academia Amazonense
Terceira parte da avaliação elaborada pelo poeta Alencar e Silva sobre esta agremiação cultural, que completa 62 anos no próximo dia 22.
Esta avaliação encontra-se no livro deste poeta, Quadros da Moderna Poesia Amazonense, publicado pela Editora Valer (2011).

PRELUCIDAÇÃO (2)

A Academia Amazonense sempre abrigou em seus quadros grandes luminares, como — para referirmos só alguns dos que já não estão entre nós — Heliodoro Balbi, Agnello Bittencourt, Leopoldo Péres, Nunes Pereira, Ramayana de Chevalier, Genesino Braga, Aristófano Antony, André Araújo, Djalma Batista, Mavignier de Castro, Pe. Nonato Pinheiro, João Mendonça de Souza, Mário Ypiranga Monteiro, entre outros tantos.

Ontem, como hoje, e como qualquer outra de suas congêneres, terá passado, naturalmente, por períodos luminosos e sombrios, não havendo, por isso, qualquer boa razão para se obscurecerem fatos que lhe sejam desfavoráveis (ou, mais provavelmente, a algum de seus membros), pois mesmo destes podem-se extrair preciosas lições. Por exemplo: que não se pode nem deve empecer os passos aos mais jovens, na tentativa (inglória e inútil) de impedir o advento do novo. 
Todo artista sonha abrir o seu próprio caminho na floresta dos signos. Não pode conformar-se a soluções que não sejam as suas, a despeito de todas as disposições em contrário.
Efetivamente, nada do que se diz aqui a respeito da nossa Academia é fruto do maldizer ou malquerer, até porque muito nos honra ostentar o colar acadêmico e participar da ilustre companhia dos confrades. Em verdade, não falamos senão do que conhecemos. E conhecemo-la praticamente desde o início da nossa adolescência, quando, residindo nas suas proximidades, lá comparecemos várias vezes, fazendo companhia a nosso avô (Joaquim de Barros Alencar), homem culto e frequentador habitual dos saraus acadêmicos.
Dr. Adriano Jorge
Numerosas são as lembranças que guardamos das sessões a que assistíamos. E de uma, em especial, presidida por Adriano Jorge, em razão do comentário ali feito por meu avô. Era a sessão de posse do acadêmico Félix Valois Coelho. Ia o Dr. Adriano conduzindo a sessão com certa mornidão, quando, de súbito, resolve mudar de tom e, abandonando as anotações protocolares, encara o auditório e diz: "Acabemos com essas frioleiras e falemos linguagem de gente!". Comentário risonho que nos foi soprado ao ouvido pelo avô: "Pronto, Neto, agora que ele perdeu a compostura, o seu discurso vai ganhar em brilho". E assim foi.

O Dr. Adriano Augusto de Araújo Jorge era médico humanitário, brilhante conferencista, cuja obra não foi retinida em livro, salvo, ao que se saiba, apenas um opúsculo, de cunho científico, sobre as propriedades da luz, e artigos publicados em periódicos locais.

Assistimos a outras daquelas sessões, presididas pelo mestre João Leda, o calepinista de Vocabulário de Ruy Barbosa e vernaculista de Os Áureos Filões de Camillo, e por Péricles Moraes, o ensaísta de grandes méritos de Figuras & Sensações e Legendas & Águas Fortes, e biógrafo de Coelho Neto e sua obra, Leopoldo Péres e A Vida Luminosa de Araújo Filho.

À porta de sua residência, na rua Henrique Martins, ostentava uma placa (única por mim vista ao longo da vida) esmaltada, com letras azuis sobre fundo branco: “Péricles Moraes Escriptor público". Esta é, a meu ver, uma das glórias que distinguem esse ilustre homem de letras (como ainda se dizia): a de ter-se erigido em escritor em seu meio e ter vivido honrada e exemplarmente do seu oficio. Escritor público!
Quantos, antes ou depois de mestre Péricles Moraes, terão tido tão alta consciência da própria benemerência e da importância e validade dos serviços prestados ou postos à disposição de quem deles necessitasse, como qualquer profissional liberal?

