CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, julho 12, 2026

POEMA DOMINICAL (23)

 Sem necessidade de esclarecimentos: dois saudosos sacerdotes, dois cultores da nossa literatura.

Recorte do matutino


Arrebatado sinto-me e absorto

Perante o brilho repousante e calmo

Da lua cheia, que de palmo a palmo

Vou percorrendo, qual Jesus no Horto... 

Como se à terra já estivesse morto,

Indiferente a tudo, então me acalmo:

E vou rezando fervoroso salmo

Na soledade do luzente porto... 

E no silêncio astral do plenilúnio

Fico tranquilo, livre de infortúnio,

A palmilhar meu doce eremitério... 

Ao clarão do luar, fujo do mundo:

E então sou monge, de andar profundo,

A recitar na lua o meu saltério... 


sexta-feira, maio 08, 2026

EFEMÉRIDES AMAZONENSES (5)

 Mais um capítulo de uma pretensa publicação sobre os personagens e fatos da história amazonense.

8 de maio

1882 – Reinstalado o Estabelecimento dos Educandos, sob a denominação de Instituto Amazonense de Educandos Artífices, no governo do presidente José Paranaguá. Destinava-se a atender a infância desvalida (menores do sexo masculino). A denominação – Educandos – deu nome ao bairro. Em 1894, toma a denominação de Instituto de Artes e Ofícios, pouco depois foi extinto em novembro de 1899.

1926 – Toma posse no cargo o desembargador Francisco de Paula Faria e Souza, que fora nomeado em 06 de março. Nascido em Manaus em 1871, recebeu a graduação pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, tendo sido o primeiro amazonense a ascender a Alta Corte do Tribunal de Justiça do Estado. Até então os desembargadores eram oriundos do Nordeste e formados pela Faculdade do Recife. Faria e Souza exerceu o cargo de Procurador Geral do Estado, porém, nunca presidiu o Tribunal de Justiça.

1947 – Reiniciadas as atividades da Assembleia Legislativa do Estado, em decorrência de disposição constitucional e das eleições realizadas em janeiro. A nova Mesa tinha por presidente o deputado Carlos Soares de Mello. Na mesma ocasião, toma posse na chefia do Poder Executivo, Leopoldo Amorim da Silva Neves, eleito em decorrência da restauração constitucional no País.

1948 – Nasceu em Manaus, Eber Bessa Rebello, em nossos dias coronel aposentado da Polícia Militar do Estado, onde ingressou em 1967. Ao ingressar foi matriculado na EsFO (Escola de Formação de Oficiais) no Rio de Janeiro. Concluído o curso de três anos, Eber (seu nome de guerra) esteve em diversas unidades da corporação, e ainda outros órgãos estaduais, como a Secretaria de Administração do Estado.  

1956 – Nasceu em Manaus, Maria da Conceição Valois Cortez (genitora de Roberto e Diego Valois Mendonça), filha de Carmelo Oyola e de Josefa Valois Cortez.

1960 – Miguel Jorge Santos Mendoza nasceu nesta data, em pleno Dia das Mães, na Maternidade Balbina Mestrinho. Trata-se do segundo filho do casal José Manuel e Doroteia Mendoza. Aos dez anos, acompanhou a família em mudança para Santos-SP e, adiante, no retorno para Manaus. A fim de assistir sua genitora em tratamento de saúde, regressou a Santos-SP, de onde mais tarde transferiu-se para Telemaco Borba-PR, onde reside com a esposa Ivonete Gonçalves e os filhos e neto.

Padre Nonato Pinheiro

10 de maio

1922 – Nasceu em Manaus (AM), Raimundo Nonato Pinheiro, filho de escritor homônimo e de Diana Pinheiro, que foi sacerdote regular. Após os estudos básicos em Manaus, frequentou os Seminários em Belém e São Luís do Maranhão, onde foi ordenado em 27 de outubro de 1946. Seu apurado zelo com o idioma pátrio, tornou-o excepcional filólogo, articulista competente que colaborou com todos os jornais da Capital, até seu falecimento; esse daí sua reconhecida aptidão pelo ensaio e pela polêmica.  Publicou pouco, mais lembrado o livro sobre o 3º bispo do Amazonas, Dom João da Matta, do qual foi secretário. Pertenceu às duas maiores agremiações literárias do Estado, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, nele exerceu com brilhantismo a função de Orador e, além disso, de bibliotecário da instituição.  Na Academia Amazonense de Letras ocupou a Cadeira 20, cujo patrono é Joãos Ribeiro. Faleceu em Manaus, aos 7 de dezembro de 1994.

sexta-feira, novembro 08, 2024

DOIS INTELECTUAIS AMAZONENSES: NONATO E ÁLVARO (1)

 
Meses após a morte do acadêmico Álvaro Botelho Maia, padre Nonato Pinheiro (foto), também acadêmico e membro do IGHA (Instituto Geográfico do Amazonas) publicou em O Jornal, (domingo, 19 de outubro de 1969), uma sinopse das obras do falecido. O alongado artigo vai aqui compartilhado em duas assentadas. Efetuei a atualização da ortografia e introduzi ligeiros detalhes, que espero não comprometam a obra do saudoso articulista.

Recorte do jornal indicado

Quando cursava humanidades no Ginásio Amazonense, Álvaro Maia, colaborando na revista AURA, costumava dedicar seus poemas à Ermila. Teria tido alguma colega ou amiga com esse nome? Tratar-se-ia de um nome fictício para ocultar um verdadeiro romance? Creio que meu amigo e confrade Cosme Ferreira esteja, em condições de dissipar a dúvida. O fato é que esse nome era uma constante nos versos do talentoso ginasiano.

