CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

11 de janeiro de 2011

Bombardeio de Manaus II

Em outubro passado, talvez tenha sido o único no Amazonas, lembrei aqui neste espaço o centenário do Bombardeio de Manaus. Para ilustrar a data, postei um ensaio do finado memorialista Júlio Uchoa, datado de 1949.

Na verdade, penso que esse extravagante episódio bélico(?) na vida de Manaus ainda aguarda seu historiador. Sempre que se fala no assunto, rapidamente se transfere à “exclusiva” culpabilidade do senador gaúcho Pinheiro Machado, morto em 1915, o ACM da época.

No entanto, a questão não é tão singela assim. Nenhum cronista ou historiador regional estabeleceu os valores dos participantes, dos dirigentes locais envolvidos na querela. Há fontes – jornais, cartórios, igreja católica, cemitérios – esquecidas. Sei que os jornais de então sumiram, exceto o centenário Jornal do Commercio.

Hoje, A Crítica alardeou a informação sobre o material iconográfico existente da Casa de Rui Barbosa, no RJ. De pronto consultei o site http://www.casaruibarbosa.gov.br/ e vi que ali há pouco a acrescentar sobre o assunto. Afinal, as fotos disponíveis mostram a residência do bacharel Simplicio Resende e de um seu parente, além de uma casa comercial. Todas varejadas por tiros disparados pela Armada.

A Crítica. Manaus, 11 jan. 2011
As fotos foram executadas por George Huebner, o mais distinguido e, portanto, mais caro fotógrafo da cidade. Elas demonstram duas particularidades: privilegiam as propriedades da família do bacharel e do comerciante. Ou seja, bem pago, Huebner caprichou.
Depois, chegaram ao jurista Rui Barbosa certamente para que este instruísse processo indenizatório contra a União. Ou ainda para alicerçar o habeas corpus em favor do governador Antonio Bittencourt, corrido do governo do Amazonas.

Diante das fotos, pode-se ainda inferir, que os balaços foram direcionados unicamente aos mencionados edifícios. Ou que a calibragem dos marinheiros não era a melhor possível, pois pode ter apontado para o casario e acertado no que não viu. Atiraram para o alto, para assustar, depois de espantar a população.

Quando se fala em bombardeio, associa-se logo a um violento e largo arrasamento de edificações além da destruição de vidas humanas. Nesse acontecimento, não se tem notícia de uma ou de outra, salvo...
Na verdade, as fotos expostas com amostragem tão reduzida de estragos, a mim parece exagero intitular o desentendimento de "Bombardeio". Mas, houve mortes, sim. Dois praças da Polícia Militar, que o governador Bittencourt soube “aproveitar”, imortalizando-os no mármore do cemitério São João. O jazigo foi construído no melhor estilo e, na campa, há um poema anônimo conclamando o “viandante que passais”...

São esses detalhes, e há outros em profusão, que alicerçam minha convicção. De que há pouco ou quase nenhum conhecimento sobre o 8 de outubro de 1910. Tomara que eu esteja enganado, como aconteceu com o jornalista autor da matéria em A Crítica, ao legendar a foto do navio atacante. O retrato destaca um navio festivo e ancorado em outra data.
São deslizes como esse que consolidam as lendas em torno do Bombardeio de Manaus.