CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, agosto 24, 2024

MORTE DE GETÚLIO VARGAS: 70 ANOS

Reproduzo parte de um texto de propriedade do saudoso Ramayana de Chevalier, que se empenhou ao seu modo, como jornalista e oficial R/2, em prol de Getúlio Vargas (1882-1954), e por quem possuía extremada admiração. Servindo em Manaus, em 1961, na administração de Gilberto Mestrinho, Ramayana escrevia para o jornal A Gazeta. Foi neste matutino, em edição de 20 de abril, que ele resumiu os derradeiros dias do presidente Vargas, encerrados com a morte há 50 anos. 


(...) Assisti, anos mais tarde, à humilhação do gigante. Foi no dia da prisão de Gregório Fortunato, nos jardins do Palácio do Catete. Antes de entrar no automóvel que o levaria ao Galeão, Fortunato ainda discutia no jardim. Cercavam-no soldados da Aeronáutica e oficiais. Junto à grade do lado, eu observava a cena. E no segundo andar, dentre as frinchas da veneziana, vi um vulto que contemplava, em silêncio, toda a teatral prisão do chefe da guarda pessoal.
Era o presidente [Getúlio] Vargas. Nada podia fazer. Nada esperava mais. Tinha prometido ao grupo de emergência, constituído no Galeão, que o levariam até lá, preso, para depor. O homem que viera nas asas da revolução de 30, o chefe político do uma Nação que ele impulsionara para a frente, o Chefe supremo dos exércitos em 1932, o ditador das Américas, o Grande Líder, o presidente Constitucional do Brasil, depois, iria descer do seu pedestal, para comparecer, como um preso comum, diante de oficiais que ele promovera, diante de oficiais que ele havia ajudado a generalar-se.

Era ao crepúsculo e eu não pude ver os seus olhos. Das frinchas, ele se despedia, tristemente, do seu amigo e escudeiro. Durante mais de vinte anos, a sua vida fora guardada por aquele cão de fila negro e fiel. Alguns dias depois, passara eu a noite mal dormida, com os acontecimentos. A cidade do Rio estava com os nervos de poraquê. Pelas oito horas da manhã, abri o rádio, todos acordados em minha casa, esperando a notícia da prisão do Grande Presidente. Foi então que escutamos a mensagem:

.“Alô! Alô! Brasil! Atenção! Acaba de se suicidar no Palácio do Catete o presidente Getúlio Dornelles Vargas”

Foi o maior choque que já sofri em minha vida. Todos, de mim as minhas filhas, a minha pupila, todos choramos. O Rio, o Brasil inteiro chorou. Só não o fizeram os que continuaram a maquinar traições contra sua memória. Tive vontade de sair de casa, armado, para desafiar todo mundo. Era o desespero, era a ferida popular. Se ele tivesse apelado para o povo, nenhum poder o derrubaria! Agradeço, “àquelas quatro velas, estas lembranças estão sentidas. Só havia quatro velas acesas. Mas elas valeram por um milhão delas. Porque foram colocadas pelos que, ainda hoje, choram pelo maior dos brasileiros de todos os tempos. (A GAZETA. Manaus, 20 de abril de 1961)

sábado, janeiro 07, 2023

PONTA PELADA: DETALHE DE SUA HISTÓRIA

 Breve nota para a história do aeroporto de Ponta Pelada. O texto foi publicado em O Jornal (edição 5.393, circulada em 10 ago. 1953), e compartilhado do livro Phelippe Daou, o jornalista, organizado por Abrahim Baze.

Capa do livro

Relata a presença em Manaus do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Nero Moura (1910-94), em inspeção às obras neste campo de pouso. Este oficial conduziu o Ministério durante o último governo de Getúlio Vargas, de quem era amigo, nomeado em 1º|jan|1951 e afastado em 18|ago|1954, portanto, uma semana antes do suicídio de Vargas.

Lamentável que o jornalista tenha se olvidado de mencionar algum oficial operando em Manaus na construção do Ponta Pelada.

 

Recorte da página do livro mencionado

Realizando uma viagem de magna importância para a navegação aérea e, consequentemente, para a economia nacional, chegou ontem a esta capital o brigadeiro Nero Moura, ministro da Aeronáutica, que, viajando em avião da Força Aérea Brasileira, se fez acompanhar de brilhante comitiva.

