CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Teatro Amazonas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teatro Amazonas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, agosto 27, 2026

ALCEU VALENÇA EM MANAUS - 1976

 Há precisamente 50 anos, foi realizada a estreia do hoje consagrado compositor Alceu Valença, em Manaus. A apresentação teve lugar no palco do Teatro Amazonas, que recebia os artistas contratados para a “Segundinha Cultural”, uma iniciativa da Fundação Cultural. A postagem foi recortada do jornal A Crítica.

  


Manaus, domingo, 29 de agosto de 1976

Ele troca Rolling Stones polo bumba-meu-boi. Nunca ouviu Pink Floyd, porque não tem vitrola e tem “mais em que pensar”. Mas gosta de Núbia Lafayete, que acha uma cantora maravilhosa, Nelson Gonçalves e Ray Charles. Considera a sua música, sanguínea: “O maracatu é demoníaco”. Este é o retrato do cantor e compositor, falado por ele mesmo: Alceu Valença, uma das últimas apresentações da “segundinha cultural”, criada pela Fundação Cultural há cerca de cinco meses com pleno sucesso do público e bilheteria. Valença apresenta-se no dia 30, no Teatro Amazonas, a partir das 21 horas e seu espetáculo já está sendo esperado pelo público amazonense como um dos mais importantes do ano.

O meu trabalho — explica Alceu Valença, tem um clima de brincadeira, de teatro popular nordestino, aquele negócio do “vamos brincar de boi”, uma festa, uma tragédia, como os autos populares que são trágicos e cômicos ao mesmo tempo.

Para este jovem nordestino que a crítica do Sul do país considera a “explosão musical do ano”, principalmente por seu trabalho em “Vou Danado Pra Catende”, a música é alimento, e as pessoas precisam se alimentar do que ele tem a dizer. Mas, o reconhecimento da crítica e o sucesso de público aconteceriam em meio a situações que ajudaram a compor a imagem de Alceu Valença, um artista bom de se ouvir e melhor de se assistir.

Alceu Valença

A princípio, confessa, “eu achava que não tinha talento musical, até o dia em que fui jogado às feras”. Na medida em que eu tinha vergonha de mostrar as minhas músicas é porque não era ainda a minha verdade. A partir do momento em que senti a minha verdade, eu tive que assumir, sem nenhum pudor. Não é conselho, mas, se você me perguntar se é bom, cara, eu diria que as pessoas deveriam entrar de sola nas coisas, mergulhar mesmo.

terça-feira, julho 28, 2026

AVENIDA EDUARDO RIBEIRO (2)

 Para o melhor entendimento, esclareço que o jornalista Ulisses Azevedo escreveu este texto em 1979, recordando seu tempo de jovem “de 30 anos atrás”. Desse modo, relembrou a situação na virada dos anos 1940. Azevedo tomou a avenida Eduardo Ribeiro como amostra, dissecando as diversas atividades e personalidades que por ali passaram. Lembro-me dela dos anos 1960, quando já dispunha somente parte do registrado pelo autor, cujo artigo foi publicado em A Crítica. Aqui vai a parte final.

 Passemos agora para o lado direito da Avenida. Em [19]49, salvo erro, o Morgado não estava mais com o Ponto Chic, ali na esquina já se situava a loja Credilar, que não era da Moto Importadora e sim do Charles Hamut, o mesmo Charles que fundou a Rádio Rio Mar; vinha o escritório da firma Freitas & Cia., a Casa Martins, a casa de modas de Madame Verdade, a Ourivesaria Biase, com o Zé discutindo futebol e o Zuílo lá nos fundos, na bancada. Minha amiga Thereza Biaze não trabalhava na Ourivesaria e sim na firma Oliveira Negreiros (aproveito a oportunidade para uma homenagem ao saudoso amigo Pedro Manuel de Oliveira Negreiros, o velho Manezinho). Depois do Biase, onde é a “Exposição”, ficava um bar-restaurante cujo nome não lembro. E o Salão da Messody Henriques, o primeiro salão de beleza de nossa cidade. Depois não me lembro o que era, a memória falha, para se deter na “Maranhense”, da Verónica e da Olivia, minha colega de turma do Ginásio Amazonense, turma de [19]42, e que não se chama Olívia, e sim Maria do Perpétuo Socorro. Depois da “Maranhense” os “Reservados São Paulo”, do Didier Monteiro e, na esquina, a padaria do Osvaldo Loyo.

 Agora o outro quarteirão, Saldanha Marinho/24 de Maio. Do lado esquerdo, não sei se em [19]49 ainda estava a Mercearia Central ou a Alfaiataria Avenida, do Antonio Sá Freitas, “Esquina da Elegância” (não estou fazendo pesquisa, apenas forçando a memória). O escritório do Homero Sá; onde é um banco, nos altos eram duas moradias, do Edgard Gama e Silva e do Dr. Álvaro Bandeira de Melo, no térreo a Nestlé, o Depósito Público, seguia-se o IAPI, a funilaria do Celani, a Singer (nos altos a Rádio Baré), o Saci Bazar, Confeitaria Avenida, Padaria Avenida e a marmoraria do Veronesse (costumava ir tomar uns tragos com a turma de lá, mas de nome, só me lembro do Bibi e do Pereira, que também era guarda de trânsito).

