CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, janeiro 13, 2024

MANAUS: NOTAS QUASE CENTENÁRIAS

Anúncios extraídos do Almanaque Laemmert, editado em 1925 no Rio de Janeiro, então capital federal. 

Cinema Polyteama (acima) e outros comércios (abaixo)



quinta-feira, setembro 23, 2021

REVISTAS CIRCULADAS EM 1930

 Sem motivo para estranhamento, afinal este tipo de imprensa circulava com abundância àquele período.  "Cabocla" era dirigida por Genesino Braga; "Victoria Regia", por Francisco Bomfim e Mario Ypiranga; e "Estudante", por Aldemir de Miranda e Ariosto de Rezende Rocha. As citadas revistas podem ser encontradas em bibliotecas especializadas, como a Mario Ypiranga, localizada no Centro Cultural Povos da Amazônia. 


Anúncio em revista Estudante

Anúncio em Victoria Regia


sábado, outubro 18, 2014

CINEMAS DE MANAUS




Cine Guarany
O cruzamento da avenida Sete de Setembro com a Getúlio Vargas ficou marcado pelo funcionamento de dois cinemas: Politheama (onde funciona uma das Lojas Americanas) e Guarany (local de uma agência do banco Itau). 

A segunda sala era mais disputada, mais benquista, por vários motivos. Creio que o mais denso era o atendimento proporcionado por seu “gerente”, conhecido por vovô Vasco.

Esse sentimento ainda se percebe em comentários pessoais e publicações jornalísticas. Todos recriminam não o apagamento da sala de projeção, mas a demolição implacável do edifício, trocado por um caixote feioso, enfeando ainda mais o local.

Recorto um texto do poeta Farias de Carvalho, de sua coluna Janela de Mundo, no jornal A Notícia, no qual relembrou um dia de aniversário do Guarany.
(O poeta e os cinemas e o matutino aqui nominados já pertencem à nossa melhor lembrança.)


JANELA DE MUNDO (*)


Farias Carvalho
Dia seis [de agosto] transcorreu mais um aniversário de fundação do Cine Guarany. Pela manhã, ainda bem cedo, fazendo a minha costumeira visita à República Livre do Pina, andei dando uns mergulhos dentro de mim
mesmo, nos desvãos do meu mundo interior, nos labirintos da memória, rebuscando fatos e coisas do passado, numa viagem impregnada de lembranças e de saudades.
Aniversário do GUARANY! a meninada acordava em festa, com a moeda de um mil-réis balançando no bolso, fortuna que chegava para a compra do ingresso e sobrava ainda para um copo duplo de refresco acompanhado de um imenso mata-fome.

Desde às primeiras horas da manhã, começavam a se formar as filas enormes, com os guardas de trânsito postados à porta do cinema, em uniforme de gala, o alto-falante voltado para a rua, a todo volume, como um convite musical, chamando a todos para a grande festa popular, em que se realizavam sorteios, ofereciam-se brindes, tudo antes que, na tela, lotadas a plateia e a galeria, Tom Mix ou Buck Jones começassem a cavalgar os seus corcéis fogosos, perseguindo maus encarados, sob a gritaria terrível da meninada, que ficava atirando aviões de papel, caixinhas de chicletes, quase levando a loucura o pobre do Domingos, velho funcionário que fechava as portas laterais e ficava a andar como uma barata tonta, na tentativa de acalmar a fúria dos meninos endiabrados.

Mas, acima de tudo isso, pairando sobre a confusão da inquietação da garotada, agigantava-se a figura do velho Vasco, o querido Vovô da meninada inteira, com os seus cabelos da cor da neve, o seu rosto rosado de camponês sadio, o seu sorriso sempre iluminado, sempre irradiando ternura e bondade.
 
Cine Guarany
Quando o filme começava, ele colocava-se à entrada interior do cinema, para escutar e atender aos mesmos pedidos de sempre: "Seu Vasco, eu tenho só quinhentos réis, deixa eu entrar?'' E ele, inventando uma carranca que era só de araque, acabava encuiando as mãos e, sem poder conter o riso franco, respondia sempre: “Sobe moleque, sobe, vai pra galeria!"

E era de ver-se, meus irmãos, a correria da turma miúda, da turma pobre dos bairros distantes que, por não dispor dos dez tostões, ficava pechinchando e por fim terminava mesmo entrando com quinhentos,
trezentos, duzentos réis, às vezes até mesmo sem pagar coisa alguma, que era assim, meus irmãos, o vovô Vasco, o imensamente bondoso vovô Vasco, que uma cidade inteira amava profundamente, através de suas
crianças, especialmente as crianças pobres, que, pelo  fato de não terem dinheiro, não ficavam jamais sem as emoções das cargas de cavalaria, trepidando na tela, sob o comando corajoso de Custer, nos combates eternos contra os peles vermelhas. 
De repente, contudo, a voz de um amigo trouxe-me de volta à realidade do presente. E eu olhei para o GUARANY. Foi como se qualquer coisa de mim mesmo quisesse desprender, libertar-se, voltar a saltitar   irrequietante. E eu compreendi, meus irmãos, perfeitamente, que era o menino, o menino de ontem, perdido em bruma e ocasos, que buscava teimoso o reencontro, o reencontro impossível com o passado.