Estas notas preambulares não se teriam concluídas se não as aproximássemos do ponto em que se daria a nítida ruptura ou separação entre dois tempos: 1954 ano da fundação do Clube da Madrugada.

Antes dessa data, a poesia que se praticava ou cultuava em Manaus era em tudo igual ao que sempre se fizera ao longo de toda a nossa insipiente civilização, como se nada de mais importante fora feito pelos centros mais adiantados do país. Era o mesmismo. E ninguém queria ou buscava mudar coisa alguma.  (Segue)

quarta-feira, novembro 09, 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS (1)

Capa do livro
No próximo dia 22, o saudoso Clube da Madrugada completa mais uma efeméride. Para lembrar essa data, prossigo reproduzindo um texto do também saudoso poeta Alencar e Silva, compartilhado de seu livro Quadros da Moderna Poesia Amazonense.

PRELUCIDAÇÃO

Enquanto isso, porém, o tempo corria e conspirava contra a produção cultural local e, logicamente, contra o surgimento de novas luzes e novos talentos. E a coisa começava a repetir-se e a emperrar, enfim. De sorte que tudo parecia mais ou menos estagnado, como um grande rio que de repente deixasse de correr.

De fato, só com o término da guerra, o fim da ditadura e a esperada democratização do país, voltar-se-ia a respirar em Manaus um ma propício ao reflorescimento das artes e das letras e ao exercício da liberdade criativa.

Era chegada a hora dos grêmios e da consequente disseminação de suas tribunas políticas e literárias, a darem algum colorido à cidade e algum sentido à juventude. Impõe-se, assim, por sua própria expressividade, o devido registro dos nomes dessas entidades, porquanto de seu seio foi que saíram os quadros que iriam depois pontificar nas tribunas parlamentares, nas cátedras universitárias e nas lideranças empresariais, inclusive em outros Estados, por força do conhecido êxodo anual da mocidade amazonense, rumo ao sul do país, determinado quase sempre pela falta de oportunidades e, sobretudo, pela inexistência de universidade, eis que então se dispunha, tão somente, em Manaus, da tradicional Faculdade de Direito.

Só para referir, a voo de pássaro, as denominações daquelas entidades e alguns de seus integrantes, listamos os seguintes, observando uma certa ordem de precedência: Grêmio Heliodoro Balbi (Olavo Sobreira Sampaio, Evandro Carreira, Manoel Octávio etc.); Centro de Estudos da Mocidade (Áureo Mello, Plínio Coelho, Lúcio de Siqueira Cavalcanti, Ligier Herculano Barroso etc.); Sociedade Cultural Castro Alves (Almino Affonso, Aloysio Nobre de Freitas, Paulo Monteiro de Lima etc.); Grêmio Cultural Gonçalves Dias (Francisco Guedes Queiroz, Roberto Jansen, Arimathéa Cavalcanti, Othon e Fernando Mendes, Almir Diniz etc.); Grêmio Cultural Álvares de Azevedo (Hygino Caetano da Silva Filho, Platão Araújo, Alencar e Silva, Aluísio Sampaio, Leopoldo Péres Sobrinho, Jefferson Péres, Andrade Neto, Roberto Jansen etc.); Sociedade Amazonense de Estudos Literários (Anibal Duarte Beltrão, Alencar e Silva, Maria Leonor Coutinho dos Santos, Ambrósio Assayag, Guimarães de Paula, Astrid Cabral, Jorge Tufic, Anísio Mello, Milton Cordeiro, José Cidade d'Oliveira etc.).

Havia ainda o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, de caráter nacionalista, e a Associação Amazonense de Imprensa Estudantil, representativa dos diversos periódicos, de vida efêmera ou duradoura, que então circulavam.

