Ontem, depois de longo período, voltei ao porto de Manaus para despedir do meu irmão Renato e sua Alda, que partiam para Santarém na primeira etapa da viagem de retorno ao Rio. Entrei no barco, que mais parecia um transatlântico, e as surpresas se sucederam: a quantidade de redes, de um lado, o setor refrigerado, de outro, à brisa fluvial; e os camarotes e até as suítes. O tempo estava e continua excelente para viajar neste mundão de águas.
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| Adjacências do Porto |
Para me despedir, esqueci o lenço branco, por
isso, ofertei aos viajantes o poema aqui postado, obra do saudoso padre-poeta
L. Ruas (1931-2000).
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Recorte do texto publicado em Poesia
Reunida de L. Ruas (2013).
Crônica romântica de adeus ao Roadway
L. Ruas
Posto que, sendo porto, / Sempre foste caminho de partida / Ou barco de ferro e pinho / Que os ingleses ancoraram / Nas margens do rio Negro. / Era “roadway” britânico caminho / Flutuando / Nas índias águas do rio / Que viu, espantado, surgir / No meio da selva bruta / Onde ainda ecoavam nítidos / Os rudes sons dos Manaus, / Uma clareira de sonhos, / De látex e de libras esterlinas.
Foste “roadway” e “rodo” / Mas, posto que sempre foste / Porto — caminho de partida / Também foste caminho de chegada. / (De chegada mais, talvez, que de partida). / Pela ponte de pinho / Louro e de negro ferro / Legiões de marujos desfilaram / E de artistas, empresários e turistas / De além-mar chegados, fascinados / Pelo encanto da floresta-mãe / Onde se arrancava das tetas vegetais / O leite branco que se mudava em ouro.
Francesas, espanholas e polacas, / Para gozar nas camas dos bordéis / O ouro fácil em que se transmudara / O sangue, o suor, a febre delirante / Dos seringueiros — párias do Nordeste.
E foi por tua ponte flutuante / Que chegaram as “levas” nordestinas / Dos “brabos”, dos “soldados da borracha” / Que seguiam encantados, enganados, / Para os “centros” — distantes seringais / Do Purus, Acre, Madeira e Juruá / Onde findavam — finavam — escravizados.
Passarelas de dor e sofrimento! / Passarela de luxo, amor e sonho! / No teu ritmo binário que acompanha / O ritmo binário deste rio / Que todo ano sempre sobe e desce, / Também foste termômetro da morte / E da vida que todas as enchentes / E vazantes ofertam fatalmente / Aos homens e as mulheres ribeirinhos / E às roças e animais da várzea.
Mas, que importa! / Ficaste, Flutuante / Lembrança de um tempo que ficou, / Também, em vários outros monumentos / Erguidos sobre as bases do martírio / De milhares, devorados pela selva / E pela ambição do lucro fácil.
Que importa! / Ancorado ficaste tanto tempo / Mas, também, nas páginas da história / De um povo que, aqui nesta cidade / Dos extintos Manau, sempre viveu / A longa espera de um amanhã melhor.
Caminho da terra para a água; / Caminho da cidade para o rio; / E caminho do rio para o mar; / No macio balanço da tua ponte.
Todos nós de Manaus, em ti, deixamos / Uma pegada da vida que partimos / Dentro em pouco será simples lembrança, / Pois, tuas linhas arquitetônicas serão / Destruídas, apagadas, distorcidas / Em nome de um progresso que uns poucos /Gozarão. / Toda a história se repete.
“Roadway” dos ingleses engenheiros / Ou “rodo” dos cablocos de Manaus!
Aqui fica este adeus de quem te viu, menino / E, por ti — uma vez — partiu sonhando / Os mais belos sonhos que sonhar eu pude. / Adeus, velho roadway flutuante, / Docemente embalado pelos ritmos / Das morenas águas do rio Negro. / É chegado teu fim. Exige-a assim / Este rude imperativo do progresso. / Mas, em mim, como te vi, hás de ficar; / Dourado pelos raios do sol quente / Ou banhado pelas pratas do luar.
