CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de agosto de 2012

Marilyn Monroe (1926-1962)



Marilyn Monroe
O mundo da informação vem há dias anunciando o cinquentenário da morte de Marilyn Monroe, fato acontecido em 1962. M&M foi encontrada morta em sua residência, sozinha, aos 36 anos. Sua beleza proporcionou meios para que a indústria cinematográfica americana a constituísse em símbolo, e a elevasse à condição de uma das deusas de Hollywood. Por esse motivo se deve a repercussão mundial com seu desaparecimento. Na verdade, nem o mundo do entretenimento nem os fãs a esqueceram, passado 50 anos.

Qualquer notícia na década de 1960 circulava sem a velocidade que assistimos em nossos dias, ordenada pela internet e outros meios de comunicação. Apesar da distância de Manaus, a infausta notícia da morte desembarcou na margem esquerda do rio Negro. Esse fato é óbvio pautou os jornais e as rádios da época, posto que Manaus ainda sonhava com a TV.

Mas, um cronista interessou-se pelo fato. Falo do saudoso padre-poeta Luiz Ruas (1931-2000), conhecedor da técnica do cinema e experimentado cineclubista e participante da arte cênica. Homem antenado com o mundo e suas atribulações, filósofo e professor de psicologia, este religioso soube com maestria (do cinema) expressar a sua visão do sombrio episódio.

Ignoro, todavia, em que momento e em qual jornal publicou seu lamento, pela morte da diva hollywoodiana, em forma de poema. E até se o fez público em jornal. Transcrevi o poema, que vai publicado abaixo, de seu livro Linha d´água (Rio: Artenova, 1970).



Palavras para a mulher morta nua ou para Eva de ouro e barro
L. Ruas
Chanel...

O perfume denso e entorpecente de Chanel  envolve o mundo.
Havia também um telefone.
Um telefone ligado para alguém ou para o nada.
Corte
.
Cut.

A câmara apanhava em close-up  as duas pétalas da flor de carne
Vermelhas.
Grossas.
Polpa.

Polpa de carne.
Flor de carne.

E o mundo inteiro caminhava de rastos, como um réptil mole, invertebrado e abúlico, para a borda daquele abismo semiaberto.
E quando se sentia o bafo quente da besta-flor-de-carne...
Cut.

Na contingência de ter nascido sexo e carne e mulher a besta-abismo-e-flor:
The goddessl

Onde ela aparecia todos se curvavam.
Na tela.
De 16mm.
No cinerama
.

Ou nas folhinhas pregadas nas barbearias, nas tabernas, nas celas de presidiários.
The goddess! A vamp! O ídolo!
A besta-abismo-e-flor em sepia tone!
Cut.

Desejamos que a esperança e a paz tenham sorrido à atriz durante a angustiosa solidão desta pobre mulher (L´Osservatore Romano).

The goddessl

Enorme e sozinha no seu pedestal.
De ouro e barro.
E solidão.

Hollywood a matou (Izvestia).
Hollywood?
O mundo a matou.

O mundo, cuja única esperança era o bafo quente exalado das bordas vermelhas daquele vulcão.
Cut.

Ó solidão de um mundo que apenas crê em flores vermelhas, vermelhas ...
Close-up.
Um telefone ligado para o nada.
E uma flor de barro.
Ou Eva morta.
Nua.