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terça-feira, junho 23, 2026

CICLOS DA BORRACHA

 

Renato Mendonça - 07.08.2019

 

Tento contar o que os livros de História do Brasil omitem, talvez por desinteresse ou o preconceito antigo de que o Amazonas era apenas uma terra de índios, sem tradição histórica. Os escritores regionais também não acordaram cedo para recolher o látex e o sernambi, a fim de narrar a epopeia de tantos ingênuos nativos e bravos sertanejos que pereceram e contribuíram com sua cota de sacrifício para o desenvolvimento da Região Norte do Brasil.

Placa existente no interior do mercado, ocasião em 
que tomou a denominação de Adolpho Lisboa.

Além da omissão nos livros didáticos, havia também uma visão centralista que privilegiava os acontecimentos do eixo Rio-São Paulo. Isso fez com que essa epopeia amazônica fosse relegada a notas de rodapé dos jornais, quando na verdade fortaleceu a economia nacional, além de representar um dos maiores movimentos migratórios internos do Brasil no século XIX.

Manaus era um lugar esquecido, longe dos grandes centros urbanos brasileiros, até que a indústria europeia e a americana passaram a necessitar do látex extraído das seringueiras, plantadas pelas mãos da natureza em toda a Amazônia. Entre os períodos de 1879 até 1920, a Região Norte brasileira viveria o seu apogeu de desenvolvimento; Manaus conheceria seu melhor momento urbanístico, e o Brasil experimentaria um de seus grandes ciclos econômicos, o Primeiro Ciclo da Borracha.

Naquela época, o mundo voltou-se para a Amazônia que, abençoadamente, possuía abundância de seringais nativos, por isso passariam a ser incansavelmente explorados por seringalistas para fornecer o insumo para a fabricação de borracha. Com o sonho de enriquecer, milhares de imigrantes brasileiros e estrangeiros instalaram-se nesses seringais. A mão de obra nacional era composta principalmente de nordestinos que fugiam das secas de suas terras.

Trabalhadores estrangeiros, entre eles portugueses, ingleses, espanhóis, italianos, alemães, americanos, gregos, sírios, japoneses e libaneses, também integravam a cadeia produtiva da borracha e faziam o intercâmbio econômico entre Manaus, os seringais e os grandes centros industriais da Europa e dos Estados Unidos. A presença desses imigrantes criou uma atmosfera multicultural única. O Estado tornou-se um ponto de encontro de línguas, religiões e tradições, ainda que essa diversidade fosse mais visível na capital do que nos seringais, onde predominava a exploração.

Manaus era um dos centros de todo esse processo, uma boa parcela dos seus habitantes tornava-se muito rica, surgindo assim os barões da borracha. A economia do Estado investiu em imponentes construções e num projeto ousado de urbanização.

As construções erguidas no auge da borracha permanecem como testemunhos de um tempo em que Manaus rivalizava em modernidade com capitais europeias. O Teatro Amazonas, o Mercado Adolpho Lisboa, o Palácio da Justiça são símbolos de uma cidade que ousou sonhar grande, mesmo cercada pela floresta.

A inauguração do Mercado Municipal Adolpho Lisboa aconteceu em 1883. Edificado com pavilhões em estilo Art Nouveau, suas peças pré-fabricadas foram importadas da Europa; em 1896, ocorreu a inauguração do imponente e suntuoso Teatro Amazonas, que por duas décadas recebeu óperas, orquestras e grandes artistas internacionais e por pouco não teve o compositor de “O Guarani”, Carlos Gomes, para abrilhantar a inauguração, este morreu meses antes, em 16 de setembro, quando já havia se comprometido para o evento. O Palácio da Justiça foi inaugurado no fechamento do século, em 1900. Nove anos depois, o Prédio da Alfândega, com blocos e peças importadas da Inglaterra, teve concluída sua edificação. 