No aeroporto da Ponta Pelada, já se encontrava o governador Álvaro Maia e outras altas autoridades de Estado, quando ali pousou o aparelho da FAB, em que viajava o titular do Ministério da Aeronáutica. Pouco depois de sua descida do aparelho, o brigadeiro Nero Moura, em companhia de sua comitiva e do governador Álvaro Maia, passou a inspecionar as obras em andamento do aeroporto da Ponta Pelada, demorando-se em examinar os trabalhos já realizados.

A IMPORTÂNCIA DA VIAGEM DO BRIGADEIRO NERO MOURA

Está o Ministério da Aeronáutica interessado vivamente em dar por terminada o mais breve possível a importante rota Rio-Manaus, compreendido no acordo firmado entre o Brasil e os Estados Unidos, cujas principais cláusulas estabelecem rotas americanas para o Brasil e o trafego aéreo em várias direções do nosso território.

Nesse sentido, ou melhor, para maior garantia da navegação naquela rota, vem o Ministério da Aeronáutica trabalhando ativamente no senti de dotar os aeroportos de Aragarças, Xavantinas, Cachimbo e Jacareacanga do aparelhamento necessário, equipamento de auxilio básico à navegação aérea, para melhor balizamento da rota Rio-Manaus. Esse trabalho, de importância para nova linha a ser inaugurada, está em franco andamento.

A COMITIVA DO MINISTRO

A comitiva do ministro está constituída das seguintes pessoas: brigadeiro Raimundo Vasconcelos Aboim; coronéis aviadores Cazemiro Montenegro Filho, Jussura Fausto de Souza; tenentes-- coronéis Paulo Emilio de Camargo Ortegal e Lino Romualdo Teixeira; major aviador Haroldo Veloso e major Celso; capitão aviador Henrique; sargentos Inácio, Hélio Ameno, Rubens, Mirabele e Ludendorf.

O REGRESSO DA COMITIVA

O ministro da Aeronáutica e sua comitiva regressaram na manhã de hoje, viajando com destino a Cametá e Belém, de onde prosseguirá tocando em diversos pontos da rota costeira.

quarta-feira, agosto 24, 2022

GETÚLIO VARGAS: DATA DE SUA MORTE

 Acolhendo um trabalho do amigo de rede social, compartilho a publicação do Francisco Braga sobre o aniversário de morte de Getúlio Vargas, que hoje é reverenciada.

Getúlio Vargas

Nesta data em que lembramos o triste desfecho para a vida do Presidente GETÚLIO VARGAS, ocorrido há 68 anos em 24/08/1954, compartilho com você matéria extraída da revista O CRUZEIRO, edição de 06/10/1962, que publiquei no Blog do Braga em 26/08/2021, intitulada RECORDAÇÕES DE GETÚLIO, memórias guardadas por meu saudoso amigo, falecido em 2010, DEPUTADO JOSÉ BARBBOSA, sobre um dos momentos políticos brasileiros: o que sucedeu a deposição de Vargas em 1945, quando ele tinha se retirado para São Borja, e em 1950, quando retornou à presidência carregado pelos braços do povo. O Deputado José Barbosa, que tinha sido assessor de Getúlio Vargas, foi Assessor Especial do governador de Rondônia Jerônimo Santana (mandato de 1987 a 1991), com quem também trabalhei como Secretário Adjunto da Fazenda.

Importantes já na Revolução de 1930, que levou Vargas ao poder, os militares conduziram o processo de deposição de Getúlio, que por sua vez procurava protagonizar a transição e permanecer no poder. Para sucedê-lo no Palácio do Catete, o Presidente Vargas apoiava o candidato Eurico Gaspar Dutra, seu ministro, que tinha fortes convicções, apoiando o integralismo e revelando forte queda pela Alemanha Nazista, contando com o apoio do Exército, seu candidato. Seu oponente foi o Brigadeiro Eduardo Gomes, apoiado pela Aeronáutica, também militar e liderança tenentista da década de 1920. A disputa entre Dutra e Gomes representou, acima de tudo, uma divisão nas Forças Armadas. O pretexto para o golpe contra o Presidente Vargas foi a nomeação de seu irmão, Bejo, para chefe de polícia do DF, em substituição a João Alberto, fato corriqueiro sem maior expressão, dentro de uma normalidade política. Mas, como já visto, os tempos eram conturbados em fins de 1945. Link: https://bragamusician.blogspot.com/2021/08/recordacoes-de-getulio.html


sábado, junho 04, 2022

SEGURANÇA PÚBLICA: 1942

Mais um tópico explanado pelo interventor Álvaro Maia ao presidente Getúlio Vargas, em Exposição referente a 1942, tratando de setor da Ordem Pública, no tocante aos "soldados da borracha".

