CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sexta-feira, novembro 21, 2025

CAPUCHINHOS UMBROS NO AMAZONAS

 No livro Igreja sobre o rio (2012), frei Antonino de Perugia analisa para seus superiores na Itália, a perspectiva de crescimento da Ordem dos capuchinhos umbros no Amazonas, em carta escrita em 1954. Lamentavelmente, não creio que essas ideias tenham prosperado. 

Detalhe da capa. Livro escrito por Mario Tosti,
utilizando missivas dos frades no Amazonas

A sua análise era sustentada por algumas observações: em primeiro lugar, era possível, segundo ele: “abrir um belo convento ao lado do santuário de Nossa Senhora de Fátima, em construção, mas já próximo à conclusão. Na vizinha e florescente cidadezinha de Itacoatiara, grande paróquia com o pároco brasileiro [cônego Alcides Peixoto] e o velho cura cego [monsenhor Pereira, português], o senhor arcebispo [dom Alberto Ramos] nos pediu para assumir a assistência espiritual. E a população ficaria contentíssima. Também ali se poderia construir imediatamente um convento e se faria tanto bem!

O senhor arcebispo depois – continua – ofereceu-nos outra cidadezinha em formação e muito promissora, em cujas proximidades encontra-se o importantíssimo centro agrícola e industrial do senhor Agesilau Gonçalves de Araújo, nosso grande amigo e benfeitor.

A filha, que é religiosa franciscana missionária de Maria, nos pede para assumirmos imediatamente ao menos o cuidado espiritual da propriedade paterna, que conta com milhares de trabalhadores: agricultores e operários. Isto, para não falar em noutras localidades aptas à abertura dos nossos conventos e residências.

Disto se vê que a nossa neocustódia tem diante de si as melhores perspectivas de crescimento e poderia ser na verdade digna do seu nome. E não faltariam nem mesmo as vocações à Ordem, porque no sul do Estado a maioria dos habitantes são nordestinos, e os próprios caboclos são já todos civilizados”.

domingo, março 23, 2025

POEMA DOMINICAL E UMA TRAGÉDIA

Há 98 anos, em 22 março 1926, em acidente ocorrido no rio Solimões, foi a pique o navio “Paes de Carvalho” da frota da Amazon River, violentado por incêndio que resultou em considerável número de mortos e feridos, e amargurou sobremaneira o Estado. Na capital, a revista Redempção circulou ao final daquele mês em Número Especial, delineando a tragédia, a partir de informes dos sobreviventes.

O magazine encerrou seu editorial pondo-se “genuflexa nesta comovida homenagem, se irmana em sincera dor, em religioso respeito, em piedade, em solidariedade...” Enfim, trouxe para expressar aquele pesaroso momento o poeta Raimundo Monteiro (1882-1932), que assim versou:

Página da revista
                                FLAMAS

 

Aurora. Vermelhão de incêndio. Fogo e brados.

Ardendo no claror das chamas aurorais,

Como um louco tritão incandescente, o “Paes

De Carvalho” deslumbra os peixes assustados!

Circundando o vapor flamívomo, queimados,

Alucinadamente os ecos matinais

Despertando ao pavor de dissonâncias tais,

Morrem, na grande luz, seres desesperados!

Flamejantes florões festoando à tona d’água

Recordam, na ignição primeva, frágua a frágua,

Milhares de vulcões abrindo em rubros lises!

Alvorece. Ao rosear da antemanhã, lá no alto,

No longínquo azulor do céu que tanto exalto,

Vésper têm por brandão mortuário os infelizes...

 

Raimundo Monteiro

terça-feira, outubro 29, 2024

EUCLIDES DA CUNHA E OS SALESIANOS

Enquanto continuo a estudar o livro "De Tupan a Cristo" (1965), publicado pelos Salesianos, compartilho uma passagem sobre Euclides da Cunha (1866-1909), uma figura de grande relevância na literatura brasileira, com quem os Salesianos tiveram contato em Lorena (SP) e,
assim, fizeram uma valiosa reflexão a seu respeito. Euclides esteve no Amazonas cumprindo uma missão diplomática, navegando pelos rios Solimões e Javari.
Euclides da Cunha

 Essa memória é atribuída a dom Pedro Massa SDB (1880-1968).