No ano de 1915, a 22 de janeiro, conduzido pelas mãos amigos de Cosme Alves Ferreira Filho, Álvaro Maia ingressa no JORNAL DO COMMERCIO, como redator. Um ano depois, precisamente a 22 de janeiro de 1916, a bordo do vapor Bahia, viajava para o Rio de Janeiro. Regressou a 2 de abril do mesmo ano, a bordo do navio Ceará. Em 1917, verificou-se seu bacharelamento em Direito, na ex-capital da República. Estava formado. A flor de sua cultura e de sua sensibilidade de orador e poeta alcançava logo a plenitude do seu colorido e a pujança de sua inebriante fragrância.

O marco luminoso de seus triunfos intelectuais foi indisputavelmente sua famosa Canção da Fé e Esperança, pulquérrima oração proferida no Teatro Amazonas, em nome da mocidade amazonense, na solenidade do centenário da adesão do Amazonas à Independência Nacional. Foi um triunfo oratório de excepcional claridade, que a imprensa recebeu com estrepitoso alvoroço. A comissão promotora dos festejas era composta do coronel Bernardo da Silva Ramos, presidente do IGHA, professores Agnello Bittencourt, Manuel de Miranda Leão, coronel Antônio Bitencourt, padre José Tomás de Aquino Menezes, Drs. Aprígio de Menezes, Vicente Reis, João Batista de Faria e Souza, Arthur César Ferreira Réis, major Licínio Silva e jovens Aguinaldo Ribeiro, Antóvila Vieira, Cássio Dantas, Jorge Andrade, Galdino Mendes Filho e José de Alencar.

Em 1924, em sessão promovida pela Academia Amazonense de Letras, no Ideal Clube, saudou Álvaro Maia o eminente general João de Deus Menna Barreto. Discurso primoroso que o homenageado agradeceu com comovente oração. Como professor do Ginásio Amazonense, apresentou, no ano de 1925, duas teses de real valor, que lhe garantiram as cátedras de português (O Português-Lusitano e o Português-Brasileiro, léxica e sintaticamente considerados) e de instrução moral e cívica (A Bandeira Nacional como símbolo e emblema da Pátria). Não omitirei que, quando o Ginásio Amazonense passou a denominar-se Ginásio Amazonense Pedro II, foi Álvaro Maia o orador designado pela Congregação para falar na solenidade de 2 de dezembro de 1925, ocasião em que foi inaugurado o retrato do magnânimo Imperador. Presidiram a sessão o Interventor Federal Alfredo Sá e o diretor Prof. Plácido Serrano.

A 12 de julho de 1927, no Ideal Clube, Álvaro Maia proferia seu discurso - Após A Campanha..., na sessão cívica em homenagem aos implicados no movimento de 23 de julho de 1924. Em 1926, a 23 de julho, dirige uma carta aberta ao presidente eleito do Brasil, Dr. Washington Luiz, a pedidos dos estudantes Deoclides de Carvalho Leal, Arthur César Ferreira Reis, Rui Gama e Silva, Diogo Belfort Santos, João de Paula Gonçalves, Fernando Ribeiro, Mário Libório Pereira e José Freitas Ramos. Em novembro de 1930 estava nomeado Interventor Federal. Em agosto de 1931, publicou no Rio o folheto Em torno do caso do Amazonas. Já a 28 de janeiro desse ano havia publicado no JORNAL DO COMMERCIO seu trabalho - Em minha defesa, republicado depois em folheto, defendendo-se da matilha esfaimada que lhe ladrava aos calcanhares pelo crime de haver assumido o Poder Executivo de seu estado natal.

Em 1934, publicou seu discurso na Assembleia Nacional Constituinte, com o título - Panorama Real do Amazonas: A Voz Amazonense Que Se Levanta em Prol dos Luminosos Destinos do Berço Verde. Em 1942, Dom João da Mata de Andrade e Amaral realizava memorável Congresso Eucarístico Diocesano. Na sessão noturna de 3 de junho, convidado pelo zeloso Bispo, o Interventor Federal proferiu um soberbo discurso, na inauguração do monumento de Nossa Senhora da Conceição. Em 1944, saiu a lume a maravilhosa plaqueta Noite de Redenção, uma página de impressionante meditação. Data de 1945 seu belo folheto O Cântaro da Samaritana, enternecedora meditação evangélica. Seus livros de poesia e ficção aí estão, prenhes de emoção e encantamento, escritos por um homem de letras que moldou suas preferências mentais na escola dos egrégios mestres do estilo: Beiradão, Gente dos Seringais, Banco de Canoa, Nas Barras do Pretório, Buzinas dos Paranás, Nas Tendas de Emaus. Tive a satisfação de preencher a orelha de Buzina dos Paranás, a convite dos editores Sérgio Cardoso & Cia. Ltda.

Com paciência beneditina, percorri toda a coleção das revistas REDEMPÇÃO, de Clóvis Barbosa, e AMAZÔNIA, de Carlos Mesquita, e dei com numerosas flores literárias esparzidas pelo magnífico prosador e inspirado bardo. Asseguro que tais trabalhos dariam um ou mais volumes. Guardo-lhe com emoção um poema que me ofereceu publicado na página literária de O JORNAL, de 10 de maio de 1965, intitulado Latim Redivivo, cujos originais entregou a seu sobrinho Heliandro Maia. Esta relação está longe de ser completa. Foi um primeiro levantamento que empreendi para meu livro em preparo. Sua inteligência foi fecunda e admirável e sua pena surpreendentemente privilegiada. Como o sol, como os astros, como os parques e jardins floridos, passou a vida a esbanjar clarões, lampejos e a semear com mãos pródigas flores pelos caminhos, em troca dos espinhos que lhe atiravam os eternos invejosos, que não suportam remígios de condores nem cintilações de astros que incomodam...

quinta-feira, novembro 07, 2024

DOIS INTELECTUAIS AMAZONENSES: NONATO E ÁLVARO

Álvaro Maia
Meses após a morte do acadêmico Álvaro Botelho Maia, padre Nonato Pinheiro, também acadêmico e membro do IGHA (Instituto Geográfico do Amazonas) publicou em O Jornal, (domingo, 19 de outubro de 1969), uma sinopse das obras do falecido. O alongado artigo vai aqui compartilhado em duas assentadas. Efetuei a atualização da ortografia e introduzi ligeiros detalhes, que espero não comprometa a obra do saudoso articulista.

