CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

30 de setembro de 2011

Posse de acadêmico

Com o atraso de sessenta minutos, o presidente José Braga, presidente da Academia Amazonense de Letras, abriu a sessão de posse do acadêmico Francisco Marques Vasconcelos na Cadeira 40, de Paulino de Brito, sucedendo a Waldemar Batista Salles.

Presidente Braga, Francisco Vasconcelos e
Arlindo Porto (a partir da esq.)
Após a execução do Hino Nacional, o mais novo acadêmico foi introduzido no Salão do Pensamento Amazônico, conduzido pelos confrades Cláudio Chaves e Moacir Andrade.


Os convidados e assembleia dos literatos ouviram o discurso do novel integrante da Casa de Adriano Jorge. Durou cerca de quarenta minutos. Em seguida, recebeu das mãos do presidente José Braga o colar, distintivo da agremiação, e o respectivo diploma.


Para dar as boas vindas, falou o ex-presidente Elson Farias. Os cumprimentos ao empossado e o coquetel comemorativo foram realizados no salão Mario Ypiranga Monteiro.
Parte dos acadêmicos presente a solenidade

Almoço dos coronéis PM

Oficiais da Polícia Militar do último posto reuniram-se hoje, como de tradição na última sexta-feira do mês, no restaurante do Emporium Roma. O encontro teve a destinação precípua de almoçar e atualizar o papo. Assuntos não faltam: os ganhos, as enfermidades, e a renovação dos envelhecidos causos.


Convidado para escrever uma página para a revista da PMAM, descolei antigas fotos de integrantes desta corporação nos “arquivos mortos” (desculpem-me os bibliotecários pela agressão).
Para estimular a conversa no almoço, tomei uma iniciativa. Providenciei a reprodução de boa quantidade destas fotos, fotografias de colegas realizadas quando a turma havia concluído o serviço militar ou ingressado na PM. Ou seja, aos 19 ou 20 anos. Faz algum tempo, não?

De cima, a partir da esq. Mael Sá, Encarnação, Romeu Medeiros,
Ruy Freire, Célio Silva, Humberto, José Cavalcanti,
dr. Abelardo Pampolha, Amilcar Ferreira e
prof. dr. Mauro Teixeira (ex-vice-reitor da Ufam)
Serviu para descontrair. Um ou outro não se reconheceu, outros duvidaram, e houve quem não fosse reconhecido. Parte deste material ilustra a postagem.
Estiveram presentes 25 coronéis: José Cavalcanti; Pedro Câmara; Osório Fonseca; Helcio Motta; Célio Silva; Paulo Vital; Ari Renato; Claumendes Cardoso; Raimundo Encarnação; Romeu Medeiros; Odorico Alfaia; Ruy Freire; Abelardo Pampolha; Amilcar Ferreira; Deusamar Nogueira; Humberto Crispim; Franz Alcantara; Mael Sá; Silvestre Torres; Homero Leite; Edmilson Nascimento; Ewerton Amaral; Eber Bessa; Edson Matias; Roberto Mendonça.
Até o próximo

29 de setembro de 2011

Djalma Passos por Arthur Engrácio


Major PM Djalma Passos
Volto a mencionar o poeta Djalma Passos, nascido na capital acreana, em 1923, e morto no Rio de Janeiro, em 1991. Ainda estudante editou seus primeiros poemas, que os transformou em livros.
Certo dia, na capital amazonense, começou a vida ingressando na Polícia Militar. E começou de baixo, porém avançou pela longa hierarquia militar, até passar para a reserva (aposentado, para os civis) no posto de tenente-coronel. Este fato ocorreu em 1965.

Passos exerceu outras atividades. Professor foi uma delas, lembra-se bem outro amazonense, Rogel Samuel, que relata com detalhes a competência do mestre.
Não resistiu, ou foi atraído, à atividade política. Nela ingressou e nela se realizou, alcançando a Câmara Federal. No entanto, foi sob esta exclusiva perspectiva que passou à história.
“Esqueceram o poeta”, relembra o saudoso Arthur Engrácio em seu livro póstumo Os tristes (1997).

O escasso necrológio de Djalma Passos, falecido na segunda quinzena de junho, no Rio de Janeiro, publicado nos jornais de Manaus e falando apenas do político, diz bem do pouco conhecimento que se tinha do poeta e do escritor.
Capa do livro de Engrácio


Ocorre com ele o que ocorreu com Álvaro Maia – também político e poeta –, cuja atividade política, por ser, talvez, mais assídua e dominante, empanava-lhe a atividade literária. Não são casos isolados. Muitos outros bons escritores têm-se obscurecido com o sortilégio dessa dama fascinante – a Política.

No entanto, em Djalma Passos, pari passu com o político, caminhava, com a mesma seriedade, o intelectual, o homem de letras no mais acabado sentido do termo. Poderia ter-se tornado nome nacional, não fosse a sua excessiva modéstia, que o fazia arredio dos meios onde a sua obra tinha oportunidade de ser divulgada e promovida.

Djalma Passos deu uma contribuição valiosa às letras do Amazonas, publicando Poemas do tempo perdido (1948), As Vozes amargas (1952), Tempo e distância (1955), Bazar de angústias (1973), Ocupação da Amazônia e outros problemas (1974) e Notas de literatura contemporânea (1977). Relidos, agora, tenho sobre a mesa três dos seus melhores livros.


Ocupação da Amazônia e Outros Problemas. Esta obra integra Djalma Passos ao quadro dos escritores verdadeiramente preocupados com a problemática amazônica – a que de fato deve polarizar – hoje mais do que nunca - a atenção de quantos, amazônidas ou não, vivem e lutam pelo bem-estar desta região.

São quase duzentas páginas de texto, onde o autor, servido sempre de assinalável cultura, analisa fatos e expõe pontos de vista relacionados à grande questão que tem construído, até hoje, a Amazônia. Sua experiência de ex-parlamentar ajudou-o muito no enfoque desses problemas, cuja solução maior vem o governo federal procurando dar. O livro traz, inclusive, vários projetos de sua autoria, em que ele se ocupa, primordialmente, de nossa região, mostrando ao Brasil as nossas mazelas, necessidades e anseios – legítimos sob todos os aspectos – de integrarmo-nos ao resto do País, recebendo deste, também, as benesses do progresso e da civilização.


Em Outros Problemas, que constitui a segunda parte da obra, o autor aborda outras realidades brasileiras, como o analfabetismo, a ocupação dos nossos espaços vazios, a reforma educacional, o amparo à infância abandonada etc. São páginas de menor amplitude, mas nem por isso destituídas de valor, de interesse, elaboradas sob a mesma motivação que o levou a escrever os demais trabalhos do volume.
Capa de As vozes amargas


Ocupação da Amazônia e outros problemas, sem ser obra especializada, é um livro que fala de problemas brasileiros atuais, equilibrado, vazado em boa prosa, tendo a virtude de trazer a debate, reavivando-o, um tema para nós da maior significação – a Amazônia.