O muro ia até a esquina, tinha uma casa dentro e uma garagem. Do lado direito, o Cine Odeon, o velho prédio com o maior salão de espera que um cinema possa ter, cheio de colunas e de espelhos, com cadeiras de palinha; ao lado a “Casa de Chopp”, depois “boate Odeon”, hoje tudo incorporado ao Shopping Center; e o edifício do Foto Artístico. onde no térreo A Crítica foi fundada; ao lado o escritório do dr. Adriano Queiros, o prédio de “O Jornal” e “Diário da Tarde”; o “Jornal do Comércio”; depois um muro do terreno dos Agostinianos, atualmente o edifício “Cidade de Manaus”.

Avenida Eduardo Ribeiro de nosso tempo

Quarteirão da 24 de Maio/José Clemente. Do lado esquerdo a residência do Coqueiro Mendes, presidente da Câmara Municipal, hoje o edifício “Palácio do Comércio”; depois, terreno baldio, murado, até a esquina. Do lado direito, o velho prédio da Associação Amazonense de Imprensa, e lembro o mestre Aristophano Antony, um verdadeiro líder da classe, sempre ao lado de seus companheiros de jornal; vinha o prédio da Associação Amazonense de Professores e na esquina o Tribunal Regional Eleitoral, edifício construído na época da Ditadura para o Departamento das Municipalidades, já demolido.

Quarteira da José Clemente/ 10 de Julho. Do lado esquerdo, o Palácio da Justiça; lembrar fatos históricos é impossível neste registro; o mesmo acontecendo com o lado direito, fundos do Teatro Amazonas. Nada mudou nesse quarteirão, apenas os dois majestosos edifícios foram recuperados.

Quarteirão 10 de Julho: Monsenhor Coutinho. Lado esquerdo, na esquina, a residência do “seu” Cruz, pai do Raimundo, do Zé Arthur, do Miguel, do João Cruz, todos meus contemporâneos do Ginásio. Terreno baldio, murado, e o Ideal Clube, o mesmo prédio atual, na época presidido pelo saudoso Dr. Gama e Silva, que prestigiava a turma da radiofonia local. Do lado direito, onde foi o Siroco e hoje é moderno edifício, um terreno baldio, murado. Seguiam-se residências de gente importante, lembro apenas do Dr. Aristides Rocha e da família Roessing. Na esquina, o palacete da família Miranda Corrêa, uma coisa linda em estilo colonial, lembrando a época faustosa da borracha quando em Manaus se fabricavam cervejas gostosas (XPTO e Amazonense, em junho e no Natal a Yankee, cerveja escura). Demoliram o belíssimo palacete e, em seu lugar, está aquele espigão horroroso.

E ai terminava a Avenida, dando para a Praça Antonio Bittencourt, que o povo passou a chamar de Praça do Congresso, por ter sido ali o I Congresso Eucarístico de Manaus. Olhando para a Avenida, o Instituto de Educação do Amazonas, a despertar saudades e gratas recordações a dezenas de gerações. Dona Eunice Serrano Teles de Souza, dona Lila Borges de Sá, nomes que ficaram, entre outros distintos educadores, a merecer a lembrança imorredoura da juventude que ali estudou e aprendeu. No Instituto de Educação funcionou a Assembleia, que depois passou para o prédio da Biblioteca, retornou ao IEA, até conseguir local próprio no Palácio Rio Branco.

Desculpem o exagero das repetições. Onde, atual, ali, era, era. Foi apenas um roteiro de saudades, que pode ser percorrido por quem conheceu a Avenida de 30 Anos atrás. Num passeio de saudades e muitas recordações.

sábado, julho 25, 2026

DIA DO ESCRITOR

 

Após breve dúvida, para comemorar o Dia do Escritor, revisei meus arquivos sobre o in memoriam  Ramayana de Chevalier (1909-72 ), que, no decorrer de 1961, há 65 anos, publicou crônicas e artigos no extinto jornal A Gazeta. Quase encerrando aquele ano, Chevalier demonstrou sua erudição ao comentar “A Raposa e as Uvas”, peça apresentada no Teatro Amazonas pelo Teatro Escola.

Ramayana de Chevalier

 BEBE O MAR, XANTÓS!

 Ramayana de chevalier

A GAZETA, 19 de dezembro de 1961

 

QUANDO as centelhas do primeiro relâmpago rasgaram os céus, entre massas de nuvens e pavores eternos, duas criaturas se digladiavam, filhos do mesmo Deus, o Anjo do Bem e o do Mal, enquanto dentro da caverna, começava a se esboçar, no alto do monte, a palavra mágica de Zaratustra. O que Nietzsche fixou, milênios depois, significa o nascimento do teatro. Essa luta milenária é o sangue e a voz do teatro.

Ainda estou emocionado, até agora, com a reapresentação de A Raposa e as Uvas, poema de profunda crispação estética, filho do talento de Guilherme Figueiredo. Se o Novo Amazonas pode ser afirmado, em realidade, é num momento desses. Aos saudosistas, não resta senão um gesto de compreensão. Jamais, em todo o nosso passado artístico, tivemos uma tão profunda demonstração de pujança intelectual, de criação interpretativa, do que durante o drama grego, da autoria daquele inolvidável Guilherme Figueiredo, nos nervos da equipe amadorista do nosso Teatro Escola.