Recorte de O Jornal, 19 out. 1969

Tentarei neste meu trabalho de hoje traçar um aproximado itinerário intelectual de Álvaro Maia, que reputo, com Péricles Moraes, as duas mais altas expressões de grandeza no panorama literário de meu estado natal. Nascido em Humaitá, a 19 de fevereiro de 1894, com 13 anos iniciava os estudos de humanidades no Ginásio Amazonense (1907). Nesse tradicional estabelecimento de ensino médio, logo despertou admiração e respeito, entre os condiscípulos, a corola magnifica de sua inteligência, que se abria em púrpuras e aromas fascinantes.

Foi gerente, redator e colaborador assíduo da revista AURA, órgão crítico e literário, cujo primeiro número apareceu em 24 de julho de 1907. Suas brilhantes colaborações traziam por vezes o pseudônimo ALBOMA, em que o leitor inteligente logo lhe descobre o verdadeiro nome: AL (Álvaro); BO (Botelho); MA (Maia). O condor ensaiava os primeiros voos, entre alunos igualmente brilhantes, como Abelardo Araújo e Cosme Alves Ferreira Filho. No terceiro aniversário da revista (24/07/1910) escrevia ufano:

“Sentimo-nos invadidos de orgulho, porque a AURA, a cada passo que vai dando, cada vez que sai aos ventos da publicidade, cai conquistando simpatias espontâneas, vai caminhando a largos passos. A sede da glória chegou até nós e, enraizando-se em nossos corações, lançou fulgurações cintilantes, e, vestindo a clâmide da Verdade, vamos seguindo pela estrada iluminada pelas suas projeções, guiados pelo saber, como aqueles Reis Magos da lenda antiga pela estreia do além.”

A imagem fascinante da glória desde então passou a ter em seu formoso espirito uma colorida moldura. Em 1911, 19 de agosto, volta a sonhar com a iara deslumbrante de suas linfas cristalinas: “Sonho com a luta, sonho com a Glória. A Glória é uma enganadora miragem: é uma luz vaporosa que brilha longe, muito longe, nos extremos do horizonte e nós, seduzidos pelo seu fulgor, vamos em procura dela. Muitas vezes semimortos e tristes, queremos voltar, mas não podemos. É que ouvimos salmos harmoniosos que nos atraem, como os Cânticos das sereias aos marinheiros”.

Nesse ano de 1911, Álvaro Maia estreou no jornal CORREIO DO NORTE, de propriedade e direção de Germano Bentes Guerreiro. Era um belo jornal, noticioso e literário, que diariamente publicava, sob a epígrafe URNAS, uma joia antológica da literatura luso-brasileira. Foi para mim uma grata surpresa essa estreia, porque o jornal lança simultaneamente Álvaro Maia e meu pai, que assinava Nonato Pinheiro. Foi a 14 de maio de 1911, que ambos foram apresentados na primeira página dominical do referido órgão de imprensa, sob o título “Panoramas”, e o subtítulo “Duas revelações auspiciosas”. Álvaro tinha 17 anos e meu pai, 21. A crônica traz o pseudônimo Diable Rouge, que apresenta os dois moços: “Hoje tenho o prazer de publicar nesta crônica duas magníficas estreias, duas verdadeiras revelações auspiciosas, dois trabalhos escritos por dois rapazes de visível merecimento”. Álvaro estreou com o lindo soneto Assuntos Velhos. Meu pai inaugurava com o poema Nos braços de Vênus. Transcrevo o soneto do aedo de Humaitá:

ASSUNTOS VELHOS

Quando tu passas com teu passo altiva/ os corações altivos seduzindo,/ enamorado e triste vou seguindo/ teu corpo divinal e fugitivo.// Porque dele evaporas um ativo/ cheio de flores nos florais abrindo/ que, em espirais ardentes se expandindo,/ me enche o peito dum doce lenitivo.// Quando passas serena e deslumbrante,/ ficam meus olhos abismados ante/ a forma do teu corpo de rainha;// E dos lábios em dúlcidos cortejos/ seguem-te, para que não vás sozinha,/ rindo e cantando turbilhões de beijos!

Em agosto desse mesmo ano de 1911, nosso poeta viajou para Fortaleza. Américo Guedes ofereceu-lhe um almoço de despedida, ao qual compareceram Abelardo Araújo, Minos Cardoso, Cosme Alves Ferreira Filho, Antônio Barbosa e Demóstenes de Carvalho. Ao brinde, falaram: Araújo, pelo corpo redacional da revista AURA; Barbosa, pelo CENÁCULO; Cosme Ferreira, pelos colegas; e Cardoso, em seu próprio nome. O homenageado agradeceu comovido, proferindo um discurso estrelado de imagens deslumbrantes. Demóstenes de Carvalho ergueu um brinde pela felicidade da família. De Fortaleza o poeta enviava para AURA o belo soneto Alma Vagabunda, que dedicou a Demostenes de Carvalho. (segue)

quarta-feira, maio 01, 2024

DOIS ACADÊMICOS AMAZONENSES

 O saudoso acadêmico Raimundo Nonato Pinheiro, lembrando o centenário de nascimento do acadêmico José Chevalier (1882-1938), publicou sua homenagem no Jornal do Commercio (05 set. 1982) 

Recorte do artigo publicado no JC, 05. set. 1982

No dia 13 de junho do corrente anunciava eu o centenário de nascimento do professor José Chevalier, pelas colunas do Jornal do Commercio. Era alagoano de Penedo, onde nasceu a 5 de setembro de 1882. Transferido para Manaus, aqui se tornou professor de curso primário, aceitando aulas em domicílio. Mais tarde adquiriu o Instituto Universitário Amazonense, na rua do Dr. Moreira, prédio onde atualmente funciona a Hospedaria Garrido. Além de exercer o magistério com exemplar devotamento, dedicou suas energias ao escotismo, no que foi, no Amazonas, autêntico pioneiro. Lecionou português no Colégio Dom Bosco, onde o tive como professor no ano de 1934.

