CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

22 de agosto de 2012

Biblioteca Pública do Amazonas



Escombros da Biblioteca Pública, em 1945
22 de agosto de 1945

Na madrugada desse dia, aconteceu um grave incêndio que atingiu a Biblioteca Pública do Estado, única até então existente, inaugurada em 1910 na rua Barroso canto com a avenida Sete de Setembro. O fogo destruiu completamente seu acervo, salvaram-se alguns poucos, e mais preciosos, por se encontrarem em exposição fora do local. A edificação, pelo lado da rua Henrique Martins, partiu de alto a baixo, deixando ver o desastre em seu interior.
Em apenas dois anos, sem contar com tantas ajudas financeiras, o prédio foi reparado e uma nova coleção de livros foi incorporada ao acervo da Biblioteca. Nome do autor desta façanha: Genesino Braga.
Que saudades desse Diretor, quando se vê a mesma Casa de Leitura fechada há mais de seis anos, por culpa de fenômenos climáticos, como se dizia antigamente, “pecado” de são Pedro que manda tanta chuva sobre a cidade de Manaus.
O Corpo de Bombeiros de então era um desastre. Para o livro sobre os “homens e mulheres do fogo”, escrevi o texto que a seguir exponho. 

No segundo semestre desse ano (1945), as chamas descontroladas iluminaram a cidade de Manaus em trágicos acidentes. A partida começou em 4 de julho, com a destruição do batelão Arapiuns. Acionada, a Companhia de Bombeiros compareceu ao local, “tendo prestado valiosos serviços, isolando, com suas mangueiras, o batelão sinistrado”, noticia O Jornal, de 15 de julho.

Dois outros acidentes aconteceram no fatídico mês de agosto. O espantoso incêndio verificado no Emboca (hoje rua Leopoldo Neves), bairro de Santa Luzia, onde desapareceu perto de uma centena de casas humildes. Além de medidas assistenciais tomadas pela interventoria, a Associação Comercial do Amazonas (ACA) colaborou na reconstrução de residências.

O outro, inolvidável, sucedeu na madrugada de 22 destruindo o acervo da Biblioteca Pública. Já instalada onde hoje se encontra, no cruzamento da rua Barroso com a avenida Sete de Setembro, a Biblioteca e o Arquivo Público partilhavam o andar térreo do prédio. Ocupavam, respectivamente, o salão sul (av. Sete de Setembro) e o salão norte (rua Henrique Martins).

Ali estava instalada, também, a Assembleia Legislativa. Embora não estivesse em funcionamento, pois vigorava a ditadura do Estado Novo – ocupava “provisoriamente”, desde 1913, todo o andar superior.

Diante do infortúnio, Manaus irmanou-se, tanto para combater as chamas quanto para recuperar o patrimônio. As descrições oferecem ampla visão desse empenho geral, a primeira provém do acervo da Polícia Militar (Boletim Interno, de 24 de agosto), que detinha o dever de arrostar as chamas.                        

                   Ontem, o patrimônio cultural do Amazonas sofreu profundo golpe com um terrível incêndio que destruiu parte de um grande edifício do Estado, onde se achava localizada a Biblioteca do Estado. Esta lamentável ocorrência, que teve início pelas 3h da manhã, foi logo socorrida pelo Corpo de Bombeiros, além de alguns oficiais e praças da Força, com o intuito único de dominar a ação devastadora das chamas. Por um retardo da abertura da rede de águas, o incêndio tomou maior volume, entretanto, um esforço gigantesco por parte dos nossos bombeiros, bem como de alguns oficiais e praças da Força, conseguiram evitar a propagação das chamas às outras dependências do mesmo edifício. 

