Renato Mendonça - 07.08.2019
Tento contar o que os livros de História do Brasil omitem, talvez por desinteresse ou o preconceito antigo de que o Amazonas era apenas uma terra de índios, sem tradição histórica. Os escritores regionais também não acordaram cedo para recolher o látex e o sernambi, a fim de narrar a epopeia de tantos ingênuos nativos e bravos sertanejos que pereceram e contribuíram com sua cota de sacrifício para o desenvolvimento da Região Norte do Brasil.
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| Placa existente no interior do mercado, ocasião em que tomou a denominação de Adolpho Lisboa. |
Além da omissão nos livros didáticos, havia
também uma visão centralista que privilegiava os acontecimentos do eixo Rio-São
Paulo. Isso fez com que essa epopeia amazônica fosse relegada a notas de rodapé
dos jornais, quando na verdade fortaleceu a economia nacional, além de
representar um dos maiores movimentos migratórios internos do Brasil no século
XIX.
Manaus era um lugar esquecido, longe dos grandes centros urbanos brasileiros, até que a indústria europeia e a americana passaram a necessitar do látex extraído das seringueiras, plantadas pelas mãos da natureza em toda a Amazônia. Entre os períodos de 1879 até 1920, a Região Norte brasileira viveria o seu apogeu de desenvolvimento; Manaus conheceria seu melhor momento urbanístico, e o Brasil experimentaria um de seus grandes ciclos econômicos, o Primeiro Ciclo da Borracha.
Naquela época, o mundo voltou-se para a
Amazônia que, abençoadamente, possuía abundância de seringais nativos, por isso
passariam a ser incansavelmente explorados por seringalistas para fornecer o
insumo para a fabricação de borracha. Com o sonho de enriquecer, milhares de
imigrantes brasileiros e estrangeiros instalaram-se nesses seringais. A mão de
obra nacional era composta principalmente de nordestinos que fugiam das secas
de suas terras.
Trabalhadores estrangeiros, entre eles portugueses, ingleses, espanhóis, italianos, alemães, americanos, gregos, sírios, japoneses e libaneses, também integravam a cadeia produtiva da borracha e faziam o intercâmbio econômico entre Manaus, os seringais e os grandes centros industriais da Europa e dos Estados Unidos. A presença desses imigrantes criou uma atmosfera multicultural única. O Estado tornou-se um ponto de encontro de línguas, religiões e tradições, ainda que essa diversidade fosse mais visível na capital do que nos seringais, onde predominava a exploração.
Manaus era um dos centros de todo esse
processo, uma boa parcela dos seus habitantes tornava-se muito rica, surgindo
assim os barões da borracha. A economia do Estado investiu em imponentes
construções e num projeto ousado de urbanização.
As construções erguidas no auge da borracha
permanecem como testemunhos de um tempo em que Manaus rivalizava em modernidade
com capitais europeias. O Teatro Amazonas, o Mercado Adolpho Lisboa, o Palácio
da Justiça são símbolos de uma cidade que ousou sonhar grande, mesmo cercada
pela floresta.
A inauguração do Mercado Municipal Adolpho Lisboa aconteceu em 1883. Edificado com pavilhões em estilo Art Nouveau, suas peças pré-fabricadas foram
importadas da Europa; em 1896, ocorreu a inauguração do imponente e suntuoso Teatro Amazonas, que por duas décadas
recebeu óperas, orquestras e grandes artistas internacionais e por pouco não teve o compositor de “O
Guarani”, Carlos Gomes, para
abrilhantar a inauguração, este morreu meses antes, em 16 de setembro, quando
já havia se comprometido para o evento. O Palácio da Justiça foi
inaugurado no fechamento do século, em 1900. Nove anos depois, o Prédio da Alfândega, com blocos e peças
importadas da Inglaterra, teve concluída sua edificação.
