CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de janeiro de 2011

O Cinema na Cachoeirinha II

O aniversário do Ipiranga ocorria em 1º de outubro, mas se prolongava por oito dias. No dia 12, para comemorar o Dia das Crianças, o governo do Estado brindava as crianças com entrada gratuita.
Mario Adolfo, jornalista criador do suplemento infantil “Curumim”, relembrou no jornal Amazonas em Tempo (13 out.2002), um 12 de outubro no cine Ipiranga:

Mario Adolfo, 2009
Na infância pobre lá da Cachoeirinha, o grande presente do dia era a matinal (sessão de cinema às 9h) do Cine Ipiranga com portas abertas, oferecidas pelo Governo do Estado. Para conduzir as crianças tinha ônibus de graça. Eu e meu amiguinho Simão Pessoa, que morava na rua Parintins, esquina com a rua Borba, onde eu morava, não precisávamos de ônibus. Andávamos três quarteirões a pé na maior felicidade. Chegávamos suados, mas felizes ao maior cinema da cidade, que tinha na parede a reprodução do famoso quadro de Pedro Américo com a cena do “Grito do Ipiranga”. Próximo à tela, dois buracos de onde saía uma ventania infernal produzida por dois ventiladores gigantes.

Simão Pessoa, 2009
Debaixo do braço, exemplares de Kid Colt, Tarzan, Zorro, Fantasma, Cavaleiro Negro, Roy Rogers, Antar e Águia Negra para trocar com outros garotos na saída. Ainda sinto o gosto do bombom pippers (de menta) ardendo à boca, quando lembro de um desses 12 de outubro, quando assistimos O Homem que matou o facínora, com John Wayne. Quando o grandalhão com cara de índio acertava o queixo do bandido, a gente assobiava usando como recurso o papel do bombom. Ou então, batíamos na cadeira de madeira que estava vazia ao lado. Era uma barulheira infernal. (...)
Neste cine, ocorreu o avant-premiére especial. Em 1965, quando o embaixador da URSS transitou por Manaus, foi exibido o filme russo Ivan, o Terrível, estando presente o Governador Arthur Reis (1964-1967).
No palco, também passaram cantores famosos: Carlos Nobre, que realizou show grandioso na noite de 22 jan. 1961, apresentado pelo radialista e animador cultural Ivens Lima; Moacyr Franco, em 1962; Waldik Soriano (em diversas datas); Altemar Dutra, em 1961.

Adriano Bernardino Filho
Adriano Bernardino Neto, em depoimento A Crítica (17 abr. 2005), relembra uma malsucedida apresentação de Waldik Soriano no palco deste cinema: Ele [Waldik] gostava de beber uísque. Em determinada ocasião, ele ganhou uma garrafa e desapareceu na hora do show. Meu pai [Adriano Filho] foi encontrá-lo em um hotelzinho do centro, completamente embriagado. Ficou tão irritado que o jogou com roupa e tudo debaixo do chuveiro e o trouxe para cantar.


O quarteto de Os Trapalhões (1976, 1978 e 1981), por ocasião do lançamento de suas películas, realizava o “pré filme”. Marcou época também, o musical Confusão na taba, em 1972.


O advento da Zona Franca e o surgimento da televisão trouxeram a decadência ao cinema em Manaus. O Ipiranga, assim como outras salas, conheceu o esvaziamento de público. Os shows de artistas nacionais também foram perdendo espaço. Nessa época, fazia sucesso os filmes de bang-bang italianos, os chamados “Western Spaghetti”, bem representado por Django.
Em 1970, o prefeito de Manaus, Paulo Pinto Nery (1965-1972), inicia uma campanha contra a má conservação e a falta de conforto nos cinemas. Contava com o apoio do Instituto Nacional do Cinema (INC) e da imprensa. Quase diariamente circulavam notas desabonadoras sobre as condições de higiene das salas . O Jornal (4 dez. 1970) noticiava:


Temos feito campanha permanente contra o péssimo estado de nossos cinemas: sujos, quentes, mal-cheirosos. É uma vergonha, para uma capital em desenvolvimento acentuado, como de Manaus. Todos os estabelecimentos têm melhorado, menos os cinemas que, com o tempo, vão naturalmente piorando. Piorando em tudo. A população reclama a situação, porém não é ouvida. Uma tristeza. E como não há para onde ir, todos são obrigados a suportar os cinemas, assim como se apresentam, despidos de requisitos de conforto e higiene”.