As Vozes Amargas encerra os melhores momentos da poesia de Djalma Passos. É, a nosso juízo, o seu livro de maior expressão literária, levando-o a alcançar, quando do seu lançamento, significativo êxito de crítica e livraria. Constitui-se de poemas de cunho social, de delicada inspiração e onde o autor atinge porventura os vôos mais altos dentro do seu universo poético


Essas estranhas e soturnas vozes/
Vem dos submundos da vida/
Da garganta enrouquecida dos homens famintos/
Daqueles que gemem nos catres imundos dos hospitais. (Estranhas Vozes).

Em As Vozes Amargas, alternando com poemas de caráter social, há versos de profundo toque lírico, de irrecusável beleza, onde a voz do poeta, sem perder o amargor, reveste-se de nostálgica e dilacerante paixão. Esta estrofe de Poema da terna ausência, fala por ele:

Não mais te ver...
Nunca mais durante a existência inteira
Sentir em minhas mãos vazias as tuas mãos afáveis
Que escreveram tateantes como rosas inspiradas
Na epiderme torturada
O poema de todas as carícias...


Bazar de Angústia é o outro livro do autor que reli com agrado. Nele estão reunidos contos e crônicas, subordinados a temas variados e todos repassados daquele humanismo que se tornou a característica das obras de Djalma Passos. Para o meu gosto, o cronista coloca-se acima do contista, abordando com propriedade os assuntos do dia a dia, que constituem, em verdade, a matéria-prima de que se utiliza o escritor desse gênero da literatura

A síntese, a leveza, o tom poético da frase estão presentes na maioria das crônicas de Bazar de Angústia: "A noite pontilhada de estrelas, branca de luar, continuou como uma sedução diante de meus olhos", "(...) deixei que me invadisse o ar suave da noite pura e contemplei a cidade penetrada de silêncio". "Há cânticos de passarinhos penetrando em meus ouvidos (...)", "... como se eu fosse um estranho caminhante coberto só de andrajos e ilusões", "Da juventude que é a dona do mundo e para quem brotam as flores e nascem todas as manhãs", "A vida é um instante fugaz no relógio do tempo".

As crônicas de Djalma Passos lembram as de Fernando Sabino, pelo tratamento de ficção que o autor lhes dá. Aliás, com um tratamento técnico mais apurado, a maioria delas poderia transformar-se em pequenos contos, enriquecendo mais o número das histórias curtas que o volume contém.

As informações sobre Djalma Passos que aqui se alinham, têm um fim específico: 1) reparar a lacuna dos obituários da imprensa, que esqueceram o poeta; 2) revelar aos leitores amazonenses, notadamente, aos da nova geração, a importância da sua obra literária, a qual, tão autêntica e valiosa quanto à sua obra política, há-de merecer sempre a nossa homenagem.

28 de setembro de 2011

Academia Amazonense de Letras (5)

Fundada em 1918, com 30 integrantes, logo a Academia Amazonense de Letras sentiu esta estrutura se reduzir. Primeiro, pela morte no mesmo ano do vice-presidente, Heliodoro Balbi, de pronto substituído pelo médico Ribeiro da Cunha.


Em seguida, morreram Thaumaturgo Vaz (1921); Ribeiro da Cunha (1925), Octavio Sarmento (1926). Na década seguinte, foram-se Araújo Filho (1931), Raimundo Monteiro (1932) e Alcides Bahia (1934). Nesse ínterim, outros acadêmicos optaram pelo caminho do roadway, transferindo-se sobretudo para o Rio de Janeiro ou retornando a terra de origem.

A situação causada pelo desaquecimento da exportação da borracha, único sustento da economia amazonense, afugentava a todos. Não apenas aos intelectuais, foram levas de conterrâneos que se refugiaram ou em Fortaleza ou na Capital Federal.
Sede da Academia, ao tempo de sua
inauguração
Outra situação bem peculiar da época: eleitos que não tomaram posse, por se encontrarem residindo em definitivo fora de Manaus. Mas, houve quem recusasse peremptoriamente a honraria. Quem sabe o exemplo mais clássico seja do 4º bispo do Amazonas, Dom João da Matta, que seu biógrafo, padre Nonato Pinheiro, “esqueceu” de analisar o fato.

Apesar desse amplo marasmo, em 1934, o interventor federal Nelson de Mello, capitão do Exército, estimulado por acadêmicos envolvidos com seu governo, providenciou a sede da Academia, pois até então as tertúlias eram realizadas em espaços os mais diversos, públicos ou privados. Em qualquer lugar onde se encontrasse um grupo de acadêmicos, ressalta o ex-presidente Robério Braga.

Em novembro desse ano, a diretoria pode se reunir pela primeira vez no novo (e atual) endereço. Assinaram presença 11 associados, Adriano Jorge; Péricles Moraes; Leopoldo Péres; Anísio Jobim; Jonas da Silva; Agnello Bittencourt; Araújo Lima; Huascar de Figueiredo; Carlos Chauvin; Waldemar Pedrosa e Coriolano Durand, sob a direção do primeiro.

A 6 de janeiro seguinte, ocorreu a inauguração da nova sede. Na ocasião, a congregação dos literatos amazonenses homenageou ao mecenas da Casa de Adriano Jorge, outorgando-lhe o titulo de Presidente de Honra, com a aposição do retrato deste oficial (morto quando marechal, em 1989) no salão principal. Prestigiaram a solenidade os mesmos que se reuniram na pré-estreia da sede.

A nova sede parece não ter solucionado todos os problemas do silogeu, ao contrário, os transtornos e os desfalques evoluíram, tantos que a diretoria em abril de 1949 resolveu relacionar os acadêmicos: Péricles Moraes; João Leda; Leopoldo Péres; Arthur Virgilio; André Araújo; Anísio Jobim; José Jorge Carvalhal; Agnello Bittencourt; Alfredo da Matta; Álvaro Maia; Paulo Eleutherio; Ramayana de Chevalier; Waldemar Pedrosa; Raul de Azevedo; Felix Valois Coelho; Mário Ypiranga; Aristophano Antony; Nonato Pinheiro e Djalma Batista. Total: 18
Dr. Djalma Batista

No entanto, basta uma ligeira passada de olhos nos assentamentos da Academia, para se observar que alguns dos relacionados alcançaram a imortalidade anos depois. Como ocorreu com Ramayana, empossado em 1960, e Nonato Pinheiro e Jorge Carvalhal, empossados em outubro e dezembro de 1949, respectivamente.
Cabe, entretanto, uma explicação: o intelectual, a partir de sua eleição, era considerado acadêmico, com direito a participar das atividades do silogeu.

Largo 28 de Setembro

28 de setembro



1871 – Ocorre a assinatura de lei imperial, que concedia liberdade aos filhos de escravos nascidos a partir desta data. A decisão imperial tomou a alcunha de “Lei do Ventre Livre”. Em sua homenagem, o logradouro em frente ao então Palacete Garcia, tomou esta denominação – Largo 28 de Setembro.
Atual Palacete Provincial, pertencente a Secretaria de Estado da
Cultura
Depois ainda teve meia dúzia de denominações, mas a mais conhecida é de Praça da Polícia, a Polícia Militar do Estado ocupou o Palacete por mais de uma centúria.

