CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, maio 09, 2021

DIA DAS MÃES

Não há como esquecer este Dia. Assim, vou homenagear as Mães tantas, com as quais parcelei a vida e com as que prossigo compartilhando. E faço em nome de minha avó Victoria, uma mestiza e descendente de ticunas, nascida no lago peruano de Caballococha, em “hermosa orilla”, à margem esquerda do rio


Marañon, localidade então de cerca mil habitantes. Ao tempo da exploração do caucho, analfabeta, ainda jovem, sofreu o assédio dos caucheiros, desse modo levada a gerar quatro novos peruanos. Este infeliz relato familiar conheci há cinco anos quando, ao lado de meu irmão Renato, produzi um livro em homenagem ao filho (dela) Manuel Mendonça, nosso pai.

Nossas mães – Francisca Lima Mendonça – nasceu à margem do lago do Anveres, hoje pertencente ao Careiro Castanho (AM). E Doroteia Mendoza, a Dona que nos auxiliou com benevolência a encarar a vida. 

Esta semana recebi um presente: o livro Memórias de Barrancos (poesias), enviado pelo autor Isaac Melo, residente em Rio Branco (AC). Ao revirar o livro, enfrentei o poema postado na contracapa, que me relembrou a historieta acima resumida de minha ascendente. Sou grato ao Isaac pela dupla gentileza: o livro bem composto e a deixa para a postagem neste Dia das Mães.

A bisavó



quinta-feira, setembro 28, 2017

CENTENÁRIO DE FRANCISCA LIMA MENDONÇA

Francisca Lima Mendonça
Estava com este texto pronto para publicar no dia do centenário de nascimento de minha mãe (28 de abril de 2017), quando o Google bloqueou este espaço. Depois de longa reza e muitas promessas, hoje tive a prazerosa revelação de que posso continuar a publicar esses “papéis”. 

Para melhor marcar esta efeméride, Pedro Renato escreveu o texto abaixo, cantando as virtudes de Francisca Lima Mendonça, sua Mãe. Pronto, meu irmão, cumpri a promessa.

ODE À MINHA MÃE

FRANCISCA MENDONÇA - 28/04/2017

Hoje é teu centenário de nascimento!
Não gostaria nem conseguiria esquecer jamais,
Mesmo porque, só fisicamente, ausente estais.
Porém, o olhar cândido e o teu semblante infinito
Incólume ficou, feito uma rocha ou um granito,
E quanto valor agregaste ao nosso discernimento!

Renato Mendonça


Destes teus cem longos anos de vida,
Em apenas um terço, Deus quis que ficasses entre nós.
E nesse fausto tempo, nos cedeste a luz de muitos sóis,
Com candura, ainda nos presenteaste com o dom da beleza.
Deixaste muita saudade, sim; e um vazio imenso, com certeza,
Que ainda sentimos no nosso cotidiano, no lar e na lida.



"Brava guerreira, herança do sangue nordestino, tenaz!"
Caçula de cearenses arredios da seca, no Careiro nasceu, longe da cidade,
Na porção rural do Amazonas, no fim de um ciclo de prosperidade,
Que o látex produzia. Para buscar um horizonte, deixou seu recanto.
Idealizou sua vida, sonhou a dois, desejando o amanhã sem pranto,
Sem imaginar as artimanhas da sorte e o destino fugaz.

Vicente, o pai, pôs fim a própria vida, num descontrole emocional.
Ficou órfã muito precoce, um desatino, uma fatalidade!
Antes mesmo que a menina Chicuta alcançasse a puberdade.
A dedicada mãe, Adelaide, teve que pôr as rédeas na mão,
Para não perder o controle da família. Sob sua condução
Embarcaram na lancha Xiborena, rumo a cosmopolita Manaus.

Na cidade, a jovem Francisca obteve colocação numa panificadora famosa.
A Rosas, seu único emprego, deu-lhe chance para trabalhar como balconista,
Ali também, já trabalhava Manuel, o futuro consorte, promissor pracista.
No mesmo lugar, sem atinarem, um projeto de Deus iria unir seus destinos.
Uma cerimônia, no fronteiro Peru, juntou suas almas, sob o badalar dos sinos.
Vida a dois, vida peregrina, em busca da felicidade venturosa.