A vida, no seu conturbado mistério, que se confunde com o mistério do teatro, na apreciação de Jean-Louis Barrault [1910-94, ator francês], a destinação dos sábios, o prêmio transitório da fortuna à mediocridade, a intriga dos simples e, ao cabo de tudo, o imenso triunfo do Amor, em toda a sua plenitude, a vitória do Espírito sobre a Matéria, assim é o desenrolar dessa peça maravilhosa, lição, diversão e glória. Com o Ponto a cargo de Geraldo Xavier e a direção de cena sob o comando de Aldemar Bonates e Francisco Aragão, a peça se mostrou ao nosso povo, que a aplaudiu delirantemente durante vários minutos, por duas vezes, com o cenário sóbrio, elegante, real e harmonioso, sobretudo histórico e sugestivo. É uma residência grega de um filósofo rico, com toda a vertiginosa beleza do seu tempo.

O ponto alto da representação é a figura monstruosa de Esopo, revelado pelo talento de Alfredo Fernandes. A caracterização, a justeza de atitudes, a presença do corcunda que, como um Caliban, horripila pelos olhos, mas que é um Ariel no espírito, tudo se reuniu para dizer da alta dramaticidade, da voz segura e impostada, do sucesso rigorosamente perfeito do intérprete do feio samósata. Hélio Azaro esteve magnifico. Xantós, o filósofo, através do seu talento cênico, revive e entusiasma, dá-nos a ideia nítida da fraqueza humana em todos os tempos, a exaltação da vida luxuriosa e fútil, a enorme lição da desumanidade vencida. Mauricio Wanderley, no Etíope, está bem posto, discreto e sincero, enquanto Carlos Araújo, em Agnóstos, é uma expressão teatral de porte soberbo. Terezinha Tribuzzi, em Melita, admirável corporificação das grandes passionais da Hélade antiga, dá-nos um papel natural, elegante, sutil, capaz de emocionar nas horas amenas de convívio com Xantós, como nos lances dramáticos de dedicação ao seu amor oculto. Ao seu lado, Ana Maria Araújo, numa Clea radiosa, viva, bela e espontânea, figura imponente de uma Grécia que nos deu Parmênides e nos deu Safo, honrando ao elenco.

O conjunto excedeu a todas as expectativas. Houve uma alma de santo passeando pelos corredores, afagando sacrifícios, velando, ora a assistir para ajudar, ora a viver os papéis antes de explicá-los, ora a desaparecer na sua modéstia, como a luz das cavernas, que ilumina sem ser pressentida: Américo Alvarez, um dos diretores artísticos do Teatro Escola Amazonense de Amadores. Mas o Amazonas, como sempre, deve tudo aos que aqui chegam, para cumprir um fadário, e terminam enleados na tremenda realidade telúrica e morrendo numa saudade doce e eterna.

O Amazonas deve o sucesso de A Raposa e as Uvas, a dois espíritos de brasileiros de outras paragens. Um deles, esse inefável e indescritível Gebes Medeiros, dínamo de capacidade invulgar, sonhador incorrigível, dono de uma extraordinária inteligência criadora. Veio de Alagoas e luta, com um punhado de heróis, pela grandeza de nossa cultura. O seu esforço, à frente do Teatro de Amadores, comove. Sou um decidido e obscuro voluntário do seu exército de párias, aplaudindo-o freneticamente. Em Gebes, quando se o aplaude, não se o faz a um homem em carne e osso, mas a uma materialização de artista, de todos os tempos, hábil e bom como um veio d’água.

E, como os veios d’água, ele se deixa atravessar pela luz, fixando-a nas suas cores e no seu brilho. A outra criatura a quem o Amazonas já muito deve, nesta fase de ressurreição estética, é uma paulista, de sangue misturado como as águas do Amazonas: Úrsula de Noronha Santos. Esposa do engenheiro Noronha Santos, que luta, ao lado de outros técnicos, por dotar Manaus de um sistema luminoso moderno, Úrsula é um talento recortado de um álbum de Fra Angélico. Nunca deixará de ser criança, pois só às crianças é dado sonhar com as coisas de Deus. Foi ela a autora daquele cenário maravilhoso, uma das diretoras artísticas do conjunto, interferindo nos gestos, na mímica, na voz, na conduta e nos ensaios dos atores. Foi ela a sombra meiga que se devotou a uma causa, cujo sentido, só os altos espíritos podem compreender. Num momento em que se dá tanto título de “cidadão do Amazonas” a quantos elementos mal se conectam com a nossa vida interior, com as vibrações do nosso espírito planiciário, urge que deputados, bem intencionados, outorguem esse título a esses dois brasileiros de outras paragens, unindo-os espiritualmente a nós, para toda a vida.

Ao Governo do Estado, que se entusiasma tanto com as realizações legítimas, que nos honram e nos enobrecem, um apelo: que o Teatro Escola Amazonense de Amadores saia por esse Brasil, mostrando aos patrícios, o que já conseguimos pela cultura e pela inteligência, levantando-nos do nada, erguendo-nos da crise, vivendo pelo espirito e pela Arte. Isso é fazer um Novo Amazonas, superior ao antigo, maior, bem maior do que o das eras do oiro e do champagne, como afirmação de sentimento, de estudo e de cultura. O que eu vi no Teatro Amazonas me deixou completamente em êxtase. Natacha, contemplativa, estava de lágrimas nos olhos, a mais bela homenagem ao gênio dos intérpretes caboclos. ***

terça-feira, junho 23, 2026

CICLOS DA BORRACHA

 

Renato Mendonça - 07.08.2019

 

Tento contar o que os livros de História do Brasil omitem, talvez por desinteresse ou o preconceito antigo de que o Amazonas era apenas uma terra de índios, sem tradição histórica. Os escritores regionais também não acordaram cedo para recolher o látex e o sernambi, a fim de narrar a epopeia de tantos ingênuos nativos e bravos sertanejos que pereceram e contribuíram com sua cota de sacrifício para o desenvolvimento da Região Norte do Brasil.