Recorte da capa 

ORDEM PÚBLICA

Intensificaram-se as providências de acautelamento e de fiscalização no que se refere à manutenção da ordem em todo o Estado. Foram encaminhados para os seringais milhares de trabalhadores nordestinos na maior parte solteiros, probos e respeitadores em grande número, mas, também com uma leva avultada de elementos acostumados ao vício ou revoltados pelas circunstâncias do momento.

Recusavam-se a seguir para os seringais, desligando-se do Serviço de Abastecimento do Vale Amazônico (SAVA), estabelecendo pouso em Manaus e em outras cidades. A atuação vigilante da Polícia impediu que manifestassem as suas atividades.

São informações da Chefatura: "dos elementos estatísticos colhidos pela Secção competente, verifica-se que, em comparação com o ano anterior (1942), houve um decréscimo de cerca de 28% no total das prisões correcionais, chegando esse decréscimo, em alguns dos motivos, a atingir mais de 50%".

Em um movimento de tantas incertezas, em viagens por motores, navios, lanchas, em loteamento em seringais longínquos, onde os trabalhadores iam encontrar seringueiros antigos, houve 13 homicídios em todo o Estado e 73 ferimentos.

Há a notar que o policiamento no interior é feito por Delegados Gerais de Polícia nos municípios, auxiliados por subdelegados, inspetores e agentes distritais; apoiam-se ordinariamente em uma guarda municipal composta de 3 a 4 homens. Somente nas sedes municipais em que há pavilhões da SAVA, para distribuição de trabalhadores, há elementos da Guarda Civil e da Força Policial do Estado.

A Interventoria solicitou ao coronel [Exército] Nelson de Melo, então diretor do Departamento de Segurança Nacional, a designação de um técnico para reformar os serviços policiais no Amazonas: exerceu essas funções com superior critério o doutor Alberto Tornaghi, que apresentou os planos necessários à organização de uma polícia completa. A execução depende de situação financeira.

Barranco do rio Jutaí (foto Guenter Hengel)


O movimento dos estrangeiros eixistas [relativo ao Eixo] foi pequeno no Amazonas, conforme atesta a Delegacia de Segurança Política e Social. Basta dizer que foram concedidas apenas 9 guias de trânsito, sendo 3 a súditos japoneses, 3 a italianos e 1 a alemão. Entraram 33.818 passageiros; saíram 28.331. (...)

A Delegacia de Ordem Política e Social exerceu severa vigilância entre os elementos eixistas e indivíduos suspeitos de quinta-colunismo, sobre os quais pairavam denúncias de trabalho sobre o terreno contra o aumento da produção de borracha, agindo entre as correntes de trabalhadores aliciados para os seringais. Não houve propriamente casos concretos, de vez que a fiscalização coube também aos prefeitos, às autoridades espalhadas pelo interior e aos próprios seringalistas.

Relíquia do "mestre" Bala, que operava na ilharga 
de Manaus

sexta-feira, abril 22, 2022

PANAIR DO BRASIL: CONSTELLATION

 Envolvido em escrever uma retrospectiva sobre o acidente de aviação com o Constellation PP-PDE da Panair do Brasil nas cercanias de Manaus, em 1962, deparei com esta notícia. Diz respeito à inauguração do aeroporto de Ponta Pelada, em 1954, realizada pelo presidente Getúlio Vargas. A ocasião serviu para mostrar pela primeira vez em |Manaus a enorme aeronave, semelhante a que se desmanchou na "Clareira do Avião".  

