CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

18 de setembro de 2011

Djalma Passos: o poeta

A poesia de Djalma Passos desapareceu de nossos registros.  Nada se comenta ou revela sobre os livros deste artista, nascido no atual estado do Acre, ter concluído a Faculdade de Direito do Amazonas, em 1955; ter sido oficial da Polícia Militar; e, como político, alcançado a Câmra Federal, a partir de 1962.
Capa do livro
Seu primeiro livro - Poemas do tempo perdido, edição do Centro Plácido Serrano, em 1949, quando já publicava sonetos nos jornais de Manaus. 
Encontrei em mãos do acadêmico Almir Diniz os três primeiros livros de Djalama Passos. Reproduzo abaixo uma "notícia sobre o autor", de autoria do consagrado poeta Luiz Bacellar.  

Tempo e Distância é o terceiro livro de Djalma Passos [1955]. O segundo - As Vozes Amargas - publicado pela Casa do Estudante do Brasil, em 1952, inaugurou a poesia social no Amazonas. Nele, o poeta nos transmite sua mensagem através dos ritmos largos e ondulantes de uma poesia cheia de inquietude pelos destinos do homem.

Ao seguir, As Vozes Amargas não teve da crítica a atenção que merecia, em face da desconceituação da poesia moderna, então chama "futurista" pelos maiorais da crítica e das letras provincianas, mas, embora tratado com tão clamorosa injustiça, firmou-se no conceito da nova geração. (Um grupo de novos, no qual se destacavam elementos ligados a círculos literários de outros estados, como Sebastião Norões, de poesia marcadamente social, surgia então para reivindicar o direito de renovar os cânones da poesia no Amazonas).

Embora sem contactos prolongados, Djalma Passos acha-se integrado a esse grupo, do qual fazem parte: Freitas Pinto, o mais velho dos novos, Jorge Tufic e Carlos Farias, poetas diferentes entre si, mas coesos quanto à necessidade de renovação dos valores poéticos; e nele toma parte, destacando-se como o pioneiro da poesia social, além de ser o único desses poetas que já estreou em forma de livro.

Djalma Passos, que é também contista ainda inédito, é um dos mais brilhantes oficiais da nossa Polícia Militar, atualmente no posto de major, tendo exercido a elevada função de comandante da Guarda Civil de Manaus, durante o período de 31-01-51 a 17-11-54, quando escreveu, em defesa do guarda civil Manuel Carlos de Melo, acusado de causador da morte do cidadão conhecido nos meios boêmios pela alcunha de Caroço [irmão de Bernardo Cabral], o opúsculo "Entre o Dever e o Cárcere" (Manaus, 1953). Foi, por certo, nesse cargo, que Djalma Passos teve a oportunidade de entrar em contacto mais direto com o homem da rua, o que marca profundamente sua expressão de poeta e contista.

Poeta cheio de profunda ternura pelos desajustados sociais, Djalma Passos é uma das mais puras vozes líricas da poesia planiciária; possuidor de uma linguagem despojada e simples, galvaniza e marca, com o estigma de sua poesia, o leitor mais desinteressado; senhor de uma fluidez límpida e clara, transporta -nos aos redutos de seu espírito observador do homem da rua, através da "fonte perene" de uma expressão profundamente individual.

Pertencendo à categoria dos que têm os olhos voltados para o futuro, sob o signo da pergunta, Djalma Passos domina, com toda a maestria, a expressão larga e a ênfase do verso withmaniano.


DJALMA PASSOS
dá-nos neste volume uma continuação à temática social de "As Vozes Amargas". E, até mesmo, podemos ver no seu "Poema do Feto" um complemento do "Poema aos que hão de vir..." de As Vozes Amargas.
O homem, entidade no tempo mais que no espaço, é, como se vê, a constante genérica na poesia de Djalma Passos, onde avultam ainda as subconstantes da Infância, da Noite e do Mar. O Futuro sempre aparece como maior preocupação do poeta: Poema aos que hão de vir e Poema do feto.

Caracterizando-se como poeta de ritmos livres (quase sempre tão traiçoeiros para os que se deixam dominar pela sua aparente facilidade sem se submeterem ao rigor sutil e sem manter consciente obediência aos autênticos movimentos interiores), Djalma Passos atinge maior pureza lírica e riqueza expressional nas composições que intitula simplesmente Poema.


Em TEMPO E DISTÂNCIA, por pura condescendência para com o presente surto de reatualização do soneto, ao que parece, o poeta realiza alguns, entre os quais se deve destacar o que tem por título Nossas Mãos [abaixo copiado].

Sem preocupações de afetar sua autêntica modernidade, Djalma Passos exclui, muito acertadamente, o problema da unidade em sua obra, tendo antes a preocupação da transmissão de sua mensagem. E consegue plenamente seu objetivo! Vale destacar, por exemplo, entre os poemas de As Vozes Amargas, os de títulos: "Poema do moleque brasileiro", "Poema do olhar extinto", "Estranhas vozes", "Procedência", "Anjo noturno", “O Homem só" e "Despedida do viajante noturno".

No "O Poeta de branco" há uma interessante correspondência de sentimento com "O Poeta come amendoim" de Mário de Andrade.
A função de sua poesia carrega-se do mais intenso significado nos dias cheios de angústia e expectativa que estamos passando. Poeta dos mais autênticos e expressivos, surpreende-nos de vez em quando com "pulos de gato" de poesia no mais cristalino estado de pureza: "A noite lá fora é um mistério, o vento derrubou todas as estrelas... " (Despedida do viajante noturno).

Sua penetrante naturalidade realiza no leitor aquilo que chamaremos de "comoção lírica totalmente independente de qualquer intenção ideológica", não se podendo, portanto, classificar a poesia de Djalma Passos de "dirigida".

Resta-nos chamar a atenção do leitor, neste livro, para a extraordinária potência poética de Djalma Passos que é, sem favor, o fundador da poesia social, "do povo e para o povo", no Amazonas. Que os novos que se estão agrupando agora sob a denominação de Clube da Madrugada lhe façam justiça.


Nossas Mãos

Não procures olhar as mãos que outrora
Tantas vezes teu rosto percorreram...
Também não tentes recordar agora
Os bons poemas que elas escreveram...

Tudo passou, foi sonho, foi quimera,
Que se perdeu no mundo de outros dias
Pois tuas mãos, em plena primavera,
São para mim completamente frias...

Talvez não saibas nem eu sei também
Porque estas mãos que se entendiam bem
Hoje preferem não viver mais juntas...

Nem ódio, nem amor... Somente a vida
Na sua teia estranha e incompreendida
E' quem responde todas as perguntas...