Nutrindo maiores ambições, diplomou-se em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Amazonas e pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Exerceu alguns cargos públicos: diretor da Biblioteca Pública e Arquivo (outrora funcionavam juntos) e do “Diário Oficial”.

José Chevalier Carneiro de Almeida era casado com a professora Raimunda Paula e Souza de Chevalier. Desse conúbio nasceram dois filhos: Walmiki Ramayana Paula e Souza de Chevalier e Wladimir Carlyle Paula e Souza de Chevalier, ambos formados na Bahia: Ramayana em Medicina e Carlyle em Direito. Foi observado que os filhos eram mais talentosos que seu genitor. Pelo depoimento do escritor Péricles Moraes, tomei conhecimento de que Carlyle era de inteligência superior à do irmão Ramayana, que entre nós deixou uma tradição do mais vivo luzimento, assim nas letras como na oratória. Tenho em meu arquivo algumas de suas produções mais refulgentes: páginas de ouro, recamadas de pedrarias faiscantes. Foi um gigante da eloquência, caracterizando-se como admirável criador de imagens empolgantes. Ofuscava e arrebatava.

Voltemos ao professor José Chevalier. Professor e bacharel, também cultivava as letras e foi um dos sócios fundadores da Academia Amazonense de Letras, fundada com a denominação de Sociedade Amazonense de Homens de Letras. Ocupava a cadeira de Afonso Arinos e exerceu as funções de Secretário-Geral. Péricles Moraes, evocando a figura de Benjamin Lima e os primórdios da Academia, assim se pronunciou sobre Jose Chevalier:

“O outro, que se colocara ao nosso lado por forte imposição temperamental e levado pela mesma comunhão espiritual e afetivas, identificando-se por gestos de altruísmo e desprendimento, chamava-se José Chevalier”.

Era meu amigo diletíssimo. Nascêramos exatamente no mesmo ano, e eu o estremecia como a um irmão muito querido. Quando de sua morte, no Rio, em 1938, tentei bosquejar-lhe o retrato nas molduras de “Paisagens de uma vida” inserto em CONFIDÊNCIAS LITERÁRIAS, uma das páginas humanas e dilacerantes que procuraram traduzir as angústias da minha emoção. Ainda agora, tanto tempo depois, relendo-a comovidamente, sinto o amargor dos avatares que o acabrunharam, em desafio à beleza moral do homem e às doçuras embevecedoras [sic] do seu coração”. (Revista da Academia Amazonense de Letras, nº 3, p. 8).

O professor Agnello Bittencourt também escreveu sobre José Chevalier em seu Dicionário Amazonense de Biografias (pp. 297-299). Estou vinculado a José Chevalier pelo discipulado (fui seu aluno de português no Colégio Dom Bosco, em 1934) e pela sucessão acadêmica. Sucedi-lhe na cadeira de Afonso Arinos, hoje de João Ribeiro, na Academia Amazonense de Letras. Essa mudança de patrono requer uma elucidação. A Academia possuía 30 cadeiras. Mais tarde, tornou-se imperioso aumentar o número para 40, imposição estatutária da Federação das Academias de Letras do Brasil. Nessa altura, recebendo o sodalício mais 10 patronos, foi facultado aos acadêmicos permanecerem com seus patronos ou escolherem novos. Alguns mudaram os patronos. O desembargador Arthur Virgílio, cujo patrono era o Visconde de Taunay, tomou novo patrono: Tobias Barreto. Eu deixei Afonso Arinos e tomei João Ribeiro, uma das maiores culturas deste país, cuja grandeza me fascinava desde a adolescência, como gramático, filólogo, historiador, folclorista e polígrafo.

Na Academia, não somente fui o sucessor de José Chevalier na cadeira que ocupo, mais ainda nas funções de Secretário.

Sentir-me-ia mal, muito mal, se nesta data do centenário de seu nascimento, não lhe prestasse esta homenagem póstuma “ab imo pectore”. Consinta, prezado Mestre, “no assento etéreo aonde subiste”, que lhe deposite sobre a lápide tumular, decorrido um século de sua nascença, estas humildes flores, úmidas e viçosas de recordação e de saudade!...

segunda-feira, janeiro 29, 2024

SILOGEU AMAZONENSE - CADEIRA 14

 Acabo de ler o trabalho de Robério Braga sobre os Fundadores da Academia Amazonense de Letras (2019), que confessa a dificuldade com dados de certo biografado. Genésio Cavalcante é o acadêmico, que sequer deixou uma foto para ilustrar o compêndio.

Dando organização aos meus papeis, deparei com uma página do acadêmico padre Nonato Pinheiro a respeito de Genésio Cavalcante, que aqui vai compartilhada do matutino O Jornal (20 out. 1960).

Nonato Pinheiro, 1952

 

O CANTOR DA LARANJEIRA

Padre Nonato Pinheiro 

... Genésio Cavalcante representa, a meu sentir, um desses casos de esquecimento imerecido. Foi uma das mais altas figuras da Academia e um dos vultos mais significativos de nossas letras, sobretudo como poeta de altíssima inspiração, cujas concepções constituem autêntica ourivesaria literária. Em parte, talvez haja contribuído, ele próprio, para tal situação, uma vez que sua quase torturante ânsia de perfeição, ao jeito de Flaubert, lhe não permitiu a edição de Oiro e Cinzas, obra que lhe daria um monumento imperecível na literatura nacional, construído com o melhor mármore das canteiras de Carrara.