Atual Palacete Provincial, na praça da Polícia, 2010

26 de setembro de 2011

Acidente de avião, 40 anos

Jornal do Commercio, 29 set 1971
Estava devendo um recorte de jornal ao historiador Aguinaldo Figueiredo, nascido e criado no bairro de Santa Luiza, e autor de um livro premiado sobre aquele pedaço da Zona Sul.


Vou fazer a entrega em público. Trata-se do acidente de aviação, acontecido naquele bairro, com o “avião” teco-teco de prefixo PT-CXP, pertencente a prelazia de Roraima, em 1971. São, portanto, quarenta anos passados desde aquela manhã.

Não houve mortos a lamentar, apenas feridos, conduzidos ao Pronto Socorro do Estado, hoje Urgência. Os acidentados foram Weber Bastos, piloto; João Siqueira da Silva, coronel da reserva da Força Pública de São Paulo; padre Mário, da prelazia; Eduardo Penteado.

Quem de fato sofreu foi o Sr. José Felix da Silva, proprietário de três casas de madeira sobre as quais o pequeno avião encerrou sua viagem.

Memória amazonense

1956, setembro, 26

 
Antes que se esqueça: há 55 anos, nessa data morreu, em Manaus, o escritor Péricles Moraes. É considerado pelos seus contemporâneos um intelectual excepcional, um dos mais importantes da Academia Amazonense de Letras, que ajudou a fundar e a presidiu por décadas.

A ilustração foi retirada do Diário da Tarde, Manaus, 26 setembro 1956.




25 de setembro de 2011

Alencar e Silva (1930-2011)

Neste domingo, enquanto parte dos torcedores do Rio de Janeiro vibrava com a conquista vascaína, o amazonense nascido em Fonte Boa, no médio Rio Amazonas, Joaquim Alencar e Silva “entregava a alma a Deus”, aos 81 anos, completados nesta quarta-feira. Há anos, nosso poeta residia no Rio e enfrentava dura enfermidade.

Alencar e Silva, 1982

Alencar e Silva, sua identidade literária, mas que os íntimos conheciam por Neto, encerrou sua atuação na Academia Amazonense de Letras, deixando vaga a Cadeira 23, cujo patrono é Cruz e Souza. A poucos dias da eleição que iria completar o quadro dos acadêmicos.

Poeta destacado, lançou seu primeiro livro – Paineis (1952), portanto, às vésperas da inauguração do Clube da Madrugada, que ocorreu em 1954. Muito depois, veio Lunamarga (1965). Sobre o Madrugada e este poeta, o finado Ramayana de Chevalier escreveu em O Jornal, Manaus, 1968:

Um dia, um punhado de loucos quis criar uma fábrica de gênios. Eram lúgubres filhos do Inferno Verde, anjos nascidos nas asas da acauã, sazonados em sóis de sangue, paridos por abelhas macróbias, trazendo na alma o sinete dos grandes momentos amazônicos.


Quando esses jovens pretenderam criar, já estavam velhos, já eram artistas consumados, já haviam percorrido os caminhos admiráveis da Grécia, os valhacoutos sombrios de Creta, os bairros tumultuosos de Esparta e de Atenas, as margens sombrias do Sena e do Tâmisa.

Não haviam saldo de Manaus e já conjugavam todos os verbos da poesia universal. Eram pastores de ovelhas serenas e verdes. Bebiam, pelo gargalo das garrafas, a sede dos Bacos-Dionlsios de todas as épocas.

Entre eles estava Alencar e Silva, o Neto. Simples, calmo, um bronze arcaico num sorriso ameríndio. Seu coração pedia flores e seus nervos se alimentavam de vulcões mornos e meigos. O Amazonas ouviu seus lamentos.

O Clube da Madrugada é responsável por uma ressurreição e por uma luta. Brava, musical, inapagável, violenta e infinita. Todos os amazonenses, um dia saberão o que significa esse Clube e esse punhado de moços, teimosos e magníficos que amam a Arte e a Beleza.

Lunamarga é uma revelação. Do artista, do homem, da pureza da vida, da candura da terra. Um poeta: Alencar e Silva. Um destino: o seu grupo. Uma realidade: a Amazônia.

Este livro mereceu o prefácio do finado L.Ruas (1931-2000), que registrou:
Lunamarga é um livro de maturidade, ou melhor, de maturação. Alencar e Silva é um homem voltado para as grandes realidades interiores. É um reflexivo por natureza. É um meditativo. Até o seu modo de falar nos diz isso claramente. Não é um extrovertido. Um
palrador.

Fala como se estivesse sussurrando, confessando um segredo. Há sempre um silêncio envolvendo cada palavra que ele profere. O silêncio é o seu "habitat". Ninguém pode deixar de comungar com a realidade. Mas isto pode ser feito de duas maneiras.

Há indivíduos que, por assim dizer, se deixam devorar pela realidade externa. Outros, ao contrário, se transformam em receptáculos e absorvem, na sua interioridade, o mundo exterior. Alencar e Silva é assim. A realidade, para ele, é apenas pretexto para manifestar seu universo interior. Não se transforma na paisagem. A paisagem se transforma nele. (...)

O homem mergulhado no seu próprio mistério, que é vida e morte, angústia e canto, inconsistência e rosa, não para explicá-lo, mas para vivê-lo ou sofrê-lo que é a mesma coisa. O homem diante de seu mistério, conscientemente diante dele, poeticamente diante dele, maravilhadamente diante dele:
o meu rosto se move horrorizado
sem se encontrar em qualquer dos espelhos.

Neto publicou ainda Território Noturno (1982), e mais poesia em Sob Vésper (1986).
Enfim, facilitou tudo editando a Poesia Reunida (1987).
Alcançou a Academia Amazonense de Letras em eleição de maio de 1992, tendo ocupado a poltrona azul do Salão do Pensamento Amazônico em agosto do mesmo ano. Foi saudado pelo poeta Max Carphentier, em sessão conduzida pelo saudoso presidente Oyama Ituassu.


Arthur Engrácio, saudoso crítico literário, analisou o Território Noturno, último livro de Alencar e Silva (Casa Editora Madrugada, 1982, 86 páginas), levando-se em conta o que preceitua o ensaísta de "Missão em Portugal", enquadra o autor, com muita justiça, na categoria de poeta maior.

Publicou ele até agora três livros, mas todos com a preocupação do duradouro, do imperecível, do eterno, do sondador que leva ao limite máximo a sua operação. Território Noturno é como que a condensação dos muitos outros livros que o poeta tivesse escrito nesses trinta anos de atividade artística e não os houvesse publicado (não teria ocorrido isso?). Porque o que domina as suas páginas é o essencial mesmo; é a pureza da forma, é a filtração das idéias impondo-se com muita força ã sensibilidade do leitor. Cada peça do volume lembra a filigrana em que o ourives imprime a magia das suas mãos privilegiadas.


