CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, abril 07, 2024

MANAUS: JORNAL CULTURA

A extinta publicação JORNAL CULTURA, órgão da SEDUC (Secretaria de Educação e Cultura), editada pela FCA (Fundação Cultural do Amazonas), circulou por décadas. Com periocidade trimestral, possuía o apoio do Diário Oficial do Estado e a colaboração de inúmeros escritores e ilustradores (designers), como se observa neste número. Trata-se do nº 14, referente a julho-setembro de 1985, quando governador do Estado Henoch Reis.

Recorte da capa do Jornal
A mensagem principal saúda a data magna do Amazonas: o 5 de Setembro, com mensagem do titular do Poder Executivo. Mais adiante, relembra o IX Congresso Eucarístico Nacional, realizado nesta capital, em julho do ano anterior, cujo marco construído de madeiras regionais, de autoria do arquiteto Severiano Porto, segue ancorado no pátio da igreja de Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Praça 14 de Janeiro. 
Recordação do encontro eucarístico

Enfim, a página compartilhada do JORNAL foi ilustrada por José Barroncas (de quem nada sei).

Ilustração de Barroncas


sexta-feira, janeiro 19, 2024

DIÁRIO OFICIAL TAMBÉM ERA POESIA

 Em nossos dias, o órgão oficial do Estado é um maçante desfilar de exclusivas decisões dos Poderes Estaduais. Nem sempre foi assim. Na década de 1980, o DOE encartava um caderno literário, como o recorte que aqui vai publicado. A página trazia um poema do saudoso poeta Alcides Werk (1934-2003), ilustrado pelo artista Van Pereira.


O poema vai transcrito abaixo:

NA PRAIA DA PONTA NEGRA

Alcides Werk

Às vezes tenho vontade

de andar de jeans, ser moderno,

fazer versos esquisitos,

gerar palavras estranhas,

somar asfalto com lua,

misturar brigas de rua com rosa, com cal e mar.

Mas, quando te sonho nua

na Praia da Ponta Negra,

com gestos de pré-amar,

todo o meu ser se acomoda,

e eu volto a ver-me menino

que sonhara ser poeta

em noites de romantismo,

e, conquistado, me esqueço

das conquistas que faria:

minha alma mansa flutua

nas águas pretas do rio

e esvoaça sobre a tua

como um pássaro no cio...

 

Ilustração – Van Pereira

sábado, maio 27, 2023

POESIA DO SÁBADO

 De autoria do saudoso padre Nonato Pinheiro, membro da Academia Amazonense de Letras, que foi colaborador de todos os jornais que circularam em Manaus. Este poema foi compartilhado do Jornal Cultura (março 1983), encarte do Diário Oficial do Estado. Certamente por descuido do revisor, no fecho do poema deve-se "tronco" em lugar de "trono".




segunda-feira, março 21, 2022

BANDA DE MÚSICA DA PMAM: ESTREIA

Ao final de uma conversa com o filatelista Jorge Bargas fui presenteado com algumas relíquias. Uma delas era a cópia do primeiro Diário Oficial estadual que circulou em 15 de novembro de 1893. Trata-se de um brinde distribuído pelo órgão oficial, comemorando seu centenário. Parti então à leitura, em busca de matéria relativa à Polícia Militar do Amazonas (PMAM).


Capa da cópia do DO

Para meu contentamento encontrei nele o convite para a estreia da Banda de Música da PMAM. No governo de Eduardo Ribeiro (1892-96) foram importados os instrumentos para a banda; e contratado o maestro Cincinato Ferreira de Souza. Cincinato, portanto, foi o regente da primeira apresentação do conjunto musical em praça pública. A data escolhida foi a do aniversário da Proclamação da República, mesmo dia da inauguração do DO.

Recorte do Diário Oficial

Foram duas tocatas: a primeira, diante do Palácio do Governo, então na praça da República, depois sede da Prefeitura local e hoje Museu de Manaus. A segunda, em frente ao quartel da corporação, na época intitulada Batalhão de Segurança, na conhecida praça da Polícia. A descrição do repertório foi mais bem descrita por Márcio Páscoa em A Vida Musical em Manaus na época da Borracha (1998).

Detalhe do livro de Márcio Páscoa


domingo, novembro 15, 2020

ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Hoje - Dia das eleições municipais no Brasil. 