A verdade verdadeira é que sua obra continua fragmentada e dispersa em jornais e revistas de letras. Eu próprio tive de empreender esforço hercúleo para coligir subsídios indispensáveis para uma obra que pretendo concluir para breve, sob a epígrafe Figuras da Academia Amazonense, em que me ocupo exclusivamente de acadêmicos falecidos.

O acadêmico Moacyr G. Rosas, que lhe detém a sucessão na Casa de Adriano Jorge, lutou com sérias dificuldades para a elaboração do elogio de seu insigne antecessor, só conseguindo dois sonetos de Genésio Cavalcante: "Pelo cair das folhas...” e “Semeador".

Teceu-lhe, entretanto, fúlgido estema, ressaltando-lhe a ânsia da perfeição neste lanço consagrador:

"Fino degustador dos manjares superexcitantes de Heredia e de Rabelais, e como um príncipe da Renascença, o seu espírito helênico contornava curiosamente todas as manifestações artísticas e literárias. Poeta parnasiano, os seus sonetos eram joias peregrinas que se não ofuscavam em confronto com os primores do mestre das Odes Funambulescas. Cinzelava admiravelmente os seus versos, da mesma forma porque esculturavam os seus translúcidos jades os velhos e pacientes artistas chineses". (Cf. Dois Discursos Acadêmicos, pp. 8-9).

Pena é que Moacyr G. Rosas não conhecesse o lindo poema Laranjeira, onde Genésio Cavalcante derramou todo o ouro de seu formoso talento e todas as pedrarias faiscantes de sua pompa verbal, que emprestava realce invulgar à sua poesia.

Não conheço, nos meus caminhos literários e nas minhas peregrinações estéticas, elogio mais alto da laranjeira. Sei que em muitas literaturas os príncipes da prosa, e da poesia lhe dedicaram páginas de antologia. Sei que São Francisco de Sales, fundando em sua diocese a Academia Florimontana, que reunia a flor da montanhosa Saboia, teve a feliz inspiração de dar-lhe por brasão duas laranjeiras, carregadas de flores e de pomos de ouro, com a sugestiva legenda: “Flores Fructusque Perennes" (Flores e frutos perenes). Assim, no pensamento do doutíssimo prelado, as Academias deviam imitar as laranjeiras, com a perene floração e frutificação das letras.

O fato, porém, é que não havia lido página tão emocionante. O poema é uma obra-prima de sublime poesia, e tão resplandecente que mais uma vez recorro à já surrada imagem das lentes esfumadas, para suportar tanta fulgurância.

Citarei os trechos mais formosos. Assim principia o artista o solene precônio:

"No ouro novo do sol os refloridos galhos,

Entre zumbir das rúmuras abelhas

E alada cavatina,

Triunfavas e fulgias

Numa cintilação fantástica de orvalhos,

Prenhe de aroma e luz, leves e fecundantes

Pólens de prata fina

A espaços peneirando...”

Passam-se os anos, e o cantor revê a velha laranjeira, batida dos ventos e das tempestades, cuja vida assim descreve com alta beleza e rara inspiração:

"Bem sei que a invernos maus, lufadas e procelas

Tu te acurvaste e, súplice, no outono,

Em profundo e tristíssimo abandono,

Ao murchar dos teus pomos dourados,

-- Esplendor maternal de ventura!

Gota a gota, no fluir da resina,

Choraste em choro quieto aos ventos em surdina...

E as pobres folhas, amarelas,

Falhas de seiva, as horas de amargura

Marcaram-te, rolando ermas e lentas

Como soluços abafados...

Por crepúsculos dormentes,

Taciturna, evocaste a imagem do infortúnio

Entre os vapores da neblina escassa...

Ou à sugestão do plenilúnio,

Toda de espinhos eriçada

E aureolada

De místicos palores,

Foste a Madona das Dores

Agonizando

E relumbrando

Cheia de amor, cheia de unção, cheia de graça...”

sábado, maio 27, 2023

POESIA DO SÁBADO

 De autoria do saudoso padre Nonato Pinheiro, membro da Academia Amazonense de Letras, que foi colaborador de todos os jornais que circularam em Manaus. Este poema foi compartilhado do Jornal Cultura (março 1983), encarte do Diário Oficial do Estado. Certamente por descuido do revisor, no fecho do poema deve-se "tronco" em lugar de "trono".




quarta-feira, maio 10, 2023

NONATO PINHEIRO & FERREIRA DE CASTRO

 O texto do falecido padre Nonato Pinheiro foi compartilhado do Jornal Cultura (edição de outubro 1982), publicação da Fundação Cultural do Amazonas.

Recorte da citada publicação

Tomei conhecimento de que os Amigos de Ferreira de Castro, à frente o escritor e artista Moacyr Andrade, presidente do Instituto Brasileiro de Antropologia da Amazônia, vão erigir, sob os altos auspícios do Consulado de Portugal, um monumento a Ferreira de Castro, o celebrado autor de A SELVA, romance que o inseriu definitivamente no elenco dos intérpretes da Amazônia.

Acolhi com muita simpatia a iniciativa. Embora escritor português, o romance de Ferreira de Castro é amazônico, por essência e por excelência, já que a trama ficcionista se teceu por inteiro no seringal PARAÍSO, aquele "rasgão da floresta, aberto, como um átrio, à beira do rio", como lembraria o romancista na pequena história sentimental de A Selva.

O romance foi escrito em sete meses, de 9 de abril a 29 de novembro de 1929, tendo sido publicado em maio de 1930. Segundo depoimento do próprio ator, a obra foi acolhida em Portugal, o que não ocorreu no Brasil, onde se notou a famigerada "conjuração do silêncio", conhecida e maquiavélica trama dos que se inquietam com o brilho alheio, que incomoda os espíritos mesquinhos... Como o que é bom de difunde, a cortina foi rompida e A SELVA teve seu merecido realce nos círculos literários brasileiros. Foi reconhecido o valor do romance e proclamaram-se as excelências do prosador lusitano, sobretudo como admirável paisagista.

