CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, julho 18, 2026

ÔNIBUS DA VIAMA - 40 ANOS

 Diante desta postagem, lembrei de dois fatos: um, estava colaborando na empresa Ana Cássia, enquanto oficial da Polícia Militar, quando acompanhei os motoristas que foram ao Benarrós, instalado na entrada de São Jorge, para receber alguns ônibus. Tanto insistiram, que acabei dirigindo um ônibus em direção à garagem da empresa no bairro de Santa Luzia. No meio do caminho, por pouco não destruí um Fusca estacionado, e, na entrada da garagem, desisti da proeza. Outra recordação é de 1973, ocasião em que me exercitei na direção dos ABTs do Corpo de Bombeiros. 

Jornal A Crítica, 23 julho 1986

Mais cinco ônibus foram recebidos, ontem, pela VIAMA que vem procurando aumentar sua frota, com o objetivo de prestar um melhor serviço à população de Manaus. Os monoblocos foram entregues pela firma Benarrós & Cia, concessionária da Mercedes-Benz, ao sr. Francisco Canindé de Souza, gerente-administrativo da VIAMA.

Na ocasião, Francisco Canindé disse que “esses ônibus estarão em circulação a partir das 5 horas de amanhã (hoje), na linha do bairro do Japiim, dando cumprimento às exigências do prefeito Jorge Teixeira, que [exige], no mínimo 20 ônibus, cobrindo a aludida linha".

Ônibus

Os cinco ônibus fazem parte de uma série de 18 pedidos à firma Benarrós & Cia., segundo informações da própria diretoria da firma, os quais serão entregues até o final da primeira quinzena de agosto vindouro. Dentre essa partida de 18 ônibus que estão chegando para a VIAMA, 8 deles são do tipo “micro-ônibus”, os quais cobrirão linhas de pequenos percursos.

Indagado sobre o custo de cada um desses veículos que o valor unitário é de $316 mil cruzeiros. Trata-se de ônibus altamente sofisticados e que apresentam muito conforto e segurança aos seus passageiros. Serão utilizados na linha do bairro do Japiim, já a partir das 5 horas de hoje.

Ontem, mesmo, a direção da VIAMA conseguiu permissão junto ao DETRAN, para que os cinco veículos possam trafegar durante um prazo de quatro dias, enquanto se providencia o emplacamento.

sexta-feira, agosto 23, 2024

POLICIAMENTO DE TRÂNSITO EM MANAUS (3)

Na década de 1950, o serviço de bondes já bastante precário enfrentava a circulação de ônibus made in Manaus, conforme ilustra a foto colhida no entroncamento das avenidas Eduardo Ribeiro com Sete de Setembro. E, mesmo em 1971 (foto), antes que a Zona Franca de Manaus produzisse seus melhores resultados, a capital seguia utilizando ônibus de madeira, ou seja, construídos sobre chassis de caminhão, com “tecnologia” local. ilustrando o tema do policiamento, exponho alguns desses veículos.

Bonde vs ônibus (acima) outros modelos anos 1950 (abaixo)


Em 1971, ônibus na linha de Educandos

Diversos modelos adquiridos com o advento da ZFM

domingo, maio 28, 2023

MANAUS: CENAS DA DÉCADA DE 1950

 

Lateral do Teatro Amazonas e Av. Eduardo Ribeiro

Praça da igreja (em construção) do bairro de Educandos
com primitivos ônibus na estação

As duas fotos (esq.) mostram a rua Major Gabriel, margeando o igarapé de Manaus.
(à direita), dois prédios demolidos: Secretaria de Saúde e palácio Miranda Correa.

domingo, dezembro 04, 2022

ÔNIBUS DE MANAUS

 Alguns modelos de ônibus que circularam pela cidade




domingo, maio 16, 2021

TRÂNSITO EM MANAUS

 Em trabalho para o Batalhão de Policiamento de Trânsito (BPTran) recolhi de jornal local esta imagem, que mostra um ônibus construído de madeira, em uso na capital, e a exposição das mazelas do transporte coletivo, que segue assombrando os usuários. Fato ocorrido há quase 50 anos.
 

Edição do Jornal do Commercio,
em 7 nov. 1971

Ônibus sem nenhuma condição de conforto, esquema de viagens que repousa no mais intolerável descaso; todos esses ingredientes têm um só significado: Constantinópolis Transporte Coletivos, empresa concessionária da linha de veículos do bairro de Educandos.

Além de tudo isso, a empresa possui veículos em número não suficiente, que prejudica o seu péssimo funcionamento quando algum tem de ir para o conserto.