Placa existente no interior do mercado, ocasião em 
que tomou a denominação de Adolpho Lisboa.

Além da omissão nos livros didáticos, havia também uma visão centralista que privilegiava os acontecimentos do eixo Rio-São Paulo. Isso fez com que essa epopeia amazônica fosse relegada a notas de rodapé dos jornais, quando na verdade fortaleceu a economia nacional, além de representar um dos maiores movimentos migratórios internos do Brasil no século XIX.

Manaus era um lugar esquecido, longe dos grandes centros urbanos brasileiros, até que a indústria europeia e a americana passaram a necessitar do látex extraído das seringueiras, plantadas pelas mãos da natureza em toda a Amazônia. Entre os períodos de 1879 até 1920, a Região Norte brasileira viveria o seu apogeu de desenvolvimento; Manaus conheceria seu melhor momento urbanístico, e o Brasil experimentaria um de seus grandes ciclos econômicos, o Primeiro Ciclo da Borracha.

Naquela época, o mundo voltou-se para a Amazônia que, abençoadamente, possuía abundância de seringais nativos, por isso passariam a ser incansavelmente explorados por seringalistas para fornecer o insumo para a fabricação de borracha. Com o sonho de enriquecer, milhares de imigrantes brasileiros e estrangeiros instalaram-se nesses seringais. A mão de obra nacional era composta principalmente de nordestinos que fugiam das secas de suas terras.

Trabalhadores estrangeiros, entre eles portugueses, ingleses, espanhóis, italianos, alemães, americanos, gregos, sírios, japoneses e libaneses, também integravam a cadeia produtiva da borracha e faziam o intercâmbio econômico entre Manaus, os seringais e os grandes centros industriais da Europa e dos Estados Unidos. A presença desses imigrantes criou uma atmosfera multicultural única. O Estado tornou-se um ponto de encontro de línguas, religiões e tradições, ainda que essa diversidade fosse mais visível na capital do que nos seringais, onde predominava a exploração.

Manaus era um dos centros de todo esse processo, uma boa parcela dos seus habitantes tornava-se muito rica, surgindo assim os barões da borracha. A economia do Estado investiu em imponentes construções e num projeto ousado de urbanização.

As construções erguidas no auge da borracha permanecem como testemunhos de um tempo em que Manaus rivalizava em modernidade com capitais europeias. O Teatro Amazonas, o Mercado Adolpho Lisboa, o Palácio da Justiça são símbolos de uma cidade que ousou sonhar grande, mesmo cercada pela floresta.

A inauguração do Mercado Municipal Adolpho Lisboa aconteceu em 1883. Edificado com pavilhões em estilo Art Nouveau, suas peças pré-fabricadas foram importadas da Europa; em 1896, ocorreu a inauguração do imponente e suntuoso Teatro Amazonas, que por duas décadas recebeu óperas, orquestras e grandes artistas internacionais e por pouco não teve o compositor de “O Guarani”, Carlos Gomes, para abrilhantar a inauguração, este morreu meses antes, em 16 de setembro, quando já havia se comprometido para o evento. O Palácio da Justiça foi inaugurado no fechamento do século, em 1900. Nove anos depois, o Prédio da Alfândega, com blocos e peças importadas da Inglaterra, teve concluída sua edificação. 

O Tesouro Estadual vivia acentuado aumento de arrecadação e Manaus transformou-se num verdadeiro canteiro de obras. Uma das primeiras cidades a serem urbanizadas no país, uma das primeiras a possuir energia elétrica, possibilitando substituir os bondes puxados por animais pelos elétricos. Ao receber novo traçado urbanístico, foram abertas praças, ruas e avenidas; executados aterros, escavações e construídas magníficas pontes, duas delas em estrutura metálica, com material importado da Europa. As construções erguidas no auge da borracha permanecem como testemunhos de um tempo em que Manaus rivalizava em modernidade com capitais europeias. No período em que praticamente todas as grandes cidades brasileiras viviam quase de modo rural, ali já existia luz elétrica, redes de água encanada e esgotos. O porto móvel (Roadway) e os bondes elétricos a tornavam verdadeiramente cosmopolita, apelidada de ‘Paris dos Trópicos’.

Era comum os filhos das abastadas famílias emigrarem para estudar nas melhores universidades europeias, embora já existissem cursos de nível superior. A Escola Universitária Livre de Manáos, depois Universidade de Manáos, hoje Universidade Federal do Amazonas, foi criada em 17 de janeiro de 1909, sendo assim a primeira universidade brasileira.

Para se ter uma ideia da explosão demográfica de Manaus, em 1849 a cidade tinha aproximadamente 25 mil habitantes, em meio século esse número subiu para 70 mil. Como comparação, em 1900 a cidade de São Paulo possuía cerca de 240 mil habitantes. Além do provimento do látex, também contribuiu para o desenvolvimento da cidade não existirem meios de transportes aéreos na época, sendo a navegação, o único transporte intercontinental. Geograficamente favorável, Manaus ficava mais próxima dos grandes centros da Europa e Estados Unidos do que o Rio de Janeiro e São Paulo.

