CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, abril 20, 2026

MEUS OITENTANOS (2)

No início dos anos 1950, a travessia entre Manaus e a então Capital Federal, Rio de Janeiro, era uma epopeia de vinte a trinta dias. Aos três anos, o convés imenso do navio Almirante Alexandrino se abria diante de mim como um parque encantado, cheio de redes penduradas, embora sempre vigiado pelo olhar atento de Luzia, nossa babá, já que minha mãe, Francisca, dedicava seus cuidados ao meu irmão mais novo, auxiliada pela sogra, a vovó Victoria. O espaço físico era vasto, mas o que se gravou em minha memória foi o aroma da comida — tão diferente do que se servia em nossa casa — e o espetáculo dos portos em construção no Nordeste. Em alguns trechos, animais marinhos escoltavam o navio, como se fossem guardiões de Netuno, atraídos pelos restos de alimento lançados ao mar.

Foto da família informando 
a viagem ao Rio - 1950 -
Roberto, em pé, diante do genitor

A longa jornada trouxe também o inesperado: Luzia encontrou no navio o seu par. O namoro com um tripulante floresceu durante a viagem e, ao desembarcar, se transformaria em compromisso de casamento. Resolveram fixar residência na então Capital Federal. Porém, deduzo que esse relacionamento contribuiu para melhorar a situação de acomodação da família na embarcação, pois viajávamos em terceira classe.

Em meados de abril de 1950, finalmente desembarcamos. O tio Francisco, irmão de meu pai, nos acolheu em Irajá, num puxadinho contíguo à sua casa na rua Cláudio da Costa. Mas o modelo e a estrutura familiar ali encontrados pouco favoreceram nossa convivência; ao contrário, trouxeram desencontros, como relato em meu livro Entre Duas Viagens, escrito em 2016, para prestar homenagem póstuma ao centenário de meu pai, Manuel “peruano”.

O bairro de Irajá, com suas ruas sem asfalto e esgoto a céu aberto, parecia um “fim de mundo”. O escritor amazonense Hilton Rego descreveu bem essa precariedade em seu livro, Com a Cara e a Coragem: os bondes e lotações circulando, o Maria-Fumaça arrastando-se pela avenida Automóvel Clube, enquanto meninos jogavam bola entre os trilhos. Essas imagens resgatam a memória da inospitalidade que vivemos: a casa improvisada, a ausência de escola, a rotina extenuante de meu pai, que trabalhava nos arredores do Maracanã sem jamais ter tempo de entrar em seu interior.

Cartão Postal do Maracanã - 1950

Em janeiro do ano seguinte, retornamos acompanhados, como na vinda, da avó paterna Victoria Malafaya, de quem o filho era extremamente apegado. Por coincidência, foi no mesmo navio, mas sem Luzia. Na caravana, embarcava uma nova vida: a gestação de Dona Francisca. Voltamos ao bairro dos Educandos, à rua Inácio Guimarães, novamente na esquina com o beco São José, em uma casa de madeira com a frente reservada para uma taberna. Ali, assistimos à construção do Cine Vitória, inaugurado apenas em 1954. Nesse contexto de readaptação nasceu Pedro Renato, batizado pelo santo do dia, São Pedro, em junho de 1951.

Até hoje não sei dizer como a sombra de uma enfermidade tão grave se abateu sobre minha mãe. Apenas guardo na memória sua convalescença, os dias em que a acompanhei ao paraná do Cambixe, no distrito do Careiro — seu berço de nascimento —, onde parentes a acolheram como quem recolhe uma ave ferida. Era uma busca por ar mais puro, remédios fitoterápicos e uma esperança de que o alento da floresta pudesse devolver-lhe o vigor. Para mim, porém, aqueles deslocamentos eram também ensejos para travessuras de infância: corria com os primos pelos quintais das casas suspensas em pilotis, como se fossem píeres habitados à espera da cheia do Solimões.

No nosso bairro, o esteio que sustentava nossa família vinha da solidariedade da tia Raimunda e, em especial, de suas filhas, já quase moças. Meu pai, responsável e firme, dedicava-se ao labor diário, arrancando do seu emprego o “pão nosso de cada dia”.

O ano de 1952 trouxe consigo o agravamento da doença de minha mãe. Entre desvios e incertezas, creio ter iniciado o curso primário, embora a lembrança da primeira escola tenha se dissolvido com o tempo. Restam, contudo, três cenários que ainda se iluminam em minha memória: o Grupo Escolar Machado de Assis, público e resistente — perdura até os dias de hoje —, na rua Amâncio de Miranda; a Escola Paroquial do cônego Antônio Plácido, destinada aos meninos e regida pelo zelo do vigário; e a Escola Particular da dona Ester, discreta e determinada, instalada em sua própria casa na avenida Leopoldo Peres. Cada uma dessas instituições foi como um pequeno aporte para um grande projeto pedagógico que me habilitou, em 1956, ao internato do Seminário São José.