Às terças-feiras, e quando há jogo de futebol, a determinação dos dirigentes é de colocar os veículos no itinerário da rua Luís Antony. E que se lixe quem procurar um desses veículos nas paradas do centro da cidade, principalmente à noite, problema que já vem sendo veemente reclamado e combatido.

Agora só resta uma esperança para os habitantes do bairro do Educandos, que vêm sendo vítimas do abuso e alheamento aos seus problemas por parte dessa empresa de veículos coletivos: medidas imediatas que, por certo, serão tomadas pelo novo secretário de Segurança, o coronel José Jorge Nardi de Souza. 

sábado, setembro 14, 2019

MANAUS: TRANSPORTE COLETIVO


Modernos Ônibus FNM Servindo a população de Manaus

A Viação Bons Amigos, da cidade de Manaus acrescentou à sua frota de ônibus mais 6 unidades FNM T-9 [Fábrica Nacional de Motores].
A preferência pelos veículos FNM se deu em razão das suas reconhecidas qualidades de resistência e durabilidade, além do baixo custo operacional que apresentam.
Publicação do Jornal do Commercio, 18 agosto 1970
Os novos ônibus contam com potente motor de 182 CV e desenvolvem velocidades até 90 km/h. Dispõem de sistema de direção assistido por eficiente servo-direção hidráulica que proporciona manobras fáceis e com maior segurança.
Além das unidades recém-adquiridas novas, outras da mesma marca serão encomendadas a fim de modernizar e melhorar cada vez mais a frota da Viação Bons Amigos. Está, pois, de parabéns a população de Manaus que passará a desfrutar de maior segurança e conforto nas suas viagens.

Notas pessoais:
O texto desta nota jornalística compartilhada do Jornal do Commercio (18 agosto 1970) parece ter sido realizado pela empresa FNM. São quase 50 anos. A foto, pelos detalhes das cercanias, foi feita na sede do fabricante. Por fim, não sei informar que fim levou a empresa Viação Bons Amigos, que bairros atendia ou se foi absorvida pelas atuais.
Alguém se lembra desses ônibus? De todo modo, espero que a postagem sirva a um desbravador que pense em escrever sobre o transporte coletivo de Manaus. Fica a minha contribuição.


domingo, maio 05, 2019

TRANSPORTE COLETIVO

Recorte de A Crítica, 12 março 1969

Reprodução da legenda: 
Do impacto contra o caminhão 81-95, ontem, na av. Sete de Setembro, o ônibus da Transamazon 82-30, currupiou (sic) pelo asfalto e por pouco não despencou da 1ª ponte em baixo.  O pânico dos passageiros – estava superlotado - provocou inclusive a ação dos Bombeiros Municipais, que procederam a retirada dos usuários por uma porta de emergência do coletivo. O ônibus ficou além da sarjeta e em posição inclinada, faltando pouco para romper o gradeado e projetar-se dentro d’água.

Observações próprias:

Aqui vai um pouco mais sobre a evolução do sistema de transporte coletivo, ainda que copiando os desastres. Para tanto, reproduzo o texto do acidente que, como se lê da legenda, aconteceu sobre a primeira ponte romana, localizada entre as ruas Major Gabriel e Igarapé de Manaus. Vê-se que o coletivo já era de carroceria metálica, cobria a linha Colônia Oliveira Machado e se dirigia àquele bairro, conforme indica a placa em sua fachada, ao alto. E a avenida Sete então permitia o tráfego em mão dupla.
A reportagem pertence ao matutino A Crítica, de 12 de março de 1969.

sexta-feira, maio 03, 2019

OS COLETIVOS DE MANAUS


Alguns detalhes para a história do transporte coletivo de Manaus, em particular do bairro de Educandos, sacados do matutino A Crítica, de março de 1969, portanto, há 50 anos. 

Os primeiros ônibus eram de madeira, adaptados ao tamanho do chassi. Autenticas esquisitices, mas funcionavam. Para atender exigência municipal, os proprietários foram obrigados a constituir empresa, daí o surgimento, por exemplo, da Constantinópolis Transportes Coletivos.
Recorte de A Crítica, 1º março 1969
Esta empresa, pois, foi incentivada a importar os coletivos de duralumínio, aposentando os de madeira. Esse fato foi noticiado pelo matutino de Calderaro, na edição de 1º de março de 1969.