Recorte da página sobre o autor de Os Sertões

 Euclides, apesar de seu caráter reservado, de sua conversa sóbria e reticente, apreciando mais o silêncio e a palavra alheia do que a própria, comprazia-se com aquele meio intelectual: padre Emanuel Gomes, futuro arcebispo de Goiânia [GO]; Helvécio, seu irmão, futuro arcebispo de Mariana [MG]; César Mourão, mais tarde bispo de Cafelândia [SP]; Aquino Correa, futuro acadêmico e arcebispo de Cuiabá [MT]; João Ravizza, latinista e membro da Arcádia Romana, Marcigalia, escritor e poeta, Lorandi, humanista e poeta, apreciado por Machado de Assis.

Compensava-se assim da monotonia daquela atrasada cidade do interior, onde o haviam chamado e o detinham serviços públicos de engenharia, e os salesianos retribuíam a amizade, estabelecendo-se – embora tão separados pelo pensamento e pela fé – uma relativa intimidade com o grande literato e escritor. De fato, como sinal dessa amizade ofereceu ele ao colégio a mesa paupérrima onde ele havia escrito no Rio Pardo os seus “Sertões – Campanha de Canudos”, publicado no ano anterior, despertando admiração e críticas na opinião pública.

Todos nós (eu também estava no meio deles) admirávamos o esplendor de seu talento, a beleza máscula de seu estilo retorcido, feito de “cipós literários”, as críticas elegantes e contundentes sobre os personagens de seu livro, que ele fotografava com traços profundos, eivados quase sempre da mais fina ironia, e seu trato modesto, às vezes revestido de ingenuidade tão chocante, dada sua alta personalidade intelectual: só lamentávamos nele a mais completa ausência de qualquer sentimento, mesmo de qualquer ideia sobre assuntos abstratos do sobrenatural: sua consciência honesta e digna, sua inteligência viva na abstração de números e cálculos, sempre preocupado pela ciência, não tinham um ponto sensível onde penetrasse um vislumbre sequer de luz; estava defendido, ou escravizado por uma couraça feita de aço, fria e invulnerável pela aridez do ceticismo: mas, educado e elegante, sabia respeitar a opinião alheia e as   fraquezas humanas.

Em fins de janeiro de 1904, nós clérigos havíamos de ser ordenados pelo Núncio Apostólico dom Júlio Tonti e, com licença do Superior, ousamos convidá-lo para paraninfar a nossa ordenação: aceitou, assistindo atento e respeitoso à longa cerimonia. Após o almoço festivo, Euclides com admiração de todos levantou-se e falou:

“Meus amigos, grato pela honra que me conferistes, admiro-vos sinceramente, acompanhando-vos na alegria desta hora tão auspiciosa para vosso coração. Minha inteligência, porém, na aridez de sua estrutura, rastejando na terra, tem pena em não vos poder acompanhar nos surtos de vossa vocação, de vossa alta miragem, do destino vosso: no entanto, se quanto se passou nesta hora tiver a substância luminosa da verdade, eu vos peço que rezeis por mim. Aceitai do vosso paraninfo não um conselho, que eu não posso vô-lo dar, mas apenas uma advertência amigável: se um dia as renúncias que acabais de aceitar, como herança do vosso futuro, pesarem sobre o vosso coração, sustente-vos na luta a alegria desta hora e a beleza que nunca se vele ou se tisne, da vossa vocação, porque é sempre doloroso, é humilhante, é indigno retroceder”.

