CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

7 de agosto de 2012

Um caso do cine Politeama (2ª parte)

     Ed Lincon (colaborou)

O acontecimento irrompeu no segundo dia de maio de 1949, quando o cabo Sandoval Moura da Rocha, da Polícia Militar, de serviço no cine Politeama sofreu, de parte do proprietário, Dr. Alberto Carreira, injusta agressão.

Detalhe do jornal A Gazeta, 4 maio 1949
No dia seguinte, o governador Leopoldo Neves chegou a interferir junto às partes, e as medidas adotadas pelo comandante da corporação, coronel Manuel Corrêa, demonstravam que a situação estava contornada. Não foi, porém, o que sobreveio à noite desse dia, pois, os policiais vingaram a ofensa de forma brutal.

Cerca das 20h, quando o cinema se preparava para iniciar a sessão noturna, apresentando o filme Quando as nuvens passam, um grupo de pessoas (depois identificadas como policiais) invadiu o salão de espera. Estava armado de paus, sabre, canos de ferro e outros objetos contundentes, e assim investiu contra os empregados, móveis requintados, cadeiras e borboletas (catracas).

A ação mais avultada foi a destruição de dois automóveis Studbaker, que ali estavam expostos pela ainda existente firma Braga & Cia., cujo prejuízo orçava em Cr$ 185.000,00. Pode-se dizer que os carros estavam no lugar certo, mas na hora errada.

O vandalismo durou menos de cinco minutos. Talvez, por isso, os invasores não alcançaram o salão de projeção, que foi defendido pelo operador do projetor.  Avisado do ataque, o gerente Carlos Segadilha empunhou um revólver e detonou cinco vezes contra o grupo. Mas, como a arma emperrou, a turba subjugou o atirador e o agrediu com violência.

Leopoldo Neves, governador
Alertado de imediato no outro lado da praça da Polícia, o oficial de dia da PM arregimentou os poucos soldados presentes no quartel e se dirigiu ao local. Nenhum policial militar foi encontrado, porém. A patrulha que foi organizada para caçar os invasores percorreu a cidade, mas nenhum foi encontrado, “os milicianos sumiram”, assegura o matutino A Gazeta.

Diversas autoridades estiveram no local (essa romaria de chefes era muito comum em acidentes graves e perdurou por décadas), o governador Leopoldo Neves, que conseguiu tropa federal guardasse o cinema. Outra medida do chefe do Executivo foi determinar a indenização dos carros de Braga & Cia., e que, depois de consertados, “sejam empregados no serviço da Polícia e da Secretaria Geral do Estado”; o Chefe de Polícia, bacharel Telles Borborema, determinou o inquérito competente; o prefeito de Manaus, médico Raimundo Chaves Ribeiro, e diversos deputados.
Coronel PM Manuel Corrêa

De parte da Polícia Militar, seu comandante, coronel Manuel Corrêa, determinou a providência de praxe: abertura de Inquérito Policial Militar. Mais ainda, punição aos subordinados que tenham participado do ataque, a fim de tranquilizar a população. Afinal, se a polícia agia com brutalidade contra uma importante empresa, no caso, o cinema Politeama, como confiar nesta organização?

A intranquilidade permaneceu na cidade por dias. Como sempre os boatos, o disse-me-disse, o boletim do soldado causavam esse estado. Buscando sanar esse impasse, o jornal A Gazeta ouviu primeiro dono do cine Politeama, depois o comandante da Polícia Militar. O esforço jornalístico alcançou resultado positivo. (a seguir)