Outro pequeno detalhe: a IMESA Veículos Ltda., revendedora Ford, possuía a agência na rua Marechal Deodoro e oficinas na rua Silva Ramos. Posteriormente, mudou-se para a av. Constantino Nery, próximo ao Vivaldão, hoje Arena da Amazônia. Contudo, em nossos dias, a firma encontra-se desativada e o edifício abriga uma loja do grupo Baianos.
 
Parte da mencionada notícia
O velho e populoso bairro de Educandos vai também possuir ônibus modernos. A Constantinópolis Transportes Coletivos que o serve há anos, acaba de adquirir dez novos e modernos transportes, que chegarão de São Paulo dentro de mais trinta dias.Seus principais sócios, Júlio Nogueira, Agenor de Souza Segadilha e José Maria de Souza Martins, entregaram ontem ao gerente da IMESA o cheque no valor de 48 milhões, de cruzeiros antigos, que totalizaram 96 milhões para a aquisição de dez ônibus metálicos, carroceira em Duralumínio, marca Striulli, montados em chassi Ford, série F600. Cada ônibus atenderá confortavelmente a 33 passageiros sentados.
O gerente da IMESA, que aparece recebendo o cheque da Constantinópolis, seguirá hoje à tarde para São Paulo de onde trará os ônibus que chegarão a Manaus em princípio de abril. Naquela data, a empresa retirará da linha de Educandos os “cavalos de pau” que servem o bairro desde 1952, e que já prestaram valioso serviço àquela população.Antes, corriam avulsos agrupando-se numa só empresa, que vem dando todo esforço no sentido de melhor servir cada vez mais os moradores de Educandos e, por consequência, a Zona Franca de Manaus.

sábado, maio 26, 2018

CONSTANTINÓPOLIS - 1952

O acidente parece ter sido grave, porém, sabe como é, a imprensa faz aquele alarde. Nesse caso, sequer ofereceu o local preciso do desastre causado pelo ônibus Silva, apenas que na Estrada de Constantinópolis. Em nossos dias, bairro de Educandos e, para os "novinhos", a estrada é a avenida Leopoldo Peres. Longa artéria, com subida e descida. A reportagem também não informa se o ônibus dirigia-se ao Centro ou, ao contrário, retornava.


Diário da Tarde, 8 de julho de 1952
Um único detalhe que pode permitir a localização: os nomes dos saudosos proprietários das casas atingidas, uma delas de nº 1248: Mustafá Meristenio e Luiz Gonzaga Bezerra.
A reportagem compartilhei do Diário da Tarde (8 julho 1952). Nesta data, eu morava na rua Inácio Guimarães, onde dez dias depois minha mãe - gravemente enferma - viria a falecer, e o Cine Vitória estava em obras. 

terça-feira, abril 17, 2018

GREVE DE ÔNIBUS

A paralisação do serviço de transporte coletivo sempre trouxe perturbação à população. Não é privilégio ou desconforto de nossos dias. Veja este tormento acontecido em 1954, descrito com bastante ênfase pelo Diário da Tarde, de 26 de janeiro. O vespertino pertencia à empresa Archer Pinto, que ainda fazia circular o matutino O Jornal.
A foto muito precária permite, no entanto, identificar a igreja dos Remédios ao fundo, e a construção à direita, que abrigava a Inspetoria de Trânsito, antecessora, e muito, do Detran (Departamento Estadual de Trânsito), situada na esquina da rua José Paranaguá esquina da então praça Ribeiro Junior. Identificando por outra referência: atrás do Quartel da Polícia Militar, hoje Palacete Provincial.

Extraído do Diário da Tarde, Manaus, 26 janeiro 1954
  Sem aviso prévio, num verdadeiro acinte ao povo e às autoridades, os ônibus entraram em greve na manhã de hoje, enquanto seus proprietários, gente de prestígio nesta terra dos barés, dirigiram um ultimato ao Poder Público, exigindo, sob ameaces, o aumento das passagens. E o Poder Público, atemorizado, baixou a cabeça e cedeu, submetendo o povo, os pobres operários, a gente humilde dos bairros, ao sacrifício de ter de pagar o preço absurdo de Cr$ 1,50 por uma passagem num calhambeque.
No flagrante acima, os ônibus em greve, estacionados nas proximidades da Inspetoria do Tráfego Público, enquanto seus proprietários entregavam às autoridades a intimação, aguardando a capitulação, que se verificou horas depois, para tristeza do povo amazonense. (Foto Gleba).

sexta-feira, março 18, 2016

BRIGUE "CONSTANTINÓPOLIS"

O festival folclórico do Amazonas teve início no palco do Estádio General Osório, hoje isolado e administrado pelo Colégio Militar de Manaus. Desfilavam diversas manifestações folclóricas, algumas das quais ainda se exibem no espetáculo montado no anfiteatro do Centro Cultural Povos da Amazônia (CCPA).

