CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

5 de setembro de 2011

Memorial amazonense (LIX)

Setembro, 5



1910 – Inauguração da Biblioteca Pública do Amazonas, contando com cerca de dez mil volumes, fato que ocorreu no governo de Antônio Clemente Ribeiro Bittencourt (1908-12).

Aproveito para reproduzir um ensaio do saudoso Geraldo de Macedo Soares, publicado na Revista do Conselho Estadual de Cultura (Manaus: ano 2, nº 2, jan. 1987), contando
Biblioteca Pública, em reparos, 2010


Como nasceu a Biblioteca Pública do Amazonas



Deve-se, a Ramos Ferreira, um dos nomes proeminentes do Amazonas, a idéia da criação de uma biblioteca, em Manaus. Na permanência do presidente João Wilkens de Matos à frente dos destinos da Província, foi promulgada uma lei dotando o Liceu com um salão de leitura, o que só se tornou realidade um ano depois, precisamente a 19 de março de 1871, quando se inaugurara, na gestão do seu sucessor, coronel José Miranda da Silva Reis.

Tal criação, entretanto, não passava de um acanhado estabelecimento, acessível apenas aos estudantes, professores e membros da diretoria da Instrução Pública, onde afinal viera a funcionar.
Somente com o presidente José Lustosa da Cunha Paranaguá, que governou a Província no curto período de 1882 a 1884, foi que se deu séria atenção à fundação de uma biblioteca pública capaz de satisfazer uma necessidade longamente sentida pelos nossos avoengos. Homem dinâmico e empreendedor, o presidente Paranaguá deixou o seu nome ligado a importantes realizações como o Teatro Amazonas, o malogrado Museu Botânico de Barbosa Rodrigues, a estrada de Caracarai e outras úteis providências postas em prática para solucionar o problema de abastecimento de carne e de água potável à população de Manaus.

A Biblioteca Pública do Amazonas é hoje um dos atestados vivos de sua administração proveitosa. É que encontraram uma situação financeira das mais felizes, graças ao incremento da produção de goma elástica, o' que muito concorreu para o êxito do seu governo, alcançando a província do Amazonas, como bem notou Monteiro de Sousa, o apogeu de prosperidade e progresso no período monárquico.

No orçamento que lhe antecedera havia apenas uma dotação de seis contos de reis, quantia essa insignificante para ocorrer com as despesas de pessoal, expediente e compra de utensílios de uma biblioteca.
Preocupado com a instrução pública e com o índice alarmante de analfabetos, não mediu esforços para mantê-la, o que fez, aplicando as necessárias dotações e créditos extras, fomentando, por meio de uma campanha que se estendeu por toda a província, a
arrecadação de donativos, e, solicitando da Corte, dos ministérios e repartições públicas, coleções e exemplares avulsos de publicações oficiais.

Encontrou da parte de todos o mais vivo entusiasmo. Valiosas obras e ricas coleções mandou vir diretamente da Europa, especialmente de Paris, encarregando na escolha dos volumes ao erudito barão Ramiz Galvão, então bibliotecário da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.


Essas compras foram fiscalizadas na capital da França pelo visconde de Noiac, sem nenhum ônus para a província, sendo entregue, por sua vez, a Ramiz Galvão, a importância de sete contos de réis para o necessário pagamento. Esta quantia, convertida em moeda inglesa, atingiu, no feliz câmbio da época, a soma de 619.160 libras esterlinas.

Os livros vieram da Europa por intermédio do porto de Havre, no vapor O Paraense, excedendo a mil volumes livres de despesas e direitos alfandegários. Alguns deles chegaram avariados pelo transporte.
Era pensamento de José Paranaguá dotar a Biblioteca Provincial de uma secção de obras sobre a Amazônia, recolhendo das mais variadas fontes tudo o que se tinha escrito ou o que viesse a ser publicado, como até agora ainda não se fez.

E ao escritor Franklin Dória encarregou de fazer as indicações necessárias nesse sentido. Tais livros foram adquiridos na capital do Império, na casa do livreiro B. L. Garnier, juntando-se a eles grande número de exemplares sobre o Brasil. A esse livreiro foram pagos dois contos, cento e quatro mil e duzentos réis por mais de 55 volumes recebidos.

Em Manaus e no interior da província, enquanto se demoravam as encomendas dos livros feitas na Europa e no Rio de Janeiro, processou-se animadora campanha para aquisição de donativos em dinheiro e ofertas de obras, numa bela prova de colaboração particular à iniciativa oficial de Paranaguá.

Bento Aranha, que mais tarde viera a ser seu diretor, e Carlos Gavinho recolheram um conto, quinhentos e cinquenta mil réis; outra comissão composta de Emilio José Moreira, Taciano Maurilo Torres, Custódio Pires Garcia e Gregório José de Morais, arrecadaram setecentos e cinquenta e quatro mil réis, e o Dr. Aprígio de Menezes, médico, político e historiador, promoveu uma subscrição a bordo dos vapores Solimões e Tapajós, quando de sua viagem ao Javarí e ao Purus, que atingiu a quantia de setecentos e vinte mil réis. Todas essas importâncias recolhidas, como as demais, ao Tesouro Público Provincial, para as necessárias aplicações.