Sendo certo que muitos de nós participamos sucessivamente de mais de um desses grêmios, fácil é compreender-se que muitos companheiros não tenham sido arrolados, enquanto que um ou outro possa achar-se deslocado. O que importa, em essência, é que muitos desses jovens, na década seguinte, ou, mais precisamente, a partir de 1954, fariam confluir suas águas para o grande estuário do Clube da Madrugada, onde um novo tempo começaria a correr.

Cabe lembrar ainda que os colégios tradicionais de Manaus, à época, viram os seus centros estudantis encherem-se de inusitadas atividades extracurriculares, de cunho literário, destacando-se entre eles o Centro Plácido Serrano e o Marciano Armond, do Colégio Estadual e do Instituto de Educação, respectivamente, nos quais a juventude mais idealista adestrava-se nos torneios do espírito e nos jogos florais da inteligência.

Deve lembrar-se, em particular, e não por acaso, o "Plácido Serrano", sob a presidência de Anísio Mello, poeta e pintor, que lhe embelezara a sede, dotando-a de palco e belos painéis laterais e também os jovens que ali se exercitavam nas tribunas, como Francisco Queiroz, Arimathéa Cavalcanti, Bernardo Cabral e Cláudio Ferreira Nobre.

Entre todos, porém, sobressaía-se a figura de Almino Affonso, cujos triunfos oratórios a todos deslumbravam. Já por volta de 1948, era ele — poeta — um líder prestigioso, a quem a política e a vida pública reservariam uma trajetória gloriosa nos parlamentos e na alta administração do país.

Por várias vezes esse virtuose da oratória parlamentar empolgou as sessões do "Plácido Serrano". Certa feita, o deputado Pereira da Silva, ali presente, depois de ouvir o jovem tribuno, e como que contagiado por sua eloquência, inflama-se também e profere emocionada oração, que assim começava: "Eu também já fui poeta e cantei esta terra com igual emoção...".

Referia-se o deputado ao seu livro Poemas Amazônicos, de inspiração nativista e vazado em versos livres, que ficaria como uma das primeiras manifestações do Modernismo no Amazonas. Essa obra fora publicada em 1927 e só seria reeditada quarenta anos depois. Por aqueles idos de 1948, Almino Affonso estudava em Manaus e passava as férias escolares de fim de ano em Porto Velho, com os pais, subindo o Madeira nos antigos "Gaiolas" ou "Chatinhas", que escalavam nas cidades de Borba, Manicoré, Humaitá e, finalmente, Porto Velho, daí retornando a Manaus.

Essas viagens, embora com vários dias de duração, nunca se tornavam monótonas ou cansativas, dada a alegria dos estudantes que partiam em férias. Coincidiu de viajarmos no mesmo navio, em 1948. Eu ficava em Borba, onde meu pai era Juiz de Direito, e Almino Affonso prosseguia viagem, por mais alguns dias, pelo belo e amarelo Madeira.

E a Academia? É preciso saber-se distinguir bem entre o que é permanente e o que é episódico. De modo geral, as academias de letras estaduais, como instituições permanentes que são, merecem ser contempladas com respeito e admiração, pelos serviços de alta benemerência que prestam à sociedade e à cultura, notadamente com relação à permanência em alta dos padrões da nossa língua. (SEGUE)

terça-feira, novembro 08, 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS

Apesar de desativado há tempos, o Clube da Madrugada segue lembrado por uma legião de saudosistas. Este mês de novembro marca seu 62º aniversário de fundação. 
Elson Farias contempla o poeta Alencar e Silva, 2004

Para relembrar esta efeméride, reproduzo (em três partes) a publicação sobre o Madrugada, produzida pelo falecido poeta - Alencar e Silva, em sua obra póstuma Quadros da Moderna Poesia Amazonense (Ed. Valer, 2011).

