CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de setembro de 2011

BATALHA NAVAL DE ITACOATIARA (1)

No final de agosto, rememorei um tema pouco explorado: o enfrentamento de forças militares utilizando barcos regionais. Este encontro aconteceu em pleno rio Amazonas, diante da cidade de Itacoatiara, razão pela qual o vulgo, e os estudiosos também, o conhecem por Batalha Naval de Itacoatiara.

Capa do livro de Antonio
Loureiro

Em seu livro sobre a navegação amazônica, o historiador Antonio Loureiro trata deste incidente fluvial com uma nova abordagem, outros detalhes e o conhecimento de pesquisador. Acontecido em 1932, são passados 79 anos.

Batalha Naval de Itacoatiara


Foi a única batalha naval ocorrida na América do Sul, no século XX, até a Guerra das Malvinas, estando vinculada à Revolução Reconstitucionalista de 1932, iniciada em São Paulo.
A notícia de que os 70 homens do 4° Grupo de Artilharia de Costa, sediado na fortaleza de Óbidos (PA), se haviam rebelado, apoiando aquele movimento, chegara a Manaus a 19 de agosto de 1932. O general Bertoldo Klinger, chefe nacional da rebelião, comissionara o
advogado baiano Alderico Pompo de Oliveira (que vivera em Manaus, sendo pessoa frequentadora do Ponto Chic, da Leitaria Amazonas e do Bar Americano) no posto de coronel, para comandá-la. Os rebeldes haviam remetido um ultimato ao 27° Batalhão de Caçadores, solicitando a sua adesão, caso contrário, atacariam Manaus.

Estando ausente o interventor, tenente Rogério Coimbra (5 ago.1931 a 10 out.1932), assumira interinamente o secretário-geral Waldemar Pedrosa (14 ago. a 10 out. 1932) que, com o comandante do 27° BC e o Capitão dos Portos, tomaram as providências para a defesa da cidade: requisitando lanchas, estabelecendo a prontidão nos quartéis, policiando os prédios públicos e as ruas, e apagando as luzes da orla fluvial.

Temia-se que os rebeldes tomassem diversos navios navegando pelo Baixo Amazonas, entre os quais se destacavam os seguintes:
a) Ingá, ex-Etrúria, pertencente ao Lloyd Brasileiro, com 4.431 t, construído em 1900, e tomado aos alemães durante a Primeira Grande Guerra.
b) Baependi, ex-Tijuca, também do Lloyd e apresado aos alemães, com mais de 4.000 t.
c) Jaguaribe, da Companhia de Comércio e Navegação, velho cargueiro de 1.120 t, construído na Inglaterra, em 1882, trazendo um carregamento de 42.000 sacos de sal e 100 barris de pólvora, para Manaus.
d) Andirá II, da Amazon River, de apenas 235 t, construído na Inglaterra, em 1906.

No dia seguinte, 20 de agosto, soube-se que o Ingá estava retornando de Parintins, o Baependi voltara de Itacoatiara, já estando ancorado em Manaus, e os vapores Tejo e Sapucaia haviam regressado de Santarém.
Desconhecia-se, porém, os destinos dos navios Jaguaribe, que saíra de Santarém para Óbidos, a 17; do Andirá, saído de Parintins a 18, e da lancha Diana, embora todos os três já estivessem nas mãos dos rebeldes, desde o dia 19.

Ainda no dia 20, às 16 horas, foram despachados a bordo do Baependi, 100 homens do 27° BC, para formarem um ponto de resistência em Itacoatiara, sob as ordens do tenente Álvaro Francisco de Souza e, no domingo 21, a bordo do navio Rio Curuçá, 50 guardas civis e 30 praças da Comissão de Limites, para guarnecerem Parintins, sob as ordens do capitão Jonatas de Moraes Corrêa, sendo o barco comandado pelo capitão-tenente Antonio Pojucan Cavalcante.

Em Manaus, também ocorrera uma rebelião de sargentos, estando presos João Neves, Sandoval Amorim, Geminauá Medeiros e Nilo Barroso, no quartel do 27° BC.

A 21 de agosto, o Ingá retomava a Manaus com as notícias do apresamento das três embarcações citadas e da tomada de Parintins, por 16 homens do civil Arquimedes Lalor, comissionado no posto de capitão, embarcados na lancha Diana. Durante o ataque, os tripulantes dessa embarcação cortaram as amarras e fugiram para Itacoatiara, trazendo novas notícias sobre o saque e a captura daquela cidade. Lalor tornara-se uma figura conhecida em Manaus, após a sua volta dos Estados Unidos, onde fora comediante em Hollywood.

Os rebeldes saíram de Óbidos com destino a Manaus, a 21 de agosto, a bordo do Jaguaribe, artilhado com quatro canhões de 75mm, pertencentes à fortaleza, e do Andirá, comandado pelo 2° tenente Zoroastro Seroa Maia , tendo 21 homens armados de fuzis.

No caminho embarcaram lenha no porto Desaperta, onde recrutaram alguns cabocos (sic) que estavam pescando nas margens. O Jaguaribe estacionou na ilha das Ciganas, enquanto o Andirá, com as lanchas Remus e Santa Cruz, foram buscar o 2° tenente Sotero José Pereira, Arquimedes Lalor e seus 16 homens, que estavam em Parintins, após a fuga da lancha Diana, tendo ali recrutado mais seis homens.

Realizada esta ação, foram-se reunir ao Jaguaribe, partindo para a fazenda Santo Agostinho, onde tomaram dois bois e deixaram o imediato do Jaguaribe com sua esposa. A seguir, fundearam nas ilhas Rasas, indo o Andirá ao porto São Raimundo a procura de lenha, onde carregou até 24 de agosto.

Enquanto a frota rebelde assim se movimentava, o Baependi deixara as tropas em Itacoatiara, retomando a Manaus, e o Rio Curuçá fizera o mesmo, diante da notícia da ocupação de Parintins.
As forças legais organizaram-se em uma flotilha, que saiu de Manaus, a 22 de agosto, com a finalidade de enfrentar os rebeldes, sob o comando do capitão de fragata Alberto de Lemos Bastos, formada pelos navios Baependi, do capitão de corveta Alfredo Miranda Rodrigues; Ingá, do capitão-tenente Jorge Ferreira Landim; Rio Curuçá, do capitão-tenente Antonio Pojucan Cavalcante, e pelos barcos auxiliares Rio Jamari, Rio Aripuanã e Isis.

A bordo destes navios estavam 230 homens do 27° BC. O Ingá possuía 122 soldados e as metralhadoras pesadas do 2° tenente Ananias Celestino de Almeida Júnior. As defesas de Manaus ficaram sob as ordens major Luis Tavares Guerreiro.

Às 6 horas da manhã de 24 de agosto, a flotilha rebelde navegando ao longo da praia da ilha de Serpa avistou o Baependi e o Rio Jamari, que vinham de Itacoatiara. O Jaguaribe deu um tiro de festim e, em seguida, lançou uma granada, que passou pela proa do Baependi, tendo os navios fugido do combate, para encontrar-se com o restante da frota, no Paraná da Trindade, onde ficaram aguardando a evolução dos acontecimentos. (segue)