Examinem-se estes dois cromos fascinantes:

"E era aí que a luz dava um ar da sua graça, branqueando e tornando luzidio o pescoço de algumas árvores mais altas e restituindo, pela transparência, às asas de milhares de borboletas as suas verdadeiras cores de arco-íris fantástico". (p. 110 da 23a edição (a definitiva).

"A selva era, agora, um jogo fantástico e espetaculoso de sombras e claridades. O sol, onde encontrava furo, derramava-se em cataratas e vinha por ali abaixo, em linhas irregulares, vestindo de prata os troncos, galhos e folhas e dando transparência aos rincões obscuros. Na própria terra, ao longe, vislumbravam-se, por esta e aquela fresta, grandes toalhas de luz, sobre as quais se banqueteavam essas policromas”. (p. 129).

Busto de Ferreira de
Castro, em Manaus

Meu primeiro contato com o romance de Ferreira de Castro foi de emoção e deslumbramento. Manifestei meus sentimentos no artigo A Epifania da Selva, inserto no extinto vespertino A GAZETA. Na minha total insciência, meu saudoso amigo Figueiredo da Cruz, vice-cônsul de Portugal, enviou-lhe o recorte. Éramos quase vizinhos. Certo dia, a grande surpresa: "Honro-me em entregar-lhe esta carta de Ferreira de Castro". E ao notar meu espanto, logo acrescentou: "Enviei-lhe seu artigo e cá está a resposta". Foi o início de um intercâmbio epistolar que perdurou até ao tramonto (deixe-me usar o italianismo!) de sua fecunda existência.

Se Ferreira de Castro não possuiu a torrente verbal de Aquilino Ribeiro, o festejado autor de "Lápides Partidas" e "O Arcanjo Negro", guapo prosador e profundo conhecedor do idioma, nem as excelências estilísticas de Miguel Torga, brilha como paisagista e produtor de páginas comovedoras e empolgantes, assomando como verdadeiro precursor de neorrealismo português, entre cujos princípios alcançaram notável realce Alves Redol e Fernando Namora.

Além de A SELVA, outras obras apreciáveis nos deixou o laureado escritor, entre as quais: Os Emigrantes, A Tempestade, Eternidade e A Lã e a Neve. Foi um dos escritores portugueses mais traduzidos, ingressando com altivez no Panteão da Literatura Universal!

Divulgação (internet)

No banquete que a intelectualidade brasileira lhe ofereceu no Rio de Janeiro, comemorativo do Jubileu de A SELVA o Amazonas esteve presente. Frutas regionais ornaram a mesa festiva, enviadas de Manaus por Ildefonso Pinheiro.

Desejou, antes que se lhe apagassem as pupilas, rever o PARAISO, em cujo cenário viveu os dramas dilacerantes da selva misteriosa e implacável, como a classificou no pórtico de seu grande livro. Proibiram-no os médicos: o fatigado coração não resistiria ao maremoto das emoções em tumulto...

Sugiro que o pedestal do monumento assuma a forma de um livro, reproduzindo o frontispício da primeira edição de A Selva, lembrando aos contemporâneos e aos pósteros a importância da floresta amazônica como castália de escritores e artistas!

quinta-feira, abril 20, 2023

REVISTA UBE/AM: 40 ANOS

Não necessito acrescentar mais que isso: compartilhei o texto abaixo da extinta Revista UBE/AM, que circulou em maio de 1983, portanto, há 40 anos. 



EXPOENTES LITERÁRIOS DO PASSADO


Padre Nonato Pinheiro, orador emérito de raro fulgor, cronista exímio, epistológrafo de inexcedível valor, é gramático e estilista como poucos no Amazonas. Membro da Academia Amazonense de Letras, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, do Clube da Madrugada e da União Brasileira de Escritores do Amazonas.

Padre Nonato é um dos mais ilustres pesquisadores da História da Igreja no Amazonas.

 

 

As comemorações do centenário de nascimento do escritor Péricles Moraes despertaram-me a evocação do grandes figuras literárias do passado, oradores, prosadoras e poetas de opulentos cabedais de cultura e requintada sensibilidade artística, homens egrégios, que tiveram, como os Varões Insignes do Livro do Eclesiástico, o instinto e a preocupação da beleza: "pulchritudinis studium habentes"!.

Péricles Moraes integrou essa plêiade gloriosa de caravaneiros da arte e magos do pensamento, que depositavam com rara elegância no altar da beleza o incenso, o ouro e a mirra de suas produções literárias e erupções oratórias. Dominando de pleno a língua e a literatura da França imortal, a Hélade dos novos tempos, encontraram nessa castália inesgotável os brilhos siderais e as tintas multicoloridas para as iluminuras de suas páginas mitológicas. Fascinavam-no os grandes mestres do estilo, que faziam do esplendor e da policromia uma constante obsessiva, entre os quais, Chateaubriand, Flaubert, Anatole France, Victor Hugo, Paul de Saint-Victor, Saint-Beuve, Remy de Gourmont, Bourget, Mauclair, Mirabeau e outros. As estantes de sua biblioteca não davam abrigo a escritores medíocres, que considerava "escrivinhadores de água chilra"...

Adriano Jorge, Agnello Bitencourt, Álvaro Maia e
Ribeiro da Cunha (a partir da esq.)