O Segundo Ciclo da Borracha aconteceu no período correspondente à Segunda Guerra Mundial, quando os seringais malaios — plantados com sementes contrabandeadas da Amazônia — foram interditados pelas forças japonesas no Pacífico e o governo americano, impedido de receber o insumo para a fabricação de borracha, incentivou novamente a produção de látex no Brasil, particularmente pelo Amazonas.

O grande desafio do governo brasileiro foi aumentar a produção de 18 mil para até 70 mil toneladas. Para atender a essa demanda, necessitava da mão de obra de mais de 100 mil homens. Estabeleceu-se o que foi denominado de "Soldados da Borracha", com recrutamento de voluntários que receberam a promessa de serem tratados no mesmo nível dos combatentes que integravam as forças brasileiras na Europa. Foi recebido um contingente de aproximadamente 55 mil peões de todos os cantos do país e, como sempre, uma expressiva soma de voluntários do Nordeste, particularmente do Ceará.

Quase todos esses voluntários jamais retornaram à sua terra natal, enquanto o Amazonas voltou a experimentar uma sutil sensação de pujança e riqueza. A maioria morreu de doenças como a malária ou pela violência da selva. Sem nenhum treinamento, recebiam apenas os itens básicos para o trabalho: uma calça de mescla azul, uma camisa branca de morim, um chapéu de palha, um par de alpercatas, uma mochila, um prato fundo, um talher, uma caneca de folha de flandres, uma rede e um maço de cigarros. Muitos desses homens foram enganados por promessas nunca cumpridas. Diferente dos pracinhas que lutaram na Itália, os soldados da borracha não receberam pensões ou reconhecimento oficial por décadas. Só muito tardiamente, no governo progressista de Dilma Rousseff, o Brasil começou a reparar, ainda que de forma tímida, essa dívida histórica, atendendo à Emenda Constitucional 78/2014, que estabeleceu o pagamento de uma indenização e pensão vitalícia.

 Muitos sobreviventes ficaram na Amazônia, por não terem dinheiro para pagar a viagem de volta ou estavam endividados com os donos de seringais. E muitos deles foram mortos pelos capangas dos barões da borracha, naquelas terras sem lei, sem nenhum sentido humano.

Apesar do sofrimento, a cidade voltou a sorrir, experimentou uma breve sensação de prosperidade e a economia regional revigorou-se. Mas, o período foi curto, apenas para atender os interesses americanos. A cidade caiu novamente no ostracismo até o surgimento da Zona Franca de Manaus em 1967, que trouxe indústrias e fragmentou a cidade em novos polos de desenvolvimento.

 


sexta-feira, novembro 22, 2024

CLUBE DA MADRUGADA: 70 ANOS

Aproveito a efeméride de hoje para recordar a comemoração do Jubileu de Ouro deste clube, celebrada em 2004. O Largo de São Sebastião engalanou-se para abrigar a arena da celebração. Subiram ao palco músicos e literatos, jovens e remanescentes do movimento amanhecido em 1954, quando “um punhado de jovens, sequiosos por romper o isolamento da província, o isolamento geográfico”, resolveu “descobrir o verdadeiro comando de sua existência”, consoante o registro de um dos fundadores – Jorge Tufic, in Clube da Madrugada 30 Anos.

Teatro Amazonas e o palco dos festejos

Ainda em plena atuação, um dos fundadores, Luiz Bacellar (1928-2012), prestigiou o lançamento de livros de integrantes do Madrugada promovido pela Editora Valer. O autógrafo de Bacellar em Quatro Movimentos (1975) guardo o exemplar com religiosidade.

Personalidades presentes: músico Maury Marques;
poeta Max Carpenthier e o editor Tenório Telles (a partir da esq.)

Mais uma memória, do mesmo modo compartilhada do Tufic: em comemoração ao 7º aniversário do CM, a direção mandou confeccionar uma placa alusiva ao evento, com os seguintes dizeres:

Pois foi. Jovens se reuniram sob a fronde desta árvore; e aconteceu. Quando Madrugada, o Clube surgiu. Era novembro, 22, 1954.

 

domingo, maio 28, 2023

MANAUS: CENAS DA DÉCADA DE 1950

 

Lateral do Teatro Amazonas e Av. Eduardo Ribeiro

Praça da igreja (em construção) do bairro de Educandos
com primitivos ônibus na estação

As duas fotos (esq.) mostram a rua Major Gabriel, margeando o igarapé de Manaus.
(à direita), dois prédios demolidos: Secretaria de Saúde e palácio Miranda Correa.

quarta-feira, janeiro 25, 2023

MANAUS: CIDADE SORRISO

Duas respeitosas e saudosas lembranças: o folheto Amazonas Cultural, elaborado pela então Subsecretaria de Cultura do Estado, em 1992; no qual, o falecido padre Nonato Pinheiro, cultor de nosso idioma, escreveu curta página sobre nossa - igualmente saudosa - Cidade Sorriso.