A última lembrança que guardo de minha mãe é a de um corpo exausto, franzino, suspenso na fragilidade de uma rede, como se o próprio tecido fosse o divisor entre a vida frágil e o chão que iria recebê-la. O ar lhe faltava, e ao redor, parentes e vizinhos cumpriam o ritual antigo de “fazer quarto”, velando em silêncio a despedida iminente. Era início da noite de 17 de julho, e eu, menino de seis anos, fui conduzido até ela. Segurei sua mão macilenta, fria como a bruma da madrugada, e beijei-a, pedindo sua bênção. Mas sua voz já não alcançava o sopro divino: o “Deus te abençoe” ficou suspenso no vazio, como uma prece interrompida.

Naquela idade, não havia espaço para compreender a gravidade da doença, nem a dimensão da perda. A morte era apenas um enigma, uma ausência que se instalava sem explicação, inexoravelmente. Por décadas, carreguei esse silêncio, sem buscar respostas, até que, já adulto, censurei minha própria consciência: por que nunca procurei no cartório a certidão de óbito de minha mãe? Talvez porque, em mim, a ferida sempre foi maior do que qualquer documento poderia traduzir. Nem poderia trazê-la de volta. (segue)

 

terça-feira, março 05, 2024

JOAQUIM HÉLIO BARBOZA DE LIMA |1954-2024|

Faleceu ontem, às vésperas de festejar os 70 anos, Hélio Barboza, na cidade de São Vicente (SP). A brutalidade do AVC atordoou os parentes e amigos, e não podia ser diverso, afinal a lei da vida e da morte possui seus gravames. Conhecido o desenlace, fui aos arquivos da família para postar esta homenagem. Com a morte de Hélio, a segunda geração do casal Vicente e Adelaide Lima, do lago do Anveres, perde mais um membro.
Hélio

Para melhor descrever a maneira cordata, amigável e brincalhona do primo, recorri ao mano Pedro Renato, que teve com ele o privilégio de conviver por mais tempo e mais proximidade. Sua gratidão, Renato anotou em texto que escreveu quando da publicação de seu livro Pedro, o cobrador (Rio: 2018). Hélio foi o autor do prefácio do livro.

Até a eternidade, primo Hélio! 

Vamos aos textos, reproduzidos parcialmente. Primeiro, o Prefácio:

Pedro, o Cobrador é para ser considerado, antes de tudo, um Livro de Cabeceira. A fascinante narrativa, embora linear, traz em cada capítulo lições de vida, individualizando cada etapa conquistada com muito suor, literalmente. De uma vida que nos leva a profundas reflexões, imaginando o ambiente, a locação, os costumes, a situação episódica ocorrida há cinquenta anos. O autor ainda nos presenteia com diversos relatos sobre a origem de alguns bairros, que o garoto visitava durante o seu trabalho diário, e, obviamente, se encaixam no contexto histórico da cidade de Manaus; pormenoriza algumas construções imponentes e monumentos históricos erigidos nos tempos áureos da borracha — fins do sec. XIX e início do séc. XX.

O conteúdo do livro nos mostra um autor sem pretensões de narrar apenas, senão manter o propósito de nos fazer viajar, protagonizar junto com o garoto, para exercer tão bem seu ofício de Cobrador de Quadros. Assim como em seus livros anteriores, nós o vemos narrando com profunda emoção, utilizando o cenário de sua juventude e — como ele próprio me assegurou — pinçando elementos e personagens ficcionais para contracenar com o garoto e compor esta história lúdica. (...)

Não poderia deixar de registrar que o entusiasmo de Pedro é sempre revigorado com a perspectiva de, desalojando-se de sua puberdade, encontrar a cliente especial, sempre às sextas-feiras, para receber dela, além da prestação, o afago de suas palavras, a exacerbada dedicação e um sorriso encantador de uma bela mulher, frequentadora assídua dos seus sonhos.

Joaquim Hélio Barboza de Lima

Agora, o agradecimento:

Quando me preparava para publicar mais um livro, eis que chega às minhas mãos — no sentido figurado —, de surpresa, “os passados valorosos”, um lembranção espetacular do meu primo distante, Hélio. O primo me surpreendeu, positivamente, ao me fazer uma verdadeira oferenda do seu exímio relicário. Quatro cartas escaneadas, assim como os envelopes, que escrevi para ele nos quatro primeiros meses do distante ano de 1968, há cinquenta anos.

E esse ano, era justamente a época em que corria a história de Pedro, o Cobrador, um livro parcialmente biográfico, onde as cartas se encaixaram no enredo, perfeitamente, como o sapatinho de cristal no pé da Cinderela. (...)

Assim, à custa de um pequeno remorso, me penitencio pela minha falha, em não ter guardado com o mesmo cuidado essas “missivas”, essas correspondências quase infantis, trocadas na primavera de nossas vidas. Posso até debitar a culpa na vida nômade que levei, mas não justificaria. Todavia, agora não se perdem jamais, estão arquivadas na memória RAM do computador, no sacrário da nossa memória, e com destaque no enredo do livro.

Aproveito esse espaço, também, para agradecer ao primo, Joaquim Hélio Barbosa de Lima, que emprestou a eloquência e o acalanto das suas palavras para escrever o prefácio do livro.

A família Barbosa vai se reunindo no Alto Astral


quinta-feira, junho 29, 2023

DIA DO PEDRO RENATO (PARTE 2)

 Esta segunda parte reproduz a homenagem que o autor da postagem - Renato Mendonça - efetua para nossa mãe - Francisca Lima Mendonça.  

