CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

3 de janeiro de 2011

União Brasileira de Escritores/AM

Os jornais de Manaus, na década de 1960 e seguinte, porfiavam em publicar trabalhos de nossos escritores. Quase sempre aos domingos, em suplementos corrdenados por entidades literárias. Talvez o encarte mais conhecido tenha sido o do Clube da Madrugada, um longo tempo em O Jornal e, com o perecimento deste, em A Crítica.
A seção amazonense da União Brasileira de Escritores (UBE) também experimentou a fórmula. Encartava no Jornal do Commercio o trabalho de seus associados. Para a ilustração desse meu trabalho, transcrevo a crônica (edição de 16 ago. 1970) de um saudoso conhecido meu, padre Luiz Ruas, ou L. Ruas, como literariamente assinava seus trabalhos.

Crônica para o amanhã

L. Ruas

Tarde está cansada. Há macios cinzentos nas calçadas.

Hoje, talvez, fosse bom navegar em teus mares, ó cálida e vespertina doçura. Hoje, talvez, fossemos além destes limites de azul.

Pelos ferros contorcidos da claraboia, a luz tenta uma transfiguração dos minutos. Ler a revista, sem pressa. Tragar um cigarro sem emoções. Não mover os olhos. Não molhar os lábios. Não desejar. Apenas aceitar a comunhão suave da tarde cansada.

Cessaram os ritmos violentos que rompem a tranquilidade dos equilíbrios e nos jogam, em rodopios, para o claro momento. Ah! O claro momento.

A luz cai intensa e perpendicularmente sobre a retina e fere o idílio da luminosa comunhão dos seres que se consomem na espera.

O retorno para o que foi. Há sempre retornos nos momentos da tarde, véspera da noite. Amanhã é possível que haja outras partidas.


Vejo-te. Quero-te. Sinto que te fazes sempre presente nos momentos silenciosos do entardecer. Hoje te procuro. Hoje te desejo. Vermelho é rosa do que vivi. É sempre possível olhar no espelho e não ter de esperar o amanhã. Se você tomar o vermelho da rosa em suas mãos ele se transforma silenciosamente em tarde.


Tarde cansada.

Desce em mim tua ternura de quietude. Estas folhas que se desprendem sem remorsos. Agora todos estamos reconciliados. É quietude e sombra este caminhar de leve que se integra em nossa voz que murmura qualquer som.


Agora é preciso esperar a noite.

Agora é preciso desejar o amanhã.

Rio Amazonas, em frente de Itacoatiara (AM), 2008