15 de novembro

1889 – Ocorreu a Proclamação da República no país, cujo fato sucedeu na então Capital Federal, conduzida pelos militares federais, à frente o marechal Deodoro da Fonseca. O distanciamento geográfico do Amazonas, entretanto, apenas permitiu que esta alvissareira notícia chegasse ao nosso porto seis dias depois. Lembro que, por ocasião da Independência, a notícia alcançou Manaus um ano depois (9 nov. 1823).

1893 – Inauguração do Diário Oficial, instalado na avenida Sete de Setembro, no edifício hoje ocupado pelo banco Bradesco, aos fundos da Biblioteca Pública. Em nossos dias, a Imprensa Oficial segue ocupando o tradicional endereço da rua Dr. Machado.


Edifício original onde foi inaugurada
a Imprensa Oficial, hoje Bradesco

1919 – Assume o comando da Força Policial do Estado, Alberto Duarte de Mendonça, capitão de infantaria do Exército, comissionado no posto imediato, vindo do 27 BC. De certo, um dos comandos mais curtos, pois permaneceu no cargo, não se tem registro das razões, até 18 de dezembro seguinte. Desse modo, não há foto na galeria dos comandantes, restando dele somente uma nota de rodapé. Foi substituído pelo tenente-coronel PM Octavio Sarmento, por sinal seu contemporâneo na Escola Militar, ao lado de Cândido Mariano.

1995 – Falece, em Manaus, o doutor Paulo Pinto Nery, descendente de marcante família no Amazonas, da qual saíram quatro chefes do Poder Executivo. Pinto Nery foi mestre da Faculdade de Direito do Amazonas, prefeito da Cidade e governador do Estado, e mais outros encargos na área do Poder Legislativo.

quinta-feira, agosto 20, 2020

CINCO ANOS SEM JORGE PALHETA

 A "bendita" Internet me impediu, ontem, de homenagear ao saudoso artista Jorge Palheta, cuja morte completava um quinquênio. Para tanto, estou compartilhando parte de um seu trabalho produzido para o Suplemento Literário, anexo do Diário Oficial do Estado, que circulou em 1988/89.








sábado, maio 16, 2020

PALHETA NO SUPLEMENTO LITERÁRIO


O saudoso artista plástico Jorge Palheta (1953-2016) produziu e ilustrou inúmeros trabalhos e, vez por outra, encontro alguns desses perdidos pelos escaninhos. Como acaba de me ocorrer, ao revirar a coletânea do SLA (Suplemento Literário do Amazonas), publicação do Diário Oficial, no período de 1986-87.


Palheta assinou várias ilustrações, algumas das quais compartilho, com a indicação do título e do autor.

Meus avós, de Chloé Souto Loureiro,
em maio 1987

Segunda Elegia, de Guimarães de Paula,
em março de 1987

No Beco, os Gatos, de Lauro Vargas, em junho 1987

O Universo de Cobra Norato e a Antropofagia, de
Lígia Morrone Averbuck, agosto 1987

Poré - o pai do raio, de Altino Berthier, março 1987


quinta-feira, maio 14, 2020

MOMENTO CULTURAL (1)



Recorte da capa do SLA consultado 
Passeando pelas páginas do Suplemento Literário Amazonas (SLA), órgão do Diário Oficial do Amazonas, integrantes da coletânea que circulou entre novembro de 1986-87, encontrei de dois saudosos amigos essas pérolas. A produção poética pertence a Luiz Bacellar e as ilustrações, do artista plástico Jorge Palheta.

O Suplemento foi uma iniciativa de Alencar e Silva, quando diretor da folha oficial. De circulação mensal, reproduzia trabalhos literários de diversos autores; creio que sem remuneração. Bacellar colaborou em apenas duas oportunidades. Quanto ao Palheta, foi mais constante, tanto que estou recolhendo sua contribuição para uma publicação no Blog.

Merece relembrar a direção do SLA: editor – Alencar e Silva / programador visual – Artur Engrácio / secretária – Maria Lindalva de Mello / comissão editorial – Jorge Tufic, Anísio Mello, Rita Alencar e Silva e Socorro Santiago.

Este material compartilhei do SLA de dezembro de 1986 (Ano I número II).



domingo, janeiro 26, 2020

DIÁRIO OFICIAL NA POLÍTICA

Plínio Coelho

Ao final de 1958, após a eleição para governador do Amazonas, vencida por Gilberto Mestrinho, houve um entrevero entre o governo e os jornais em circulação. Como estes se puseram em oposição ao governador Plínio Coelho, este inseriu o Diário Oficial do Estado na disputa política.