Para finalizar, gosto sempre de recordar o começo de tudo. Quereria registrar também a simplicidade de um nascimento ocorrido há setenta e dois anos, narrado no livro que conta a biografia de minha mãe, “Chicuta”: 

Francisca (Chicuta) Lima Mendonça

“Apesar de toda a preocupação que envolveu o período de gestação no Rio de Janeiro, a viagem recente por quase um mês a bordo do navio e o trabalho exaustivo para organizar e mobiliar a casa, havia um paradoxo, pois Francisca estava se sentindo muito bem. Acreditavam que a fisiologia desse nascimento estava impondo à mãe uma coragem e uma força física extraordinária, algo que lhe parecia estar em falta ultimamente. E o sublime ato de geração de uma nova vida, para cumprir a missão, a estivesse estimulando a trazer ao mundo um bebê saudável.

Não deu outra, conforme os prognósticos das tias, em pleno dia de São Pedro, nasce um menino de cabelinho ralo e espetado, a tez morena e olhos amendoados, como os outros. Era uma cópia rabiscada dos outros irmãos, moldado na mesma fôrma. Chorou assim que nasceu, parecia não estar acostumado com tanta luz, ou talvez estranhando a queda de temperatura.

Logo depois, assim que concluíram o parto, que o assearam e agasalharam, colocaram-no sobre seu peito. Ele se aconchegou para mamar, seu primeiro ato de gratidão neonatal pela primeira colonização bacteriana que recebeu dos microrganismos vaginais da mãe, a fim de herdar um sistema imunológico; ele queria, ao mesmo tempo, retribuir e ajudar na liberação da ocitocina, o hormônio do amor para a mãe, uma característica humana, espontânea, para evitar a hemorragia uterina e diminuir a angústia materna.

Novamente, não foi necessário recorrer à folhinha para a escolha do nome duplo, um dos nomes já estava sacramentado pelo calor da fogueira, restava à Francisca anexar o outro, escolhido no relicário do seu coração, mas nunca revelado previamente.

E surgiu Pedro Renato.

DIA DO PEDRO RENATO (PARTE 1)

 Nascido no Dia de São Pedro, o primeiro papa da Igreja, meu irmão Renato não poderia ter outro primeiro nome. Aos 72 anos, escreve esta postagem contando este fato, e realizando algumas considerações sobre a Vida. Não esquece nossa mãe, dona Francisca, a Chicuta da família, por isso recorta texto de seu livro-biográfico para recordar sua chegada ao mundo manauara de 1952. Meus cumprimentos pela data e pela sua dedicação à família. Que a existência lhe seja longa.

A BELEZA DA VIDA

29.06.2023

 Renato Mendonça

Nesta data, especificamente neste Dia de São Pedro, gostaria de me identificar como um dedicado aprendiz de todas as coisas belas da vida. Não pretendo ser um presunçoso, apenas um sonhador, e nesse delírio vocacional presumo estar me transformando numa obra de arte de Deus, à custa de muito desbaste, por um cinzel afiado do tempo, esculpindo-me à Sua imagem. Durante e depois de longos anos, confesso estar aquilatando a conduta humana digna; orgulhando-me de ser um homem centrado nos valores teologais e praticante orgulhoso, como se fosse um discípulo que aprendeu o jeito de amar, o amor caritativo, sem limites e incondicional, embasado nos ensinamentos humanísticos de Jesus Cristo.

Pedro Renato

Porém, percebo que está cada vez mais difícil fomentar essa harmonia clássica dentro de uma sociedade plural, e até mesmo no nosso microcosmo familiar. Entretanto, nunca devemos desanimar, precisamos ser perseverantes com atitudes que elevam o nosso nível de consciência; trabalhar sempre em favor da vida — a vitalidade e a beleza da vida; ter a capacidade de estabelecer laços afetuosos sinceros; abrir o coração com uma chave de dentro para fora, para expor sentimentos nobres: amor e perdão; demonstrar cordialidade em nossos atos e disposição constante sem nenhum egoísmo afetivo. Se perder a oportunidade, não desista, basta reencontrá-la...

E nessa busca pelos valores humanos, coloco-me a disposição para respeitar e tratar com carinho e zelo todas as coisas que nos servem, até as pequenas coisas, animadas ou inanimadas. Como se as coisas materiais fossem dotadas de vida. É dar a elas o seu justo valor. Busco também o prazer em servir ao outro; apraz-me a oportunidade em servir e apreciar o deleite do próximo, sem me sentir apenas um serviçal, pois fico feliz quando percebo a elevação da dignidade em ambos. Deixo enfim, que o sentimento de empatia floresça, para conseguir entender o mistério do outro e o segredo de sua consciência. Esses ensinos nos foram transmitidos na célebre imagem do lava-pés, o ato que antecedeu a Santa Ceia. Uma das ações mais pragmáticas de Jesus, que enobrece o sentimento da humildade — Também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz para vós”. (João 13:12-14).