PRELUCIDAÇÃO

Esta prelucidação se faz indispensável por vários motivos, mas, em especial, por ensejar ao leitor uma notícia pormenorizada da situação em que se encontrava a capital amazonense, no período imediatamente anterior ao surgimento do Clube da Madrugada.

A redação destes textos foi feita ao sabor das lembranças, nos dois últimos anos do século recém-findo evitando-se naturalmente a pressa desfiguradora que pudesse incidir sobre o fluxo seletivo do que se tinha a narrar. Neste passo inicial, trata-se apenas de pôr em ordem e reduzir a termos as memórias que guardo acerca do tempo e das pessoas que compunham ou vieram a compor o cenário cultural da minha província natal, ao iniciar-me nos mistérios e graças da poesia.

É claro que, em se tratando de matéria de memória, deverão essas circunscrever-se ao meu tempo vital, isto é, ao que presenciei ou de que tive conhecimento através de fontes inequívocas. Para situarmo-nos mais facilmente no tempo, direi que nasci em 1930, no Alto Solimões, tendo decorrido toda a minha infância em Fonte Boa e Codajás, em cujas barrancas, diante do rio majestoso, aprendi lições de silêncio e de contemplação interior.

Daí por que sempre tive com os rios da minha terra uma espécie de relacionamento amoroso, de enamorado que se compraz em contemplar a amada, vendo-a passar. E mais contemplativo fiquei, e mais cauteloso, ao dar-me conta de que, por umas seis vezes, tanto no Negro como no Solimões e também, depois, no mar, eu escapara por pouco de morrer, ao afoitar-me em suas águas fundas.

Não obstante, a contemplação das grandes massas líquidas responde-me sempre com a sua serenidade. O certo é que, desde quando abri os olhos, cheios de perplexidade, para as misérias do mundo (que eu procurava entender, sem muito êxito), e as indagações do espírito me afundavam em prolongados mutismos - eu ia olhar e interrogar o rio. E o seu sereno fluir devolvia-me a paz. Isto, desde a infância e seus alumbramentos, dentre os quais um deslumbrante pôr de sol sobre o Solimões, que me fez ir às lágrimas, de pura beleza.

Aos dez anos, eu chegara a Manaus. E logo os rumores da Segunda Guerra Mundial e o afundamento de navios mercantes em águas territoriais brasileiras, por submarinos alemães, ecoavam e faziam sentir os seus efeitos diretamente na capital amazonense, refletidos no racionamento de quase todos os gêneros de primeira necessidade, produtos importados e energia elétrica, até chegar-se, mais adiante, ao permanente blecaute e à volta aos lampiões e lamparinas a querosene.

Tempos duros em que os cursos noturnos praticamente deixaram de funcionar ou o faziam a duras penas, à luz de velas. Estava-se em plena vigência do "Estado Novo". E a atmosfera que se respirava em Manaus era, como não poderia deixar de ser, quase só aquela "consentida" pela censura ditatorial, exercida em todo o país pelo Departamento de Imprensa e Propaganda.

Vale dizer: manifestações, só a favor; contra, nem pensar. Eu não conhecera até então outra realidade, senão aquela, mas sentia que havia alguma anormalidade naquilo tudo. Tempos de estranha unanimidade.

É claro que havia vida literária em Manaus, que sempre fora um centro intelectual requintado, o, mercê do surto de progresso e desenvolvimento determinado pelo ciclo de ouro da borracha, que lhe embelezara a cidade e propiciara o surgimento de uma elite perfeitamente sintonizada com a belle époque e em dia com a literatura francesa, cujo idioma muitos dominavam.

A intelectualidade da terra –  excetuada, naturalmente, aquela parcela que atuava extramuros da Academia – era, ainda na metade da década de 50, basicamente a que remanescia dos idos de 1918 (ano da fundação do silogeu amazonense) e reunia-se, por assim dizer, em torno das figuras de João Leda e outras lideranças de variada abrangência, escritores de elevado e justo renome, capazes de brilhar em qualquer cenáculo de cultura, mas que, enquanto viveram, ofereceram tenaz oposição aos cânones da Semana de Arte Moderna, de 1922.

