CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

10 de setembro de 2012

Luiz Bacellar (1928-2012)


Aspecto do encontro entre amigos de Luiz Bacellar,
na funerária, antes da saida do féretro
 
Hoje foi o último dia do poeta Luiz Bacellar, morto ontem, aos 84 anos, entre os amigos e admiradores. Para sacar os derradeiros documentos necessários a obtenção da certidão de óbito, abrimos os expedientes em duas repartições diferentes. No cemitério São João Batista, estava o amigo Zemaria Pinto, e no 2º cartório de registro de pessoa física, instalado no bairro de Aparecida, fui eu em busca do comprovante de nascimento do falecido.
O passo seguinte foi realizado na Fundação Dr. Thomas, onde obtivemos o comprovante de residência. Reunidos esses documentos, fomos em direção ao 11º cartório de registro, funcionando na av. Grande Otelo, no Parque Dez. Ali, enfim, tiramos a certidão de óbito do morto. Estava apto para ingressar na eternidade.
Aqui, um parêntese para lamentar as instalações deste cartório. Começa quem não possui espaço para estacionamento, melhor deixar o carro mais adiante próximo à igreja católica mais adiante. No interior do cubículo, de cerca de 3x3, havia apenas um atendente, que atendia. Sobravam três cadeiras, que foram ocupadas pela nossa comitiva. Logo chegaram quatro mulheres e uma criança, e não tinham onde sentar. Iluminação fraca, que não colaborava com o escrevente. Aliás, de um modo geral, os cartórios precisam ser visitados pelos dirigentes dos consumidores.
 
Jornal A Crítica, edição de hoje
Os periódicos não dispensaram encômios ao poeta-morto. O autor de Frauta de Barro estava elegante em todas as páginas. Mas, duas questões destoaram: a nota assinada pelo jornalista-acadêmico Aldisio Filgueiras, estampada no Em Tempo, que causou “estranheza” aos dirigentes maiores da Academia de Letras.
A outra foi a grafia com que A Crítica enfatizou o sobrenome do falecido – BARCELLAR, que, para o próprio, era uma forma  degradante de tratá-lo. Para esse desastre, certamente o mesmo passaria discretamente seu cartão de visitas, repleto de escárnio (veja ilustração).
 
De volta ao falecido na funerária Almir Neves. Cumpria-se sua vontade expressa em documento hábil, assim, o acadêmico Luiz Bacellar deixou de ser reverenciado na Academia Amazonense de Letras, como de praxe. Tudo então acertado, o enterro aconteceria a partir das 15h30, apesar dos matutinos terem exposto o horário matinal (10h30), previamente estabelecido.
Uma hora antes da saída do féretro, os amigos reuniram-se em volta do falecido para as despedidas finais, ao ritmo da poesia e ao compasso da música. Este conclave foi regido pelo acadêmico Tenório Telles, e cercado de emoção. Versos do poeta morto e de outros poetas preencheram o encontro. A oração final coube ao poeta Thiago de Mello.
Abaixo, estão duas manifestações: a de Benayas Pereira e de Almir Diniz, dois poetas, dois admiradores do autor de Sol de Feira.
 
Um tchau ao poeta
 
Benayas Pereira
 
Eu acho que o poeta jamais deveria partir.
Um poeta, que acredito ser o americano Ezra Pound, dizia que "enquanto os mortais bebem vinho, os poetas bebem almas". Ezra sabia distinguir como ninguém a diferença entre os mortais dos poetas. Os mortais, dos quais faço parte, são pessoas broncas e laicas. Algumas eventualmente leem algo relacionado com poesias ou coisas pertinentes.
O poeta não! O poeta passa sua vida elaborando, criando, passando noites em claro, em busca de uma só palavra que defina exatamente o que 'quer dizer. É sem dúvida, um esteta, um perfeccionista. Passados alguns anos, com uma idade madura e, após ter embebido o povo de poesias e alimentado sua alma, vem um deus e o leva para sempre.
Eu acho que o poeta jamais deveria partir.
Meu consolo de simples mortal é que o poeta parte, porém, deixa tudo o que criou para nós, mortais, broncos e leigos, no sentido de um dia quem sabe, um de nós tenha a ideia de pegar algum fragmento poético para nos embriagar de ternura. Este porre seria aquele vinho do qual Ezra se referiu.
Qulntana disse uma vez que "com o tempo não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram; ficamos sozinhos um pelos outros". É uma verdade crua. Com as idas desses poetas – alguns muitos jovens – o mundo vai ficando carente das coisas essenciais da vida e, entre elas, a poesia.
Vi muitos poetas partirem. Percebo que gradualmente a poesia se enfraquece. A renovação é parca. Breve não teremos mais um único soneto. Triste realidade de quem ainda sonha. O que será do mundo? É multo difícil ter de aceitar que um dia todos eles atravessarão o rio das águas cristalinas. E esse rio é Implacável. Por ele todos hão de percorrer sejam poetas ou simples mortais.
Eu não concordo: acho que este rio feroz e pungente deveria carregar somente os mortais. Os poetas não!
Por que... Eu acho que os poetas não deveriam partir.
 
*  *   *
EMPECILHO
Para Luiz Bacellar
Havia, claro, empecilho
bem na curva do caminho
entre o “café” e a vontade,
entre o "Quarteto" e o carinho,
bordando a manhã de brilho
com as luzes da amizade.
 
E havia a distância, enfim,
distância para vencer...
Sem asas, plumas e arminho
,
como hei de proceder?
Mas há o espírito endeusado
que voa e nunca se o vê.
 
Então, sendo um andarilho,
montei meu corcel alado
que existe dentro de mim:
pulei etéreo cercado,
transpus o
espaço sem fim.  
E na hora do café
da manhã" – pode me crer –
estive bem do seu lado
só para aplaudir você! 
Almir Diniz - Campinas (SP) 4 set. 2005 

Já no cemitério de São João Batista, na Quadra 9, depois do minuto de silêncio, Luiz Franco de Sá Bacellar foi sepultado. A tarde, tornando-se aprazível, fez-se mais uma vez amiga do poeta para que os amigos levassem algum tempo em conversas antes de se afastar do cemitério.  
RIP (requiescat in pace) amigo-poeta Luiz Bacellar.