Quando nos tornamos idosos, percebemos que há uma necessidade maior de enfrentar o mundo de forma bela; buscarmos, dentro de nós mesmos, atos de integridade e tenacidade, deixando que a altivez cumpra um papel primordial para não esmorecermos jamais. Para não sermos superados precocemente pelo peso dos anos nem pelas circunstâncias cotidianas da vida.

É preciso embelezar nosso dia a dia, sem excessos ou arrogância; aplicar a beleza espiritual com nosso sorriso, para cobrir de leveza o nosso ambiente. É também uma forma de gratidão a Deus que nos quer alegres e solícitos. Ser grato por todas as telas em branco que recebemos a cada dia, para pintarmos com novas cores ou com nossas cores prediletas, e desejar que o resultado seja digno de apreciação do Criador. O avanço da idade biológica não pode blindar a admiração pelas coisas bonitas, pelas esculturas humanas, nem ofuscar a visão da beleza da Natureza. Ainda nos permite comportar-se como um menino olhando as borboletas e seus matizes; admirando as diversas formas e cores das flores; espiando a lua e as estrelas, entorpecido pela dimensão do universo; perguntando curiosamente aos outros, para entender os mistérios e os porquês dessa vida. E, em outro determinado momento com a maturidade de volta, preocupar-se com a humanidade e com os rumos da civilização.

Apesar do otimismo, estamos sujeitos às dificuldades e agruras dessa vida. Há, ao longo de nossa caminhada, fardos indesejáveis que às vezes teimam em se opor ao nosso estado de paz espiritual ou nosso projeto de felicidade. Mas, nada se compara ao sofrimento de Cristo. Por isso, nesses momentos, devemos salientar a sobriedade da alma e a conformidade com os desígnios de Deus.

Nesse dia especial, aproveitando-me desse momento e do hábito de reflexão, quero deixar registrada a minha eterna gratidão pela vida. E quando falo em vida, não posso esquecer o sopro divino e a luz que me iluminou; não posso de maneira alguma deixar de mencionar o ventre que me gerou. Minha eterna gratidão à Dona Francisca Pereira Lima, que está comigo todos os dias, na minha mente, na minha alma, na minha história. Um amor verdadeiro de uma relação vertical, que me dá a satisfação de poder estar amando, e se realiza no próprio ato de amar... Uma gratidão também ao meu pai e a todos os ascendentes que passaram pela minha vida e deixaram suas sementes plantadas e seus dons, para que eu pudesse moldar a beleza do caráter humano.

Pensemos no Cristo Jesus, na sua missão e na sua glória. Viveu seu calvário, mas tinha certeza da sua vitória da vida sobre a morte. De uma maneira bem reduzida, também vivemos nossos calvários e não devemos lamentar. Ao final de cada jornada diária “morremos” para no seguinte “ressuscitar” e reiniciar a missão, que deve ser cumprida com gratidão contínua. Mesmo que a prática das fogueiras juninas tenha ficado no passado, vamos acendê-las simbolicamente em nossos corações; desejando vê-las queimar para alumiar nossa consciência em favor do bem maior; para ver a presença de Deus em qualquer situação, como contraponto a uma cultura ateísta tão presente na nossa sociedade.

sexta-feira, junho 29, 2018

DIA DE SÃO PEDRO



Pedro Renato
1.     Desconheço como ainda “navega” a procissão de São Pedro, patrono dos pescadores e seus barcos. Sei que ela surgiu em Manaus pela inciativa do padre Antonio Plácido de Souza, quando vigário do bairro de Educandos, facilitada pela proximidade com o igarapé do bairro. No início, um percurso modesto pelas condições da época. Participei de algumas dessas manifestações de fé católica, afinal, era me recomendado na condição de seminarista.
Mais adiante, conheci a amplitude da festa religiosa, dos barcos devidamente enfeitados para o corso, o prolongamento do percurso e outras inovações que o progresso foi permitindo. Algumas vezes, para melhor fotografar a homenagem ao santo do Dia, assisti o cortejo fluvial a partir do roadway ou do porto ao fundo do mercado Adolpho Lisboa. Todavia, há bastante tempo não encaro essa festividade.
Outros festejos de diferentes motivações, hoje, concorrem com a do Santo; neste momento, em especial, a festa parintinense e a Copa de Futebol.

2.     Semana passada assisti a missa na igreja de São Pedro, no bairro de Petrópolis. Conversando com integrantes da liturgia após o ato religioso, lembrei-me de dois fatos: um, ainda aluno do Seminário, quando conheci a primitiva capela, construída de madeira na esquina onde se mantém. Depois a vi crescer, quando a Polícia Militar inaugurou um quartel naquele bairro, ajudando na expansão daquele arrabalde. O outro fato: ao organizar o acervo do saudoso padre Luiz Ruas, soube que este religioso havia composto o hino de São Pedro, patrono da paróquia daquele bairro. Conheço a letra (Homem do povo! Bom pescador! / Pedra da Igreja! Pedro pastor! / No Santo Padre – teu sucessor, / Nós te louvamos com muito amor.), porém, nunca ouvi a execução. Na conversa com os participantes do coro, fui convidado para hoje, após a procissão pelo bairro, ouvir o hino.