Iniciaram por Iquitos, no vizinho país andino, suas andanças;
Voltaram a Manaus, o porto seguro, para ver a cegonha chegar:
Roberto e Henrique, foram os primeiros para a jovem senhora criar.
Sequenciando a vida nômade, rumaram para o Rio de Janeiro.
Assim, Francisca Lima, nascida no distante Careiro,
E Manuel, um intrépido peruano, experimentaram mais uma mudança.

Na então Capital Federal, ansiaram a estabilidade, um período duradouro.
Todavia, com familiares, tiveram dificuldades de relacionamento humano.
No convés do Almirante Alexandrino o amargo regresso, antes de um ano.
A pressa tinha outro motivo: a cegonha novamente chegaria.
O último filho de Francisca, muito em breve nasceria.
De volta a Manaus, Renato completou a prole, um novo tesouro.

Quando tudo parecia um regozijo e uma nova guinada,
A tuberculose, o mal da época, cruzou seu caminho.
Destino insano! nem podia acalentar seus filhos no ninho.
Dona Francisca lutou contra essa indômita doença, em vão.
Não adiantou a ajuda de médicos, nem o ar puro do seu torrão.
Sua luta acabou, aos 35 anos, mas, continua viva, venerada!

Para nosso bem, a semente do Amor é o teu legado!
Onde foi semeada, gerou uma árvore, bem fincada
Apenas a Natureza a alimenta, nem precisa ser regada.
Se, em determinados momentos, nos faltou o acalanto,
E em outros, nos sobrou algum pranto,
Esse Amor floresceu, não pode ser negado!

Para comemorar o teu centenário,
Nada melhor que deixar para a futura geração,
Esta simplória ode, como se fosse uma oração,
Dedicada com todo o amor e com afeto
Para ti, venerada mãe e teu amor dileto.

É meu presente pelo teu aniversário!

Fábrica Bijou, na Praça da Polícia, onde começou o romance 

quinta-feira, abril 27, 2017

CENTENÁRIO DE FRANCISCA LIMA

Francisca, em Iquitos
Em homenagem ao centenário de nascimento de Francisca Lima Mendonça, minha saudosa mãe, que se completa amanhã, publico a segunda nota para contar sua curta existência.


Com o retorno de Manuel do seringal, Francisca retomou o noivado, com uma decisão incomum: casar-se, prontamente. O desacordo com a família ainda pesava, e muito contribuía para essa disposição. Diante do impasse, Manuel, necessitando regularizar sua situação militar, convenceu a noiva a, no início de 1943, juntos viajarem para Iquitos (Peru). Ao final desse ano, contraíram o matrimônio na igreja de San Juan Bautista, patrono daquela cidade.

Entusiasmada ou para dar satisfação, Francisca remeteu uma foto do enlace, anunciando a boa nova à família. Em Iquitos, o marido enveredou pelo comércio, cuja condução conhecia com bastante aptidão, chegando a estabelecer-se com uma taberna. Era intenção do casal permanecer na cidade.

Entretanto, Francisca ao anunciar a chegada do primeiro filho, levou Manuel a retornar à capital amazonense. Era início de 1946. Em fevereiro, o casal desembarca em Manaus, agora apoiado pela família. Adquirem uma casa na rua Inácio Guimarães esquina do beco São José, a qual depois de reparos serviu de moradia e de comércio.

Casa onde nasceu Francisca, foto de 1917 

Em junho, nasceu o primogênito: Manoel Roberto (este que vos escreve). A Mercearia São José, o comércio prosperava e a família também. Dois anos depois veio outro filho: Henrique Antonio (detalhe, todos os filhos terão dois nomes próprios).

Todavia, em 1950, seu Manuel toma uma determinação estapafúrdia: aceitando um convite de um irmão, radicado no Rio de Janeiro, vende os bens do casal e com a família embarca no navio Almirante Alexandrino. Em fevereiro estamos no Rio, que ultimava os preparativos para a Copa do Mundo. O estádio do Maracanã estava em construção.  

Francisco morava no subúrbio, em Irajá (rua Claudio da Costa). Para receber a parentada amazonense, o anfitrião construiu às pressas um “puxadinho” de madeira, bem acanhado comparado com o casarão deixado em Educandos. Dona Francisca deve ter experimentado uma dose severa de dificuldades: começando pela casa sem mobília, passando pelo cunhado que, separado da mulher, cuidava de três filhos. Havia ainda a distância do trabalho do esposo e, certamente, as dificuldades financeiras.