E, assim, de ofertas em dinheiro, modestas como a de Raimundo Antonio Fernandes e vultosas como a de um conto de réis oferecida por José Antonio Nogueira Campos, enriquecia-se o seu patrimônio.
Exemplares avulsos eram presenteados por particulares. D. Maria Nazaré Brígido dos Santos oferece treze volumes de literatura e o engenheiro Joaquim Leovegildo de Sousa Coelho, por sua vez doou duas cópias das cartas dos rios Juruá, Maué-açu e Abacaxis,
levantadas pelo geógrafo inglês William Chandless, que procedera a estudos geográficos do Amazonas.

Das repartições públicas vieram valiosas ofertas. O Ministério da Marinha ofereceu vários mapas, dentre os quais se destacavam as preciosas cartas hidrográficas do rio Japurá, em 10 folhas, e o Mapa do Amazonas. O Ministério dos Negócios da Fazenda ofertou uma coleção da legislação brasileira e outras publicações da Tipografia Nacional e a nossa Assembléia Legislativa Provincial ofereceu a coleção completa dos seus anais, desde o ano de 1852 em que se inaugura a Província e se constituíra o nosso poder legislativo.

Todos os preparativos já se haviam feito para a instalação solene da Biblioteca Pública. A 3 de março de 1883 é nomeado o seu primeiro bibliotecário, o Sr. Lourenço Pessoa, que se notabilizara na campanha abolicionista. Os livros da antiga biblioteca do Liceu, quase todos castigados, e os da Diretoria da Instrução Pública, depois de convenientemente inventariados, passaram para o consistório do lado oriental da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição onde, sob a autorização diocesana de [Dom] Macedo Costa, finalmente se instalou a biblioteca, no dia 25 de março de 1883.

Situada numa pequena elevação, o presidente Paranaguá mandou construir uma pequena escada de pedra que facilitasse o acesso ao consistório da igreja. Escolhendo aquele dia, quis o governador do Amazonas homenagear os membros da Assembléia Legislativa Provincial, pois que nele se comemorava o aniversário da Constituição Política do Império.

A solenidade decorreu com extraordinária pompa, tendo a ela comparecido, além do presidente Paranaguá e das demais autoridades públicas e militares, o preclaro bispo D. Antonio Macedo Costa, que nesse tempo perlustrava a província em viagem pastoral. Vale a pena registrar essa feliz coincidência: quando se instalou a Biblioteca Pública do Pará, no ano de 1871, nesse dia, D. Antonio Macedo Costa, ali presente proferira notável oração.

Ao ato usaram da palavra o bibliotecário Lourenço Pessoa, o Dr. Aprígio de Menezes, o padre Felix da Cruz Dácia, o capitão Gregório de Morais e outros oradores. Por essa ocasião, como era de praxe ao tempo, em toda a solenidade, foram oferecidas duas cartas de liberdade a escravos negros, pela Sociedade Libertadora Cearense e por Carolino Antonio Dutra.

Toda Manaus comungava de entusiasmo e de júbilo. À noite desse dia abriram-se as portas do Teatro Beneficente em regozijo pela inauguração da biblioteca, tendo lugar a representação do drama Ghigi ou o Quadro da Virgem, de autoria do teatrólogo português Gomes Amorim, com a assistência de todo o mundo oficial.

Estava fundada a Biblioteca Pública Provincial. Em suas estantes se encontravam para mais de três mil volumes e vários mapas geográficos estavam expostos. Dois dias depois, a 27 de março, foi franqueada ao público de Manaus. Em quatro dias apenas registrou-se uma frequência de 122 pessoas.
O encadernador João Manuel Fortunato, animado com o que se realizara, se ofereceu a trabalhar gratuitamente, durante o período de um ano em seu benefício, fornecendo o material necessário às encadernações.

José Paranaguá havia dado um Regulamento a 8 de março desse ano. Por ele, a biblioteca ficava aberta das 17 às 21 horas, excetuando-se os dias santos e os feriados, os de semana santa e os de carnaval, quando permanecia fechada.
Os seus livros preciosos e aqueles outros enriquecidos de belas estampas ficavam numa mesa especial. As suas obras reservadas só seriam franqueadas com a máxima discrição e a cópia dos seus manuscritos dependia de autorização presidencial e só seria facultada às pessoas de notório saber. Os menores de 14 anos estavam proibidos de frequentá-la e os menores de 21, não tinham o livre alcance das obras que ofendessem à Moral e à Religião.

Nos primeiros meses o movimento da Biblioteca tomava um estimável ritmo de progressão. Em agosto de 1883 foi registrada uma frequência de 244 pessoas, de ambos os sexos, número esse bastante elevado em vista das condições intelectuais de Manaus que contava ao tempo com uma população calculada em 10.000 almas.

Agora a maior preocupação era dotar a biblioteca com um edifício apropriado. Nesse sentido já se manifestara o presidente Paranaguá em relatório lido à Assembléia no início dos trabalhos legislativos de 1883.
Poucos dias depois, a 29 de março, o deputado Antonio José Barbosa apresentou aos seus pares um projeto de lei autorizando o presidente a despender até a quantia de sessenta contos de réis para custear a construção desse edifício.
Bento Aranha, fac simile
Era o primeiro passo para situá-la em um prédio condigno, como mais tarde se fez já na República, na administração de Constantino Nery, sendo que as portas do imponente edifício da rua Barroso foram franqueadas ao público a 5 de setembro de 1910, sob a direção de Bento Aranha.