3.     A data de hoje também me recorda outras festas, a dos aniversariantes. A maioria obviamente Pedro, como o Renato nascido na casa de seu Manuel e Francisca Mendonça. Portanto, meu segundo irmão, o caçula. Nascido no Educandos, aventurou-se quando pode em São Paulo e Rio, conseguindo sucesso. Próximo dos setenta, vive em Niterói (RJ), aposentado, cuidando dos rebentos da primeira e segunda geração. Ultimamente promove o registro suas memórias (ainda que precoces!), tendo produzido duas publicações com esse objetivo. Como recordação de seu natalício, ele está publicando hoje pelo site Clube de Autores o volume 2 de Renato... aos poucos.  Registro aqui meu amazônico abraço, torcendo por mais esta conquista. Viva longa, mano!
Todavia, nem todos saem Pedro. Um amigo quebrou esse preceito, chama-se Marivaldo Junior, é o responsável pelas páginas bem cuidadas do Jornal do Commercio. Espero abraçá-lo em breve, pois, por ora recupera-se de um acidente de trânsito. Saúde, e mais saúde.

sexta-feira, dezembro 25, 2015

MENSAGEM DE NATAL


Kopenhagen, Natal 2003
Esta Mensagem tem uma pequena história: foi-me enviada pelo meu irmão Renato para saudar o Natal de 2006. Entretanto, por motivos de desacertos da informática, ou mais certo por falta de conhecimentos, estes votos chegaram ao destino neste ano. Por isso, faço dela tema desta postagem.
Aproveito para ilustrar com algumas fotos de passagens natalinas. Para aquele que passar por esta página, registro meus votos (atuais) de toda alegria e de bonanças que o saco do Noel carrega.

Betânia, Natal 2009



Igarapé de Manaus, Natal 2009
Morro da Liberdade, Natal 1986

Brasília, Natal 2008


Largo de São Sebastião, Natal 2008


Caro mano Roberto

Estou um tanto soturno e calado. Preguiçoso, poderia se dizer também. Na verdade, os compromissos me tomam o escasso tempo. Posso ser acusado de não colaborar com ele, no entanto ele também não tem cooptado comigo. E este final de ano tem sido uma verdadeira roda-viva. Não reclamo dos afazeres e atributos que temos que cumprir, reclamo das mazelas da vida que nos têm acometido. 
Primeiro, foi a perda prematura do Robertinho. Um garoto com tantas virtudes e coração tão bom não deveria nos deixar assim tão rápido. Nas poucas ocasiões que tivemos, pude perceber a magnitude da sua dedicação e respeito. Senti, como nunca, a verdadeira hospitalidade. E a notícia do seu falecimento me deixou abalado. Mesmo se quisesse te confortar não teria forças nem palavras pra dizer, apenas sentir como um tio abatido pelo infortúnio. 
Agora, de um mês e pouco pra cá, foi a Bela. Essa companheira de tantos anos — 31, para ser mais exato — teve um AVC. Isso a deixou com sequelas, e tem nos deixado apreensivo quanto a sua recuperação. Não temos envidado esforços, mas mesmo assim a recuperação é lenta e imprevisível. Tenho muita fé em Deus, e sei que esta provação pode ser superada, mas às vezes nos causa certo desânimo, mormente neste momento de festas natalinas. Aquela mulher ativa, cheia de vigor e de vivacidade, não existe mais. Agora está dependente de auxílio e apoio. Ainda bem que a recuperação física está caminhando bem, já anda bem e não depende mais de alguém para ajudá-la. 
Papai está em Barra Mansa desde sábado passado, e eu não tive tempo de visitá-lo. Estou apostando comigo mesmo que possa vê-lo antes do Natal. Seria o mínimo que teria que fazer. 
Aproveito o email para te desejar os melhores votos, todos os votos de saúde, muita saúde, e tanta saúde pra você e toda a família.
Um abraço a todos, e fiquem com Deus. Renato Mendonça

quarta-feira, outubro 03, 2012

Morte do meu filho (2)



Anjo existente no
cemitério São João Batista
Transcrevo o bilhete que meu irmão me enviou, lembrando a morte do sobrinho Roberto Souza, o Betão.
 
Mano,

Lendo a mensagem em homenagem ao Betão no seu blog, senti novamente a dor que me acometeu há seis anos. Naquele ano, naquele Natal me senti desanimado e amargurado, principalmente com a perda prematura do garoto. Nas poucas vezes em que estivemos juntos senti a sua aura e sua candura me tocar. Senti o prazer da convivência e do papo inteligente, a hospitalidade nunca antes experimentada.

Para nossa tristeza, mais uma das decisões divinas que custamos a aceitar. Agora, passados esses anos, também estou solidário com você para podermos expiar os nossos pecados; esperançosos de que Deus na sua benevolência guarde para o Roberto filho um lugar de luz e paz na sua morada. Enquanto ficamos por aqui, cumprindo a nossa missão até que um dia a inevitável morte nos una novamente.

Receba as minhas condolências sinceras. 

Renato Mendonça 

Bem a propósito, hoje, em conversa com o amigo Almir Diniz, dele recebi uma antiga (março 2002, número 51) publicação. Intitulada Ô Catarina!, foi endereçada de Florianópolis (SC) para o saudoso Anísio Mello.
E porque me fez relembrar o golpe, reproduzo deste periódico o poema de Osmard Andrade Faria.  