O Tesouro Estadual vivia acentuado aumento de arrecadação e Manaus transformou-se num verdadeiro canteiro de obras. Uma das primeiras cidades a serem urbanizadas no país, uma das primeiras a possuir energia elétrica, possibilitando substituir os bondes puxados por animais pelos elétricos. Ao receber novo traçado urbanístico, foram abertas praças, ruas e avenidas; executados aterros, escavações e construídas magníficas pontes, duas delas em estrutura metálica, com material importado da Europa. As construções erguidas no auge da borracha permanecem como testemunhos de um tempo em que Manaus rivalizava em modernidade com capitais europeias. No período em que praticamente todas as grandes cidades brasileiras viviam quase de modo rural, ali já existia luz elétrica, redes de água encanada e esgotos. O porto móvel (Roadway) e os bondes elétricos a tornavam verdadeiramente cosmopolita, apelidada de ‘Paris dos Trópicos’.

Era comum os filhos das abastadas famílias emigrarem para estudar nas melhores universidades europeias, embora já existissem cursos de nível superior. A Escola Universitária Livre de Manáos, depois Universidade de Manáos, hoje Universidade Federal do Amazonas, foi criada em 17 de janeiro de 1909, sendo assim a primeira universidade brasileira.

Para se ter uma ideia da explosão demográfica de Manaus, em 1849 a cidade tinha aproximadamente 25 mil habitantes, em meio século esse número subiu para 70 mil. Como comparação, em 1900 a cidade de São Paulo possuía cerca de 240 mil habitantes. Além do provimento do látex, também contribuiu para o desenvolvimento da cidade não existirem meios de transportes aéreos na época, sendo a navegação, o único transporte intercontinental. Geograficamente favorável, Manaus ficava mais próxima dos grandes centros da Europa e Estados Unidos do que o Rio de Janeiro e São Paulo.

O Segundo Ciclo da Borracha aconteceu no período correspondente à Segunda Guerra Mundial, quando os seringais malaios — plantados com sementes contrabandeadas da Amazônia — foram interditados pelas forças japonesas no Pacífico e o governo americano, impedido de receber o insumo para a fabricação de borracha, incentivou novamente a produção de látex no Brasil, particularmente pelo Amazonas.

O grande desafio do governo brasileiro foi aumentar a produção de 18 mil para até 70 mil toneladas. Para atender a essa demanda, necessitava da mão de obra de mais de 100 mil homens. Estabeleceu-se o que foi denominado de "Soldados da Borracha", com recrutamento de voluntários que receberam a promessa de serem tratados no mesmo nível dos combatentes que integravam as forças brasileiras na Europa. Foi recebido um contingente de aproximadamente 55 mil peões de todos os cantos do país e, como sempre, uma expressiva soma de voluntários do Nordeste, particularmente do Ceará.

Quase todos esses voluntários jamais retornaram à sua terra natal, enquanto o Amazonas voltou a experimentar uma sutil sensação de pujança e riqueza. A maioria morreu de doenças como a malária ou pela violência da selva. Sem nenhum treinamento, recebiam apenas os itens básicos para o trabalho: uma calça de mescla azul, uma camisa branca de morim, um chapéu de palha, um par de alpercatas, uma mochila, um prato fundo, um talher, uma caneca de folha de flandres, uma rede e um maço de cigarros. Muitos desses homens foram enganados por promessas nunca cumpridas. Diferente dos pracinhas que lutaram na Itália, os soldados da borracha não receberam pensões ou reconhecimento oficial por décadas. Só muito tardiamente, no governo progressista de Dilma Rousseff, o Brasil começou a reparar, ainda que de forma tímida, essa dívida histórica, atendendo à Emenda Constitucional 78/2014, que estabeleceu o pagamento de uma indenização e pensão vitalícia.

 Muitos sobreviventes ficaram na Amazônia, por não terem dinheiro para pagar a viagem de volta ou estavam endividados com os donos de seringais. E muitos deles foram mortos pelos capangas dos barões da borracha, naquelas terras sem lei, sem nenhum sentido humano.

Apesar do sofrimento, a cidade voltou a sorrir, experimentou uma breve sensação de prosperidade e a economia regional revigorou-se. Mas, o período foi curto, apenas para atender os interesses americanos. A cidade caiu novamente no ostracismo até o surgimento da Zona Franca de Manaus em 1967, que trouxe indústrias e fragmentou a cidade em novos polos de desenvolvimento.

 


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