Fragmento da capa do folheto, de 1992
(abaixo) título do trabalho do sacerdote


CIDADE-SORRISO - foi o título merecidamente alcançado pela Manaus de minha saudosa infância e adolescência. Cidade de feições europeias, limpa, arborizada, ruas e avenidas largas, praças ajardinadas, árvores que davam sombra e fruto, amenizando a soalheira da estação calmosa, era um encanto vê-la e senti-la em seu aspecto acolhedor e sorridente!

A capital amazonense foi uma das primeiras cidades brasileiras a usufruir luz elétrica e tráfego de bondes, com serviços de companhias inglesas. Seu porto flutuante, acompanhando o nível das águas do rio Negro, impunha-se como um prodígio de engenharia, visitado por navios de pequeno calado e transatlântico de alto porte, trazendo cornucópias do progresso e da civilização.

Companhias líricas da Europa vinham diretamente a Manaus, desprezando o Rio de Janeiro e São Paulo, porque a CIDADE teatroSORRISO era o foco da abundância, pelo apogeu da belle époque, mercê do galarim da exportação da borracha.

Recamou-se a cidade de edifícios suntuosos, como o Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça e a Alfândega. Monumentos imponentes se ergueram, como o da Praça de São Sebastião. Pontes transpunham os igarapés, notabilizando-se a chamada Terceira Ponte, de majestosa estrutura metálica. Os subúrbios de Manaus eram sobremaneira aprazíveis por seus arvoredos, canteiros, igarapés e riachos: Cachoeirinha, Vila Municipal, Chapada, Flores, São Raimundo, Educandos, Mindu e Tarumã, com sua cascata escachoante.

Afonso Pena, visitando a cidade, exclamou: "Manaus é uma revelação da República!" Washington Luís ficou encantado quando conheceu Manaus em 1926.

Transatlântico no roadway de Manaus, cercado por
barcos regionais, como em reverência (Gunter Engel, foto)

A natureza circundante era um apelo turístico, com o encanto da paisagem, a amenidade dos igarapés e dos igapós, a pompa hierárquica da vitória-régia, a alvura das garças, o carmim dos guarás e o gorjeio da passarada, um conjunto ecológico de esplendor e beleza, que convidava a um epinício de vitória ao Criador!

Grandes vultos nacionais e estrangeiros aqui estiveram: sábios como Agassiz, Bates e Humboldt; escritores notáveis, como Euclides da Cunha, Rangel, Gonçalves Dias, Coelho Neto e Ferreira de Castro.

A Zona Franca, se foi veículo de progresso, produziu a descaracterização da CIDADE-SORRISO, com seu crescimento desordenado e inestético. Hoje Manaus é uma sombra do passado ou o túmulo de um esplendor extinto. Possam estas letras operar a taumaturgia de uma ressurreição sentimental nos espíritos dos que a viram e conheceram, garbosa e faceira, no feitiço e deslumbramento do seu inefável SORRISO!...

sexta-feira, dezembro 31, 2021

TEATRO AMAZONAS: 125 ANOS


A festa de hoje na cidade pertence ao Teatro Amazonas, pela passagem de seu centésimo vigésimo quinto aniversário. São 125 anos embelezando Manaus, mas não apenas por esse detalhe. Bem mais esfuziante, pelo cumprimento de função primordial: expandir e divulgar a cultura. Sobre este monumento já se escreveu bastante, basta uma consulta ao Google para se observar detalhes de toda ordem sobre sua existência.
Selo comemorativo 1996

Os dirigentes do CFA (Clube Filatélico do Amazonas) intentaram produzir um Selo Personalizado sobre esta efeméride, mas os Correios ao desativar a produção, frustraram os filatelistas. Desse modo, vou me restringir a reproduzir algumas fotos sem qualquer excepcionalidade, são bastante conhecidas dos estudiosos: 1) de sua construção; 2) o selo do centenário (1996); 3) foto própria colhida aos 120 anos, e 4) o Logo em uso atual pela Casa de Cultura.

Teatro Amazonas (1896) e, abaixo, nos 120 anos
 



sábado, outubro 24, 2020

MANAUS: 351 ANOS

MINHA HOMENAGEM À CIDADE DE MANAUS, COM ESTES TRÊS REGISTROS FOTOGRÁFICOS, NESTA DATA FESTIVA. QUE SEU PRÓXIMO PREFEITO NOS TRAGA PROSPERIDADE. 

Catedral de N. S. da Conceição, padroeira do Estado, em
cartão postal do centenário da igreja (1977)

Quartel da Polícia Militar do Estado, na praça da Polícia, 
quando da construção da praça (1906)

Vista do centro, vendo-se o Teatro Amazonas, a igreja de S. Sebastião e o quartel 
do Corpo de Bombeiros, na rua Joaquim Sarmento (à dir.).


segunda-feira, setembro 07, 2020

SETE DE SETEMBRO VIRTUAL

 Certamente, não mais veremos um Dia da Pátria tao sem entusiasmo, e sem desfile militar, a característica maior desta data. Aqui compartilho algumas lembranças de tantos desfiles comemorativos.