A Nota Oficial publicada no DOE (4 dez. 1958) conta uma parcela dessa disputa, de outro excêntrico episódio da história do Amazonas.


NOTA OFICIAL

O Governo do Estado do Amazonas,
CONSIDERANDO a necessidade de salvaguardar o direito dos cidadãos de se defenderem quando agredidos, negado pela maioria dos órgãos de publicidade de Manaus, cujos diretores acordaram entre si negar espaço em seus jornais, em todo o caso em que as suas pessoas, julgadas por eles intangíveis, estivessem em causa;
CONSIDERANDO, também, a necessidade de resguardar o povo em geral do bloqueio dessa imprensa malsã que cerceia a liberdade do cidadão de proceder, EM LEGÍTIMA DEFESA, fato que possibilita à chantagem organizada, com o sacrifício de uma das mais nobres conquistas da Humanidade, que é a LIBERDADE DE PENSAMENTO;
CONSIDERANDO que o povo e o Governo não podem e não devem ficar à mercê desse Sindicato da Chantagem contra as liberdades individuais defendidas pela Constituição e pelas leis, inclusive pela LEI DE IMPRENSA que assegura ao atingido o direito de contraditar;
CONSIDERANDO, também, a necessidade de dar ao Povo e ao Governo meios próprios de manifestar o seu pensamento livremente, o GOVERNO decretou transformando o DIÁRIO OFICIAL, permitindo-lhe a elasticidade necessária para que possa suprir as deficiências dessa imprensa sórdida, facultando as suas páginas para os que dele necessitarem e que forem garroteados pelo Sindicato da Chantagem contra o pensamento do povo.

Nestas condições, o Diário Oficial passara a aceitar, de hoje por diante, de partidos políticos, pessoas jurídicas ou pessoas físicas, qualquer colaboração, contra quem quer que for, inclusive contra o próprio Governo, observada a ética da imprensa sadia e resguardada a responsabilidade dos autores.
Como jornal noticioso e informativo o Diário Oficial, que será oferecido à venda nas bancas de jornais, através de jornaleiros nas ruas, e em postos nos bairros, constituirá, daqui por diante, uma garantia do povo contra a prepotência e a chantagem organizada.

quinta-feira, setembro 12, 2019

L. RUAS NO DIÁRIO OFICIAL



Dias desses, enquanto organizava a publicação de um livro póstumo de L. Ruas, o padre-poeta autor de Aparição do Clown, observei que ele escreveu em todos os jornais então circulantes na capital. Havia uma incerteza quanto ao jornal oficial do Estado.
Eis que, manuseando a coletânea do Suplemento Literário, a publicação mensal do Diário Oficial do Amazonas, cujo lançamento ocorreu em novembro de 1986, encontrei uma poesia de L. Ruas, dedicada ao poeta Carlos Drumond de Andrade.

Com o compartilhamento da edição Ano I – Nº 12, de outubro de 1987, fica comprovada minha observação.

quarta-feira, novembro 15, 2017

DIÁRIO OFICIAL: ANIVERSÁRIO

A data de hoje é lembrada pela Proclamação da República, aliás o fundamento do feriado nacional. Em nosso Estado, há uma efeméride importante que ensejava, em épocas passadas, edição especial.
Trata-se do Diário Oficial do Estado (DOE), fundado em 1893, durante o governo de Eduardo Ribeiro. Foi inaugurado, e funcionou por longo período, na avenida Sete de Setembro, no endereço depois cedido ao Banco do Estado do Amazonas e que, hoje, abriga uma agência do Bradesco.
Ao deixar a avenida Sete, o DO foi instalado em imóvel na rua Leonardo Malcher. Todavia, a necessidade de progresso levou o Governo a expandir suas instalações para a rua Dr. Machado. Com essa ampliação, o endereço passou para esta artéria, onde se mantém.