Ao final desse ano, Francisca anunciou ao esposo a chegada do terceiro filho, que se chamaria Pedro Renato. A gestação da esposa deve ter acelerado o desejo de Manuel em retornar com a família para Manaus. Assim aconteceu. Creio que em março de 1951, estávamos de volta para o mesmo bairro, para a mesma rua, contudo sem a taberna. Em junho nasceu o terceiro filho, que foi para ela o derradeiro. (segue)    

terça-feira, abril 25, 2017

CENTENÁRIO DE FRANCISCA LIMA

Francisca Lima, aos 25 anos
Em homenagem ao centenário de nascimento de Francisca Lima Mendonça, minha saudosa mãe, publico uma série de notas para contar sua curta existência.


No próximo dia 28, completaria seu centenário de nascimento Francisca Pereira Lima, a qual, casada com Manoel Mendonça, tomou este sobrenome. Nascida em 1917, viveu muito pouco, apenas 35 anos, quando foi vitimada por uma tuberculose. Francisca ou Chicuta foi minha mãe.

Nasceu no Anveres, um pedaço de terra e muitas águas, hoje integrante do município do Careiro da Várzea, e morreu no bairro de Educandos, quando este era conhecido por Constantinópolis, morando ao lado do Cine Vitória, em construção.

Seus pais vieram do Ceará, atraídos pela riqueza da borracha, ao final do século XIX. Seu pai Vicente, estando viúvo, casou-se com a jovem Adelaide, de cujo enlace nasceram oito filhos, sendo Francisca a caçula.

A proximidade da capital atraía os moradores das cercanias. Para isso, os careirenses utilizavam o barco Xiborena para, no reboque, alcançar a cidade. E assim, entre tantas travessias do rio Negro, os Lima foram ficando. Em especial, as mulheres (Raimunda, Maria e Francisca).

Morto seu Vicente, a viúva tomou conta da propriedade familiar, até que grave enfermidade a obrigou dona Adelaide a se mudar para a rua Jonatas Pedrosa. Neste endereço, teve a companhia da filha mais nova, que se tornou a cuidadora da mãe. Morta Adelaide, em 1940, Francisca já com 23 anos foi à luta, em busca do sustento.

Encontrou emprego como balconista na Fábrica Bijou, que funcionou na avenida Sete de Setembro, em frente à Praça da Polícia. No local, encontrou-se com Manuel Mendonça, subgerente da Casa, oriundo do Peru e ainda solteiro.


Conversa vai e vem, engataram o namoro. No estágio seguinte, estavam noivos, porém a família da noiva não aceitava o pretendente. Tentando consertar a questão, Manuel afasta-se de Manaus, aventurando-se em um seringal, movimentado por ocasião da II Guerra. Deu-se mal e, dessa maneira, retornou para a amada. (segue)

Mendoza, assinava Mendonça quando do casamento com Francisca


domingo, maio 08, 2016

DIA DAS MÃES

Para Francisca Pereira Lima (1917-1952)




segunda-feira, novembro 02, 2015

DIA DOS FINADOS



Flores para meus finados mais próximos.


Manuel e Francisca
Mendonça (pais)
Victoria Malafaya (avó)
Dona Dora (segunda mãe)
Vicente e Adelaide (avós maternos)
Graça e Betão Mendonça
(esposa e filho)
Ronaldo Cesar (irmão)











segunda-feira, maio 19, 2014

ORFANDADE DA FAMÍLIA



Seu Manoel e dona Francisca (acima)
com Dona Dora e o filho Carlos (abaixo)