Espera por mim, filho 

Faz um ano, meu filho,
que tu estás dormindo.
Lembras-te do instante anterior
em que nos despedimos
e desejei que dormisses em paz?
Levaste aquele meu voto muito a sério
-- a sério demais.

Já faz um longo ano que te espero acordar.
Ou será que este sono
que estás agora
é tão mais justo e repousante
que me convidas
a ir ter contigo?
Pois espera por mim
que não demoro.

sexta-feira, setembro 07, 2012

Dona Victoria Malafaya (1ª parte)


Victoria Malafaya
As ruas de terra batida repassadas na abertura do conto postado pelo Renato Mendonça existiram. Localizavam-se no bairro do Morro da Liberdade, no arrabalde de Manaus. E a morta-viva que aconselha ao autor do texto é a minha e dele avó paterna – a peruana Victoria Malafaya.
Pobretona e analfabeta, nascida na região da amazonia peruana, nunca portou documentos, por isso não se sabe com que idade morreu. Esse fato ficou comprovado com a obtenção da certidão de óbito dela, cujo registro apresenta várias imperfeições. A mais grave é a de que possuía, ao morrer, 56 anos (?).
Renato Mendonça, neto de
Victoria Malafaya

Vou expor uns episódios marcantes dessa avó. Fatos que me foram passados por meu pai – Manoel, filho de dona Victoria. Um dia de 1928, ele com onze anos, morava em Iquitos (PER) com sua mãe, quando esta decidiu enfrentar o destino, tomando o rumo de Manaus (AM), que continua atraindo os peruanos daquela latitude.

O empreendimento não teve aquela disciplina, pois tomaram “emprestada” uma canoa e se atiraram rio Solimões abaixo, contando apenas com a sorte para alcançar primeiramente a fronteira brasileira. Sua mãe estava acompanhada de dois filhos (Manoel e Francisco) e dois ou três amigos adultos. Ou seja, foi montado um ajuri com a finalidade de vencer a remo a respeitável distância entre aquela cidade e a de Tabatinga.

Em razão do furto da canoa, os migrantes optaram por viajar somente à noite, escondendo-se durante o dia. Temiam ser alcançados pela polícia, devido o delito. Passaram dificuldades tanto para se abrigar quanto para a alimentação, que, para esta, se valiam de frutos e de peixes apanhados de modo fortuito. Mas, dado a quantidade de peixes regionais, certamente, deu “para escapar”.

Apesar dos percalços, obtiveram êxito. Ao se aproximar da fronteira brasileira, porém, houve o temor da perseguição policial, por isso, decidiram ultrapassar aquele mundo de águas, pela madrugada, sem qualquer movimento de remos, como se a canoa estivesse à deriva.

Todos agachados, talvez rezando, ou torcendo que o Solimões os amparassem. Novamente venceram. Já em território brasileiro, sem que meu lembre o preciso local, venderam a canoa e conseguiram embarcar em uma lancha (também esquecida pelo tempo) em direção a Manaus.

Chegados a capital amazonense, dona Victoria e seus filhos foram morar na praça do Teatro Amazonas, com certeza em uma pensão barata. Ela passou a efetuar serviços domésticos e os meninos, como era comum à época, passaram a empregados domésticos. Aquele moleque que fazia carretos, recados (quem sabe, o precursor do celular, ou seja, o “moleque lá”), e algumas vezes recebia o corretivo. Meu pai lembra-se do primeiro emprego, na taberna do seu Abade, um comerciante espanhol situado no centro, ou na rua Isabel ou na Dr. Almino, mas próximo ao igarapé de Manaus, hoje saneado e transformado em parque.

De volta à dona Victoria. Seus últimos anos foram passados em nossa casa da rua Amazonas, 29, no Morro da Liberdade, que estava iniciando, no prolongamento do bairro de  Santa Luzia. A mudança da família ocorreu em dezembro de 1959, saída dos Educandos.

Foi, pois, nesse endereço que o mano Renato encontrou a avó morta, quando ele retornou do emprego na Casa do Trabalhador. Era o dia 10 de dezembro de 1961. O registro legal foi realizado no atual 4º Ofício, instalado na rua Leopoldo Peres, em Educandos. Não há registro do responsável pelos dados, por isso, os deslizes. Seu sepultamento foi realizado no cemitério São João, onde, em 1952, fora sepultada minha mãe.
Cópia da Certidão de Óbito de Victoria Malafaya
 

quarta-feira, agosto 29, 2012

A última noite


A Petrobras desenvolve inúmeras iniciativas, sabemos, mas uma delas, no campo cultural, surpreendeu-me duplamente. 
Renato Mendonça, 2010

O projeto intitula-se Prata da Casa e destina-se “a incentivar as habilidades artísticas e a criatividade da força de trabalho do Sistema Petrobras no Brasil e no exterior”.
 
Meu irmão Renato participou do projeto, na modalidade Literatura 2012 e na categoria conto. E aqui registro minha melhor impressão: com o conto – A última noite, ele levou um prêmio.  

