CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

7 de setembro de 2012

Dona Victoria Malafaya (1ª parte)


Victoria Malafaya
As ruas de terra batida repassadas na abertura do conto postado pelo Renato Mendonça existiram. Localizavam-se no bairro do Morro da Liberdade, no arrabalde de Manaus. E a morta-viva que aconselha ao autor do texto é a minha e dele avó paterna – a peruana Victoria Malafaya.
Pobretona e analfabeta, nascida na região da amazonia peruana, nunca portou documentos, por isso não se sabe com que idade morreu. Esse fato ficou comprovado com a obtenção da certidão de óbito dela, cujo registro apresenta várias imperfeições. A mais grave é a de que possuía, ao morrer, 56 anos (?).
Renato Mendonça, neto de
Victoria Malafaya

Vou expor uns episódios marcantes dessa avó. Fatos que me foram passados por meu pai – Manoel, filho de dona Victoria. Um dia de 1928, ele com onze anos, morava em Iquitos (PER) com sua mãe, quando esta decidiu enfrentar o destino, tomando o rumo de Manaus (AM), que continua atraindo os peruanos daquela latitude.

O empreendimento não teve aquela disciplina, pois tomaram “emprestada” uma canoa e se atiraram rio Solimões abaixo, contando apenas com a sorte para alcançar primeiramente a fronteira brasileira. Sua mãe estava acompanhada de dois filhos (Manoel e Francisco) e dois ou três amigos adultos. Ou seja, foi montado um ajuri com a finalidade de vencer a remo a respeitável distância entre aquela cidade e a de Tabatinga.

Em razão do furto da canoa, os migrantes optaram por viajar somente à noite, escondendo-se durante o dia. Temiam ser alcançados pela polícia, devido o delito. Passaram dificuldades tanto para se abrigar quanto para a alimentação, que, para esta, se valiam de frutos e de peixes apanhados de modo fortuito. Mas, dado a quantidade de peixes regionais, certamente, deu “para escapar”.

Apesar dos percalços, obtiveram êxito. Ao se aproximar da fronteira brasileira, porém, houve o temor da perseguição policial, por isso, decidiram ultrapassar aquele mundo de águas, pela madrugada, sem qualquer movimento de remos, como se a canoa estivesse à deriva.

Todos agachados, talvez rezando, ou torcendo que o Solimões os amparassem. Novamente venceram. Já em território brasileiro, sem que meu lembre o preciso local, venderam a canoa e conseguiram embarcar em uma lancha (também esquecida pelo tempo) em direção a Manaus.

Chegados a capital amazonense, dona Victoria e seus filhos foram morar na praça do Teatro Amazonas, com certeza em uma pensão barata. Ela passou a efetuar serviços domésticos e os meninos, como era comum à época, passaram a empregados domésticos. Aquele moleque que fazia carretos, recados (quem sabe, o precursor do celular, ou seja, o “moleque lá”), e algumas vezes recebia o corretivo. Meu pai lembra-se do primeiro emprego, na taberna do seu Abade, um comerciante espanhol situado no centro, ou na rua Isabel ou na Dr. Almino, mas próximo ao igarapé de Manaus, hoje saneado e transformado em parque.

De volta à dona Victoria. Seus últimos anos foram passados em nossa casa da rua Amazonas, 29, no Morro da Liberdade, que estava iniciando, no prolongamento do bairro de  Santa Luzia. A mudança da família ocorreu em dezembro de 1959, saída dos Educandos.

Foi, pois, nesse endereço que o mano Renato encontrou a avó morta, quando ele retornou do emprego na Casa do Trabalhador. Era o dia 10 de dezembro de 1961. O registro legal foi realizado no atual 4º Ofício, instalado na rua Leopoldo Peres, em Educandos. Não há registro do responsável pelos dados, por isso, os deslizes. Seu sepultamento foi realizado no cemitério São João, onde, em 1952, fora sepultada minha mãe.
Cópia da Certidão de Óbito de Victoria Malafaya