Apenas para relembrar parte de seu corpo diretivo em 1956, no governo de Plínio Coelho,  reproduzo trecho do periódico (15 novembro):

Diretor: Jornalista Irisaldo de Albuquerque Godot;
Secretário: Dr. Vivaldo Barros Frota (falecido governador do Estado)
Administrador das oficinas: Jamacy Sena Bentes de Souza (genitor do escritor Marcio Souza, também chefe da oficina do jornal O Trabalhista);
Secretaria: Edenir Nogueira Cajuhy e outras;
Contadoria: Joaquim Tiago dos Santos Neto;
Tesouraria: Beatriz Brasil da Costa;
Almoxarifado:Antonio Mavignier de Lima e outros;
Biblioteca: Luziel Ramos de Araújo e Marina de Lima e Silva;
Expedição e Comunicação: Luiz Felipe Cordeiro de Verçosa (falecido Procurador do Estado); 
Revisão: Cleomenes Rodrigues do Nascimento e mais oito;


   


sábado, novembro 07, 2015

ALMIR DINIZ - DESDE 1929

Almir Diniz (1957)
Ontem, o acadêmico Almir Diniz de Carvalho aniversariou. Celebrou com a família 86 anos de bela existência. A celebração familiar, porém, não desanimou os chazistas que, apesar do impedimento do aniversariante, reunidos pela data comum, aproveitaram para cumprimentar (ainda que à distância) o vice-dirigente dessa agremiação. E foram lembranças pessoais e literárias, todos os presentes exigiram a palavra. Rolou, enfim, a leitura e a declamação ao violão do Mauri Mrq de poemas do Almir Diniz. 
Vida longa, nobre vice-presidente cháarmandista!

Aproveito a postagem para homenagear o cambixense Diniz com a reprodução de uma página de sua autoria, publicada no diário governamental do Estado.

“VELHO LINO” (*)
Almir Diniz

Tema para reminiscências da infância; motivo de recordações e saudades; razão para reconhecimento... Velho Lino.Velho Lino, é designativo de meu velho e pranteado tio Marcolino Carneiro da Rocha, um dos patriarcas da família. 
Recorte do Diário Oficial do Estado
Morava, o tio Lino, à altura do quilômetro 8 da Estrada de Rodagem do Cambixe, em companhia de seu filho Afonso.Ali, sentado à escada, via-o todas as manhãs, quando me dirigia à escola, vasculhando os campos até onde seus olhos cansados alcançavam. 
Então, tomava a expressão mortiça do tio Lino, como sintomas de caduquice. Sua expressão só, não. Também sua voz arrastada ao pronunciar o clássico "Deus te abençoe", após pedir-lhe a benção.
Para a meninada, era sinônimo de respeito. Menino não gritava, menino não ria, estando à vista o Velho Lino. Representava um hiato nos folguedos infantis dos escolares. 
Aos domingos, religiosamente, se dirigia à taberna do Anselmo, sol raiando, e tomava o seu "mata-bicho”: dois dedos de anis.
Hoje, aquela expressão cansada do tio Lino, tem outro significado. Aquilo nunca foi caduquice. Era, antes, profunda meditação... algo assim como um sonho, que é a vida da saudade ou a ilusão do porvir. Talvez, na cortina sombria de seus olhos, se desenhasse a tela multicor das queimadas sertanejas do seu querido Ceará, distante e inatingível... 
Assim, aparentemente extático, foi encontrá-lo Hilgard W. O’Reilly Sternberg, interessado que estava na elaboração de sua tese de concurso à cátedra de Geografia do Brasil da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Quando Hilgard laureou-se, conquistando a cátedra, já o Velho Lino havia desaparecido. 
Mas, às páginas da tese – A Água e o Homem na Várzea do Careiro – ficaram gravadas, para a posteridade, a história do Velho Lino, desde a sua partida do seu querido Acaraú em 1.888 até o seu desaparecimento aos 86 anos de idade, a 22 de maio de 1951, no Cambixe, de cuja região, compreendendo o Careiro, foi dos primeiros conquistadores. 
Quando Plínio Coelho, no afã de melhorar as condições do Careiro, através a higienização e valorização de seu principal produto, o leite, encomendou dois navios frigoríficos para resolver esse problema que é uma constante nas suas preocupações de cumprimento exato de seu programa, quis homenagear os desbravadores da selva careirense, dando os nomes dos patriarcas da região às ditas embarcações.Assim fazendo, estava o governador agindo de acordo com sua decisão anterior, em dando ao Grupo Escolar da sede do município, o nome do inesquecível amigo José de Melo Fiuza.
E, face a indicação do dileto companheiro de lutas Santos Oliveira e outros cambixenses, que palestravam com o governador e amigo Plínio Coelho, por ocasião de uma visita ao Careiro, resolveu Sua Excelência batizar um dos barcos frigoríficos com o nome Velho Lino. 
Como descendente do Velho Lino, neste final de crônica, resta-me agradecer ao governador e amigo Plínio Coelho, em nome de minha família, a distinção feita a um de seus mais respeitáveis membros.