A ÚLTIMA NOITE
Renato Mendonça

 As ruas de terra batida e poeirentas do bairro deslizavam velozmente sob os aros da bicicleta do garoto, enquanto o sol descia verticalmente no horizonte. As casas de madeira e algumas em alvenaria também descortinavam lépidas ao seu lado. Sem que tivesse sido avisado, voltava mais cedo pra casa, guiado apenas pela sua intuição casual, embora sua labuta diária tenha sido mais curta nesse dia. E existia alguma coisa no ar que conjecturava uma adversidade da vida. Estranhamente estava mais tenso, apesar da tenra idade e de não haver nenhum motivo aparente que colaborasse com esse tédio.

Antes de chegar, observou um pequeno alvoroço que se formava. Nada demasiado, porém diferente da imobilidade dos dias anteriores. Diferente daquela simplicidade costumeira, pacata. Um pouco mais de gente entrando e saindo de sua casa, apenas isso.

Parou em frente ao portão e lhe anteciparam a desdita. Estancou antes de entrar, feito um cavalo xucro ante um obstáculo, hipnotizado pela má notícia. De súbito, sua alma se angustiou e pensamentos estranhos invadiram sua mente, mesmo considerando que, em face da doença, já podia ser esperado aquele desfecho. Por mais paradoxal que possa parecer, a dor o fortaleceu. Nenhuma lágrima, naquele momento, rolou no seu rosto.         

Da porta do quarto, avistou um corpo franzino estendido na cama, inerte, derrotado. Não conseguira falar nenhuma palavra até então. Apenas a mente produziu efeitos no seu comportamento e nos seus gestos. O olhar vazio não queria ver o acontecido, não estivera nunca preparado para essa fatalidade. Limitou-se a olhar sem ver nada, sem abstrair o tamanho que a separação iria lhe impor.

Nem entrou no quarto, havia tanta gente, e tanta coisa para os adultos providenciarem que preferiu se afastar. Ainda haveria tempo para se despedir do corpo da avó, antes de olhá-la pela última vez. Saiu e postou-se no alpendre que dava acesso ao quintal. No varal, roupas dela estendidas lhe traziam mais lembranças. Lá dentro, todos se falavam ao mesmo tempo, alguns recordando fatos, atitudes, outros apenas bisbilhotando. A família ocupada em encomendar o caixão, flores e tudo mais. A vizinhança preocupada com os quitutes, e com o café e o refresco que seriam servidos à noite durante o velório, como eram de praxe.

Para o garoto, do lado de fora, a avó ainda estava viva nas recordações resgatadas de sua história. Acompanhado imaterialmente de um fundo musical de “Fina Estampa”, canção peruana que ela adorava cantarolar, reviu sua batalha, no início do século passado, como uma mulher emancipada num país notadamente machista.

A emigração do Peru, cercada de mistérios e de dois filhos menores — os outros três haviam ficado para trás, sabe Deus com quem. O fato é que conseguiu, analfabeta, lavadeira ou faxineira, vê-los todos criados. Contaram-me que viajara numa canoa e atravessara o Rio Solimões, remando noturnamente para não ser vista, e não ser obrigada a retornar para sua terra. Deveria haver algo infausto que a fez desistir da pátria natal.

Muitos outros fatos ainda permaneciam latentes na memória do garoto. Alguns gestos de ternura, outros nem tanto. Algumas broncas, alguns conselhos. Alguns corretivos ríspidos para moleques travessos. Típico de uma pessoa que educa aos trancos e barrancos porque não teve a oportunidade de estudar ou porque a sociedade lhe fora cruel. Entendia, entretanto, que tudo fazia parte do destino que Deus traçara para que tivesse uma substituta, consanguínea, da mãe que perdera tão precoce.

Caiu a noite, a última noite, no dia seguinte seria o enterro, ainda pela manhã. O caixão azul claro sobre a mesa da sala fazia uma exposição do desatino. Do seu quarto, deitado, observava que lentamente algumas pessoas chegavam para lhe homenagear, e queriam lhe tocar. Outras levantavam o véu para ver-lhe o rosto. Pareciam até que não a conheciam. Censurou as tristes cenas desumanas de gente que deseja ver seu semelhante morto. O garoto não concordava com isso. Prometeu a si mesmo, a partir dela, não ver mais ninguém — mesmo o ente mais querido — morto num caixão. Não queria ter na mente as lembranças mortas, preferiria as vivas, felizes e eternas. A morte lhe era uma derrota, um feixe de agruras, um êxtase do desconhecido, do outro lado da vida. 
Finalmente o sono o venceu.
 
Ela levantou-se lentamente, e aproximou-se de mansinho, os mesmos passos lentos que adquirira nos últimos anos. O mesmo cabelo penteado rente e preso em coque com um pente curvo no alto da cabeça. O mesmo vestido de bolinhas. Sentou-se na beirada da cama, ao seu lado. O seu rosto era lívido, a sua expressão não denotava dor, somente paz. As rugas se suavizaram sobre uma tez mais clara. 

