CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

25 de setembro de 2011

Alencar e Silva (1930-2011)

Neste domingo, enquanto parte dos torcedores do Rio de Janeiro vibrava com a conquista vascaína, o amazonense nascido em Fonte Boa, no médio Rio Amazonas, Joaquim Alencar e Silva “entregava a alma a Deus”, aos 81 anos, completados nesta quarta-feira. Há anos, nosso poeta residia no Rio e enfrentava dura enfermidade.

Alencar e Silva, 1982

Alencar e Silva, sua identidade literária, mas que os íntimos conheciam por Neto, encerrou sua atuação na Academia Amazonense de Letras, deixando vaga a Cadeira 23, cujo patrono é Cruz e Souza. A poucos dias da eleição que iria completar o quadro dos acadêmicos.

Poeta destacado, lançou seu primeiro livro – Paineis (1952), portanto, às vésperas da inauguração do Clube da Madrugada, que ocorreu em 1954. Muito depois, veio Lunamarga (1965). Sobre o Madrugada e este poeta, o finado Ramayana de Chevalier escreveu em O Jornal, Manaus, 1968:

Um dia, um punhado de loucos quis criar uma fábrica de gênios. Eram lúgubres filhos do Inferno Verde, anjos nascidos nas asas da acauã, sazonados em sóis de sangue, paridos por abelhas macróbias, trazendo na alma o sinete dos grandes momentos amazônicos.


Quando esses jovens pretenderam criar, já estavam velhos, já eram artistas consumados, já haviam percorrido os caminhos admiráveis da Grécia, os valhacoutos sombrios de Creta, os bairros tumultuosos de Esparta e de Atenas, as margens sombrias do Sena e do Tâmisa.

Não haviam saldo de Manaus e já conjugavam todos os verbos da poesia universal. Eram pastores de ovelhas serenas e verdes. Bebiam, pelo gargalo das garrafas, a sede dos Bacos-Dionlsios de todas as épocas.

Entre eles estava Alencar e Silva, o Neto. Simples, calmo, um bronze arcaico num sorriso ameríndio. Seu coração pedia flores e seus nervos se alimentavam de vulcões mornos e meigos. O Amazonas ouviu seus lamentos.

O Clube da Madrugada é responsável por uma ressurreição e por uma luta. Brava, musical, inapagável, violenta e infinita. Todos os amazonenses, um dia saberão o que significa esse Clube e esse punhado de moços, teimosos e magníficos que amam a Arte e a Beleza.

Lunamarga é uma revelação. Do artista, do homem, da pureza da vida, da candura da terra. Um poeta: Alencar e Silva. Um destino: o seu grupo. Uma realidade: a Amazônia.

Este livro mereceu o prefácio do finado L.Ruas (1931-2000), que registrou:
Lunamarga é um livro de maturidade, ou melhor, de maturação. Alencar e Silva é um homem voltado para as grandes realidades interiores. É um reflexivo por natureza. É um meditativo. Até o seu modo de falar nos diz isso claramente. Não é um extrovertido. Um
palrador.

Fala como se estivesse sussurrando, confessando um segredo. Há sempre um silêncio envolvendo cada palavra que ele profere. O silêncio é o seu "habitat". Ninguém pode deixar de comungar com a realidade. Mas isto pode ser feito de duas maneiras.

Há indivíduos que, por assim dizer, se deixam devorar pela realidade externa. Outros, ao contrário, se transformam em receptáculos e absorvem, na sua interioridade, o mundo exterior. Alencar e Silva é assim. A realidade, para ele, é apenas pretexto para manifestar seu universo interior. Não se transforma na paisagem. A paisagem se transforma nele. (...)

O homem mergulhado no seu próprio mistério, que é vida e morte, angústia e canto, inconsistência e rosa, não para explicá-lo, mas para vivê-lo ou sofrê-lo que é a mesma coisa. O homem diante de seu mistério, conscientemente diante dele, poeticamente diante dele, maravilhadamente diante dele:
o meu rosto se move horrorizado
sem se encontrar em qualquer dos espelhos.

Neto publicou ainda Território Noturno (1982), e mais poesia em Sob Vésper (1986).
Enfim, facilitou tudo editando a Poesia Reunida (1987).
Alcançou a Academia Amazonense de Letras em eleição de maio de 1992, tendo ocupado a poltrona azul do Salão do Pensamento Amazônico em agosto do mesmo ano. Foi saudado pelo poeta Max Carphentier, em sessão conduzida pelo saudoso presidente Oyama Ituassu.


Arthur Engrácio, saudoso crítico literário, analisou o Território Noturno, último livro de Alencar e Silva (Casa Editora Madrugada, 1982, 86 páginas), levando-se em conta o que preceitua o ensaísta de "Missão em Portugal", enquadra o autor, com muita justiça, na categoria de poeta maior.

Publicou ele até agora três livros, mas todos com a preocupação do duradouro, do imperecível, do eterno, do sondador que leva ao limite máximo a sua operação. Território Noturno é como que a condensação dos muitos outros livros que o poeta tivesse escrito nesses trinta anos de atividade artística e não os houvesse publicado (não teria ocorrido isso?). Porque o que domina as suas páginas é o essencial mesmo; é a pureza da forma, é a filtração das idéias impondo-se com muita força ã sensibilidade do leitor. Cada peça do volume lembra a filigrana em que o ourives imprime a magia das suas mãos privilegiadas.


Esta é a imagem que mais se ajusta à arte de Alencar e Silva. Quem o conhece como nós outros, nesses seis lustros do seu peregrinar poético, não ignora o quanto vale para ele a palavra escrita; conhece a luta que trava com ela diuturnamente, no afã de prendê-la, de dominá-la - e sabemos que na hora de tê-la ao nosso serviço, quanto é esquiva e fugidia!

de seus versos. De minha parte, despeço-me, reproduzindo dele um Soneto, incluído em Território Noturno, que nos lembra com amargor a esta tarde de setembro.

SONETO DE SETEMBRO


Eis que volve setembro e traz nos ombros
as clâmides azuis da primavera.
Vem como vinha e como virá sempre:
ressuscitando o verde pelas tardes.
Eis que volve setembro e novamente
o azul amplia o céu e o mar profundo
enquanto o amor retece uma coroa
de flores para a fronte constelada.
Eis que volve setembro e são quarenta
e sete vezes que ele a mim retorna,
e suas asas e seu hausto suave
ainda me aquecem neste claro agora.
Eis que volve setembro. A tarde larga
é ainda a mesma, só que um tanto amarga.
 
Há muito a dizer, seus amigos e leitores sempre apregoaram os benefícios colhidos
Dentro de um poliedro de mil faces