Renato Mendonça
30.09.2026
Nos últimos dias, assistimos à mídia e às redes sociais reacenderem um debate que, outrora, pertencia apenas ao íntimo das famílias: a fé cotidiana, silenciosa, que se manifestava nos lares e nos templos, sem necessidade de alarde público. Era ali, no espaço reservado da devoção, que se formavam valores; que se educavam crianças e adolescentes para serem cidadãos e cidadãs; que se transmitia a herança espiritual de uma geração à outra.
O que agora se vê,
porém, é a tentativa de ressuscitar um projeto antigo, de um parlamentar
inescrupuloso — cujo nome não merece ser lembrado —, que pretendia retirar de
Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Convenhamos: uma
proposta que não nasce da fé, mas da ganância política; não brota da
espiritualidade, mas da estratégia eleitoral. E o mais grave: encontra eco em
parcelas de fiéis evangélicos que, iludidos por discursos oportunistas, não
percebem que se trata apenas de um artifício para angariar votos, às vésperas
da eleição.
Essa polêmica profana não edifica: ela destrói. Não fortalece: ela corrói o tecido social. Ao negar a tradição que remonta ao século XVIII, quando a imagem de Nossa Senhora foi encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul, tenta-se apagar séculos de devoção, de cultura, de identidade nacional. A coroação da Santa, em 1904, com a coroa ofertada pela Princesa Isabel, e o decreto do Papa Pio XI em 1930, não foram apenas atos religiosos, mas marcos históricos que consolidaram um símbolo de unidade para o povo brasileiro.
Aparecida não é apenas
a mãe dos católicos; é a mãe de todos os brasileiros. Seu manto não distingue
credos, mas acolhe todos nós como irmãos. Seu olhar não separa, mas une a todos.
Ela deseja proteger não apenas os devotos, mas também os cidadãos e cidadãs que
ainda nascerão, oferecendo-lhes um horizonte de fraternidade, de justiça e de
paz. Contra a misoginia, contra o ódio, contra o desamor, sua presença é um
convite à reconciliação e à esperança.
Neste tempo de
eleições, quando tantos candidatos se preocupam mais em se locupletar do que em
servir ao povo, cabe ao eleitor discernir, pedir as bênçãos da Mãe de Jesus
sobre as nossas escolhas. E pedir para que os candidatos tenham dignidade
suficiente para não tentar enganar o eleitor. Não permitir que a fé seja
instrumentalizada pela política, não permitir que a devoção seja transformada
em palanque eleitoral. É hora de escolher com serenidade, com consciência e com
responsabilidade. É hora de rejeitar a intolerância, a misoginia, o ódio e
reafirmar a unidade do nosso povo.
Que os votos sejam
conscientes para que as escolhas sejam justas. Que a fé permaneça como fonte de
luz, e não como arma de divisão religiosa.
Bons votos em favor da
democracia!