CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

22 de dezembro de 2010

Os cinemas de Manaus VI

Cine Pop (1977-1979)



Ed Lincon (*)
Três anos depois do fechamento do Popular, circula na cidade o rumor de que o velho “poeira” reabriria as portas. Esse ruído teve o patrocínio da coluna Bazar, assinada por Flaviano Limongi, em A Crítica (1º jun. 1976): “Dizem, dizem, dizem, melhorado, evidentemente, o Cine Popular, poderá voltar a funcionar... dizem, dizem, eu não sei...”
Limongi sabia o que informava. O prédio do Popular foi arrendado por Luiz Moraes (proprietário da Cinemazon, situada à rua Dr. Almino, nº 48, distribuidora e locadora de filmes em 16mm), que o reforma em sua totalidade, para reabri-lo com o sugestivo título de Cine Pop.

Na parte externa, somente uma modificação: em uma das entradas que abria para a rua Silva Ramos houve ampliação e nela foi colocada uma porta metálica, do tipo “enrolar”.
Repetindo o esforço do Popular, o Pop também oferecia ingressos a preços módicos, para concorrer com os demais cinemas da cidade. E, apesar de não ter melhorado o conforto, ainda conservava as cadeiras que pertenceram ao Odeon. Novamente é o Limongi, em A Crítica (4.jan.1977), quem fornece subsídios sobre a inauguração e melhoramentos implementados na “nova” sala de cinema: “Na noite do dia 6, Manaus vai ganhar mais um cineminha. O careca Moraes, bamba no assunto, reformou o antigo “Cinema Popular”, colocou umas trezentas poltronas, tela panorâmica, som ótico, projeção 100% de nitidez, ventilação Fresh-Air System, botou o nome de “Cine Pop” e vai abrir as portas com o filme brasileiro Simbad, o marujo trapalhão, com Renato Aragão e Dedé Santana, em duas sessões [às 19 e 21 horas]. Muito bem!”

No dia da inauguração, a 6 de janeiro de 1977, o ajuntamento de pessoas para a estréia foi tão vultoso, que redundou em portas quebradas e algumas cadeiras danificadas. Nada que ofuscasse a festa de reabertura. Resolvidos esses problemas, já em fevereiro foram exibidas com grande sucesso de público as seguintes fitas: A fúria do dragão, estrelado pelo astro das artes marciais Bruce Lee (1940-1973); Júlia e seus homens, com a atriz holandesa Sylvia Crystel; Sexy e marginal e, ainda, Regina e o dragão de ouro. E, em 16 de fevereiro, outro sucesso de Renato Aragão & Cia., Os Trapalhões na ilha do tesouro.

Este cinema funcionava todos os dias com três sessões: vespertinas (14h e 16h) e a noturna (20h) e, aos domingos, havia a sessão das 21h. Em março, na programação do Pop constavam os seguintes filmes: dia 17, Presas brancas, a partir das 16h; dia 18, em sessão dupla: O destino do Poseidon e O pistoleiro não muito mortal, (14h e 16h); dia 23, Os mais atrevidos dos transplantes; dia 25, Carambola; e, dia 26, a pedidos, no horário das 18h20 e 22h, novamente O destino do Poseidon.

Ainda em 1977, na esteira da vitória do Cine Pop surgiram: o Studio Center, construído pela empresa Bernardino no terceiro andar do edifício Manaus Shopping Center (20 de abril). E o Cinema-2 (inaugurado em 23 de julho), pertencente à empresa Cinemas do Amazonas Ltda., de Jesus W. Leong e Orsine Oliveira (a partir de 1981, a razão social desta empresa é alterada para J. W. Leong Ltda.).

Mas, quem volta ao noticiário é o "cineminha" de Luiz Moraes. A coluna “Sim & Não”, de A Crítica (30 jul.1977), traz uma nota lamentando o mau-comportamento de alguns frequentadores: “Os proprietários do Cine Pop, anteontem, chamaram a polícia para coibir os abusos de alguns baderneiros que estavam promovendo quebra-quebra e perturbando os demais espectadores. Várias chamadas telefônicas foram feitas, mas nenhum policial apareceu. A ordem foi mantida à custo, pelos próprios responsáveis pelo “Cine Pop”.

Ainda em 1977, a 2 de novembro, foi instalada nova tela, vinda de São Paulo, e implantado melhoramento no sistema de som. No dia 8, estreou A Profecia, com Gregory Peck e elenco. A despeito desse esforço, repetidas vezes eram exibidas fitas que haviam saído de programação recentemente dos outros cinemas da cidade. Como aconteceu com King Kong, lançado com sucesso no cine Ipiranga, em setembro e, em dezembro, no Pop.
Outro, Contatos imediatos do 3º grau, que lançado em julho de 1978 no cine Veneza, esteve no Pop em dezembro seguinte. Também as pornochanchadas tinham lugar garantido nesta sala: Deu a louca nas mulheres, O cortiço, Mulher objeto, Procura-se moças de fino trato etc.

Quando completou dois anos de funcionamento, o Cine Pop passou a exibir dois filmes em cada sessão. Em 11 de fevereiro constava da programação: Robin Hood, o trapalhão da floresta, com Renato Aragão e Dedé Santana, e O sanguinário, com Oliver Reed. Em junho, Luiz Moraes decide passar filmes do gênero “kung fu” e épicos como Maciste na corte do czar, Os doze gladiadores, entre outros.

A carreira do Cine Pop, todavia, não teria longa duração. Em 26 de outubro de 1979, exibe na última sessão a película O vento e o leão. Assim, as atividades do “velho poeira” foram encerradas definitivamente.

Há alguns anos, em conversa telefônica com Luiz Moraes, este me explicou que o fechamento do cinema ocorreu devido o proprietário do prédio. Sucessor do fundador, Dr. Alberto Carreira da Silva (falecido nos anos 1980, em idade bem avançada), decidiu não mais alugá-lo, mas vendê-lo pela quantia de dois milhões de cruzeiros. Como Luiz Moraes não dispunha do valor total, o negócio não se concretizou.
Não fosse a intransigência do dono do prédio, Moraes garantiu, certamente o Cine Pop ainda estivesse funcionando. Desenganado com o final da atividade cinematográfica, Luiz desfez-se do material guardado em casa (fotos, pôsteres de filmes etc.).

Última lembrança do Cine Pop. A Crítica. Manaus, 24 ago. 1980
Após o fechamento deste “cineminha”, o prédio foi transformado em depósito de cargas (criminosamente incendiado em 23 de agosto de 1980). Permaneceu fechado durante anos, até ser restaurado e nele instalada uma drogaria. Adiante, funcionou no local uma boate de categoria duvidosa. Atualmente, abriga uma loja de tintas.
Hoje, somente os moradores mais antigos sabem que ali, naquele velho prédio construído em 1909, funcionou um cinema, o inesquecível Popular. Sou feliz porque, na minha infância, tive o privilégio de frequentá-lo ainda que raras vezes.

* Ed Lincon tem pronto um livro sobre Os cinemas de Manaus.