Cinco anos depois, em 1909, não nos surpreendeu a triste notícia – porque acompanhávamos a tragédia de seu lar – de seu inesperado desenlace, quando no Rio de Janeiro, na antiga Estrada Real de Santa Cruz, uma bala assassina ceifava, pela morte prematura e trágica, a preciosa existência do atormentado escritor, de quem muito esperavam a história e as letras do Brasil. Como recordação e homenagem ao eminente aluno, há mais de quarenta anos foi fundado e funciona regularmente no Colégio “São Joaquim”, o grêmio literário “Euclides da Cunha”.

segunda-feira, novembro 08, 2021

CAPUCHINHOS NO AMAZONAS

 Os frades capuchinhos da província de Úmbria (ITA) chegaram a Manaus em 1909, propostos à evangelização do Alto Rio Negro. A pobreza generalizada da região os desencorajou. Aceitaram, no entanto, mudar-se para o Rio Solimões, localizando a Missão à entrada deste portentoso curso d’água no Brasil. A conquista exigiu renúncia, espírito missionário, acarretou a morte de jovens apóstolos, contudo conseguiram se estabelecer. Ainda em nossos dias cabe aos capuchinhos umbros a direção da Igreja católica nos municípios da tríplice fronteira.

Para celebrar esse triunfo, relembrando as fases superadas com ingentes esforços, Mário Tosti (professor de História Moderna na Universidade dos Estudos de Perugia e docente de História da Igreja Moderna e Contemporânea no Instituto Teológico de Assis, Itália) escreveu o livro a Igreja sobre o rio (Manaus: Secretaria de Cultura do Estado, 2012), no qual relata “A missão dos Capuchinhos da Úmbria no Amazonas”. 

Capa do livro

O livro foi escrito a partir de relatos enviados pelos frades missionários, remetidos de Manaus e de outras localidades do rio Solimões. A numerosa correspondência arquivada e examinada se deve à recomendação imposta aos religiosos, em particular aos dirigentes, pela direção-geral da Ordem.

Sua leitura revela um tanto enorme da história do Amazonas, por isso, recolhi alguns parágrafos que julguei oportunos. Outros, se trata de curiosidades. Enfim, espero ter contribuído com a divulgação da “conquista espiritual da Amazônia”. 

Manaus, 8 dicembre 1912. Mais detalhado é o acerto de contas que o mesmo prefeito [religioso superior] faz no seu relatório de 1912, do qual emergem interessantes e curiosas considerações sobre a presença e a atividade dos italianos em Manaus: "em Manaus existe uma colônia italiana muito numerosa, mas que infelizmente não honra a própria bandeira.

Na quase totalidade é composta por meridionais que, emigrando para Manaus com o único objetivo de fazer dinheiro e para obter isso não se interessam pelo decoro civil nem com o sentimento religioso. Quase todos se submetem a fazer os serviços mais abjetos, como de estivadores, garis e engraxates, de modo que em Manaus a palavra italiano é sinônimo de estivador.

Agora, o cônsul italiano, para tentar remediar esta situação, tinha prometido fazer-me possuir gratuitamente uma casa com local apto para um colégio, com a condição que eu estabelecesse neste uma secção especial para os filhos dos italianos. Eu aceitei, e ele ocupou-se realmente da coisa: mas até agora não vi algum resultado".

Frei Jocundo 

Em sua viagem transatlântica rumo ao Brasil, em 1912, frei Jocundo de Soliera repassa uma informação sobre o tratamento dispensado a ele pelos passageiros de 1ª classe e os de 3ª.

Nota 249 "Todos se aproximavam de nós — escreve Fr. Jocundo — e esses maltratando o idioma italiano e nós estragando a língua portuguesa e inglesa, conseguíamos conversar suficientemente". A mesma coisa não podia afirmar dos passageiros de terceira classe, uma centena de portugueses que se dirigia ao Pará e a Manaus, embarcados em Lisboa, barulhentos e incômodos que não hesitavam em gritar, assoviar e pronunciar palavras injuriosas toda vez que no horizonte apareciam os religiosos, foi em vão o protesto de Fr. Jocundo ao capitão que respondeu de modo gentil, mas inconsequente, por isso, a única solução foi "não passar mais daqueles lados".

sábado, novembro 06, 2021

FAMÍLIA PAULA & SOUZA (2)

 A busca pela origem da família Paula e Souza no território amazonense, presente no ostentoso sobrenome do falecido Ramayana de Chevalier, já me trouxe alguns sucessos. Aos poucos vão aparecendo outros familiares, que foram esquecidos pelo apelido familiar. As mais conhecidas expressões literárias da família estão ligadas àquele Chevalier: são dois de seus filhos (Ronald Wallace, o “Roniquito”, e Scarlet Moon) e seu irmão Carlyle.