Banda de M´sucia na avenida Djalma Batista

Desfile na avenida Eduardo Ribeiro

Na rua 10 de Julho, ao lado do Teatro, anos 1950


Grupamento da Polícia Feminina, na avenida
Djalma Batista


terça-feira, maio 05, 2020

RAMAYANA DE CHEVALIER & TEATRO AMAZONAS



Daisy Lúcidi
Circulando hoje pelas notícias nacionais encontrei uma desagradável sobre Daisy Lúcidi, que se sabe foi atriz e deputada. Conforme a matéria, encontra-se ela hospitalizada em estado grave, acometida de coronavid-19. Permaneci com o registro na cabeça. Adiante, envolvido em trabalho de pesquisa em crônicas de Ramayana de Chevalier, acidentalmente deparei com outra notícia sobre a Lúcidi.
Chevalier escreveu uma série de crônicas em 1961, no jornal A Gazeta, quando em Manaus chefiava a secretaria de Administração do governo Gilberto Mestrinho (1959-63). Em setembro daquele ano, escreveu “Rodolfo Meyer” (cujo sobrenome correto é Mayer), para informar que o ator do monólogo As mãos de Eurídice, apresentaria espetáculos no Teatro Amazonas, acompanhado pela atriz Daisy Lúcidi (1929-). O confinamento não me permitiu obter mais detalhes sobre a excursão nos jornais da época.

Abaixo parte da crônica de Ramayana de Chevalier, publicada em 14 de setembro de 1961.

Título da crônica (A Gazeta, 14 set. 1961)

Andei por esse Rio, que se perde aos poucos, com o delírio das cristaleiras monstruosas que são os arranha-céus. Depois, encontrei de novo o fio de Rodolfo Meyer, dessa vez sob a magia mental de Pedro Bloch. Já estava eu de novo, mergulhado na poeira sutil das noites de Copacabana. “As mãos de Eurídice”. Foi ele o dono do assunto. Foi escrito para a sua sensibilidade. Foi um dos pontos altos de sua brilhantíssima carreira. Agora, tive notícia de que ele vai a Manaus. Ao lado de Daisy Lúcidi [1929-], que é uma rosa humana, gotejando talento por todos os poros.
 
Rodolfo Mayer
Manaus terá, mais uma vez, a oportunidade de ouvi-lo de vê-lo, com o seu pequeno conjunto de grandes artistas. A iniciativa é agradável aos aficionados do teatro, do bom teatro. As assinaturas constarão três peças, bem selecionadas e de acordo com a harmonia das três sensibilidades participantes. Serão três noites admiráveis. Foi um brilhante gesto de Bianor Garcia, brindando a nossa gente. Resta ampará-lo com a aceitação, plena aceitação dessa récita de assinaturas, que, temos certeza, lotará completamente o nosso magnífico teatro. A expressão de Meyer e inteligência à flor da pele de Daisy Lúcidi e do seu outro companheiro de interpretação, cujo nome falha no momento, também um dos excelentes valores do novo teatro nacional. Esperemos Rodolfo Meyer com legítima solidariedade. Ele reviverá, como Morineau já o fez, as fulgurantes noitadas Teatro Amazonas. De mim, não me chega somente um artista. Vem de longe um pedacinho do Rio Janeiro, com a poeira das madrugadas ondulantes, com o cheiro de maresia que vem com as ostras do “Albamar”... 
Hoje - 7 de maio de 2020 - morreu a atriz e deputada Daisy Lúcidi, no Rio de Janeiro
Atualizado nesta data. 

terça-feira, abril 07, 2020

DITADURA VARGAS NO AMAZONAS


Quando Getúlio Vargas transformou seu governo em ditadura, manteve na administração do Amazonas ao Dr. Álvaro Maia (foto), sob o título de Interventor Federal. Para atender decisão superior, em 3 de abril de 1937, o Diário Oficial do Estado publicou extenso relatório assinado pelo Interventor, relatando a situação do Estado.


Interessei-me pela Segurança, que à ocasião encontrava-se sob a direção do Chefe de Polícia. Sua autoridade estendia-se até sobre a Casa de Detenção, ou seja, a guarda dos detentos na Penitenciária do Estado, a mesma que findou na avenida Sete de Setembro, e o prédio sem cuidados definha. Outra atribuição (estranha para nossos dias) era a aplicação de censura sobre teatro e cinemas.
Abaixo os textos enunciados:
Casa de Detenção (Cartão Postal)


Casa de Detenção
Entregue à administração do capitão José Marques Galvão, oficial em disponibilidade da Força Policial do Estado, a Casa de Detenção vai se mantendo de acordo com as ordens diretamente emanadas desta Chefia. O ambiente calmo e respeitoso reinante naquele presídio, demonstra que os que ali se encontram estão efetivamente segregados do nosso convívio, cumprindo penas impostas pelas leis garantidoras da tranquilidade social, violada e ofendida pelo delito ou crime por eles cometidos.
Vê-se, logo à entrada, que se está num estabelecimento penitenciário, modesto e pobre, porém, onde existe obediência aos princípios de ordem e disciplina. Instalado há muitos anos no magnifico e confortável edifício situado à avenida Sete de Setembro, servido apenas por seu administrador, um amanuense e um carcereiro, vai funcionando a Casa de Detenção de Manaus, sob o controle direto da Chefia de Polícia com a guarda da força militar para ali enviada todos os dias.
Com a assistência médica de um dos legistas escalados por esta Chefia — Ângelo D'Urso — os presos vão gozando boa saúde. Para esses serviços médicos dispõe o estabelecimento de uma enfermaria e uma ambulância sempre prontas às necessidades que surgem. Graças à gentileza do Prefeito da Capital, inaugurei naquela dependência um serviço dentário permanente, dirigido pelo profissional Henrique Gomes que, sempre atento, comparece, quando não diariamente, pelo menos 3 vezes por semana, para fazer extrações, obturações, curativos e limpezas que necessitarem os presos.
A administração não se descuida da higiene e a conservação do edifício, tanto assim que foram realizados com as sobras das verbas insignificantes de que dispõe, os seguintes serviços de pouco vulto, é verdade, porém de ótimos resultados para o Estado e para os detentos: consertos do soalho da sala da enfermaria, substituição das portões de ferro e das calhas estragadas, reparos nos esgotos, vedagem de goteiras, pinturas, renovação da instalação elétrica, obras nos banheiros, reforma completa dos dois fogões de ferro, caiação dos xadrezes, refeitórios e corredores etc...

