CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de janeiro de 2011

O Cinema na Cachoeirinha

O bairro da Cachoeirinha foi arruado por volta de 1892. Eduardo Ribeiro, governador, ordenou ao engenheiro Antonio Joaquim de Oliveira Campos que elaborasse um plano para ocupação de enorme área (mais de 1.500m2), objetivando criar novo bairro. Ganhou o nome de Cachoeirinha, devido ao fato de haver ali perto pequena queda de água.

Em termos de entretenimento, a Cachoeirinha foi o primeiro bairro a conhecer um cinema. Aconteceu em 1909, com a inauguração do Recreio Amazonense. E, também, o último, pois o cine Ipiranga fechou no início dos anos 1980.

Recreio Amazonense (1909)
Em 6 de março de 1909, a firma Botelho & Mendes inaugura na rua Municipal (atual av. Sete de Setembro) nº 55 ou 155, o Recreio Amazonense. O matutino Correio do Norte (16 jun.) propaga que o Recreio funcionou à praça Floriano Peixoto (desaparecida com a construção do Hospital Geral de Manaus), próximo à capela do Pobre Diabo, “profusamente iluminado à luz elétrica em forma de estrela ao alto da porta de entrada”.

O Recreio funcionava ao ar livre todas as noites, utilizando aparelho de projeção Gaumont. Exibia cinco fitas ao preço de 1$000 (mil réis) e, camarotes, a 5$000 (cinco mil réis). Exceção feita aos espetáculos de gala, quando cobrava a entrada a 2$000 (dois mil réis). O dono contribuía por espetáculo com a quantia de 100$000 (cem mil réis) para a Santa Casa de Misericórdia(!). A empresa, em contrapartida, era compensada na tarifa da energia elétrica.
Apesar de ser considerado o “centro de diversão” das famílias amazonenses, o Recreio funcionou pouco mais de seis meses. Encerrou as atividades em 5 de setembro, quando sua aparelhagem foi levada para a cidade de Itacoatiara.


Essa diversão somente voltaria a Cachoeirinha em 1946, com a inauguração, em 5 de outubro, do Cine Operário. Mantido pela Associação Cristã de Moços, funcionou na sede do Círculo Operário de Manaus, situada na atual av. Castelo Branco, próximo da outrora conhecida “Curva da Morte” (onde se encontra o bar do Carvalho).
Não podia ser diferente, inaugurou com o filme A vida de Dom Bosco. É desconhecido o período de sua existência.

Cine Ipiranga (1959-1983)
Inaugurado o cine Vitória em Educandos, A. Bernardino decide construir no bairro da Cachoeirinha o maior cinema de Manaus, o Ipiranga. Há, contudo, uma controvérsia quanto ao total de poltronas nesta sala. O Jornal do Commércio (6 out.1959) informa que o Ipiranga possuía 1.850 lugares. Mas, o mesmo periódico, dois dias depois, assegura que o mesmo possuía 50 cadeiras a mais.


A Tarde, de Aristóphano Antony, contradiz os números do concorrente para contar 1.870 lugares. O certo, segundo depõe Adriano Bernardino Filho ao matutino A Notícia (7 maio1975), é que no Ipiranga existiam somente 1.500 lugares.
O Cine-Teatro Ipiranga foi construído em tempo recorde na praça General Carneiro com a frente para a avenida Carvalho Leal. Executado pela construtora de Antonio Barros dispunha de quatro reforçados renovadores de ar (Gaumont-Keller); de uma eletrola de alta fidelidade (hi-fi) no salão de projeção, que media 48 metros de comprimento, por 22 de largura; e com poltronas assentadas em formato côncavo, inovação que objetivava a melhor visibilidade pelo espectador.
Cine Ipiranga, na Cachoeirinha, Manaus
Segundo informações, foram gastos cerca de 10 milhões de cruzeiros. Nesse montante, estão inclusos a instalação de dois geradores de energia, para utilização em caso de emergência; sistema de som e iluminação; dois projetores da marca Solidus, para exibição em diversos sistemas; e a tela, medindo 18mx8m40. Enfim, foi instalado à entrada do prédio um bar para a venda de sorvetes e refrigerantes.

Em 5 de outubro de 1959, a imprensa baré foi conhecer as instalações do mais novo cinema de Manaus. A inauguração ocorreu no dia 8, às 10h, quando foi servido um coquetel. Esteve presente o governador Gilberto Mestrinho (1959-1963), que cortou a fita de inauguração, ao lado dos diretores Aurélio Antunes e Adriano Bernardino. Em sessão especial, foi exibido o filme Adeus às Armas, com três horas de duração e estrelado por Rock Hudson (1925-1985), Jeniffer Jones (1919-) e Vittorio de Sica (1901-1974). Na sessão das 20h, aberta ao público, o mesmo filme foi exibido. Para evitar tumultos, a venda de ingressos para a inauguração foi realizada no Guarany, ao preço de 10 e 20 cruzeiros.

No primeiro aniversário, em 1960, a empresa repetiu o procedimento do Cine Guarany, preparando diversificada programação cinematográfica. E mais. Nas quatro sessões do dia distribuiu brindes e sorteou prêmios aos frequentadores. Na matinal, afora o filme O Milagre da vida (Warner Bros), foi exibido o desenho Cão e Gato e um Complemento Nacional. Às 13h, sessão dupla: Rodan, o monstro do espaço e O Milagre da vida, e às 16h e na “sessão colosso” das 20h, novamente Rodan, precedido de um Complemento Nacional e o documentário de Walt Disney Escadaria dos Andes – Portugal.

A comemoração de aniversário do Ipiranga ocorria em 1º de outubro e se prolongava por oito dias. No dia 12, para comemorar o Dia das Crianças, o governo do Estado brindava as crianças com entrada gratuita. (segue)
Texto de autoria de Ed Lincon.