(*) Diário Oficial do Estado23 de dezembro de 1958

sábado, julho 04, 2015

HISTÓRIA DA POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS

Antigo brasão da corporação, circulado
nas festas de 1991 

 A transcrição do relatório abaixo ilumina mais uma etapa da história amazonense. Lance já esquecido, pela trivialidade de sua origem e, pior ainda, pela maneira como se disseminou. Nele, contudo, se pode observar a participação contundente da Polícia Militar do Amazonas (PMAM) em um episódio que fermentou a vida político-militar, na primeira década do século passado.

O motivo para tanta movimentação deveu-se a suposta prisão de dois magistrados amazonenses por um oficial do Exército do Peru, servindo na fronteira estabelecida pelo rio Solimões.

Uma busca em periódico da época, permitiu-me recolher as legítimas razões do episódio. Um episódio bem burlesco, que postarei em breve. 

Regimento Militar do Estado,

Manaus, 28 de dezembro de 1907

Ao senhor coronel

Antonio Emídio Pinheiro,

digníssimo comandante-geral do Regimento.

 

RELATÓRIO (*)

Em cumprimento a obrigação regulamentar venho com subida satisfação apresentar a vossa senhoria o relatório dos fatos ocorridos no alto desempenho de cargo com que fui distinguido e honrado, de comandante das forças do Estado em expedição à Tabatinga. Um traço de desacato e sangue à dignidade e bandeira motivou a expedição deste Regimento que, como todos supunham, iria logo enfrentar e castigar o estrangeiro ousado que tentara invadir o território deste Estado. A não ser, entretanto, a prisão de dois magistrados brasileiros que tanto exaltou o espírito público, porém medida estritamente policial e jurídica, perfeitamente compatível ao direito daquele País aonde se achavam na ocasião as referidas autoridades brasileiras, nada ocorreu nas fronteiras que justificasse qualquer desacato aos nossos brios de nação soberana e independente.
O Forte de Tabatinga (se é que à essa velharia descampada pode-se dar o nome de forte) lá está, como sempre, incólume e ocupado pelas forças do nosso exército, assinalando a sua existência apenas o pavilhão auriverde que no local tremula desfraldado ao vento para asseverar o domínio da República Brasileira naquelas regiões inóspitas e desabitadas. A suposta invasão de Tabatinga foi filha de um cérebro doentio atacado no momento de delírio febril. É esta a opinião mais corrente. 
Feitas estas considerações gerais que a suposta invasão territorial motivou, restringir-me-ei a narrar perfunctoriamente os fatos ocorridos com a força sob meu comando, desde a partida desta cidade até a nossa feliz chegada: De ordem do excelentíssimo senhor doutor Antonio Constantino Nery, então governador de Estado, a mim transmitida por vossa senhoria no dia dez de novembro deste ano, foi-me, por bondade vossa, confiado o comando de uma força de 100 praças, dois capitães e quatro alferes e um médico; desvanecendo-me sobremodo a vossa gentileza, agradeço-vos a minha escolha.
A presteza com que foi cumprida a ordem do excelentíssimo senhor doutor governador exultou de modo a nossa corporação a testemunha tão palpável da sua boa organização que não pude resistir a justa vaidade de consagrá-la neste relatório. 
Foi o dia treze de novembro uma verdadeira balburdia festiva no quartel do Regimento um torvelinho afanoso; oficiais e praças iam e vinham de um para outro lado do edifício fazendo os últimos preparativos para o embarque que na tarde daquele mesmo dia ir ter lugar. 