Adriano Jorge foi outro cimo daquela orografia mental. Caneta de ouro, cravejada de brilhantes, que escreveu páginas de rara beleza, mas talento tão dispersivo, a ponto de nunca se ter preocupado em publicar um livro. Entretanto, suas frequentes produções literárias nos jornais e revistas da terra dariam matéria para numerosos volumes. Além de suas teses de concursos, profundas e lapidares, deu à estampa duas primorosas alocuções: uma conferência sobre a luz e o discurso com que saudou o Núncio Apostólico Dom Bento Aloisi Masella no memorável 1° Congresso Eucarístico Diocesano de Manaus, em 1942. Dom Milton Pereira e eu, então seminaristas, ouvimos essa maravilhosa oração, que provocou na assistência alvoroçados aplausos. Fui empossado na Academia de Letras na presidência de Péricles Moraes (1950), mas não perdia as memoráveis sessões dos dois últimos anos da presidência de Adriano Jorge (1974-1948). Empolgava a assistência com o fulgor de sua oratória estonteante, como se arrebatasse do céu, para o recinto da Academia, a grandeza sideral da via láctea! ...

Benjamim Lima e José Francisco de Araújo Lima foram os irmãos Goncourt de nossa Academia. Benjamim foi o seu primeiro presidente e brilhou como teatrólogo. José Francisco, além de homem de letras de rútila cepa, foi cientista de proclamados méritos.

Leopoldo Peres brilhou com luz própria. Tive a alegria e o privilégio de receber suas luzes quando seu aluno de Literatura no Colégio Dom Bosco. Relevo que foi esse príncipe da inteligência que me espevitou a chama do amor às letras. Prosador cintilante e orador de eloquência magnificente.

Álvaro Maia foi um dos mais refulgentes brasões literários de nossa terra: professor, orador, prosador, poeta e político. Uma das inteligências mais fulgurantes do Amazonas, que deixou, seguindo orientação de Horácio, para a maturidade da vida a publicação de suas melhores obras.

João Leda era filólogo. Exímio cultor da vernaculidade, lia os clássicos da língua portuguesa com diurna e noturna mão, sobretudo Camilo e Rui Barbosa.

Heliodoro Balbi brilhou como orador. Suas produções literárias foram escassas, mas de raro brilho, entre as quais um primoroso soneto.

Jonas da Silva ficou glorificado na literatura nacional. Poeta de soberanos voos e joalheiro de maravilhosos sonetos, entre os quais "Coração" e "Santa Teresa".

Ribeiro da Cunha, médico e homem de letras, foi um grande humanista, mas de modéstia quase doentia. Jamais esquecerei uma observação de Péricles Moraes: "Padre Nonato: o Ribeiro da Cunha era tão extraordinário, que se revestia de profunda modéstia, dando-nos a impressão de nos pedir desculpas de ser grande"....

Waldemar Pedrosa faiscou com labaredas impressionantes. Cultura polimorfa e caráter sem jaça. Jurista, advogado e professor supereminente, conhecia profundamente a língua francesa e era um príncipe na arte da conversação. Fui eu o orador na sessão de saudade que a Academia fez realizar no 30° dia de seu decesso, quando afirmei: "Não só da vida, mas da própria morte fez uma obra de arte".

Agnello Bittencourt não pode ser esquecido na pulcritude de seu caráter e na grandeza de sua cultura. Pesquisador beneditino e pedagogo notável, encontrou na transmissão de seus opulentos conhecimentos um dos encantos da vida.

É limitado o espaço de que disponho, e infelizmente, fico privado de escrever sobre Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro, Huáscar de Figueiredo, Vivaldo Lima, Félix Valois Coelho, Ramayana de Chevalier, André Araújo, Mitrídates Corrêa, Anísio Jobim, Aristóphano Antony, Djalma Batista e outros, que deixaram de seu contubérnio com as letras vestígios inapagáveis!.

quarta-feira, janeiro 25, 2023

MANAUS: CIDADE SORRISO

Duas respeitosas e saudosas lembranças: o folheto Amazonas Cultural, elaborado pela então Subsecretaria de Cultura do Estado, em 1992; no qual, o falecido padre Nonato Pinheiro, cultor de nosso idioma, escreveu curta página sobre nossa - igualmente saudosa - Cidade Sorriso.

Fragmento da capa do folheto, de 1992
(abaixo) título do trabalho do sacerdote


CIDADE-SORRISO - foi o título merecidamente alcançado pela Manaus de minha saudosa infância e adolescência. Cidade de feições europeias, limpa, arborizada, ruas e avenidas largas, praças ajardinadas, árvores que davam sombra e fruto, amenizando a soalheira da estação calmosa, era um encanto vê-la e senti-la em seu aspecto acolhedor e sorridente!

A capital amazonense foi uma das primeiras cidades brasileiras a usufruir luz elétrica e tráfego de bondes, com serviços de companhias inglesas. Seu porto flutuante, acompanhando o nível das águas do rio Negro, impunha-se como um prodígio de engenharia, visitado por navios de pequeno calado e transatlântico de alto porte, trazendo cornucópias do progresso e da civilização.

Companhias líricas da Europa vinham diretamente a Manaus, desprezando o Rio de Janeiro e São Paulo, porque a CIDADE teatroSORRISO era o foco da abundância, pelo apogeu da belle époque, mercê do galarim da exportação da borracha.

Recamou-se a cidade de edifícios suntuosos, como o Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça e a Alfândega. Monumentos imponentes se ergueram, como o da Praça de São Sebastião. Pontes transpunham os igarapés, notabilizando-se a chamada Terceira Ponte, de majestosa estrutura metálica. Os subúrbios de Manaus eram sobremaneira aprazíveis por seus arvoredos, canteiros, igarapés e riachos: Cachoeirinha, Vila Municipal, Chapada, Flores, São Raimundo, Educandos, Mindu e Tarumã, com sua cascata escachoante.

Afonso Pena, visitando a cidade, exclamou: "Manaus é uma revelação da República!" Washington Luís ficou encantado quando conheceu Manaus em 1926.

Transatlântico no roadway de Manaus, cercado por
barcos regionais, como em reverência (Gunter Engel, foto)

A natureza circundante era um apelo turístico, com o encanto da paisagem, a amenidade dos igarapés e dos igapós, a pompa hierárquica da vitória-régia, a alvura das garças, o carmim dos guarás e o gorjeio da passarada, um conjunto ecológico de esplendor e beleza, que convidava a um epinício de vitória ao Criador!