Scarlet Moon de Chevalier

No entanto, certamente estimulada por esse desafio, venho de receber a produção de uma Paula e Souza, que assina sob pseudônimo. O poema aqui compartilhado foi “dedicado a Ramayana de Chevalier (o grande poeta e boêmio amazônico)”.

 

RIO DAS ILUSÕES

Lizza Moon


Não quero fama. Nem ouro, nem glória,

Somente provar o sabor dessa vida ilusória.

Nem tanto na terra, nem muito nas estrelas.

Com a cabeça divagando, vou consumindo as tristezas.

A mente inquieta e o corpo inerte,

sinto volver em meu corpo um espírito errante.

 

Rio, rio das ilusões, como não te amar ao saber das solidões?

Navegando sobre ti e das almas que engolistes...

Como não falar em meus versos das saudações?

 

Rio, rio Solimões,

Por quem aqui passar, um Adeus,

um Olá até a outra Margem do Rio!

Volta! Volta cabocla bonita!

Teus pensamentos vão longe, mas a lida é contínua.

Pês no chão e cabeça feita

Do outro lado do Rio é que a vida é feita.

Deixaste essa floresta, mas teu espírito vem me atormentar...

 

Se queres tanto falar...

Pedes a Shiva para te deixar reencarnar...

Roda, roda, gira, gira...

Rema, rema, sob águas frias...

Faz ressurgir o Monstro das poesias...

Cataventos girando sob o manto verde à beira rio...

Que visão é essa que fez-me querer beber vinho?

Agora sob águas negras, avisto a orla da cidade...

Luzes brilhando, vento soprando, tudo gira...

A mente, um redemoinho,

Desperto sozinho...

Vem a mim...

E pega em minhas mãos frias,

Ó gigante caboclo das boemias.


sábado, setembro 17, 2016

AMAZONAS: SUA HISTÓRIA

A primeira parte de um conteúdo sacado do Almanaque Municipal Brasileiro, do ano de 1970, quando governava o Estado Dr. Danilo Duarte de Matos Areosa. 

O AMAZONAS É ASSIM
Resumo histórico:
Posição geográfica: 2° 8' 30" lat. N; 9° 49' 00" extremo S.;
56° 04' 50" extremo E.; 73° 48' 06" extremo O. long. W. Gr.


O Estado do Amazonas é o mais extenso de todos os Estados brasileiros. Com os seus 1.564.445 km2, o Amazonas apresenta os mais variados aspectos, que vão das várzeas a um relevo importante; de igarapés a rios dignos de nota; da vegetação rasteira à grande floresta.

Confina com seis países estrangeiros. Ao Sul limitam-no o Estado de Mato Grosso, a República da Bolívia e o Estado do Acre; a Oeste, o Peru, Equador e Colômbia; ao Norte, a Venezuela; a Leste, a Guiana e o Estado do Pará.

O Amazonas divide com o Pará o poderoso Rio Amazonas; mas tem uma parte muito maior desse rio que o Pará e é a unidade político-geográfica que dispõe da mais extensa superfície fluvial do mundo.

O Amazonas é geralmente baixo e quase inteiramente produto do período terciário. O seu contorno irregular muito se aproxima do quadrado, estendendo-se por mais de 15 graus de longitude e mais de 15 graus de latitude. O equador passa pela sua parte Norte, correndo o leito principal do Rio Amazonas numa latitude quase uniforme de 3 graus Sul; a maior parte do Estado acha-se, pois, no Sul da zona tórrida.

A vida no Amazonas não é mais perigosa do que em outras regiões, como na África Ocidental, por exemplo. É uma terra em que a colheita é perpétua, em que a natureza não dorme nem descansa. É uma terra de poderosos rios, que são as suas estradas, entre florestas que, se não fossem habitadas, se poderiam considerar virgens.