Depositou a mão sobre sua cabeça como quem profere uma benção. As frases soltas não eram tão nítidas, mas perfeitamente assimiláveis. Parecia um anjo sublimando uma anunciação:
Renato, hijo mio, no me olvides. Ahora usted eres un joven, ya no eres un niño... Se empieza una nueva vida... Hay que tener juicio... Usted va a conocer chicas o mujeres, pero si no se olvida de que se vendrá como ángel y debe ser conocido que si distinguen la quién desea; la que quiere; la que te sabrá amar; la que tendrá un poco de paciencia con usted... No hay que encantarse por la primera, solamente la que el corazon te pida... 

No dia seguinte, o garoto estava mais tranquilo, embora angustiado. A expectativa pelo enterro era emoção que não gostaria de estar vivendo naquele momento. Não vira ou ouvira nada na noite anterior, tinha em mente apenas algo que lhe parecera um sonho ou imaginação.  Agora estava ali postado ao lado dela, sem olhá-la. Segredando as mesmas orações que rezaram juntos.

Momento antes de alçarem o caixão encorajou-se e apresentou-se pela última vez para despedir-se. E ficou ali, parado, pensativo, olhando seu rosto, desejando dar-lhe vida. Fechou os olhos para ver-lhe como no sonho, menos esculpido. O seu vestido branco de bolinhas pretas, o melhor que tinha, servia-lhe pela última vez.

 

terça-feira, julho 17, 2012

FRANCISCA PEREIRA LIMA (1)



Francisca Lima, na formatura de
Corte&Costura
Há sessenta anos morria minha mãe, deixando órfãos, além de mim o primogênito, o Henrique e o Renato, este com apenas um ano. Inda me lembro do fato: aconteceu em nossa residência, à rua Inácio Guimaraes, nas proximidades do cine Vitória, portanto, no bairro de Educandos. Era a noite de 17 de julho.

Com a idade que possuía, não atinava para a enfermidade que consumia dona Francisca. Ainda jovem, com pouco mais de 30 anos... Lembro que a seguira ao Cambixe, no Careiro, em casa de parentes, para cumprir uma regra sanitária de antanho: doenças eram curadas em ambiente amplamente saudável. No Brasil, são conhecidos os refúgios que "proporcionavam" cura à tuberculose. Não era o caso do Cambixe!

Outra lembrança da época, o médico que atendeu minha mãe fora o doutor Jorge Abrahim, vereador da cidade, mas pouco recomendado como especialista. Dele se contavam pilhérias sobre sua prática medicinal.

Certo mesmo é que a gravidade da enferma progredira. As atenções foram redobradas. Uma delas, os três filhos foram acomodados na casa da irmã dela, minha saudosa tia, dona Raimunda Barbosa, que ano passado teve celebrado seu centenário de nascimento.

Raimunda era a filha mais velha dos Lima, e a Francisca, a caçula. Com a morte dos “velhos”, a primeira passou a cuidar da irmã. Por isso, foi a ela que meu pai se dirigiu quando resolveu namorar minha mãe. E, como a tia exigiu dele alguns detalhes próprios do galanteio da época, meu pai (ainda vivo aos 96 anos) guardou algum ressentimento da cunhada.
Casamento de Francisca e Manuel,
em Iquitos-Peru, 1944

Raimunda casou-se com seu Manoel Barbosa, e o casal se estabeleceu na “estrada” de Constantinópolis, hoje avenida Leopoldo Peres, bem no início da conhecida Baixa da Égua. Nesse endereço, os Lima Barbosa produziram pão e os filhos. E ali fui alimentado, também.

Era na casa desta tia que eu estava, quando fui levado apressadamente até a minha. Levado para tomar a benção de minha mãe, para assim me despedir dela. Embora tenha tomado e retomado sua benção, não houve resposta, não podia mais, minha mãe estava morrendo.

Então, vi o lamento, o choro dos presentes. Também derramei  minhas lágrimas infantis, confesso, sem entender bem aquele momento, sem entender a “indesejada visita”.

O enterro foi realizado a moda antiga: conduzido o féretro, o caixão (melhor dizendo) pelas ruas, com os acompanhantes revezando-se no transporte manual. Havia um tamborete para, aqui e ali, suportar o caixão, e permitiro pequena recuperação aos condutores. Enfim, para quem conhece ou não a distância, o sepultamento aconteceu no cemitério de São João Batista, saindo do bairro de Educandos. Foram alguns quilômetros.

Por décadas, não quis saber da causa mortis, da causa da perda de minha mãe. Então, como a saúde própria passou a me inquietar, pensava que o câncer fora a determinante. A explicação, todavia, estava facilmente ao meu alcance, bastava consultar o cartório. Assim fiz. E no atestado de óbito estava a dura resposta: tuberculose pulmonar havia causado a morte.

Casal Mendonça, com os filhos Roberto
(em pé) e Henrique (sentado), Rio 1950
Passei dias lamentando que, à época, não houvesse em Manaus os antibióticos, a penicilina capaz de intervir proveitosamente. Meu irmão Renato, morador de Niterói-RJ, ao ler o atestado, desabou. Contou-me que se refugiou no Campo de São Bento, ao lado de sua residência, e copiosamente chorou pela mãe, que a morte prematura impediu-o de desfrutar do carinho, do afago, do acalanto.

Até à eternidade, mãe!