Esta é a imagem que mais se ajusta à arte de Alencar e Silva. Quem o conhece como nós outros, nesses seis lustros do seu peregrinar poético, não ignora o quanto vale para ele a palavra escrita; conhece a luta que trava com ela diuturnamente, no afã de prendê-la, de dominá-la - e sabemos que na hora de tê-la ao nosso serviço, quanto é esquiva e fugidia!

de seus versos. De minha parte, despeço-me, reproduzindo dele um Soneto, incluído em Território Noturno, que nos lembra com amargor a esta tarde de setembro.

SONETO DE SETEMBRO


Eis que volve setembro e traz nos ombros
as clâmides azuis da primavera.
Vem como vinha e como virá sempre:
ressuscitando o verde pelas tardes.
Eis que volve setembro e novamente
o azul amplia o céu e o mar profundo
enquanto o amor retece uma coroa
de flores para a fronte constelada.
Eis que volve setembro e são quarenta
e sete vezes que ele a mim retorna,
e suas asas e seu hausto suave
ainda me aquecem neste claro agora.
Eis que volve setembro. A tarde larga
é ainda a mesma, só que um tanto amarga.
 
Há muito a dizer, seus amigos e leitores sempre apregoaram os benefícios colhidos
Dentro de um poliedro de mil faces

24 de setembro de 2011

Serviço Social

Ainda da revista Temas em foco (nº 1, 1970), da Faculdade de Filosofia da Universidade do Amazonas, saquei o texto abaixo:



O PAPEL DE UMA ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL NO DESENVOLVIMENTO

Regina Coeli Araújo de Carvalho

André Araújo, pai da autora
A ideia da criação de uma Escola de Serviço Social em Manaus, era o sonho que preocupara o espírito do seu fundador, o desembargador André Araújo e de Maria de Miranda Leão, a inesquecível "Mãezinha", que toda a Manaus tão bem conhece, admira e não esquecerá jamais.

Em janeiro, 1941, essas duas criaturas, seguidos de perto por Sadoc Pereira [desembargador], Cássio Dantas, Carlos Barroso, Elmacino Araújo, Zulmira Bittencourt e mais um grupo de pessoas, fundaram e instalaram a Escola de Serviço Social de Manaus, numa das salas do prédio onde funcionava o Juizado de Menores, no antigo Grupo Escolar Marechal Hermes, à rua José Clemente, vizinho ao Tribunal Eleitoral [esquina da av. Eduardo Ribeiro, veja a ilustração] 

A Escola de Serviço Social provém de uma intensa movimentação cultural e idealista que se verificava em Manaus, onde a mocidade contava com apenas algumas unidades de ensino superior: as faculdades de Direito, Agronomia, Farmácia e Odontologia.
Parece que a Escola de Serviço Social de Manaus surgiu também como consequência de um fenômeno decorrente da necessidade de pessoal técnico para atender aos problemas sociais que afligiam especialmente a infância do Amazonas. E esses problemas eram já de há muito o objeto de estudos e pesquisas do sociólogo e então Juiz de Menores André Araújo.
Edifício já demolido onde funcionou o TRE e o Juizado de Menores,
av. Eduardo Ribeiro esquina da rua José Clemente
Já em 1941, a primeira turma de alunos se preparava para o sublime mister de assistir, ajustar e promover os marginais. Era uma turma de 42 estudantes, - os primeiros assistentes sociais do Amazonas a serviço do Brasil.

27 anos depois, no dia 16 de fevereiro de 1968, foi a Escola de Serviço Social de Manaus, num gesto grandioso, que todo o Brasil tomou ciência, integrada à Universidade. Este foi um ano histórico para a ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL, - graças a dois homens: André Araújo, que a fundou e construiu, e o magnífico Reitor, Dr. Jauary Guimarães de Sousa Marinho, que numa prova da mais alta compreensão do sentido que deve orientar uma Universidade, generosamente a adotou, integrando-a à Universidade do Amazonas.

Aqui, nesta Escola de Serviço Social, professores e alunos vivem realmente a Universidade, porque estão convencidos que uma Universidade é o maior baluarte do Desenvolvimento.
Nesta casa, o Serviço Social é o objeto de todo o nosso trabalho; um Serviço Social que não é, como alguns podem supor, um requinte de vaidade ou exibicionismo, mas uma necessidade que se impõe aos interesses do meio social a que se destina servir.

O nosso objetivo é: o Brasil, e o Amazonas, através da Escola de Serviço Social, como parte da nossa Universidade.
Como bem acentuou Anísio Teixeira, "o problema humano passou a depender bàsicamente do modo pelo qual a inteligência pode funcionar na sociedade dos homens". Daí, a necessidade da Universidade, como fundamento do progresso humano, como princípio básico do desenvolvimento.

O Serviço Social é o meio mais' eficiente para interferir na realidade social. Pelo seu dinamismo, ele, o Serviço Social, movido pelas mudanças do processo de desenvolvimento, é o instrumento único para a integração total do homem ao meio.

Disso decorre a importância da Escola de Serviço Social no Amazonas, que ora se desenvolve e cresce para um futuro imortal. Sabemos que o Serviço Social se caracteriza pela atuação junto a indivíduos com desajustamentos familiares e sociais.
A Escola do Serviço Social funcionou neste prédio já demolido, 
na av. Getulio Vargas, em frente a academia do Cheik
Não ignoramos ainda que tais desajustamentos decorrem, muitas vezes, de estruturas sociais inadequadas. Os problemas sociais não existem por si mesmo. Nós os encontramos nos seres humanos. Por isso, o assistente social, além do problema, olhará a pessoa que tem dificuldades e problemas de adaptação. E isto é um mister sem precedentes. E' uma arte de difícil aplicação, pois deve adaptar-se às diferenças individuais.

Como assistentes sociais, não podemos generalizar os problemas. Eles são sempre únicos e individuais, - mesmo sabendo-se que fatores sociais, culturais, religiosos, espirituais, emotivos e psicológicos podem atuar decididamente em cada caso.

No trabalho relevante de educação ou desenvolvimento, o homem será sempre o centro de toda a atividade. E o Serviço Social, pelo seu caráter promocional, será a constante em qualquer (sic) realizações desta natureza.
Daí acreditarmos que a importância de uma Escola de Serviço Social, dentro de uma Universidade, bem como numa comunidade em desenvolvimento, é algo sem precedente.

As exigências do processo de desenvolvimento dos povos vêm impondo ao Serviço Social o desempenho de novos papéis. Tudo como consequência da inserção da profissão na realidade econômico-social das regiões ou países.

Nos dias atuais, um dos objetivos do Serviço Social é solucionar os problemas que impedem os indivíduos, famílias, grupos, comunidade e populações de alcançarem padrões de vida sócio-econômica compatíveis com a dignidade humana.