Com duas lágrimas marotas descendo pelo rosto, voltei os olhos para o céu e tive, meus irmãos, sinceramente, a nítida impressão de que do azul, Vovô me fitava sorridente, as brancas mãos unidas como em cuia, a me dizer na linguagem da brisa e da luz: “Eu estou aqui, meu filho, a tua espera. Não te importes com os níqueis e as moedas. Quando vieres, traz uma estrela na alma. Bastará!”

(*) A Notícia, 9 de agosto de 1975

sexta-feira, agosto 10, 2012

Um caso do cine Politeama (final)

     Ed Lincon (colaborou)

No inicio de maio de 1949, o cabo Sandoval da Rocha, da Polícia Militar, recebeu do proprietário do cine Politeama,  Dr. Alberto Carreira, injusta agressão. A despeito das medidas tomadas pelas autoridades, policiais militares invadiram aquela casa de espetáculos e promoveram em represália tremendo quebra-quebra.

A intranquilidade tomou conta da cidade por dias. Os boatos, o disse-me-disse, o boletim do soldado sustentavam essa situação. Confirmava o jornal A Gazeta: “a vingança dos militares que se julgaram ofendidos na sua honra pelo Dr. Alberto Carreira da Silva, ainda repercute no seio da opinião pública, dando motivos aos mais desencontrados comentários por toda parte.”

O matutino prosseguiu na lição tentando mostrar aos milicianos que “tudo passou” e, aos manauenses, assegurou que os “briosos policiais” não mais pensam em repetir o atentado. Se houve motivo para represálias, este desapareceu com a vingança levada a cabo em noite passada. Portanto, encerra o periódico, todos devem voltar às suas atividades normais e considerar o incidente encerrado.

Periódico já desaparecido em Manaus (AM)
Buscando sanar esse embaraço, “em nome do exercício pleno do nosso papel de imprensa”, o jornal A Gazeta entrevistou o dono do cine Politeama, que foi gentil em reconhecer o excesso de sua parte. Incialmente assegurou que “não arrancou as divisas do uniforme do cabo Sandoval” e mais, que não proferiu palavras ofensivas à sua dignidade, tampouco a corporação a que ele pertence.

Dr. Carreira fez questão de esclarecer os fatos acontecidos entre ele e o cabo Sandoval. Disse que conversava com o graduado, e na ocasião decidiu passar a mão pelo seu ombro, quando percebeu que algo havia caído ao chão, de pronto agachou-se, apanhou o objeto e passou ao cabo. Só então percebeu que se tratava do “distintivo de cabo que estava pregado na manga do dólmã com colibris”.

Recorte de A Gazeta, 7 maio 1949 
No dia seguinte, desde a manhã, recebi informações de que se tramava na Polícia Militar uma revanche, “inclusive com a minha eliminação”, prosseguiu Dr. Carreira. Acreditava que nada aconteceria, por isso não tomei qualquer providência. Enfim, houve a invasão e os demais episódios já relatados. No encerramento da entrevista, o jornal fez um apelo ao outro lado, na pessoa do comandante da Polícia Militar, coronel Manuel Corrêa, “para que considere insubsistente o atrito, encerrando-o definitivamente”.

De pronto, este comandante atendeu ao apelo jornalístico. Para isso, coronel Corrêa recebeu a reportagem para esclarecer os pontos nebulosos, resumindo que “não se deve dar crédito a boatos infundados com que alguns elementos perniciosos procuram intranquilizar as famílias”. Encerrou, fazendo provecta profissão de crença nos elementos da Polícia Militar, que “haverão de continuar, como sempre fizeram, a manter a ordem pública, a zelar pela vida e pela propriedade de todos”.

Com isso, a segurança voltou a bom termo, e o cine Politeama seguiu oferecendo as deleitáveis fitas que seu dono, Dr. Alberto Carreira, confiando na Polícia Militar, sabia oferecer para o entretenimento dos manauenses.

terça-feira, agosto 07, 2012

Um caso do cine Politeama (2ª parte)

     Ed Lincon (colaborou)

O acontecimento irrompeu no segundo dia de maio de 1949, quando o cabo Sandoval Moura da Rocha, da Polícia Militar, de serviço no cine Politeama sofreu, de parte do proprietário, Dr. Alberto Carreira, injusta agressão.