Cuido deste trabalho para relembrar o trágico acidente com perda total, em que morreram todos os ocupantes: 50 pessoas. Com esse número constitui-se no maior desastre de aviação no Amazonas, quem sabe, na Amazônia.



terça-feira, abril 07, 2020

DITADURA VARGAS NO AMAZONAS


Quando Getúlio Vargas transformou seu governo em ditadura, manteve na administração do Amazonas ao Dr. Álvaro Maia (foto), sob o título de Interventor Federal. Para atender decisão superior, em 3 de abril de 1937, o Diário Oficial do Estado publicou extenso relatório assinado pelo Interventor, relatando a situação do Estado.


Interessei-me pela Segurança, que à ocasião encontrava-se sob a direção do Chefe de Polícia. Sua autoridade estendia-se até sobre a Casa de Detenção, ou seja, a guarda dos detentos na Penitenciária do Estado, a mesma que findou na avenida Sete de Setembro, e o prédio sem cuidados definha. Outra atribuição (estranha para nossos dias) era a aplicação de censura sobre teatro e cinemas.
Abaixo os textos enunciados:
Casa de Detenção (Cartão Postal)


Casa de Detenção
Entregue à administração do capitão José Marques Galvão, oficial em disponibilidade da Força Policial do Estado, a Casa de Detenção vai se mantendo de acordo com as ordens diretamente emanadas desta Chefia. O ambiente calmo e respeitoso reinante naquele presídio, demonstra que os que ali se encontram estão efetivamente segregados do nosso convívio, cumprindo penas impostas pelas leis garantidoras da tranquilidade social, violada e ofendida pelo delito ou crime por eles cometidos.
Vê-se, logo à entrada, que se está num estabelecimento penitenciário, modesto e pobre, porém, onde existe obediência aos princípios de ordem e disciplina. Instalado há muitos anos no magnifico e confortável edifício situado à avenida Sete de Setembro, servido apenas por seu administrador, um amanuense e um carcereiro, vai funcionando a Casa de Detenção de Manaus, sob o controle direto da Chefia de Polícia com a guarda da força militar para ali enviada todos os dias.
Com a assistência médica de um dos legistas escalados por esta Chefia — Ângelo D'Urso — os presos vão gozando boa saúde. Para esses serviços médicos dispõe o estabelecimento de uma enfermaria e uma ambulância sempre prontas às necessidades que surgem. Graças à gentileza do Prefeito da Capital, inaugurei naquela dependência um serviço dentário permanente, dirigido pelo profissional Henrique Gomes que, sempre atento, comparece, quando não diariamente, pelo menos 3 vezes por semana, para fazer extrações, obturações, curativos e limpezas que necessitarem os presos.
A administração não se descuida da higiene e a conservação do edifício, tanto assim que foram realizados com as sobras das verbas insignificantes de que dispõe, os seguintes serviços de pouco vulto, é verdade, porém de ótimos resultados para o Estado e para os detentos: consertos do soalho da sala da enfermaria, substituição das portões de ferro e das calhas estragadas, reparos nos esgotos, vedagem de goteiras, pinturas, renovação da instalação elétrica, obras nos banheiros, reforma completa dos dois fogões de ferro, caiação dos xadrezes, refeitórios e corredores etc...

Recorte do relatório divulgado no Diário Oficial


Censura Teatral e Cinematográfica.

Acabo de instalar esse serviço de grande necessidade para a polícia social e de costumes. Baseado no Decreto Federal 21.240, de 4 de abril de 1932, e seguindo o exemplo dos demais Estados da União, urgia que o Amazonas tivesse a sua organização, modesta que fosse incumbida da censura dos filmes cinematográficos, especialmente.
Apesar de estar essa obrigação estipulada no Art. 16 do Regulamento aprovado pelo Decreto Federal 99, de 30 de outubro de 1925, nada se havia feito até agora sobre o assunto, talvez por falta de um órgão especialmente designado para esse fim. Dei essa incumbência à Delegacia de Segurança Política e Social, visto como reconheço dever  de suas atribuições preservar e defender a higiene moral e da nossa gente.

sábado, janeiro 25, 2020

BARCELOS E SEUS MARCOS


O lembrete sobre este monumento (ainda existe?) foi efetuado pelo Jornal do Commercio (25 jan. 1970).