"Todo indivíduo tem direito a um determinado nível de vida mínimo no terreno econômico, cultural e familiar".

A busca por um humanismo novo, como quis o Papa Paulo VI, exige técnicas, pessoal especializado e uma reflexão profunda em torno da pessoa humana, donde se evidencia o valor do papel do assistente social na realização do verdadeiro desenvolvimento.

Problemas decorrentes das carências naturais ou morais, a exploração dos trabalhadores e todas as formas de injustiça social, são a constante na missão do assistente social, nos dias de hoje.

O Progresso só tem sentido quando em função do homem.

Por isso, a importância do papel de uma ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL no desenvolvimento como causa da total promoção do homem. Conjuntamente com a Universidade, os estudantes e profissionais do Serviço Social, estão a serviço da comunidade no trabalho de engrandecimento da Amazônia.
Compreendemos que só num trabalho dessa natureza, repousam os fundamentos do verdadeiro desenvolvimento.

23 de setembro de 2011

Omar Aziz: em três tempos


O primeiro tempo mostra o atual governador – Omar Aziz, reverenciando o ex-governador Eduardo Braga, quando aquele assumiu a presidência da Câmara Municipal. Na oportunidade, foi visitar o prefeito de Manaus – Eduardo Braga, acompanhado dos vereadores Bosco Saraiva e Artur Bisneto. A foto pertence ao jornal Diário do Amazonas, de 15 dez. 1994.
Eduardo Braga (prefeito), Bosco Saraiva (presidente eleito da CMM),
Omar Aziz e Artur Bisneto (sentados, a partir da esq.)
No segundo tempo, vemos o governador Braga acompanhado do finado deputado estadual Wallace Souza, que foi acusado de inúmeras peripécias ainda em julgamento,  envolvendo os irmãos Souza. No instante, Carlos é deputado federal, e Fausto, pertence à Assembleia Legislativa. A foto foi realizada em uma solenidade na Polícia Militar, presente o então vice-governador Omar Aziz, o comandante-geral da PM, coronel Dan Câmara.
Coronel Dan Câmara, governador Braga, deputado Wallace Souza,
vice-governador Omar Aziz (a partir da esq.), em solenidade no
quartel da Polícia Militar do Amazonas
Terceiro tempo: o governador Omar Aziz grava sua mensagem pela passagem do aniversário da PM do Amazonas.

Govenador Omar Aziz, coronel Dan Câmara (ao fundo)

21 de setembro de 2011

Revista da Faculdade de Filosofia

Em 1970, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), sob a direção do professor João Chrysóstomo de Oliveira, então pertencente à Universidade do Amazonas (UA), produziu sua primeira revista, intitulada de Temas em Foco, e impressa nas oficinas da extinta editora Sérgio Cardoso (rua Joaquim Sarmento, 78).

Capa da Revista

Temas em foco, ao circular, seguia a orientação do corpo redacional dos professores Mário Ypiranga Monteiro e Genesino Braga. Contou com a colaboração de alguns mestres, entre estes, cônego Walter Nogueira, padre L. Ruas, frei Alberto de Manaus (prof. José A. Araújo), Iraclito Chaves Garcia, Neide Ferreira de Souza.

Para registrar este documento, reproduzo a apresentação da revista pelo diretor, em Anteloquiando, e o texto do cônego Walter Nogueira sobre o aparecimento da Faculdade de Filosofia.




ANTELOQUIANDO

Lançando TEMAS EM FOCO, órgão publicitário e divulgador desta Faculdade, atendemos a dois imperativos - o imperativo regimental e o de ordem cultural.

Quase que diariamente recebemos publicações de unidades universitárias do Sul, com pedidos de permuta aos quais ainda não podemos atender.
Prof. João Chrysostomo

Ainda que com apresentação modesta, entregamos ao mundo universitário este órgão com o ideal de servi-lo e com o justo anseio de receber suas preciosas lições em artigos, apreciações, colaborações outras.

A Faculdade de Filosofia é uma Unidade Universitária que exige intercâmbio de ideias, debates de teorias e doutrinas, comércio de experiência e processos, em uma tribuna de comunhão de princípios para uma legítima formação da mentalidade magisterial

TEMAS EM FOCO propõe-se a ser esta tribuna que poderá ser ocupada por todos os mestres.
O mundo hodierno, conturbado e desunido precisa de lideranças equilibradas que surjam de um magistério sereno e imparcial que encare os fenômenos sociológicos, com verdadeira naturalidade científica.
O professor não pode ser um apaixonado a não ser pelo ideal de servir e orientar para o bem.

O professor não deve ser um egoista que lidera pela mórbida sede de primazia e mando. Deve ser antes de tudo um bom que sabe renunciar pelo bem da educação, pelo bem do educado, pelo bem da comunidade.

Este modesto órgão visa a este ideal de estabelecer uma verdadeira comunhão de propósitos construtivos no seio da decência orientada para a segurança, satisfação e bem-estar da discência em marcha para grandeza do espírito universitário da nossa terra.

Professor João Chrysóstomo de Oliveira, diretor

ASSIM NASCEU A FACULDADE

Cônego Walter G. Nogueira

O atual diretor, professor João Chrysóstomo de Oliveira, pede-me que recorde traços originais de nossa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Amazonas, parece-me que a solicitação entende apenas a narrativa espontânea de quem acompanhou de perto a vida inicial dessa escola, porque os dados históricos e documentários estão fielmente publicados em Sindérese sobre a Faculdade de Filosofia do Amazonas, obra lançada por Sérgio Cardoso Editores, em 1962, espécie de processo histórico do nascimento da Faculdade, entremeado de rápido ensaio de sociologia, que a importância da causa me fez divulgar.

Ali, faço questão de frisar, não se encontrará dado algum que revele façanha pessoal, mas somente narrativas de fatos rigorosamente documentados, nos quais as ações individuais debilitam-se para aparecer em relevo o mérito do conjunto. Muita gente se empenhou decididamente pela organização e pelo funcionamento de nossa escola, que desafiava, então, a boa vontade e esforços de tantos, há vinte anos.

Foi o governador Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo quem levou a bom termo as aspirações de todos, através da ação conjugada de auxiliares de sua administração perante a quase inacessível diretoria do Ensino Médio Superior, do Ministério da Educação, nas mãos rigorosas do prof. Jurandyr Lodi.

Começou a funcionar atendendo às exaustivas exigências ministeriais, inclusive com seu Regimento, aprovado em caráter definitivo, pelo portentoso Conselho Federal de Educação, com os cursos de Filosofia, de Pedagogia e de Matemática.

Um ano depois, a primeira diretoria ingressava no Ministério da Educação com o pedido de autorização para funcionamento do curso de Química, contando com a colaboração prestimosa do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), sob a esclarecida direção do Dr. Djalma Batista, que colocou à disposição do curso solicitado os custosos laboratórios do Inpa.
Esta iniciativa foi também coroada de êxito. E até aqui me socorreu a memória com absoluta certeza, cabendo a outros dizer dos sucessos posteriores.