O Tesouro Estadual vivia acentuado aumento de
arrecadação e Manaus transformou-se num verdadeiro canteiro de obras. Uma das
primeiras cidades a serem urbanizadas no país, uma das primeiras a possuir
energia elétrica, possibilitando substituir os bondes puxados por animais pelos
elétricos. Ao receber novo traçado urbanístico, foram abertas praças, ruas e
avenidas; executados aterros, escavações e construídas magníficas pontes, duas
delas em estrutura metálica, com material importado da Europa. As construções
erguidas no auge da borracha permanecem como testemunhos de um tempo em que
Manaus rivalizava em modernidade com capitais europeias. No período em que
praticamente todas as grandes cidades brasileiras viviam quase de modo rural, ali
já existia luz elétrica, redes de água encanada e esgotos. O porto móvel (Roadway) e os bondes elétricos a
tornavam verdadeiramente cosmopolita, apelidada de ‘Paris dos Trópicos’.
Era comum os filhos das abastadas famílias emigrarem
para estudar nas melhores universidades europeias, embora já existissem cursos
de nível superior. A Escola Universitária Livre de Manáos, depois Universidade de Manáos, hoje Universidade Federal do
Amazonas, foi criada em 17 de janeiro de 1909, sendo assim a primeira
universidade brasileira.
Para se ter uma ideia da explosão demográfica
de Manaus, em 1849 a cidade tinha aproximadamente 25 mil habitantes, em meio
século esse número subiu para 70 mil. Como comparação, em 1900 a cidade de São Paulo
possuía cerca de 240 mil habitantes. Além do provimento do látex, também
contribuiu para o desenvolvimento da cidade não existirem meios de transportes
aéreos na época, sendo a navegação, o único transporte intercontinental.
Geograficamente favorável, Manaus ficava mais próxima dos grandes centros da
Europa e Estados Unidos do que o Rio de Janeiro e São Paulo.
O Segundo Ciclo da Borracha aconteceu
no período correspondente à Segunda Guerra Mundial, quando os seringais malaios
— plantados com sementes contrabandeadas da Amazônia — foram interditados pelas
forças japonesas no Pacífico e o governo americano, impedido de receber o
insumo para a fabricação de borracha, incentivou novamente a produção de látex no
Brasil, particularmente pelo Amazonas.
O grande desafio do governo brasileiro foi
aumentar a produção de 18 mil para até 70 mil toneladas. Para atender a essa
demanda, necessitava da mão de obra de mais de 100 mil homens. Estabeleceu-se o
que foi denominado de "Soldados da Borracha", com recrutamento de
voluntários que receberam a promessa de serem tratados no mesmo nível dos
combatentes que integravam as forças brasileiras na Europa. Foi recebido um
contingente de aproximadamente 55 mil peões de todos os cantos do país e, como
sempre, uma expressiva soma de voluntários do Nordeste, particularmente do
Ceará.
Quase todos esses voluntários jamais
retornaram à sua terra natal, enquanto o Amazonas voltou a experimentar uma
sutil sensação de pujança e riqueza. A maioria morreu de doenças como a malária
ou pela violência da selva. Sem nenhum treinamento, recebiam apenas os itens
básicos para o trabalho: uma calça de mescla azul, uma camisa branca de morim,
um chapéu de palha, um par de alpercatas, uma mochila, um prato fundo, um
talher, uma caneca de folha de flandres,
uma rede e um maço de cigarros. Muitos desses homens foram enganados por
promessas nunca cumpridas. Diferente dos pracinhas que lutaram na
Itália, os soldados da borracha não receberam pensões ou reconhecimento oficial
por décadas. Só muito tardiamente, no governo progressista de Dilma
Rousseff, o Brasil começou a reparar, ainda que de forma tímida, essa
dívida histórica, atendendo à Emenda Constitucional 78/2014, que
estabeleceu o pagamento de uma indenização e pensão vitalícia.
Muitos
sobreviventes ficaram na Amazônia, por não terem dinheiro para pagar a viagem
de volta ou estavam endividados com os donos de seringais. E muitos deles foram
mortos pelos capangas dos barões da
borracha, naquelas terras sem lei, sem nenhum sentido humano.
Apesar do sofrimento, a cidade voltou a
sorrir, experimentou uma breve sensação de prosperidade e a economia regional
revigorou-se. Mas, o período foi curto, apenas para atender os interesses
americanos. A cidade caiu novamente no ostracismo até o surgimento da Zona
Franca de Manaus em 1967, que trouxe indústrias e fragmentou a cidade em
novos polos de desenvolvimento.

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