As quatro horas da tarde do dia treze de novembro, sob as vistas do excelentíssimo senhor doutor governador do Estado e de vossa senhoria, assim como das demais autoridades superiores do Regimento, embarcou o contingente em boas condições e ordem, pois assim permitiu a disciplina e ordem que tendes sabido implantar. Durante a viagem até Esperança [Benjamin Constant], lugar que, como sabe vossa senhoria, devia acantonar a força do Estado, tudo correria plenamente bem se no dia dezoito de novembro o estado de saúde do distinto médico doutor Zeferino Rodrigues, não se alterasse a ponto de nos causar sérios receios. Felizmente ao chegarmos no lugar aonde devíamos acantonar, para felicidade do contingente, o digno facultativo experimentou sensíveis melhoras, podendo em alguns dias restabelecer-se. 
O desembarque em Esperança foi feito na melhor ordem, porém ficaríamos sem abrigo se a generosidade do escrivão da mesa de rendas federal, senhor João Vieira de Freitas, não o obrigasse a ceder-nos o seu aposento particular até que pudéssemos construir barracas senão bastante confortáveis, mas que pudessem abrigar o pessoal do contingente. Para esse fim incumbi o senhor alferes Sérgio Rodrigues Pessoa Filho, do que deu satisfatório cumprimento. Vencidas essas primeiras dificuldades, tivemos mais tarde que nos haver com outras; assim é que do dia primeiro de dezembro em diante começaram a adoecer praças, chegando a estar no hospital vinte quatro doentes o que trouxe grandes apreensões ao médico do contingente e a mim, pois na ambulância não havia certos medicamentos necessários e eficazes para debelar o mal, e demais não havia no rancho que levamos alimentação leve prescrita, muita vez, atendendo ao estado grave do doente, pelo doutor Zeferino. Faltas essas que me obrigaram a, por mais de uma vez, despender do dinheiro que levei para suprir outras necessidades, a fim de com ele comprar esta ou aquela alimentação que exigia o estado grave do doente.
A disciplina e ordem ter-se-ia conservado incólume se na noite de seis para sete de dezembro eu não tivesse que lamentar o triste fato que já vos comuniquei, em ofício de nove do mesmo mês; apesar disso, ela foi logo restabelecida com a prisão do soldado perturbador da ordem. No dia quinze de dezembro chegou às minhas mãos o ofício no qual vossa senhoria determinava o regresso do contingente sob o meu com mando à esta capital; em obediência ao determinado no ofício, procurei cumprir o mais breve possível.
Assim, pois, como o comandante portador do ofício não levasse instruções certas, ser neste ou naquele navio o embarque do pessoal, resolvi reconhecendo a urgente necessidade de oficiais e praças para o serviço desta capital, embarcar no primeiro vapor que por ali passasse. Aproveitei por isso, a chegada do vapor “Virginia”, que por singular coincidência fora o mesmo que nos conduzira a Esperança, e ser este o primeiro vapor que por ali passava para, de acordo com o Sr. tenente-coronel José Lauriano da Costa, fazer o embarque do pessoal do contingente requisitar as respectivas passagens as quais foram requisitadas por conta do Ministério da Guerra.
Embarcadas as forças sem que houvesse caso algum anormal, chegamos a esta cidade no dia vinte e três de dezembro, fazendo-se o desembarque no dia vinte e quatro às sete horas da manhã, sob as vistas de vossa senhoria e demais autoridades superiores do Regimento. 
Antes de terminar o presente relatório devo testemunhar a minha gratidão e não poupar elogios ao comandante e mais oficiais vapor “Virginia” pelo desvelo com que cuidaram não só dos oficiais como das praças do contingente. 