Detalhe do jornal A Gazeta, 4 maio 1949
No dia seguinte, o governador Leopoldo Neves chegou a interferir junto às partes, e as medidas adotadas pelo comandante da corporação, coronel Manuel Corrêa, demonstravam que a situação estava contornada. Não foi, porém, o que sobreveio à noite desse dia, pois, os policiais vingaram a ofensa de forma brutal.

Cerca das 20h, quando o cinema se preparava para iniciar a sessão noturna, apresentando o filme Quando as nuvens passam, um grupo de pessoas (depois identificadas como policiais) invadiu o salão de espera. Estava armado de paus, sabre, canos de ferro e outros objetos contundentes, e assim investiu contra os empregados, móveis requintados, cadeiras e borboletas (catracas).

A ação mais avultada foi a destruição de dois automóveis Studbaker, que ali estavam expostos pela ainda existente firma Braga & Cia., cujo prejuízo orçava em Cr$ 185.000,00. Pode-se dizer que os carros estavam no lugar certo, mas na hora errada.

O vandalismo durou menos de cinco minutos. Talvez, por isso, os invasores não alcançaram o salão de projeção, que foi defendido pelo operador do projetor.  Avisado do ataque, o gerente Carlos Segadilha empunhou um revólver e detonou cinco vezes contra o grupo. Mas, como a arma emperrou, a turba subjugou o atirador e o agrediu com violência.

Leopoldo Neves, governador
Alertado de imediato no outro lado da praça da Polícia, o oficial de dia da PM arregimentou os poucos soldados presentes no quartel e se dirigiu ao local. Nenhum policial militar foi encontrado, porém. A patrulha que foi organizada para caçar os invasores percorreu a cidade, mas nenhum foi encontrado, “os milicianos sumiram”, assegura o matutino A Gazeta.

Diversas autoridades estiveram no local (essa romaria de chefes era muito comum em acidentes graves e perdurou por décadas), o governador Leopoldo Neves, que conseguiu tropa federal guardasse o cinema. Outra medida do chefe do Executivo foi determinar a indenização dos carros de Braga & Cia., e que, depois de consertados, “sejam empregados no serviço da Polícia e da Secretaria Geral do Estado”; o Chefe de Polícia, bacharel Telles Borborema, determinou o inquérito competente; o prefeito de Manaus, médico Raimundo Chaves Ribeiro, e diversos deputados.
Coronel PM Manuel Corrêa

De parte da Polícia Militar, seu comandante, coronel Manuel Corrêa, determinou a providência de praxe: abertura de Inquérito Policial Militar. Mais ainda, punição aos subordinados que tenham participado do ataque, a fim de tranquilizar a população. Afinal, se a polícia agia com brutalidade contra uma importante empresa, no caso, o cinema Politeama, como confiar nesta organização?

A intranquilidade permaneceu na cidade por dias. Como sempre os boatos, o disse-me-disse, o boletim do soldado causavam esse estado. Buscando sanar esse impasse, o jornal A Gazeta ouviu primeiro dono do cine Politeama, depois o comandante da Polícia Militar. O esforço jornalístico alcançou resultado positivo. (a seguir)

segunda-feira, agosto 06, 2012

Um caso do cine Politeama (1ª parte)

Lembrança do Politeama, as sereias
que encantaram Manaus
     Ed Lincon (colaborou)

O extinto jornal A Gazeta , do médico Avelino Pereira, empenhou-se em descrever a lambança geral e os desdobramentos de um incidente, que durou ao menos sete dias de farto material jornalístico. Vou abreviá-lo, esperando bem reproduzir o “lamentável ocorrência que sobressaltou a população”, e envolveu de um lado, soldados da Polícia Militar do Amazonas e de outro, o saudoso cine Polytheama ou Politeama e seu proprietário.

O fato aconteceu em maio de 1949, portanto, passados sessenta e três anos. E começou na noite da segunda-feira 2, quando  o cabo Sandoval Moura da Rocha, da 1ª Companhia da PM, comandante da patrulha naquele estabelecimento, foi acionado para “efetuar a prisão de Francisco Henriques”, porteiro daquela casa de espetáculos.

Henriques era acusado de ter, na tarde do dia anterior, “praticado atos de libidinagem em uma criança do sexo feminino” no interior do cinema. O comandante do serviço policial cumpriu seu dever, e encaminhou o acusado à delegacia competente. Nesse momento, entra em cena o proprietário do cinema, Dr. Alberto Carreira da Silva, que “encolerizado, verberou o procedimento do policial”.