Quanto à sede da Faculdade julgo interessante descrever episódios. Começou a funcionar na parte superior do prédio onde funcionou, até há bem pouco tempo, a Faculdade de Ciências Econômicas, à rua José Paranaguá. Perante o Ministério da Educação, recordo-me perfeitamente dessa circunstância, não havia entre as duas Faculdades, nem locatário, nem locador; ambas se investiam na posse do imóvel com igualdade de direitos.

Alguns diretores da Faculdade de Ciências Econômicas, por ser mais antiga, não entendiam essa equidade jurídica... E a Faculdade de Filosofia tratada como inquilina teve que abandonar o prédio, evidentemente insuficiente à grande tarefa universitária.

A atual sede da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, e antes das remodelações que foram feitas, foi ESCOLHIDA, NEGOCIADA E COMPRADA em virtude de promoção valiosa e pessoal de um professor da casa, com o estímulo e apoio de um grupo de homens de negócios de nossa praça, ainda todos vivos e ufanos do próprio gesto.

Esta afirmativa embora pareça enfática e altiva, contrariando versões sobre o problema, é absolutamente verídica. O professor da casa (seria melhor silenciar) é o signatário deste artigo; e os industriais e comerciantes podem ser nomeados um a um, se fosse o caso, com o depoimento testemunhal do presidente da Fundação Universidade do Amazonas, naquela ocasião, o Dr. Milton Nogueira Marques, e que foi inclusive consultado quanto à escolha do imóvel a ser adquirido.

O mérito incontestável do governador Arthur Cézar Ferreira Reis está no PAGAMENTO da transação, já efetivada, e quando convidado pelo grupo a participar da feliz iniciativa. O ingresso do Governo na causa, pagando e doando, ele só, o imóvel, deixou na sombra os particulares, que se sentiram bem em aplaudir a magnanimidade governamental, esta se investindo de todos os méritos, por justa razão. Porém, sem diminuir em nada o merecimento do Governo Arthur Reis, posso afirmar que mesmo sem a lúcida compreensão dele, a Faculdade de Filosofia estaria onde hoje se encontra.

Soube posteriormente de outros tratos referentes ao mesmo assunto, sem, porém, a menor interferência nos fatos aqui expostos.

Lançamentos de livros

Hoje, 21 de setembro
no Auditório Nelson Falcão, 19h


Amanhã, 22 de setembro
na Livraria Valer, 19h

Igrejas católicas de Parintins (2)

Extraído do livro Clarões de fé no Médio Amazonas, de Dom Arcangelo Cerqua, publicado em 1980. O texto a seguir relembra, em parte, a construção da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Parintins (AM).

N. S. do Carmo


1958 - A 6 de abril, no salão provisório do Colégio N. Sra. do Carmo, monsenhor Arcangelo, perante muitos convidados, fala da necessidade de lançar a campanha da construção da Catedral. Aproveitando o entusiasmo geral, escolhe imediatamente a comissão encarregada: presidente, padre Jorge Frenzzini; vice-presidente, Luiz Lourenço de Souza; secretário, Abrahão Fadul; membros, João do Lago, Olímpio Guarany, José Menezes Ribeiro e Agenor Dinelly.
- 4 de maio, no encerramento das Santas Missões dos Redentoristas, ao fim da procissão, na praça da Matriz, o prelado lança publicamente a campanha, apresentando a comissão ao povo, que imediatamente coloca nas bandeiras marianas uma generosa contribuição.
- 24 de julho, decide-se construir a Catedral na praça do Cemitério, no centro da cidade, eliminando assim, por providenciais dificuldades, a ideia de construí-la no lugar da velha Matriz.

1959 - Em janeiro, a comissão compra tijolos e estoca-os na área escolhida. Os Marianos oferecem quase 300 m3 de pedra jacaré, trazendo-a do Uaicurapá e levando-a ao lugar da construção; tudo de graça.
- a 4 de fevereiro, o prefeito Lourival de Albuquerque sanciona a Lei 2/58, que coloca a praça do Cemitério à disposição da prelazia para a Catedral.
Durante o ano, com paciência, tato e dinheiro, adquire-se toda a área da futura igreja, com praça e obras paroquiais ao lado, servindo-se do intermediário José Rodrigues dos Santos, "o Celeiro". Todos os ocupantes de casas e terrenos receberam trocas vantajosas. Em alguns casos valeu muito o apoio moral do prefeito José Esteves, que até doou uma sua casa em favor de um ocupante.
Pe. Jorge Frenzzini


1960 - No encerramento do mês de maio, o Pe. Jorge inventa a cerimônia do "primeiro golpe de picareta", dado pelo prefeito no lugar da Catedral, para alimentar o entusiasmo do povo.
A 16 de julho, coloca-se a pedra fundamental da Catedral, ao término da procissão de Nossa Senhora do Carmo. Na hora, a Comissão recolhe boas ofertas dos que assinam o “pergaminho lembrança”.
26 de setembro - O governador Gilberto Mestrinho visita as obras em andamento, e deixa seu óbulo.

1961 – a 20 de agosto, Pe. Jorge traz o projeto completo de São Paulo, de autoria do engenheiro italiano Giovanni Butori, que o prepara gratuitamente em amizade aos nossos padres e em homenagem à Maria Santíssima.
Passando por Recife, Pe. Jorge compra uma boa quantidade de cimento.
5 de novembro – inicia-se a construção da Capela da Catedral provisória. Um que morava há dois anos de graça no lugar, só saiu quando viu cavar os alicerces no meio da barraca.


1962 - 1º de maio - Bênção da Capela da Catedral provisória, e nomeação do Pe. Pedro Vignola, vigário da Paróquia da Catedral. A velha matriz fica sede da nova paróquia intitulada do Sagrado Coração de Jesus e, como seu vigário, é nomeado o Pe. Januario Cardarelli.
- Os festejos de julho realizam-se na praça da velha matriz; mas a procissão final conclui-se na praça da nova Catedral.

1963 - Em fevereiro sobem as paredes da ábside e das alas laterais. Em abril, na Semana Santa, as santas cerimônias dividem-se entre as duas igrejas. A Procissão do Encontro, entretanto, concentra-se na praça da nova Catedral.
Em julho, organiza-se o arraial dentro do terreno da paróquia, à direita da capela provisória; por sinal desenvolve-se muito ordeiro e poético no meio do arvoredo.

1964 - Durante os festejos de julho, operários voluntários em grande número lança a aguada no piso da Catedral, trabalhando de noite nas horas do arraial. Tanto que no dia 15 a novena celebra-se dentro da Catedral.

1965 - As cerimônias na Catedral em construção, na Semana Santa, enfrentam vento, que apaga o Círio, no sábado, e chuva, que obriga a encurtar o pontifical na tarde da Páscoa.
Todo o novenário dos festejos de julho celebra-se na Catedral em construção, e, no dia 17, o bispo lê na igreja os nomes dos 120 que ofereceram vales.

