CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

15 de setembro de 2011

Igrejas católicas de Parintins

Sagração de Dom Cerqua, em
Parintins, 14 maio 1961
A Prelazia de Parintins foi criada com a Bula de 12 de julho de 1955, e instalada em 13 de novembro do mesmo ano. no jubileu de prata desta efeméride, o saudoso Dom Arcangelo Cerqua, bispo de Parintins, publicou o livro Clarões de fé no Médio Amazonas (1980), dando conta das atividades da congregação do PIME naquela região. Deste testemunho, retirei o texto abaixo: 

A primeira igreja de Parintins foi construída pelo frei José A. das Chagas na atual praça Cristo Redentor; e serviu o povo durante quase um século, até o ano de 1895 e foi demolida em 1905.
Parece que na antiga Vila Tupinambarana, ao tempo dos Jesuítas, prestava-se culto a S. Francisco Xavier, o atual padroeiro de Vila Amazônia. Mas a igreja construída por frei José das Chagas foi dedicada à Nossa Senhora do Carmo, padroeira de sua ordem Carmelita.

O cônego André Fernandes de Souza em "Notícia geográfica da capitania do Rio Negro", escreve a respeito de Vila Nova: "A sua igreja, com a invocação de N. Sra. do Carmo, com bons ornamentos, necessita de reparos e dela é missionário frei José A. das Chagas" (Agnello Bittencourt, p.16).

Na citada carta de 12 de março de 1806, ao Intendente Geral, frei José fala da construção da Igreja: "Mandei fazer um casco pra uma igarité grande para carregar madeira para a igreja... carregou-se a madeira, paguei muito bem aos índios o trabalho do dito casco... e tudo ficou contente e satisfeito...".

A cobertura foi de telhas, pedidas pelo frei José ao governo da capitania da Barra. Cito a resposta do Governador da Capitania, José Joaquim Victório da Costa, de 6 de agosto de 1806, que de Barcelos assim escreveu ao missionário de Vila Nova da Rainha: “Louvo muito a V. Revma. que pede nomeadamente ao Governo a providência de seis milhares de telhas para cobrir a Igreja que intenta nessa Missão; em consequencia verá o Revmo. satisfeita a sua requisição pela cópia aqui inclusa do Ofício nº 40 Comandância da Barra, donde alcançará que a telha está certa. Creio, porém, que estando a obra da Igreja em seu princípio, levantados somente alguns paus, como eu vi em fevereiro do ano passado em viagem por ali... se não reconduzir a telha para essa, se não estando mais adiantada, a fim de não tirar a vez a muitas obras que se meditam agora na Barra...".

Logicamente essa igreja ao longo dos anos foi muitas vezes reparada. Em Bittencourt, p. 59, lemos: "Do Relatório da diretoria de Obras Públicas de setembro de 1857 consta que a igreja se conserva em bom estado, tendo sido em 1852 consignado um crédito de 500$000 na lei orçamentária para 1853, destinado à reedificação do corpo do edifício”.

No Relatório de 25 de março de 1876, o presidente da Província dizia à Assembleia: "Vila Bela, que é um porto importante pela frequência de vapores, por população laboriosa, também não possui uma matriz decente. A Igreja não serve; além de muito acanhada, está quase em ruínas".
"Para examinar esse templo e apresentar o orçamento das despesas necessárias com os reparos que carecia", foi enviado o engenheiro Alexandre Haag que disse: "Que a referida igreja não era suscetível de reparos, tal o estado de ruína em que se encontrava".


O presidente da Província, dando comunicação à Assembleia, crescentava: "Devo, entretanto, dizer-vos que Vila Bela é o ponto da província que menos favores tem tido pelos orçamentos provinciais, apesar de concorrer bastante para renda da província. Chamo a vossa esclarecida atenção sobre este assunto e peço que não deixeis de atender as duas grandes necessidades daquela Vila". (A segunda necessidade era a rampa do porto).

Entretanto, em 1879, apesar do parecer do engenheiro, o presidente da Província mandou fazer reparos na Igreja. E também na lei orçamentária para 1883-84 foi consignada uma verba, no valor de quinhentos mil réis, para reparos na velha igreja, embora fosse já destacada uma verba para a nova igreja.
Catedral de N. S. do Carmo, 1980

No entanto se construía a nova igreja em outro lugar, na atual praça do Colégio N. Sra. do Carmo. Em 1888, estava pronta nas linhas gerais e começará a ser oficiada em 1895, transferindo para a mesma N. Sra. do Carmo. A igreja velha então ficou dedicada a São Benedito, mas não demorou muito a ser demolida.
É assim que o Pe. Alexandre Hubers relata o fim da velha igreja no Tombo da Paróquia, p. 16: a 7 de janeiro de 1905, ele partiu para Maués (era vigário também de lá). "Voltei fim de março e achei capela de S. Benedito derrubada por ordem do superintendente [prefeito] cap. Sarmento que quinze dias depois morreu em Manaus, castigo de S. Benedito” (1º Livro Tombo, p. 14).

A demolição foi realizada em fevereiro, contra a vontade do padre e do povo, que a 4 de janeiro do ano anterior, numa reunião tinha decidido reconstruir a capela deteriorada.
Mais tarde, em 1943 o vigário da época, Pe. Vitor, anota no Livro Tombo, p. 7: "Os autores da demolição no espaço d'um ano morreram todos; um, o superintendente adoeceu e ficou cego, morrendo no porto de Manaus, onde quis tratar-se. Outro faleceu no mesmo ano de lepra e um terceiro morreu afogado. Um dos operários, fazendo pouco da capela, deu um pontapé dizendo que assim se podia derrubar as paredes. Ele é o único sobrevivente, todo trêmulo, numa perna aleijado e vive doente. (Era Raimundo, o Zoada, apelidado "Treme-Treme"). Ele mesmo contou o acontecido.

"O material foi vendido em hasta pública por uma bagatela, mas os compradores não gozaram da compra. Um deles, criador de galinhas, fez da pia batismal um bebedouro e perdeu toda a criação. Considerando isto como castigo devolveu a pia. Qual o fim dos 16 castiçais de prata? Não pude descobrir". (segue)