Cópia do matutino que descreveu o grave incidente 
Antes de encaminhar o fato, convém para melhor compreensão assinalar dois ou três pontos: o médico Alberto Carreira, como descendente de Jonas da Silva, fundador da empresa fundadora do cine, era seu proprietário, não arrendatário, como assinala A Gazeta. E mais. O doutor Carreira integrava o governo de Leopoldo Neves (1947-51), pois era o diretor de Saúde Pública (atual secretário de Saúde) e provedor da Santa Casa.

Outras autoridades: no outro lado da praça, o coronel Manoel Corrêa da Silva (morador da rua Lauro Cavalcante, na ainda existente vila Georgete), que comandava a Polícia Militar do Estado. Enfim, dirigia a Chefatura de Polícia, situada na rua Marechal Deodoro, o bacharel José Augusto Telles Borborema (1947-49).

Recorte de A Gazeta, 4 maio 1949
De volta à noite da prisão do porteiro. Com o acusado na delegacia, o dono do Politeama enquadrou o cabo Sandoval. Primeiro, usou da conversa para reverter o quadro, mas, diante da insistência do policial, o doutor Carreira mudou a falação, passando a denegrir o policial. Entre outras afrontas, Carreira afirmou “que o referido militar não podia ser graduado” e, ato contínuo, descreve o jornal, “arrancou-lhe do braço esquerdo as divisas de cabo” e as atirou ao chão. Para completar o insulto, gritou que “a Polícia nada valia”.

O cabo Sandoval retirou-se para o quartel da Praça da Polícia, onde relatou o ocorrido. Que deve ter seguido a escala hierárquica de autoridades, tanto que logo o governador Neves tomou ciência. Na manhã seguinte, o governante ouviu ao doutor Carreira, e o recriminou; determinou a apuração da ocorrência na esfera civil e policial, sob a controle do coronel Corrêa. Tudo então parecia sobre controle.

No entanto, em surdina, os praças da corporação articulavam um revanche à ofensa descrita. Na noite seguinte, terça-feira 3, aconteceu a “vingança de soldados contra o arrendatário do Cine Politeama”. (segue)

domingo, julho 29, 2012

Centenários anúncios de cinemas


       
Jornal do Commercio,
14 julho 1912
Manaus ja possuiu um bom número de cinemas, antes que a TV – especialmente esta – fechasse todas essas casas. Os nomes são repetidos pelos enquadrados na terceira-idade. Há nesses uma parcela de saudosismo, de repetir como mantra que o passado era “melhor”. Não sei se dirão o mesmo do cinema instalado na cidade.
Em nossos dias, as casa de exibição modernizaram-se, reuniram-se em shoppings e estão cercadas de recursos tecnológicos, capazes de permitir que o mesmo filme tenha projeção nacional.

Mas o amigo Ed Lincon (edlincon@hotmail.com) continua recolhendo dados sobre os cinemas de Manaus, que  existiram no século passado. Interessa-lhe tudo, dados de funcionamento, de fotos e fatos publicados, propriedade e por ai afora.

São deles as ilustrações aqui publicadas. Apenas o cine Guarany tem sido decantado pelos artistas e historiadores manauenses, os demais foram meros participantes.
Cine Guarany, em seu lugar agência do banco Itau

Jornal Correio do Norte, 14 março 1912

Jornal do Commercio,
22 agosto 1912

quinta-feira, julho 14, 2011

Memórias Amazonenses (LIII)

Julho, 14


Selo comemorativo
1899 – Luiz Gálvez Rodriguez de Arias proclama a República Independente do Acre, as margens do rio Acre, com apoio de seringalistas da região e do governador do Amazonas, Ramalho Júnior. A data foi escolhida pelo “imperador do Acre” para coincidir com o 14 de julho francês. Houve tempo para formar um conselho ministerial, instituir uma bandeira e cunhar um selo comemorativo. A independência do território durou até março seguinte, quando foi subjugado pelas forças federais do Brasil.


1913 – Instalação do cine-teatro Polytheama, de propriedade da Empresa Fontenele Ltda., situado na avenida Sete de Setembro, esquina da avenida Getulio Vargas. Em nossos dias, o edifício está ocupado pelas lojas Americanas. A ilustração mostra um projeto de modificação da fachada do cinema que, entretanto, não prosperou.
Projeto do cine Politeama, publicado em O Jornal, 16 jul. 1952
1947 – Promulgada a Constituição do Estado do Amazonas pela Assembleia Legislativa, presidida pelo deputado Carlos Soares de Mello. Houve uma festa cívica nesse dia, com tiros de canhão e presença de autoridades e discursos dos grandes nomes da Casa Legislativa. A queda da Bastilha, data nacional da França, inspirou a escolha desse dia para a promulgação da Carta Estadual.
Detalhe da fachada do edifício onde funcionou a Assembleia Legislativa