Os marcos que já não existem


Ao tempo em que ainda possuía seus históricos marcos — trazidos pelos portugueses que desbravaram a região —, Barcelos vivia dias risonhos, pois a castanha assegurava boa renda para os produtores e extrativistas e concorria acentuadamente para a receita estadual.
Foi um daqueles que se gravou o dia de uma visita do então interventor Álvaro Maia, a quem a antiga capital amazonense prestou homenagens. Depois, os marcos desapareceram como que antecipando o desaparecimento da castanha.
O velho município suportou o primeiro desfalque, mas segundo representa o seu próprio fim, como o Coronel Albino Pereira da Silva, em entrevista que é um verdadeiro grito de alarma.

No marco estava cinzelado:

Salve! 4/8/941
Visitou esta Cidade o Doutor Álvaro Maia.
Homenagem de Barcelos ao Interventor e
ao grande Presidente Getúlio Vargas.

segunda-feira, novembro 23, 2015

RAMAYANA DE CHEVALIER

Ildefonso Pinheiro, saudoso nordestino que venceu no Amazonas, revelou-se como abastado comerciante, mas igualmente como cronista em seu tempo.

Contemporâneo de Ramayana de Chevalier (foto), traçou na edição do Jornal do Commercio (3 setembro. 1972) uma apreciação sobre aquele médico. Muito mais que médico, Chevalier foi um intelectual competente, que prevaleceu ao tempo do governo de Getúlio Vargas, a quem defendeu com veemência nas redações de jornais da Capital da República.


Recordando o Passado

Ildefonso Pinheiro

Antes de falar em Ramayana de Chevalier, é preciso recordar o antigo Instituto Chevalier onde o seu pai, professor José Chevalier fincou o marco conclamador do dito instituto, cujo nome tornou-se flâmula desta terra. Lembro-me perfeitamente que o instituto foi instalado pela primeira vez na Rua dos Andradas, num amplo sobrado que ainda hoje pode ser visto em seu estilo colonial, de beleza atraente. 

Recorte do mencionado periódico
O Instituto Chevalier ali foi instalado em 1911 ou 1912, tendo permanecido por muito tempo. Depois mudou-se para a rua Dr. Moreira, esquina com a Quintino Bocaiuva, onde atualmente se encontra a Hospedaria Garrido. Aí funcionavam diversos cursos tendo como professores — José Chevalier e Paulo Eleuterio que, entusiasmados pelo Escotismo, passaram a lecionar esta disciplina que Olavo Bilac com suas belas canções impulsionara o povo brasileiro de Norte ao Sul. Assim, ao amanhecer de cada dia estavam os dois mestres dedicados a convocar os meninos daquela época para tão sublime conquista espiritual. 
Entre os novos escoteiros encontrava-se Ramayana de Chevalier, moço sagaz, em cujos olhos existia a esperança para o Brasil de mais um filho culto e radiante. Ele foi um soldado impulsionado pelo sentimento poético de Olavo Bilac com suas canções patrióticas, pois tocavam os corações pela chama sagrada do ideal, do amor pela liberdade e pelo progresso do Brasil. 
No desenvolver dos tempos, Ramayana de Chevalier fora tido como um espirito fadado às ciências e às letras. Ao seu lado encontravam-se Leopoldo Peres, André Araújo, Carlos de Araújo Lima, Olavo das Neves e muitos outros que conduziam a bandeira da ordem e do progresso, nos seus corações. Nesse desenvolver de dias, noites e meses, anos se passaram e chegamos ao ano de 1941 quando encontrei Ramayana de Chevalier viajando no navio Santos, do Loide Brasileiro, de Manaus à cidade Maravilhosa. 
Nessa comprida viagem de 22 dias o navio fora transformado numa Academia de Letras, onde os astros fulguravam com seus espíritos de jornalista, poeta, sociólogo, que eu ainda hoje conservo em minha retina, fazendo reviver aqueles dias felizes, nos quais Ramayana de Chevalier, André Araújo, Genesino Braga e Aguinaldo Archer Pinto transformaram aquela cidade flutuante num ambiente de artes e de cultura. 
Em 1950 o vi e senti ao lado de Adalberto Vale com o seu verbo brilhante e sedutor quando saudava a gleba verde com o seu discurso pela passagem da entrega do “Hotel Amazonas” à cidade de Manaus.
Suas frases refeitas de imagens estelares tinham o encanto das flores às margens dos rios, a murmurar por todo este Amazonas que surpreende e catequiza tudo o que tiver a felicidade de o contemplar em sua apoteose maravilhosa.
A inauguração do “Hotel Amazonas” marca o divisor de suas épocas. Esta formidável iniciativa da Prudência Capitalização, através do gênio empreendedor de Adalberto Ferreira Valle, que Assis Chateaubriand classificou no seu brilhante artigo Dos Grisões à Amazônia com o único rival do anexo do Copacabana Palace, representa nas suas linhas arquitetônicas, na excelência do seu material prestante, no arremesso de suas colunatas, no emaranhado modernismo dos seus detalhes técnicos, um monumento ao amazonense singular, cujo espirito, envolto nas tarlatanas da graça e do poder positivo, jamais se esqueceu, como o fez Ruy, do ninho onde nascera... 
Sobre Ramayana de Chevalier o ministro Jorge Mendes, na sessão do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas pedirá um minuto de silêncio para prestarem uma homenagem póstuma ao grande amazonense, dizendo: "Ramayana de Chevalier, como homem teve os erros, mas, nas letras, vejo-o iluminado ao lado de Álvaro Maia como os dois maiores amazonenses". 

