CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

6 de agosto de 2012

Um caso do cine Politeama (1ª parte)

Lembrança do Politeama, as sereias
que encantaram Manaus
     Ed Lincon (colaborou)

O extinto jornal A Gazeta , do médico Avelino Pereira, empenhou-se em descrever a lambança geral e os desdobramentos de um incidente, que durou ao menos sete dias de farto material jornalístico. Vou abreviá-lo, esperando bem reproduzir o “lamentável ocorrência que sobressaltou a população”, e envolveu de um lado, soldados da Polícia Militar do Amazonas e de outro, o saudoso cine Polytheama ou Politeama e seu proprietário.

O fato aconteceu em maio de 1949, portanto, passados sessenta e três anos. E começou na noite da segunda-feira 2, quando  o cabo Sandoval Moura da Rocha, da 1ª Companhia da PM, comandante da patrulha naquele estabelecimento, foi acionado para “efetuar a prisão de Francisco Henriques”, porteiro daquela casa de espetáculos.

Henriques era acusado de ter, na tarde do dia anterior, “praticado atos de libidinagem em uma criança do sexo feminino” no interior do cinema. O comandante do serviço policial cumpriu seu dever, e encaminhou o acusado à delegacia competente. Nesse momento, entra em cena o proprietário do cinema, Dr. Alberto Carreira da Silva, que “encolerizado, verberou o procedimento do policial”.

Cópia do matutino que descreveu o grave incidente 
Antes de encaminhar o fato, convém para melhor compreensão assinalar dois ou três pontos: o médico Alberto Carreira, como descendente de Jonas da Silva, fundador da empresa fundadora do cine, era seu proprietário, não arrendatário, como assinala A Gazeta. E mais. O doutor Carreira integrava o governo de Leopoldo Neves (1947-51), pois era o diretor de Saúde Pública (atual secretário de Saúde) e provedor da Santa Casa.

Outras autoridades: no outro lado da praça, o coronel Manoel Corrêa da Silva (morador da rua Lauro Cavalcante, na ainda existente vila Georgete), que comandava a Polícia Militar do Estado. Enfim, dirigia a Chefatura de Polícia, situada na rua Marechal Deodoro, o bacharel José Augusto Telles Borborema (1947-49).

Recorte de A Gazeta, 4 maio 1949
De volta à noite da prisão do porteiro. Com o acusado na delegacia, o dono do Politeama enquadrou o cabo Sandoval. Primeiro, usou da conversa para reverter o quadro, mas, diante da insistência do policial, o doutor Carreira mudou a falação, passando a denegrir o policial. Entre outras afrontas, Carreira afirmou “que o referido militar não podia ser graduado” e, ato contínuo, descreve o jornal, “arrancou-lhe do braço esquerdo as divisas de cabo” e as atirou ao chão. Para completar o insulto, gritou que “a Polícia nada valia”.

O cabo Sandoval retirou-se para o quartel da Praça da Polícia, onde relatou o ocorrido. Que deve ter seguido a escala hierárquica de autoridades, tanto que logo o governador Neves tomou ciência. Na manhã seguinte, o governante ouviu ao doutor Carreira, e o recriminou; determinou a apuração da ocorrência na esfera civil e policial, sob a controle do coronel Corrêa. Tudo então parecia sobre controle.

No entanto, em surdina, os praças da corporação articulavam um revanche à ofensa descrita. Na noite seguinte, terça-feira 3, aconteceu a “vingança de soldados contra o arrendatário do Cine Politeama”. (segue)