Uma das atrações de então era o Brigue, que, como o nome indica, reportava-se a uma lenda marítima. O bairro de Educandos que, por longa data, foi denominado de Constantinópolis (uma homenagem ao governador Constantino Nery), possuía ao menos dois desses grupos.

Os brincantes do brigue primavam pela vestimenta branca, claro, imitando o uniforme de marinheiros, cujo comandante portava espada, e os marujos conduziam a réplica de um navio.
Bem, uma das agremiações ensaiava na residência de seu “dono”, e o matutino O Jornal (edição de 9. jan. 1946), anunciava os ensaios.



Vem aí o "Brigue Constantinópolis"

Já tendo conseguido permissão legal do Dr. Chefe de Polícia, da Inspetoria Regional de Estatística, do antigo DEIP [Delegacia Estadual de Imprensa e Propaganda] e do representante da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, nesta capital, o festejado cordão carnavalesco denominado "Brigue Constantinópolis" ultima, neste momento, os ensaios, em sua sede, à rua Manoel Urbano, número 6, naquele bairro, para a realização de exibições públicas, durante a quadra da folia, que se aproxima, prenunciando-se grande sucesso, como aconteceu nos anos anteriores. 
O "Brigue Constantinopolis", que é constituído por um grupo de rapazes modestos mas distintos, de Constantinópolis, conta com cerca de 21 "marujos", "comandante" e "imediato", e representa, em suas encenações, uma lenda famosa do mar, qual seja a epopeia da Nau Catarineta, do folclore luso, tendo a dirigi-lo, entre nós, como representante maior de todo grupo, o Sr. José Maria Pereira, destacado elemento social do bairro em apreço. 
Os ensaios do "Brigue Constantinópolis" continuam, todas as noites, naquele endereço da rua Manoel Urbano, com grande assistência.

Em Educandos, ônibus Santa Cruz, em frente à igreja em construção 

 

segunda-feira, julho 25, 2011

DE ÔNIBUS COM L. RUAS

25 de julho

Dia do Escritor - do Motorista e do Colono


Para comemorar a tríplice data, recorri ao saudoso escritor L. Ruas (1931-2000) que, nos idos de 1950, sacou em simples e curto trajeto de ônibus reflexões oportunas, de um mestre nas ciências humanas. Na época, os ônibus eram conhecidos pelos nomes, alguns até protegidos pelos santos.
Mesmo com as modificações que o avanço de Manaus impôs, o texto segue oportuno e realista. Para saudar o dia do Colono, tomo a liberdade de sugerir que o cachorro presente no ensaio de L. Ruas, pertence ao colono.


ÔNIBUS
L. Ruas*

* Luiz Ruas, padre-poeta, professor de Psicologia e Filosofia, era usuário de ônibus no trecho da av. Joaquim Nabuco, onde residia. Obviamente quando nos fala em dez minutos de percurso, não imaginava a hora e meia que leva hoje a viagem para a Zona Leste. E que lições nos teria deixado.

Publicado em A Crítica, Ronda dos Fatos, 20 dez. 1957
Lá pelas nove horas da manhã lavada pela chuva, pela última chuva que se despencou sobre os telhados de nossas casas, apanhei o ônibus que faz a linha Joaquim Nabuco-João Coelho.
Àquela hora os ônibus já trafegam relativamente vazios. Em geral, seus passageiros são alguns retardatários de volta do mercado, caracterizando-se pelas bolsas quase vazias. É também a hora em que as donas de casa, quase sempre acompanhadas de seus filhos pequenos que ainda não vão para a escola, vão fazer suas compras.

Extraído do Jornal do Commercio, Manaus, 7 nov. 1971
 Os ônibus têm o mesmo destino de todos os transportes coletivos. Dentro deles se reúnem e confraternizam, no espaço curto de uns cinco a dez minutos, os mais variados tipos humanos. Todos sofrem os solavancos, todos caem, ao mesmo tempo, nos mesmos buracos. Suportamos os outros não só moralmente como queria São Paulo mas, também, fisicamente tantos e tais são os empurrões que levamos.
Entramos, sem querer, através da conversa indiscreta de alguns, na vida íntima e nos íntimos problemas de famílias das quais nunca chegáramos a suspeitar a existência. Discute-se política. O governo é defendido e atacado. Chega-se mesmo a fazer amigos. Namora-se. Briga-se. Come-se. Isso tudo na rapidez de uns dez minutos. O ônibus nos proporciona, pois, um retrato ou miniatura muito vivo da existência e mais do que certos outros transportes coletivos devido a certas características que lhe são peculiares.