Aconteceu hoje, na metade do dia, o falecimento do senhor José Manoel Mendoza, meu pai e de mais sete homens e uns tantos netos e poucos bisnetos. Aconteceu em São Paulo, onde residia há poucos anos, pois sua paixão mesmo era a capital amazonense. O fato é que na sexta-feira sentiu-se enfermo e foi levado ao hospital, onde após ser diagnosticado foi encaminhado para uma cirurgia.  A elevada idade não permitiria melhor resultado, assim resistiu até hoje. Morreu aos 98 anos.
Seu Manoel nasceu em Iquitos-Peru, na fronteira com o Brasil. Um dia no distante ano de 1927, sua mãe Victoria, em companhia de outros homens, tomou dois filhos (Manoel e Francisco) e desceu o rio Solimões em direção a Manaus. Sem instrução, enfrentaram as dificuldades próprias de imigrantes. Lutaram e venceram.
Durante a II Guerra, meu pai trabalhou na empresa de J. G. Araújo e, com mais afinco na Padaria (isso mesmo!) Bijou, situada na avenida Sete de Setembro, nas proximidades da praça da Polícia. A estrutura desse prédio continua intacta, tanto que no térreo funciona uma loja TV Lar. Ao tempo da guerra, um desabastecimento da cidade acarretou a venda de gêneros alimentícios sob a fiscalização e o controle da Polícia.
Mais adiante, o jovem peruano tomou a noiva, minha mãe Francisca, e zarpou pra Iquitos, onde casou e montou uma firma de “secos e molhados”. Ele era um bom vendedor, articulado, mas com uns princípios econômicos que não estavam na cartilha do bom comerciante.
Um dia de 1946, voltou para Manaus e se instalou na rua Inácio Guimarães canto com o beco São José, em Educandos, onde  fundou uma mercearia, que ainda funciona ainda que precariamente. Nascidos os primeiros filhos (Roberto, Antônio e Renato), a mãe destes morreu vitimada por uma tuberculose. A luta recrudesceu... Mas, o casamento com Dona Dora trouxe uma nova mãe para os primeiros e os próximos filhos (Zemanoel, Jorge, Ricardo, Luis e Carlos). Como se vê, não havia mudança, todos homens.
Ele já tinha experimentado o Rio de Janeiro na oportunidade da primeira Copa do Mundo no Brasil. Todavia, voltou para Manaus. Em nova investida, depois de todos esses filhos rumou, amparado pelos mais velhos, para São Paulo. E ficou num vai e vem, porque ele gostava mesmo era de Manaus. Seu mundo, sua vida. A segunda esposa morreu há 20 anos, quando se torcia que ela mais jovem o amparasse até o final. Num deu.
Na festa dos 90 anos, com o filho Renato

Em Barra Mansa, posa com os filhos (cima)
e com os netos (baixo)


Aos 90 anos, nos reunimos em Barra Mansa-RJ para comorar a data tão auspiciosa. A saúde dele seguia sem susto. Aproximava-se o centenário, e os filhos já programavam a festa. Hoje, porém, houve um tropeço. A festa vai se realizar para assinalar a passagem pela vida deste peruano de coração e alma verde-amarelos.

Em São José dos Campos-SP, com filhos e
netos - 2011

 

sábado, novembro 03, 2012

DIA DOS FINADOS




Vista parcial da torre da capela do
cemitério de
São João Batista, 2010
Cometi ontem um pecado mortal, por não ter comparecido aos cemitérios para reverenciar os meus e outros mortos. Não encontro justificativa.  Preocupei-me com assuntos diversos desse cerimonial... e acabei por transferir a visita para amanhã. No entanto, o day after não vale, ou se antecipa ou se vai no dia mesmo. Trata-se da única visita anual, e eu indesculpavelmente falhei.
 
À noite, quando engrossava a lotação dum shopping, recebi a penalidade. Ao efetuar o pagamento, a jovem atendente, vendo o alvoroço da casa de consumo comentou comigo a perda da tradição dessa data tão significativa. Não alimentei a conversa porque estava me sentido pecador, com obrigação de cumprir uma penitência.

Para remediar meus sentimentos e meu deslize, quero lembrar meus mais próximos mortos: a primeira sensação de perda foi a de minha mãe, Francisca Lima Mendonça, morta aos 34 anos, de tuberculose pulmonar. Aconteceu em 1952, sem que ela conhecesse qualquer antibiótico que, talvez, pudesse adiar a visita da “rasga mortalha”.

Em 1961, morreu minha avó Victoria Malafaya, peruana autêntica, nascida no beiradão do rio Solimões peruano. Foi sepultada no São João, na mesma cova da nora.
Depois, o câncer atingiu a minha madrasta, Dona Dora, de quem já comentei em posts anteriores, e a quem agradeço sempre o apoio incisivo recebido.
Mais recente, e a dor parece ser ilimitada, aconteceu a morte de meu filho Roberto, também aos trinta e quatro anos, que foi se juntar às avós.   