Principalmente João Leda, vernaculista de nomeada, que chefiara uma infeliz manifestação de desapreço – incluindo vaia e panfletos – a Mário de Andrade, quando de sua estada em Manaus, em 1927, e que tanto desgosto causara ao rapsodo de "Macunaíma", o qual só por elegância não desfaria de público a impressão favorável e os louvores que a cidade lhe merecera, mas da qual se queixaria amargamente em cartas a amigos.

Esse episódio exemplifica, de algum modo, um certo vezo, que havia então, de considerar-se a capital amazonense uma destruidora de mitos e reputações. Citavam-se, a propósito, casos de intelectuais que, justa ou injustamente, ali teriam sido desmascarados etc.


Não constituirá, pois, mera metáfora afirmar-se que, ainda nos anos 50, havia trincheiras, dentro e fora da Academia, de onde se atiravam calhaus ao Modernismo. É claro que, sobrepondo-se a tais pecadilhos, a bela e vaidosa província sabia receber com graças de mulher formosa as celebridades que a visitavam. E disso nos dá conta a pena jovial de Genesino Braga, inexcedível cronista dos fastos históricos de Manaus.
 (segue)

quinta-feira, outubro 23, 2014

CLUBE DA MADRUGADA: 60 ANOS | 2




Logotipo do Clube da Madrugada
A instalação deste clube teve seu período de preparo, de indagações, e um pouco de aventura. E, porque não afirmar, um pouco de boa sorte.

Uma iniciativa da turma foi preponderante. Os jovens intelectuais aventuraram-se em duas excursões ao Sul do país, em busca do absolutamente novo para os insulados manauenses. O marasmo que tomara conta da cidade, na metade do século passado, assemelhada a uma cidade-fantasma depois do usufruto dos privilégios produzidos pela exploração da borracha, no início do século, aniquilava a todos em todos os sentidos.

Apoiados de certo modo pelos Governos do Estado e Federal, valendo-se de uma “carona” em avião da FAB, partiram de Manaus e, como assegura a placa comemorativa, aconteceu...
 
Capa do livro
A descrição desse período encontra-se fartamente narrada em 30 Anos do Clube da Madrugada, publicação de Jorge Tufic (1984). Trinta anos depois, em novo livro, O sonho de Tibério (2011), este respeitado cronista e poeta resume a peripécia inicial dos fundadores do Madrugada, a qual transcrevo abaixo.


AS CARAVANAS I e II


Certo dia do ano de 1951 (a data correta pode estar com o Neto), largou-se de Manaus com destino ao Rio de Janeiro um grupo de jovens que, ao atingir o Sudeste, ficou sendo conhecido por Caravana dos Monges. Levara-o um Catalina da Força Aérea Brasileira (FAB).
Ao sair da capital amazonense ele era composto apenas por Farias de Carvalho, Alencar e Silva (ou Neto) e eu. A
partir do Rio, com Antístenes Pinto, formou -se o quarteto de poetas em direção ao extremo Sul do País, de São Paulo em diante com o patrocínio da Seguradora Nacional Prudência e Capitalização.
Adalberto Vale na direção da empresa e Ramayana de Chevalier como assessor e amigo deste na área de relacionamento cultural e diplomático.
No livro Clube da Madrugada: 30 anos ocupei-me no esboço dessa grande aventura, colocando-a, como não poderia deixar de ser, nos antecedentes do próprio clube. Procurei fazê-lo com a devida cautela, para evitar a insinuação de quaisquer influências externas sobre o ideário em curso daqueles outros jovens pioneiros, cuja liderança se dividia entre poetas e estudantes universitários.
O fato é que as caravanas de 1951 e 1953 (pois houve essa última, com a participação de Guimarães de Paula, iniciando-se pela costa do Atlântico), ficaram deslembradas ou esquecidas nos cinquentenários anteriores ao Clube da Madrugada, ou seja, em 2001 e 2003.
Seria uma boa oportunidade para relembrar as façanhas do grupo, sua audácia e os destaques por ele alcançados em São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.
Para ficar apenas em dois exemplos: a Rádio Gazeta entrevistou-nos sobre os objetivos de nossas viagens no disputadíssimo programa Enciclopédia do Ar (equivalente, hoje, ao programa do Jô Soares na TV), estivemos em visita à casa de Menoti deI Pichia, enquanto, ao nosso lado, o estudante de Direito e futuro ministro do Trabalho, Almino Affonso, fazia-nos companhia, declamava seus poemas de sabor paulistano, sonhávamos juntos.
Terá sido a falta de uma data, devidamente lançada e comemorada, o que deixara em branco as andanças e o trabalho das duas caravanas? Mas isso é sanável.