De Parintins, situada a 676 milhas a oeste da cidade (sic) do Pará, até Tabatinga, onde o grande rio, vindo do Peru, penetra em território brasileiro, há 1.074 milhas de distância. Nesse enorme trajeto, três imensos rios entram no Amazonas, procedendo do Norte — o Içá, o Japurá e o Negro; e cinco, do Sul — o Javari, que é a linha divisória com o Peru, o Jataí, o Juruá, o Purus e o Madeira.

Todos estes grandes rios têm ainda inúmeros afluentes; e há outros rios menores procedentes do Norte ou do Sul que às dezenas desembocam na grande artéria amazônica e que são do volume do Tâmisa, do Sena ou do Tejo. A par do explorador, do seringueiro e do negociante de madeiras, o geógrafo, muito especialmente, tem aqui vastíssimo campo de trabalho.

O maior dos grandes rios que desaguam no Amazonas, dentro dos limites do Estado, é o mais oriental, o Madeira, que, vindo das altas montanhas da Bolívia, tem um curso de 3.107 milhas.

Em todo o vasto Estado, as margens do rio, revestidas de grandes florestas constituem o horizonte do viajante, e em nenhuma dessas florestas se poderia penetrar sem o auxílio do guia, do terçado [facão] ou do machado. As florestas do Amazonas têm sido chamadas "o desespero dos botânicos". Depois de apresentar uma lista bem minuciosa de orquídeas e palmeiras, conhecidos monarcas das plantas e árvores da Amazônia, diz o geógrafo francês Eliseu Reclus: "Quanto às outras produções da floresta, preciosas madeiras, borracha, variadas gomas, resinas e substâncias canforadas, o botânico as classificou em milhares de espécies e a indústria está sempre aprendendo a conhecer os seus valores s e aplicá-las".

Em relação à fauna, podemos citar o mesmo autor: "Reina um silêncio tumular em muitos pontos da floresta, de onde se poderia inferir que a fauna é mal representada; entretanto, se não são muito numerosos os representantes de cada família, as espécies oferecem uma variedade singular". Durante os seus onze anos de exploração no Amazonas, o naturalista Bates (a quem tanto deveu o ilustre Darwin) colecionou 14.712 espécies de animais, 8.000 dos quais eram completamente desconhecidos da ciência.

Francisco Orellana, o espanhol – quem primeiro desceu o Amazonas com 50 companheiros –, fez referência no seu relatório a grande número de vilas nas margens desse rio. Três séculos depois, 150 tribos distintas que povoavam essas vilas desapareceram. A invasão dos brancos sem dúvida concorreu muito para diminuir a população indígena e é muito raro encontrarem-se índios de pura raça nas margens dos rios. Existem ainda, na selva, tribos belicosas que evitam a presença dos civilizados, atacando-os quando penetram em seus territórios.

No setor de colonização do Amazonas ou dos altos rios, os mestiços e especialmente os cearenses, estes de cruzamento português, indígena e africano, são em maior número. A história do suprimento de trabalhadores ao Amazonas é uma curiosa página da história da pátria. Assim, tem sido comprovado que uma proporção apreciável de seringueiros procede não do estrangeiro, mas sim do Ceará, vindos em menor escala os demais Estados do Nordeste.


E são os Estados nordestinos que têm ajudado a povoar a imensa Amazônia. Muitos a procuram ávidos pela riqueza que os seringais possam lhes proporcionar; outros, fugindo da impiedosa seca que os reduz a verdadeiros trapos humanos. A grande maioria não enriquece. Poucos se tornam os "coronéis" dos velhos tempos. Mas, em compensação, a família se reproduz abundantemente. (segue)

segunda-feira, novembro 23, 2015

ITINERÁRIO ANDINO (2)

Na metade do século passado, dois médicos amazonenses empreenderam uma viagem por países andinos. Concluído o périplo, Djalma Batista, saudoso cientista extremamente conhecido, fez publicar o relato dos acontecimentos.
Foi transformado em impresso, sob o título: Itinerário transadino (1951), que o autor dedicou ao companheiro de viagem – doutor Moura Tapajós, cujo nome designa a maternidade municipal instalada na avenida Brasil, bairro da Compensa.