Lendo Baú de Ossos de Pedro Nava, saudoso médico que, ao inventariar suas memórias, assim descreveu o velório de José Nava, seu pai:

(...) Esperando a entronização que não tardou da essa, dos tocheiros e do caixão de veludo agaloado. Naquela altura ele ficou distante, transmudou-se na coisa além das afeições, das convenções, dos contratos, das reciprocidades. Não podia dar mais nada. Receber mais nada. Nada. Não ser. Não ter. As  expressões automáticas ainda lhe atribuíam, irrisoriamente, as últimas possibilidades de posse. O caixão dele, o enterro dele, a sepultura dele – mas nem isso! Porque ele era do caixão, do enterro, da sepultura perpétua. Perpétua? Perpétua é a Morte. A dona é a terra...


 

quarta-feira, julho 18, 2012

FRANCISCA PEREIRA LIMA (2)

Francisca Lima,
Foto Alemã, 1941
Recebi do meu irmão Renato, atento à manifestação que postei para lembrar o distante falecimento de nossa mãe, o texto que segue:

Confirmei no Atestado de Óbito a data: é dezoito de julho. Não importa. É apenas um dia. O que importa é que a tua excelente crônica me tocou. O teu relato preciso, era por mim desconhecido em vários pormenores, e me trouxe de volta uma reflexão incomum. Confesso que tenho pensado muito nela, e mais ainda, tenho derramado algumas lágrimas, mormente na data do meu aniversário. Fico imaginando, se ela tivesse a sorte de meu pai, ainda poderia me abraçar nesses dias. Sou um órfão assumido e carente, talvez por causa da idade em que nos separamos, ela na melhor fase do amadurecimento e eu, do acalanto.

Tenho escrito algumas crônicas como te falei, e nesses textos, quando o assunto requer, inconsciente, envolvo minha mãe no contexto. Neste momento em que estou redigindo, meus olhos marejam. É o infausto da vida, são as trapaças da sorte. Infelizmente temos que respeitar os desígnios de Deus, aceitar os caminhos traçados para o nosso porvir. Felizmente estamos dando continuidade à sua saga, a sua história, tão curta e dura.

Mano, obrigado pelo texto. Agradeço as palavras de carinho com que me envolveste. Agradeço também o sentimento fraterno que sempre existiu entre nós. Louvado seja nossa mãe.


ORAÇÃO À D. FRANCISCA

Francisca Pereira Lima, 1943
Dona Francisca Pereira Lima, vós que subistes ao céu em alma, e deixastes na terra o corpo e um legado de amor a teus filhos.

Que destes o exemplo de bravura e resignação. Que plantastes com teus gestos a semente da vida; mostrastes o caminho aos filhos nos anos vividos, com a leveza de dedicação e ternura.

Que na sua curta história, pode demonstrar com naturalidade o exemplo de fé e perseverança, não se desesperando em angustia, mesmo na hora da morte.

Que partiste cedo dessa vida terrena, nos deixando órfão de afago, mas não de amor. E estais ao nosso lado, desde então, a nos fornecer energia e fé, para nos conduzir nos nossos caminhos.

Mãe, vós que tomaste o exemplo de Jesus, para deixar como símbolos para nossas vidas: o amor, a dedicação, a perseverança e  a resignação.

Renato Mendonça, carteira da UESA
Mãe, querida, ajuda-nos a viver segundo o santo conselho espiritual: faça tudo o quanto Ele ensinou e adote tudo quanto Ele nos prover.
Amém.

Niterói (RJ), em 18.07.2004
Renato Mendonça

terça-feira, julho 17, 2012

FRANCISCA PEREIRA LIMA (1)



Francisca Lima, na formatura de
Corte&Costura
Há sessenta anos morria minha mãe, deixando órfãos, além de mim o primogênito, o Henrique e o Renato, este com apenas um ano. Inda me lembro do fato: aconteceu em nossa residência, à rua Inácio Guimaraes, nas proximidades do cine Vitória, portanto, no bairro de Educandos. Era a noite de 17 de julho.