sábado, setembro 20, 2014

SUPLEMENTO LITERÁRIO




 
Capa da publicação
Quando diretor do Diário Oficial do Estado na década de 1980, o falecido Joaquim Alencar e Silva (poeta bem conceituado em nossa terra) implantou um caderno com o título de Suplemento Literário Amazonas (SLA). De circulação mensal, perdurou entre novembro de 1986 e, creio, a exoneração deste diretor do periódico oficial.
Conhecia alguns exemplares, mas, dia desses, encontrei no Sebo de Antonio Diniz uma preciosidade: a Coleção dos Primeiros 12 Números do SLA, com uma dedicatória do mencionado dirigente. E prometo fazer bom proveito, em especial publicando aqui o material ali encartado.
Dou início, apresentando o corpo redacional e o editorial do número de estreia, para que se registre mais esse movimento, entre tantos outros produzidos na Cidade pelos intelectuais.

Editor do Suplemento – Alencar e Silva
Programador visual – Arthur Engrácio
Secretária – Maria Lindalva de Mello
Comissão editorial – Jorge Tufic, Anísio Mello, Rita Alencar e Silva e Socorro Santiago.

(No local do editorial)

A instituição de um suplemento literário, no Diário Oficial do Estado, a exemplo do que, de há muito, ocorre em quase todas as Imprensas Oficiais do país, sempre constituiu um anseio da intelectualidade amazonense. Algo assim, de encher os olhos, como o S suplemento literário de Minas Gerais, que acaba de ingressar gloriosamente na maioridade dos seus vinte anos de bons serviços prestados à Nação.
E eis que, finalmente, Suplemento Literário Amazonas vem de acontecer. Cercado de expectativas e esperanças. E, sobretudo, do desejo de bem servir a comunidade e à Nação. Sem qualquer sentimento menor. Nem de modéstia. Comprometido, antes, com o propósito maior de espelhar a realidade literária local, projetá-la, com vigor, como convém no cenário cultural do país – e fazê-la conhecida de nossos irmãos de todos os quadrantes da Pátria.

Nasce, pois, o SLA com o objetivo de estender pontes entre o nosso e os demais Estados da Federação, viabilizando, assim, um efetivo intercâmbio de conhecimento e experiências das diferentes realidades locais.
 
Anísio Mello
Esse esforço de comunicação dirige-se, por igual, ao “público interno”, ao qual o SLA procurará servir, mais de perto, de modo, inclusive, a minimizar a desinformação de nossos estudantes acerca de autores amazonenses, notadamente os nossos poetas, aqui e ali acusados de parnasianos, enquanto, na realidade, pouco ou nada se faz para o conhecimento de seus trabalhos.

Cercado, assim, dos mais altos propósitos é que surge o Suplemento Literário Amazonas. E com ele, esperamos, daqui por diante, um novo tempo começará a correr para os artistas e escritores locais. Na medida, é claro, em que todos respondermos de modo positivo à iniciativa que ensejou a sua concretização.