Como havia vossa senhoria determinado a ida do senhor capitão Serafim Leopoldino de Carvalho para Benjamim Constant, em ofício número seiscentos e setenta e cinco, de treze de novembro, para lá seguiu esse senhor oficial com um destacamento de dez praças e 500 cartuchos, conforme já vos comuniquei em ofício de vinte e cinco do referido mês de novembro. Tendo eu que regressar a esta cidade com o contingente e como sobrassem ainda bastantes gêneros e fosse penoso o seu desembarque, resolvi lá vender uma parte, apurando na venda novecentos e oitenta e três mil e quinhentos réis, assim como também deixei em mão do senhor João Vieira de Freitas, escrivão da Mesa de Rendas Federais, trinta e quatro alqueires de farinha e trouxe o restante dos gêneros para esta capital, cuja relação acompanha este relatório. 
Por conta do segundo-sargento Tristão Cavalcante Melo, soldado José Justino da Silva, do segundo batalhão, e Severino Pereira da Paixão e Joaquim Eleutério de Sant'Ana, requisitei quatro passagens para as suas mulheres, cujo pagamento peço-vos ordeneis ao Sr. A. Pacheco comandante do vapor “Virginia”. 
E' um dever que cumpro em nas raias do presente relatório manifestar a minha satisfação, pelo modo digno e correto com que se mostrou o Dr. Zeferino Rodrigues. No lamentável fato de seis para sete de dezembro, infelizmente foram feridas três praças, sendo ao soldado do segundo batalhão Manoel Francisco do Nascimento necessária a intervenção cirúrgica. Apesar de estar ainda em convalescença prontificou-se a fazê-la o capitão doutor Zeferino Rodrigues, que fez com grande proficiência e zelo, enchendo o operado de tais confortos que já se acha quase restabelecido. Uma úlcera de caráter sifilítico manifestou-se no antebraço do soldado do 1º Batalhão Arthur José dos Santos, agravando-se de dia para dia, procurando o doente sempre escondê-la do médico. Essa incúria deu lugar a que se tornasse imprescindível por parte do médico intervir com a sua alta perícia cirúrgica, para conseguir debelar o mal visto já estar interessado osso, havendo nele um princípio de cárie que forçava a curetagem; a operação foi feita com tal perícia que o mal foi logo debelado. 
Apesar de terem ido ao hospital 24 homens, não tive que lastimar um só óbito graças a abnegação do ilustre médico. 
Devo também não poupar elogios aos meus companheiros de jornada por serem dignos deles; sinto-me orgulhoso de ter visto em todo eles uns moços cujo o caráter e zelo põe-nos à altura daqueles que se recomendam pela correção de suas ações. Cumpre-me em dentre eles enaltecer o brilho e zelo com que se houve o senhor capitão Antonio José Guimarães, como meu auxiliar imediato; sempre zeloso auxiliou-me para que a ordem fosse bem observada e, aos senhores alferes Sergio Rodrigues Pessoa Filho, Henrique Marques Pereira, Antonio Pereira da Costa e Manoel Bastos da Gama, oficiais zelosos e retos no cumprimento de seus deveres e todos em geral moços que com dignidade envergam a farda de oficiais do Regimento Militar do Estado. 
Entre as minhas muitas satisfações ainda tenho que salientar a não deserção de uma só praça; ao contrário, apresentou-se o soldado desertado que já vos cientifiquei em ofício de dezessete de novembro, sendo na ocasião preso. Devo dizer-vos que esse soldado prestou os mais inolvidáveis serviços a todo o contingente. 
Em suma, durante a minha estadia em Esperança, digo-vos satisfeito, que nunca veio uma só pessoa à minha presença queixar-se de um leve desrespeito por parte dos oficiais ou praças, fato este que ainda mais eleva o Regimento e mostra o empenho com que tendes sabido consagrar o tradicional nome do Regimento que criteriosamente dirigis. Junto remeto-vos as relações de alterações dos senhores oficiais e praças e mais papéis concernentes ao contingente. 
Saúdo-vos.