Com a idade que possuía, não atinava para a enfermidade que consumia dona Francisca. Ainda jovem, com pouco mais de 30 anos... Lembro que a seguira ao Cambixe, no Careiro, em casa de parentes, para cumprir uma regra sanitária de antanho: doenças eram curadas em ambiente amplamente saudável. No Brasil, são conhecidos os refúgios que "proporcionavam" cura à tuberculose. Não era o caso do Cambixe!

Outra lembrança da época, o médico que atendeu minha mãe fora o doutor Jorge Abrahim, vereador da cidade, mas pouco recomendado como especialista. Dele se contavam pilhérias sobre sua prática medicinal.

Certo mesmo é que a gravidade da enferma progredira. As atenções foram redobradas. Uma delas, os três filhos foram acomodados na casa da irmã dela, minha saudosa tia, dona Raimunda Barbosa, que ano passado teve celebrado seu centenário de nascimento.

Raimunda era a filha mais velha dos Lima, e a Francisca, a caçula. Com a morte dos “velhos”, a primeira passou a cuidar da irmã. Por isso, foi a ela que meu pai se dirigiu quando resolveu namorar minha mãe. E, como a tia exigiu dele alguns detalhes próprios do galanteio da época, meu pai (ainda vivo aos 96 anos) guardou algum ressentimento da cunhada.
Casamento de Francisca e Manuel,
em Iquitos-Peru, 1944

Raimunda casou-se com seu Manoel Barbosa, e o casal se estabeleceu na “estrada” de Constantinópolis, hoje avenida Leopoldo Peres, bem no início da conhecida Baixa da Égua. Nesse endereço, os Lima Barbosa produziram pão e os filhos. E ali fui alimentado, também.

Era na casa desta tia que eu estava, quando fui levado apressadamente até a minha. Levado para tomar a benção de minha mãe, para assim me despedir dela. Embora tenha tomado e retomado sua benção, não houve resposta, não podia mais, minha mãe estava morrendo.

Então, vi o lamento, o choro dos presentes. Também derramei  minhas lágrimas infantis, confesso, sem entender bem aquele momento, sem entender a “indesejada visita”.

O enterro foi realizado a moda antiga: conduzido o féretro, o caixão (melhor dizendo) pelas ruas, com os acompanhantes revezando-se no transporte manual. Havia um tamborete para, aqui e ali, suportar o caixão, e permitiro pequena recuperação aos condutores. Enfim, para quem conhece ou não a distância, o sepultamento aconteceu no cemitério de São João Batista, saindo do bairro de Educandos. Foram alguns quilômetros.

Por décadas, não quis saber da causa mortis, da causa da perda de minha mãe. Então, como a saúde própria passou a me inquietar, pensava que o câncer fora a determinante. A explicação, todavia, estava facilmente ao meu alcance, bastava consultar o cartório. Assim fiz. E no atestado de óbito estava a dura resposta: tuberculose pulmonar havia causado a morte.

Casal Mendonça, com os filhos Roberto
(em pé) e Henrique (sentado), Rio 1950
Passei dias lamentando que, à época, não houvesse em Manaus os antibióticos, a penicilina capaz de intervir proveitosamente. Meu irmão Renato, morador de Niterói-RJ, ao ler o atestado, desabou. Contou-me que se refugiou no Campo de São Bento, ao lado de sua residência, e copiosamente chorou pela mãe, que a morte prematura impediu-o de desfrutar do carinho, do afago, do acalanto.

Até à eternidade, mãe!

terça-feira, maio 10, 2011

Pós Dia das Mães

Eu e dona Francisca Mendonça, 1949


Pensei com meus óculos que esta data havia passado sem brilho. Mas, conhecido os dados do comércio que bombou, venho me penitenciar. Em particular, fui comedido; passei por alguns locais públicos e não vi (ou não quis ver) o empurra-empurra na disputa por tudo, tudo para adoçar as mães ou outras divas.

Eu e dona Dora, 1983


Há tempo venho colhendo flores e guardando-as virtualmente. São elas que enfeitam este espaço, dedicadas a todas as mães, em nome de minhas duas: dona Francisca, que me gerou, mas que ainda jovem não resistiu à doença, e se foi há longo período; e dona Dora, que me criou por outro lapso, também ela não resistiu a uma grave moléstia.


Desculpem-me a falta de fineza, mas... vai de coração.