1966 - Por sugestão do Sr. José, da Casa Preferida, realiza-se em favor da Catedral o primeiro Festival Folclórico de Parintins, na quadra paroquial inaugurada no ano anterior, a 6 de junho.

1967 - No retiro do Carnaval, o bispo lança a campanha do madeirame para o telhado. Os marianos do interior oferecem mais de 15.000 palmos de itaúba de primeira. Com a posterior resolução de fazer a cobertura com armação de ferro, a venda da madeira cobre quase toda a despesa com o ferro.

1968 - A 15 de fevereiro, assina-se com o Cibresme o contrato da armação de ferro do telhado e, no dia 21 de maio, o engenheiro José Maria vem estudar melhor in loco o projeto, especialmente da ábside.

1969 - A 13 de março, começa a ser montada a estrutura metálica do telhado, que fica pronta no seguinte 3 de abril. A 24 de maio, uma boa salva de foguetes festeja o completamento da cobertura com telhas de amianto e cimento vindas da Colômbia.
10 de outubro, os marceneiros da cidade tomam o compromisso de oferecer as 13 portas da igreja e das sacristias.

1970 - em 20 de junho, é sentada a última porta, a central de entrada.

1971 - Neste ano e em 1972 rebocam-se as paredes internas. A capela do Santíssimo recebe um bonito altar de mármore de Carrara. Fora preparado para uma catedral da Birmânia [atual Myanmar], mas, devido a guerra e as mudanças políticas naquele país, ficou armazenado na Itália. Nosso bispo conseguiu que o Pe. Pascoal Zielio, seu conterrâneo, grande devoto da Virgem, o presenteasse a Nossa Senhora do Carmo.

1972 - em 6 de julho, chega da Itália o ferro de cantoneira e começam logo a ser montadas as janelas na oficina do Seminário.

1973 - a 5 de abril, chega da Itália também o acrílico, para as janelas. Durante o resto de 1973 e no ano todo de 1974 continuam os serviços das janelas e do reboco das paredes.

1975 - a 3 de maio, termina o nivelamento do piso com uma camada de massa. No entanto, o prefeito, Dr. Benedito Azedo, melhora a praça com calçadas e pavimentação da parte central.

1976 - a 23 de agosto,inicia a pavimentação do piso com tijolinhos da Olaria Pe. Colombo, seguindo o conselho do Dr. Severiano Porto, conhecedor da olaria e da Catedral.

1977 - O Irmão Miguel De Pascale, de 6 de janeiro até 22 de julho (dia que vai de férias a Itália), ilustra a Catedral com impressionantes pinturas: na capela da Eucaristia, desenha a “Ceia” no centro e, nos lados, a “Multiplicação dos Pães” e os “Discípulos de Emaús”. Na capela da Penitência, pinta a “Crucificação de Jesus”, no meio e, nos lados, o “Bom Pastor” e o “Filho Pródigo”.
A 25 de janeiro está pronta a pavimentação do transeto. A 11 de julho inicia a construção do trono de Nossa Senhora.

1978 - Para a festa de julho pinta-se o trono da Virgem e pavimenta-se o piso da nave principal e do átrio.

1979 - O Irmão Miguel pinta na ábside, à direita, cenas do Novo Testamento (Anunciação, Natal, Caná da Galiléia) e, à esquerda, episódios do Antigo Testamento (Elias no Monte Carmelo, A Promessa no Paraíso Terrestre, Ester).
Coloca-se novo aparelho de som e procede-se às escavações da torre. A fachada da Catedral é revestida de ladrilhos de barro, produto de nossa olaria.
Dom Arcangelo, governador Lindoso e prefeito Reis, 1980
 1980 - A 24 de março, terminam os trabalhos de fundição dos alicerces da torre, cujo estudo técnico foi preparado pela Suplan, por ordem do engenheiro Dr. Simão Assayag, que dá toda a assistência técnica à construção da torre.
Sendo modesta demais a renda da festa de julho de 1980, o bispo, em companhia de Sebastião Araújo e outros voluntários, consegue com um “Livro de Ouro” bom auxílio para a torre, que vai subindo lentamente.

19 de setembro de 2011

Djalma Vieira Passos

Capa de livro de Djalma Passos
Djalma Vieira Passos nasceu no então Porto Acre, hoje Rio Branco, capital do Acre, em 1923, filho de Diomedes Vieira Passos e Joana Crispim de Souza. À época, a borracha já dera sua contribuição aos estados amazônicos, estes enfrentavam a derrocada. Por isso, creio, foi que alguns jovens alcançaram Manaus para conquistar aqui a única faculdade em movimentação.

Era uma aventura sair do vizinho Acre para Manaus, toda ela realizada em barcos regionais. E bote tempo nessa travessia.

A Faculdade de Direito do Amazonas acolheu um bom número de acreanos. O primeiro a conquistar a graduação foi Raymundo Nonato de Castro, que marcou sua passagem pela capital baré. Cerca de duas dezenas de jovens oriundos do Território Federal do Acre, espalhados pelos anos, tornaram-se bacharéis em direito, antes que Djalma Passos aos 32 anos conquistasse o mesmo “canudo” em 1955.

A esse tempo, Passos já pertencia à Policia Militar do Estado, onde ingressara como sargento. Há um registro de sua atuação junto ao Dr. Djalma Batista, que fora médico da PM, quando um incêndio destruiu parte da Biblioteca Pública, em agosto de 1945.

Rogel Samuel lembra-se de Djalma Passos, na metade dos anos 1950. Passos foi meu professor de português no Ginásio Aparecida. Era um homem calmo e bom, e morava na época perto da casa de minha avó, na rua Japurá, onde eu vivi por alguns anos.
Abandonou o magistério para ingressar na política, tendo sido eleito, primeiramente, vereador, mais tarde deputado estadual (1955-58), e depois federal, pelo PTB, em 1963-67. Depois passou pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro); migrou para a Arena (Aliança Renovadora Nacional) e seu sucedâneo PSD (Partido Social Democrático).

Enquanto major da PM do Estado foi comandante da extinta Guarda Civil, que era uma organização militarizada e subordinada à Polícia Civil, o quartel desta (na rua Guilherme Moreira) ligava-se pelos fundos com a famosa Central de Polícia, da rua Marechal Deodoro.
A participação deste oficial nessa entidade trouxe-lhe motivação para defender um de seus subordinados que matara um conhecido cidadão. Caroço, era a alcunha do inditoso, mas que era irmão do nosso conhecidíssimo José Bernardo Cabral. O guarda-civil cumpriu a punição que lhe foi imposta.


Artigo publicado em favor do subordinado
Djalma Passos publicou, em defesa do guarda, o opúsculo Entre o dever e o cárcere (A tragédia do Guarda Manuel Carlos Melo). Detalhe: ainda vive uma irmã do acusado, minha meia-tia, que o mal de Alzeimer já apagou dela as dores do encarceramento.
Em homenagem a ela, breve vou publicar o texto de Djalma Passos.