Recorte do relatório divulgado no Diário Oficial


Censura Teatral e Cinematográfica.

Acabo de instalar esse serviço de grande necessidade para a polícia social e de costumes. Baseado no Decreto Federal 21.240, de 4 de abril de 1932, e seguindo o exemplo dos demais Estados da União, urgia que o Amazonas tivesse a sua organização, modesta que fosse incumbida da censura dos filmes cinematográficos, especialmente.
Apesar de estar essa obrigação estipulada no Art. 16 do Regulamento aprovado pelo Decreto Federal 99, de 30 de outubro de 1925, nada se havia feito até agora sobre o assunto, talvez por falta de um órgão especialmente designado para esse fim. Dei essa incumbência à Delegacia de Segurança Política e Social, visto como reconheço dever  de suas atribuições preservar e defender a higiene moral e da nossa gente.

sexta-feira, abril 03, 2020

NELSON FREIRE NO TEATRO AMAZONAS

Nelson Freire
(A Crítica, 1970)

Ao final de março de 1970, o pianista Nelson (José Pinto) Freire (1944-), nascido em Minas Gerais, já consagrado internacionalmente, veio a Manaus para inaugurar o piano de nossa Casa de Espetáculos. O acontecimento estava incluído na programação do terceiro ano de governo do Dr. Danilo Areosa. Por esse motivo, a presença da esposa do governador neste concerto.

Ao escrever este preâmbulo, lembrei-me de um texto do padre Luiz Ruas sobre este pianista. O lembrete do Ruas ocorreu em 17 de agosto de 1957, em sua coluna jornalística intitulada Ronda dos Fatos (encartada em A Crítica), quando Freire participou, aos 12 anos, do Concurso Internacional de Piano, realizado no Rio de Janeiro. Conquistou o 7º lugar, mas foi brilhante.
NELSON BRILHA NO PIANO 
E por falar em meninas prodigiosas nos vem à lembrança o menino Nelson Freire de doze anos de idade que, parece, vai conseguir um ótimo lugar, tendo sido classificado para as provas finais, no Concurso Internacional de Piano.Nas provas semifinais, Nelson foi chamado cinco vezes ao palco, sendo o que conseguiu maiores aplausos. O menino interpretou o estudo Op. 10 nº 8, Noturno Op. 27 nº 1 e Polonaise Op. 53.E segundo o júri, ”os brasileiros formam com os americanos os melhores candidatos do concurso”.
  
A notícia aqui compartilhada retirei de A Crítica, de 30 de março de 1970, portanto, são passados 50 anos.


Em entrevista exclusiva concedida a este jornal, à tarde de ontem, no Hotel Amazonas, o pianista Nelson Freire teve oportunidade de dizer que, de hoje em diante com esse piano (Steinway & Sons), Manaus passará a ser uma cidade disputadíssima pelos artistas.
Nelson Freire logo à noite estará inaugurando o belo instrumento recém-adquirido pela Fundação Cultural do Amazonas, para nosso Teatro, com um programa que Inclui Mozart, Beethoven e Chopin.
Na ocasião da entrevista o poeta Elson Farias, o engenheiro e crítico musical Nelson Porto, o jovem Malcolm Kigar, paulista, estudante de música (orquestração) em Los Angeles (California) em trânsito por Manaus e o poeta Alencar e Silva.
Nelson Freire é um artista que dispensa maiores apresentações. É um nome mundial consagrado como dos mais excepcionais virtuoses do piano. A plateia amazonense inclusive já o conhece de sua apresentação no Teatro Amazonas em 10 novembro 1967.

ENTREVISTA
Gostaríamos, Nelson Freire, que v. nos falasse das qualidades de piano que será inaugurado pelas suas mãos.  Trata-se de um ótimo instrumento. Requer por isso mesmo cuidados especiais para a sua boa conservação, principalmente contra a umidade. Doravante será um prazer vir tocar em Manaus, pois com esse piano, Manaus passará a ser uma cidade disputadíssima pelos artistas.
— Qual o seu próximo compromisso internacional? Canadá. Darei dois concertos em Montreal. Em seguida, irei a Nova York, onde gravarei 24 prelúdios de Chopin
Quais, na sua opinião, os maiores centros musicais da atualidade? Londres, Paris e Nova York

O PIANO
O ato inaugural do piano à noite de hoje se revestirá de solenidade, devendo ser aberto pela Sra. Violeta de Mattos Areosa, primeira dama do Estado, que se fará assim madrinha do belo instrumento.
Podemos adiantar, ainda que, para assinalar o evento, a Fundação Cultural do Amazonas proporá ao Conselho Estadual de Cultura a afixação de uma placa comemorativa do segundo centenário de nascimento de Beethoven.