segunda-feira, outubro 22, 2012

MANAUS: ONTEM E HOJE (2)

Há 40 anos, a avenida Getúlio Vargas, ainda sem o trânsito intenso que conhecemos, era capaz de receber o fluxo tão insignificante da rua Tarumã. Sequer havia semáforo no cruzamento. Os fícus benjamins ainda em crescimento, daí ser possível divisar o quartel da Praça da Polícia.

Avenida Getúlio Vargas (acima, acervo Moacir Andrade),
abaixo, própria


 
Na mesma época, a avenida Airão (hoje denominada sem muita convicção de Ministro Waldemar Pedrosa) começava a mudar de aparência. O registro mostra o trecho desta artéria entre a atual rua Joaquim Gonzaga (antiga Getúlio Vargas) e a rua Tapajós. Como ponto de referência, o Hospital Santa Julia, edificado no lado direito. A vegetação existente hoje não permite observar este ponto.

Avenida Airão ou Ministro Waldemar Pedrosa, (acervo pessoal)



 

segunda-feira, setembro 27, 2010

Eleições amazonenses 1950

Algumas décadas depois do ciclo da borracha, Manaus vivia cercado de uma pobreza extrema, "para encurtar a conversa", sequer havia energia elétrica. Havia sim, energia produzida pelo "motor de luz" do Porto e distribuida pelo "cabo C", que apenas distinguidos cidadãos privilegiavam. E tristemente candidata a "porto de lenha". 

O Jornal, no dia das eleições, convoca os eleitores

Sob esse panorama encerrava-se o mandato do governador Leopoldo Neves, ou, simplesmente Pudico. Aliás, este já renunciara ao cargo para se inscrever ao Senado nas eleições de 3 de outubro de 1950. Como deve ocorrer no final de semana, 60 anos depois!
Dois partidos seguiam dominando a cena política: Partido Social Democrático (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN). Mas, outras siglas já prosperavam no País, destacando-se o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).
O Jornal. Manaus,
3 outubro 1950

Outra questão influiu nas eleições regionais. Dizia respeito à presença de Getúlio Vargas, de volta ao poder executivo nacional. Envolvido pelo movimento do "queremismo", Vargas atropelou seus concorrentes. Sua vitória estendeu o mesmo efeito para antigos correligionários.


O Jornal. Manaus, 1º outubro 1950

No Amazonas, os dirigentes do PSD não se entenderam e, devido ao "racha", foram à disputa dos votos. Dessa maneira, restou para governador, pelo PSD, Álvaro Maia, e pela união UDN-PTB, Severiano Nunes.

Venceu o pleito o ex-interventor federal, também poeta e prosador, Álvaro Maia. A posse do novo governante ocorreu em 31 de janeiro de 1951.

O Jornal. Manaus, 4 outubro 1950
Resultado parcial em O Jornal. Manaus, 24 outubro 1950