O senador Aureo Mello, do PMDB, pronunciou discurso no Senado em 19 junho de 1990, em pesar pelo falecimento de Djalma Passos, acontecido no Rio de Janeiro.
A prefeitura de Manaus, por seu prefeito Alfredo Nascimento, homenageou ao saudoso político com seu nome na Escola Municipal, situada no Monte Sião, na Cidade de Deus.

18 de setembro de 2011

Djalma Passos: o poeta

A poesia de Djalma Passos desapareceu de nossos registros.  Nada se comenta ou revela sobre os livros deste artista, nascido no atual estado do Acre, ter concluído a Faculdade de Direito do Amazonas, em 1955; ter sido oficial da Polícia Militar; e, como político, alcançado a Câmra Federal, a partir de 1962.
Capa do livro
Seu primeiro livro - Poemas do tempo perdido, edição do Centro Plácido Serrano, em 1949, quando já publicava sonetos nos jornais de Manaus. 
Encontrei em mãos do acadêmico Almir Diniz os três primeiros livros de Djalama Passos. Reproduzo abaixo uma "notícia sobre o autor", de autoria do consagrado poeta Luiz Bacellar.  

Tempo e Distância é o terceiro livro de Djalma Passos [1955]. O segundo - As Vozes Amargas - publicado pela Casa do Estudante do Brasil, em 1952, inaugurou a poesia social no Amazonas. Nele, o poeta nos transmite sua mensagem através dos ritmos largos e ondulantes de uma poesia cheia de inquietude pelos destinos do homem.

Ao seguir, As Vozes Amargas não teve da crítica a atenção que merecia, em face da desconceituação da poesia moderna, então chama "futurista" pelos maiorais da crítica e das letras provincianas, mas, embora tratado com tão clamorosa injustiça, firmou-se no conceito da nova geração. (Um grupo de novos, no qual se destacavam elementos ligados a círculos literários de outros estados, como Sebastião Norões, de poesia marcadamente social, surgia então para reivindicar o direito de renovar os cânones da poesia no Amazonas).

Embora sem contactos prolongados, Djalma Passos acha-se integrado a esse grupo, do qual fazem parte: Freitas Pinto, o mais velho dos novos, Jorge Tufic e Carlos Farias, poetas diferentes entre si, mas coesos quanto à necessidade de renovação dos valores poéticos; e nele toma parte, destacando-se como o pioneiro da poesia social, além de ser o único desses poetas que já estreou em forma de livro.

Djalma Passos, que é também contista ainda inédito, é um dos mais brilhantes oficiais da nossa Polícia Militar, atualmente no posto de major, tendo exercido a elevada função de comandante da Guarda Civil de Manaus, durante o período de 31-01-51 a 17-11-54, quando escreveu, em defesa do guarda civil Manuel Carlos de Melo, acusado de causador da morte do cidadão conhecido nos meios boêmios pela alcunha de Caroço [irmão de Bernardo Cabral], o opúsculo "Entre o Dever e o Cárcere" (Manaus, 1953). Foi, por certo, nesse cargo, que Djalma Passos teve a oportunidade de entrar em contacto mais direto com o homem da rua, o que marca profundamente sua expressão de poeta e contista.

Poeta cheio de profunda ternura pelos desajustados sociais, Djalma Passos é uma das mais puras vozes líricas da poesia planiciária; possuidor de uma linguagem despojada e simples, galvaniza e marca, com o estigma de sua poesia, o leitor mais desinteressado; senhor de uma fluidez límpida e clara, transporta -nos aos redutos de seu espírito observador do homem da rua, através da "fonte perene" de uma expressão profundamente individual.

Pertencendo à categoria dos que têm os olhos voltados para o futuro, sob o signo da pergunta, Djalma Passos domina, com toda a maestria, a expressão larga e a ênfase do verso withmaniano.


DJALMA PASSOS
dá-nos neste volume uma continuação à temática social de "As Vozes Amargas". E, até mesmo, podemos ver no seu "Poema do Feto" um complemento do "Poema aos que hão de vir..." de As Vozes Amargas.
O homem, entidade no tempo mais que no espaço, é, como se vê, a constante genérica na poesia de Djalma Passos, onde avultam ainda as subconstantes da Infância, da Noite e do Mar. O Futuro sempre aparece como maior preocupação do poeta: Poema aos que hão de vir e Poema do feto.

Caracterizando-se como poeta de ritmos livres (quase sempre tão traiçoeiros para os que se deixam dominar pela sua aparente facilidade sem se submeterem ao rigor sutil e sem manter consciente obediência aos autênticos movimentos interiores), Djalma Passos atinge maior pureza lírica e riqueza expressional nas composições que intitula simplesmente Poema.


Em TEMPO E DISTÂNCIA, por pura condescendência para com o presente surto de reatualização do soneto, ao que parece, o poeta realiza alguns, entre os quais se deve destacar o que tem por título Nossas Mãos [abaixo copiado].

Sem preocupações de afetar sua autêntica modernidade, Djalma Passos exclui, muito acertadamente, o problema da unidade em sua obra, tendo antes a preocupação da transmissão de sua mensagem. E consegue plenamente seu objetivo! Vale destacar, por exemplo, entre os poemas de As Vozes Amargas, os de títulos: "Poema do moleque brasileiro", "Poema do olhar extinto", "Estranhas vozes", "Procedência", "Anjo noturno", “O Homem só" e "Despedida do viajante noturno".

No "O Poeta de branco" há uma interessante correspondência de sentimento com "O Poeta come amendoim" de Mário de Andrade.
A função de sua poesia carrega-se do mais intenso significado nos dias cheios de angústia e expectativa que estamos passando. Poeta dos mais autênticos e expressivos, surpreende-nos de vez em quando com "pulos de gato" de poesia no mais cristalino estado de pureza: "A noite lá fora é um mistério, o vento derrubou todas as estrelas... " (Despedida do viajante noturno).

Sua penetrante naturalidade realiza no leitor aquilo que chamaremos de "comoção lírica totalmente independente de qualquer intenção ideológica", não se podendo, portanto, classificar a poesia de Djalma Passos de "dirigida".

Resta-nos chamar a atenção do leitor, neste livro, para a extraordinária potência poética de Djalma Passos que é, sem favor, o fundador da poesia social, "do povo e para o povo", no Amazonas. Que os novos que se estão agrupando agora sob a denominação de Clube da Madrugada lhe façam justiça.


Nossas Mãos

Não procures olhar as mãos que outrora
Tantas vezes teu rosto percorreram...
Também não tentes recordar agora
Os bons poemas que elas escreveram...

Tudo passou, foi sonho, foi quimera,
Que se perdeu no mundo de outros dias
Pois tuas mãos, em plena primavera,
São para mim completamente frias...

Talvez não saibas nem eu sei também
Porque estas mãos que se entendiam bem
Hoje preferem não viver mais juntas...

Nem ódio, nem amor... Somente a vida
Na sua teia estranha e incompreendida
E' quem responde todas as perguntas...