Bem mais surpreendente foi que, em março, o controle acionário da A. Bernardino passou ao grupo Philippe Daou S.A. Daou decide negociar algumas salas: o Vitória, em Educandos, passa ao domínio de Moto Importadora /Credilar; o Avenida, na avenida Eduardo Ribeiro, para o firma Benchimol, Irmão & Cia.; e o Palace, no Boulevard Álvaro Maia, ao mando da Casas do Óleo (CO). Dessa maneira, são mantidos em atividade apenas o Ipiranga e o Guarany, que seriam parcialmente reformados.

Segundo publicação jornalística, o prédio do Ipiranga seria dividido em duas partes. Uma, serviria de auditório da TV Amazonas, e, a outra, sala com menores proporções, tal como já sucedia em outros Estados. O esquema, no entanto, não saiu do papel.
Depois de pequenos reparos feitos no prédio do Ipiranga, o novo dono promove mudanças na programação. As produções simplórias de Mazzaropi e os faroestes italianos foram substituídos por dois gêneros de filmes: a pornôchanchada, produzida em São Paulo, e o Kung Fu "made in Japan".

Bernardino Filho havia adquirido parte do grupo Daou, disposto a não transformá-lo em supermercado. Desejava continuar como cinema. Em depoimento, Adriano expõe o plano de reduzir a metade a capacidade do cinema, bem como, construir um mini shopping, uma choparia e outra sala. Essa, daria acesso ao salão separado apenas por um vidro, para que os frequentadores assistissem aos filmes ou fumando ou tomando cerveja.

Ainda na entrevista, Bernardino prometia continuar no ramo cinematográfico, para isso, procurava um local no Centro para abrir nova sala de exibição. Esta, com um número reduzido de lugares, porque, segundo o próprio, a manutenção de um cinema era muito dispendiosa.
Em razão de sua grandiosidade, o Ipiranga, no final dos anos 1970, torna-se a casa cinematográfica mais popular de Manaus. Essa popularidade ficou patenteada quando do lançamento do filme King Kong, recorde de bilheteria desse cinema em toda sua existência.
Lançado nacionalmente em 2 de setembro de 1977, com ampla divulgação nos jornais e na televisão, um dos motivos de seu sucesso. Antes de cada sessão, enormes filas formavam verdadeiras “cobrinhas humanas”; principiavam em frente do cinema, ultrapassavam a rua Barcelos e findavam na avenida Castelo Branco. A respeito desse fato, A Crítica (13 set.), na coluna Sim & Não, convoca o órgão controlador de preços (a extinta Sunab) para observar a desordem que imperava no Ipiranga e os abusos cometidos pela proprietária. Resultado: a Sunab agiu e multou a empresa.
“No Cine Ipiranga, onde está passando King Kong (...), as filas estão descambando para o tumulto que se transfere para dentro do salão de projeção, já que as entradas estão sendo vendidas em muito maior número por sessão do que a capacidade de lotação do cinema. Vai lá Sunab!”.  (segue)
Texto de autoria de Ed Lincon.
 
A campanha prospera. Em 1972 fecham as salas Ideal e Popular. Em fevereiro de 1973, circula na cidade o rumor de que o Ipiranga fecharia as portas devido a baixa frequência. Ao desmentir a publicação, a empresa aproveita para lançar um filme que apenas serviu de chacota: O Preço da glória.