Diferencia-se do ônibus, por exemplo, o bonde.
O bonde não está sujeito às mesmas condições do ônibus. Não cai em buracos, não dá solavancos que sugerem encontros (a vida, para Machado de Assis, era uma série de cachações), não possuem a mesma rapidez. Além disso, o trajeto do bonde é muito lógico. Montado sobre trilhos, o bonde seguirá, indefectivelmente, pachorrentamente, o seu itinerário. Os desvios existentes na trajetória de um bonde já estão todos previstos.

O mesmo não sucede com o ônibus. Este conhece o mistério dos caminhos inesperados. A mim já aconteceu de me surpreender viajando por ruas inteiramente fora do rotineiro trajeto. Os ônibus, como os pássaros e os homens, são capazes de inventar suas rotas. Não se atrapalham como os bondes. Se uma rua está impedida por algum conserto, por algum comício ou por alguma procissão, o ônibus inventa um caminho novo.
Essa é a grande diferença que existe entre o bonde e o ônibus e a grande semelhança que há entre ele e esse imenso transporte coletivo no qual todos viajamos e ao qual chamamos vida: a ilogicidade.

Há outra, uma segunda grande semelhança: é a comunidade humana.
O ônibus cria, mais do que qualquer outro transporte coletivo, em tão pouco tempo, um clima psicológico próprio para o estabelecimento das relações humanas. No avião encontramos, talvez, um rival do ônibus nesse aspecto de relacionar pessoas num mínimo de tempo.
Acontece, porém, que as relações nascidas no avião são meras evasivas sugeridas, geralmente, pelo medo. A condição de insegurança que todos vivemos, no bojo de um avião, a sensação de estar caindo a qualquer instante, faz com que nos agarremos aos outros senão fisicamente, pelo menos, com as palavras. A conversa no avião é sempre um meio de esquecer o medo.

Publicado em A Crítica, Manaus, 1957
 Isto não acontece no ônibus. Sem falarmos nas loucuras praticadas algumas vezes pelos choferes, o ônibus não nos faz sentir esta insegurança. Rodando sobre o chão duro e sólido, o ônibus nos comunica a estabilidade de suas quatro ou oito rodas. As relações humanas, pois, nascidas no ônibus são espontâneas e, não raras vezes, insinuadas pelos acontecimentos observados dentro dele.
O cachorro é um dos animais, se pudéssemos dizer assim, mais humanos. Onde há um cachorro, há um homem. Às vezes mesmo ele prepara a chegada do homem. Se se encontrar um cachorro sozinho só há três saídas: ou existiu um homem por ali, ou existe, ou existirá, como no caso da estratosfera.
Mas o cachorro é quase concomitante ao homem. E mesmo que não se veja um homem, o cachorro humaniza qualquer local, qualquer paisagem por mais deserta e árida que seja.

Há muito tempo, quando se discutia no Brasil, com unhas e dentes, o caso Pampulha, e se dizia besteira a torto e a direito, uma das mais tolas objeções que já ouvi em toda a minha vida, dita, aliás, por gente importante, foi contra o cachorro que Portinari pintou aos pés de São Francisco no seu belíssimo mural lá existente.
Não sei porque, eu, ao contrário, mesmo sem entender muito bem Portinari, sempre achei que o cachorro aos pés de São Francisco humanizava, tornava real, poetizava a composição quase onírica de Portinari.
Pois bem. Olhem que eu até que viajo de ônibus. Mas nunca tinha visto uma coisa assim apesar de minhas idéias acima expostas em torno deste transporte coletivo.

Naquela manhã lavada de chuva, com um vento friozinho que até parecia o ar-condicionado do [cine] Odeon quando está funcionando, ao apanhar o ônibus, deparei com um cachorrinho dentro do ônibus. Não era um cachorro burguês desses que andam nos colos de suas donas e pagam passagem.
Não. Era um vira-lata. Ia com sua dona que voltava do mercado com uma bolsa vazia e com a filhinha no colo. Um cachorro furão. De carona. O cobrador quis botá-lo pra fora, mas não botou. O cachorro virou passageiro.

E o ônibus se humanizou completamente.