O comando policial reconheceu o esforço e a dedicação de seus subordinados. Consignou em boletim que não mediram sacrifícios, ao ponto de exporem suas vidas “na luta pelo cumprimento do dever”, por isso, merecem especial menção “pela alta prova de amor à profissão e à pátria”. Experimentou a altivez, especialmente, “daqueles que souberam cumprir o seu dever”, concorrendo para evitar maiores danos ao patrimônio do Amazonas. Tanto entusiasmo arrebatou o comandante, a ponto de indultar a pena disciplinar “dos praças da Companhia de Bombeiros, bem como da companhia de metralhadoras do Batalhão”. Nominalmente, do cabo 339, Paulino Furtado de Araújo e do soldado 494, João Bento de Souza, da 1.ª Companhia de Fuzileiros.
Os bombeiros não puderam combater o fogaréu a contento, reconhece o comandante. Após o rescaldo, restaram aos policiais militares os encargos da segurança e da remoção dos entulhos. Isso mesmo. Foram designados 12 homens para, sob a orientação do diretor dos Serviços Técnicos do Estado, demolir as áreas do prédio irremediavelmente atingidas pelo fogo. Coube ao tenente Caetano Félix do Nascimento, que nos anos de 1954-55 seria comandante da Polícia Militar, a fiscalização desses serviços.
 
Genesino Braga (1906-88)

A destruição da biblioteca do Amazonas relevou outros personagens. O relator, não apenas do incêndio, mas da restauração do prédio e da montagem das coleções, foi seu diretor. Genesino Braga, cronista de méritos indiscutíveis, inicia o capítulo Incêndio da Biblioteca Pública (Nascença e vivência da Biblioteca do Amazonas. Belém: Gráfica Falangola, 1957) lembrando a queima de outra biblioteca, incluída em todos os compêndios. “Como no céu de Alexandria, no ano de 641 a.C., o céu de Manaus também se cobriu de grossos rolos de fumo, na madrugada de 22 de agosto de 1945”.

No andar superior funcionava a Assembleia Legislativa, onde mantinha seus arquivos, daí supor que, uma descarga elétrica “no velho quadro de eletricidade existente no andar superior do edifício”, tenha produzido o desastre. O fogo destruiu por completo todo “o patrimônio livresco, móveis e demais utensílios da Biblioteca Pública do Amazonas”.

Ao contrário da proclamação do comandante dos Bombeiros, o cronista-diretor Braga fustiga: quando o alarme soou, não houve “as providências que se esperavam”, pois, para a “imediata debelação do incêndio, não havia água nas bocas do incêndio próximas ao local” e, bem pior, “os bombeiros, desapresados, não dispunham do mais primário material para o combate a incêndio de tão vastas proporções”.

Diante deste quadro: madrugada, sem água nos hidrantes e com bombeiros desaprestados, “toda a biblioteca foi destruída, não se conseguindo salvar sequer uma página de livro; e toda a ala direita do majestoso edifício veio ao chão, da cobertura ao soalho do piso inferior e deste à laje do porão, ficando de pé apenas as grossas paredes laterais, na sua obra de alvenaria, com grandes fendas de alto a baixo”. 

Sem contestação, aquele foi um dia aziago para a vida cultural do Estado. Restou, contudo, nos anais da Polícia Militar as palavras reconhecidas do cientista Djalma Batista (entre março e julho de 1943, foi, na condição de capitão, chefe do Serviço de Saúde da Força Policial). Suas palavras foram manifestadas em carta ao comandante da Força Policial do Amazonas.

Nesta, ratificou a admiração pela organização a qual servira, ainda que por meses. E listou o grupo de abnegados praças que ajudaram a transferir “o modesto laboratório de pesquisas clínicas, que dirijo”, situado no entorno do incêndio. O grupo esteve constituído dos sargentos Edson (do Serviço de Saúde) e Djalma Passos (depois oficial, bacharel, poeta e deputado) e dos soldados Antônio Nunes da Silva, Januário M. da Silva, Manoel Ribeiro, Maximiniano Belarmino e João Bento de Souza.

Assim consignou o saudoso doutor Djalma Batista (1916-1979): 

                        A cidade de Manaus viveu na madrugada de anteontem um de seus dias mais trágicos, com o incêndio da Biblioteca Pública, por excelência a casa da cultura e do espírito. A violência com que lavrou o fogo foi tamanha, que a ameaça de generalizar-se a todo o quarteirão se tornou evidente. (...) O gesto de solidariedade e a ajuda prestimosa dos briosos militares me cativou extraordinariamente.
 
Biblioteca Pública, anos 1960. Detalhe dos modelos de
carros: Rural (à dir.) e Karmanghia (à esq.)
 
Biblioteca Pública, em 1969