          Adolfo Cavalcante, tenente-coronel graduado.       


(*)  Extraído do Diário Oficial do Amazonas, 11  de janeiro de 1908

quarta-feira, outubro 15, 2014

ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA | 4



Alexandre Rodrigues Ferreira

Com esta postagem, encerro a publicação do texto sobre o cientista Alexandre Rodrigues Ferreira, de autoria do médico Alfredo Augusto da Matta, efetuada no Diário Oficial do Amazonas, de 7 de setembro de 1922 (1º centenário da Independência do Brasil).


O primeiro médico e naturalista brasileiro no Amazonas



Em 1842, e por ordem do Ministério do reino firmado por Antonio Bernardo da Costa Cabral, a Academia confiou os papéis, livros, mapas, desenhos, memórias, manuscritos e chapas de Alexandre R. Ferreira ao então ministro do Brasil em Portugal, Dr. Antonio Menezes de Vasconcelos Drumond, para – “serem enviados para o Brasil, e lá impressos por conta do governo brasileiro, depois do que deveriam ser restituídos ao Museu”.
O inventário, existente naquela Academia, reza a entrega de duzentos e cinquenta e nove trabalhos do inditoso baiano, conforme o recibo datado de 14 de janeiro de 1843.
Em diversos daqueles desenhos e chapas, destacam-se nítidos vários tipos de raças indígenas de antanho, com os nomes e as regiões, inclusive as do Amazonas. Assim os gentios de Aicurú, do rio Paraguai; Caraias, do Trombetas; Carapunas, que deveria ser Caripunas, das cachoeiras do rio Madeira, e das serras da margem ocidental do rio Yataqui; Manhas, do rio Cumiary; Miranha, do Solimões, entre os rios Japurá e Iça; Catauary, do rio Purus; Uariquena, das cachoeiras do Iaú, confluente do rio Negro; Mura, do rio Madeira; Cambeba, do rio Japurá; Curutús, do rio Apaporis; Uapixanas, das serras superiores do rio Branco...
Todos os desenhos, em grande parte devidos à competência profissional do Sr. Torres, companheiro de Ferreira em suas incursões, deveriam, e devem constituir verdadeira preciosidade em história etnográfica, porquanto referem-se a tribos hoje mui raras, ou extintas.
Nem todos esses desenhos foram, ou têm sido reproduzidos entre nós, com os relatórios respectivos, ao que me consta, nem muito menos foram dados à publicidade, desde aquela época e ano de 1843.
E por tudo isso, pela insídia e má vontade dos homens de seu tempo, e principalmente por ter estado “ao serviço de um governo em grande parte inepto”, e quiçá por negligência também de nossa gente do Brasil, teve o erudito baiano Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira a desdita de sábios estrangeiros usurparem o “justo e merecido galardão de seus sacrifícios e canseiras”, acrescidos da “indiferença, do desleixo e da inveja que tudo lhe arruinaram, até a própria saúde, como disse muito bem Matoso Santos, professor da Escola Politécnica de Lisboa, e quem melhor orientação me dispensou nas presentes linhas.
E eis porque Silvio Romero empós a frase – “Causa realmente pena a quem folheia os seus manuscritos, ver tanto esforço e tanta fadiga desperdiçados, esterilizados” – escreveu: “Fora do limitadíssimo círculo oficial de Lisboa ninguém sabia deles”, tudo “pela incúria do Governo que serviu um grande exemplo de trabalho nulificado!”
Ferreira “é uma curiosidade bibliográfica”, continuou Sílvio Romero, “porque o sábio brasileiro não pode ver os seus livros publicados fazerem o curso da Europa e, pelo menos, servirem de informação sobre a flora, a fauna, e a etnografia amazônica, tanto pior para ele; mas, antes e acima de tudo, tanto pior para nós. A história consignará ao menos que ele trabalhou...”
Mas, estes se esqueceram de apontar os principais motivos que isto determinaram, independentes todos da vontade de Ferreira.
De suas produções, assinalarei aqui as que tratam da —Propriedade e posse das terras do Cabo do Norte, com abundante documentação; A Constituição política dos índios, magnifico estudo analítico; Diário da viagem filosófica pela Capitania de S. José do Rio Negro, magistral memória, que deve sempre ser consultada pelos que estudam essa região; Descrição da gruta do Inferno em Cuiabá; Viagem à gruta das Onças; Observações gerais e particulares sobre os mamais nos territórios do Amazonas, rio Negro e Madeira; Memória histórica da ilha de Marajó; Memória sobre as tartarugas; Memória sobre as madeiras do Brasil; Participação geral do rio Negro e seu território; em sua maioria insertos na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.
Os trabalhos seguintes encontram-se nos Arquivos do Museu Nacional: Memória sobre o peixe Perá-Urucú (vol. XII, p.105, 1903); Memória sobre o peixe boi e o uso que lhe dão no Grão-Pará (vol. XII, p.169, 1903); Memória sobre Yuarete (vol. XII, p.181, 1903); A propósito de uma estampa representando um índio Cambeba (vol. XII, p.191, 1903); Febres da capitania de Mato Grosso (mandado imprimir pelo Dr. Martins Costa no Progresso Médico (vol. II, 1877).
Capa de livro sobre Alexandre Ferreira
O primeiro reconhecimento do beribéri no Brasil deve-se a Alexandre Ferreira, que, por esquisita probidade profissional, solicitara ao cirurgião Antonio José de Araújo Braga, aluno benemérito do Hospital S. José de Lisboa, lhe fornecesse elucidação e base para conferir as observações próprias com as de pessoa competente.
Em resposta, aquele cirurgião confirmou a existência daquela doença, declarando que a paralisia a que chamam beribéri, ou beriberium, acontece nesse país pela mesma causa e do mesmo modo que em Java (Afrânio Peixoto).
Concluindo as presentes notas, resta-me dizer que entristece nem sequer darem o merecido valor histórico aos esforços ingentes e à grande competência do Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, o médico naturalista brasileiro chefe da primeira missão científica ao Brasil Norte, em particular no território  do atual Estado do Amazonas, porquanto jamais deveríamos e devemos nos olvidar ter o nosso biografado desprendido o vagido inicial da vida nas majestosas e ridentes plagas de Santa Cruz, na cidade de Salvador, no nosso querido Brasil.