CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, outubro 03, 2026

POLÊMICA PROFANA

 

Renato Mendonça

30.09.2026


Nos últimos dias, assistimos à mídia e às redes sociais reacenderem um debate que, outrora, pertencia apenas ao íntimo das famílias: a fé cotidiana, silenciosa, que se manifestava nos lares e nos templos, sem necessidade de alarde público. Era ali, no espaço reservado da devoção, que se formavam valores; que se educavam crianças e adolescentes para serem cidadãos e cidadãs; que se transmitia a herança espiritual de uma geração à outra.

O que agora se vê, porém, é a tentativa de ressuscitar um projeto antigo, de um parlamentar inescrupuloso — cujo nome não merece ser lembrado —, que pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Convenhamos: uma proposta que não nasce da fé, mas da ganância política; não brota da espiritualidade, mas da estratégia eleitoral. E o mais grave: encontra eco em parcelas de fiéis evangélicos que, iludidos por discursos oportunistas, não percebem que se trata apenas de um artifício para angariar votos, às vésperas da eleição.

Essa polêmica profana não edifica: ela destrói. Não fortalece: ela corrói o tecido social. Ao negar a tradição que remonta ao século XVIII, quando a imagem de Nossa Senhora foi encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul, tenta-se apagar séculos de devoção, de cultura, de identidade nacional. A coroação da Santa, em 1904, com a coroa ofertada pela Princesa Isabel, e o decreto do Papa Pio XI em 1930, não foram apenas atos religiosos, mas marcos históricos que consolidaram um símbolo de unidade para o povo brasileiro.

Aparecida não é apenas a mãe dos católicos; é a mãe de todos os brasileiros. Seu manto não distingue credos, mas acolhe todos nós como irmãos. Seu olhar não separa, mas une a todos. Ela deseja proteger não apenas os devotos, mas também os cidadãos e cidadãs que ainda nascerão, oferecendo-lhes um horizonte de fraternidade, de justiça e de paz. Contra a misoginia, contra o ódio, contra o desamor, sua presença é um convite à reconciliação e à esperança.

Neste tempo de eleições, quando tantos candidatos se preocupam mais em se locupletar do que em servir ao povo, cabe ao eleitor discernir, pedir as bênçãos da Mãe de Jesus sobre as nossas escolhas. E pedir para que os candidatos tenham dignidade suficiente para não tentar enganar o eleitor. Não permitir que a fé seja instrumentalizada pela política, não permitir que a devoção seja transformada em palanque eleitoral. É hora de escolher com serenidade, com consciência e com responsabilidade. É hora de rejeitar a intolerância, a misoginia, o ódio e reafirmar a unidade do nosso povo.

Que os votos sejam conscientes para que as escolhas sejam justas. Que a fé permaneça como fonte de luz, e não como arma de divisão religiosa.

Bons votos em favor da democracia!


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