CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

6 de janeiro de 2011

Santa Casa de Misericórdia

O texto sobre a Santa Casa foi produzido pelo finado governador Plínio Ramos Coelho. Publicado em O Jornal, de Manaus, em 7 jun. 1956, quando o autor era o governador do Amazonas. Nele, descreve o embate que enfrentou com esse hospital, que ameaçava fechar. O mal, portanto, é bem antigo.
O autor do poema e do ensaio é Álvaro Maia, outro ex-governador do Estado.
Bom proveito!

SANTA CASA DE MISERICÓRDIA


Estava no governo o brilhante poeta de Sobre águas barrentas, quando, um dia, recebeu a comunicação de que os egrégios membros da Assembleia da Santa Casa de Misericórdia teriam resolvido eleger um Provedor. Não sei como terá o autor de Canção de Fé e Esperança, recebido a notícia. Nada mais havia de mais chocante contra uma administração do que o sucedido. O Provedor até então era nomeado pelo governador do Estado. Foi cortado, assim, o cordão umbilical que prendia a Santa Casa à administração. A alegação dada se sustentava na prodigalidade com que a administração estadual distribuía leitos de primeira, mergulhando na falência esse hospital.
Santa Casa de Misericórdia, Manaus

Assumi as rédeas do governo na convicção de que a Santa Casa de Misericórdia era uma entidade particular. Dezenas de indigentes batiam nas portas do Palácio, clamando por um leito e os enviava eu à Santa Casa, sem ser atendido. Até mal tratados eram. Recorri à Beneficente Portuguesa. Durante um ano, essa caritativa entidade hospitalar acolheu os doentes que para ali remetíamos, tratando-os da melhor maneira e sem cobrar ao Estado um centavo ao menos. Enquanto isso, a Santa Casa atendia como desejava e queria, sem aceitar solicitações do Estado – que vexatoriamente era tratado.
Hoje, para que a Santa Casa receba um doente mandado pelo Estado é de mister que implore um leito, e declare, em prévio ofício, que o internamento do mesmo é por conta do erário. E quantos doentes não voltaram sem serem atendidos! Quanta mãe não parturiu nos corredores ou em leitos improvisados, na Maternidade Darcy Vargas, porque a Santa Casa dizia não ter vaga! Várias vezes acordei de madrugada, chamado ao telefone para resolver casos como esses. A solução, nunca a tive por parte da Santa Casa.

Não faz dias, esteve em Palácio, para tratar de interesse desse hospital, o Dr. Gilson Vieiralves. Ao decorrer da palestra afirmou-me que a Santa Casa iria diminuir, mais ainda, para 50 leitos, os reservados à indigência. Disse-lhe, a esse esforçado médico, que está lutando para reerguer esse nosocômio, que se tal ocorresse a direção desse hospital estaria declarando a falência de um organização que visa, preferencialmente, a atender à pobreza. (segue)


 Amanhã, publico a segunda parte.