Grandes vultos nacionais e estrangeiros aqui estiveram: sábios como Agassiz, Bates e Humboldt; escritores notáveis, como Euclides da Cunha, Rangel, Gonçalves Dias, Coelho Neto e Ferreira de Castro.

A Zona Franca, se foi veículo de progresso, produziu a descaracterização da CIDADE-SORRISO, com seu crescimento desordenado e inestético. Hoje Manaus é uma sombra do passado ou o túmulo de um esplendor extinto. Possam estas letras operar a taumaturgia de uma ressurreição sentimental nos espíritos dos que a viram e conheceram, garbosa e faceira, no feitiço e deslumbramento do seu inefável SORRISO!...

segunda-feira, julho 04, 2022

VINICIUS DE MORAES (1913-1980)

 Quando do falecimento do poeta Vinicius de Moraes, em 9 de julho de 1980, este acontecimento teve relevante repercussão. Não somente entre seus acompanhantes no bar do Caldeira, porém, com vitalidade entre intelectuais. 

Compartilho os textos de dois acadêmicos sobre o saudoso Vinicius, ambos poetas, escritos em jornais da cidade. Um, de Homero de Miranda Leão (Jornal do Commercio, 23|07|1980) e dois, do padre Nonato Pinheiro (Jornal do Commercio, 17|08|1980).


1 - VINICIUS DE MORAES -

padre Nonato Pinheiro

A recente morte de Vinicius de Moraes provocou no país um surto emocional de saudade e ternura em torno do astro que se apagou no tempo, mas continuará a luzir na posteridade, nas páginas antológicas de suas soberbas produções. Poeta, teatrólogo, cronista e compositor, legou-nos uma obra literária digna do maior apreço, pelo alto quilate de suas mensagens.

Vinicius convenceu-se de que o super comodismo dos novos tempos já não dá oportunidade triunfal para o poema papel, o poema-livro. O homem moderno, ultra comodista, já não suporta segurar o volume e volver as páginas do livro. Isso importa em cansaço e cafonice.

A vez é do poema canção, poema-musical. A poesia não entra mais no espírito pelo vestíbulo das pupilas, mas pelas arcadas auditivas, envolta nas sororidades fascinantes da melodia. Embora não aceite integralmente esse ponto-de-vista do saudoso e pranteado poeta, talvez por ter herdado do berço o culto do livro, coisa para mim inseparável da cultura, esse ângulo visual não deixa de ter seus atrativos.


domingo, junho 26, 2022

PADRE NONATO & MONSENHOR PEDRO MOTTAIS

 Retirei esta coluna do Jornal do Commercio (edição de 10 de agosto de 1980), de autoria do padre Nonato Pinheiro. Meu interesse se deve às anotações sobre o sacerdote Pedro Mottais, que tive como reitor no Seminário São José. Lembro ainda que um destacado amazonense buscou comigo dados sobre o padre Mottais, o saudoso Ruy Lins que o conheceu na Faculdade de Ciências Econômicas.

Não se conhece o local e a data de sua morte, as últimas informações conhecidas são que vivia no estado de São Paulo, tanto que existe a rua Monsenhor Pedro Mottais, na cidade de Jundiaí.

Para saber mais: https://catadordepapeis.blogspot.com/2018/07/o-bispo-do-amazonas-dom-joao-da-matta.html 

Recorte da coluna citada 


 Fados, bodas & impressões

 Padre Nonato Pinheiro, da Academia Amazonense de Letras

BODAS DE OURO SACERDOTAIS

 

São muitos os que conhecem nesta cidade o sacerdote francês, naturalizado brasileiro, monsenhor Pedro Mottais, ora residente em Itanhaém, São Paulo, com seus 78 anos de idade. Neste domingo, 10 de agosto, está completando 50 anos de sacerdócio. Ainda jovem diácono, veio da Franca para servir como oblato, na Prelazia de Tefé, então administrada por monsenhor Miguel Barat, também francês, que exerceu naquelas plagas do Solimões um belo e diuturno apostolado.

O jovem diácono recebeu o sacerdócio na Catedral da Senhora da Conceição, aqui em Manaus, no dia 10 de agosto de 1930. Conferiu-lhe o presbiterato o santo Dom Pereira, o bispo de minha infância, de minha adolescência. Tinha eu meus 8 anos de idade, e foi a primeira ordenação sacerdotal a que assisti, acompanhando minha saudosa mãe, que era da Associação das Mães Cristãs da Catedral, cujo assistente espiritual era o próprio Bispo.

Depois de exercer seu ministério sacerdotal em Tefé, durante alguns anos, padre Pedro veio para Manaus, recebido pelo mesmo Bispo que o ordenara. Também serviu na administração diocesana de Dom João da Mata de Andrade e Amaral, de 1941 a 48. No governo metropolitano de Dom Alberto Gaudêncio Ramos foi incardinado na Arquidiocese, passando a pertencer oficialmente ao seu clero secular.

Entre os cargos que exerceu, lembro os seguintes: capelão da Beneficente Portuguesa, da Escola do Bom Pastor e do Colégio de Santa Dorotéia, vigário ecônomo das paróquias de Nossa Senhora da Conceição e dos Remédios, chanceler da Cúria, reitor do Seminário de São José, procurador da Mitra, consultor arquidiocesano. Dom Alberto Ramos conferiu-lhe o canonicato honorário. Dom João de Sousa Lima providenciou-lhe o monsenhorato, conferido pelo Papa João XXIII. O autor destas linhas estruturou a exposição de motivos, justificando o pedido.

São poucos os sacerdotes que chegam ao cinquentenário de sua ordenação. Congratulo-me pela ocorrência dessas Bodas de Ouro e dou o endereço do IUELLANS SACRUM LITANS, professor aposentado de francês da [escola] Sólon de Lucena: Rua Leão XIII.

"Ad multos annos!"