UM VOO DO AMAZONAS AOS ANDES

Nós brasileiros andamos designando mal o nosso tuxaua hidrográfico, chamando-o de Amazonas, Solimões e Marañon. Em frente a Iquitos, por exemplo, olhando o belo panorama do rio a deslizar sereno, carregando detritos andinos, galhadas do baixo-plano e aluviões quaternários das terras aquém dos Pongos; olhando o rio banhado pelos últimos reflexos do crepúsculo planiciário, de que me estava a despedir, e recordando as minhas tinturas de geografia, exclamei: "Miremos al Marañon!" Esclareceu logo o amável acompanhante que estávamos defronte do Amazonas e que o Marañon estava muito longe.

Debrucei-me então sobre a monografia do sábio [Antonio] Raimondi, que consagrou sua vida ao Peru e palmilhou Loreto: aprendi que o Amazonas se forma pela união do Marañon com o Ucayali, da mesma forma que o [rio] Madeira nasce do abraço do Mamoré com o Beni, e o rio Branco da fusão do Maú e do Tacutu.
Cancelemos a nossa homenagem ao rei Salomão, concentrando-a na outra lenda, muito mais simpática e sugestiva, das guerreiras do Nhamundá, que arrebataram ao próprio Orellana a designação onomástica do rio-grande descoberto!
Matriz de Iquitos,
foto de julho passado

De Iquitos para Lima há três vias de comunicação: uma pelo ar, coberta pelas possantes e confortáveis unidades da Cia. Fawcett, que transportam tudo, gente e bichos, encomendas e cargas; outra por terra, a partir do porto de Pucallpa, até onde chegam embarcações fluviais, e início da grande estrada transandina, que substituiu a picada terrível de 20 anos atrás, pela qual, em caravanas aventurosas, que enfrentavam os gentios, as feras, o frio e a aspereza do terreno, se mantinha a unidade territorial do Peru; uma terceira via é toda por água: descendo o Amazonas, navegando o Atlântico, cruzando o canal do Panamá e costeando o Pacifico, até Callao...

Por uma das três vias sai a produção loretana: borracha, petróleo, sorva, madeiras e couros. Como se vê tudo coisa que a terra dá por si: nada criado pela mão do homem, tal qual sucede com os irmãos amazônicos do lado de cá da linha divisória...

Em 1955 será o centenário de Iquitos. Portanto, apenas sete anos mais nova do que Manaus, embora afastadas as duas capitais por mais ou menos 2.000 quilômetros...

Depois de uma animada e proveitosa conversa com os nossos anfitriões Planas e Vidurrizaga, na qual tanto podemos admirar a vivacidade de espírito do último, conhecedor minucioso do Norte e Nordeste do Brasil, onde amassou o pão do exílio, aqui lançando raízes afetivas imperecíveis e fruir o encanto da companhia do primeiro e de sua família, — começou a bater-nos forte o coração : fazia um calor supermanauense assim pelo meio-dia, no aeroporto iquiteño da CORPAC, e em pouco estaríamos sobrevoando os Andes e jogados no inverno da orla do Grande Oceano! (continua)

terça-feira, outubro 20, 2015

"APUNTES" PARA A HISTÓRIA DE MANAUS

Coincidência: em janeiro de 1953, na antevéspera da maior enchente amazônica, o professor Aziz Nacib Ab'Saber (1924-2012), da então Associação de Geógrafos do Brasil e professor universitário em São Paulo, visita Manaus. Em companhia de mais dois colegas, estuda a constituição dos acidentes fluviais encontrados nesta cidade.


O resultado desse estudo, reproduzido abaixo, foi publicado no Boletim Paulista de Geografia nº 14, de julho de 1953, quando o fenômeno da enchente amazônica começava a desanuviar. O comentário sobre a foto exposta pertence ao saudoso geógrafo – Professor Emérito da USP.
  


Capa da separata do Boletim
NA REGIÃO DE MANAUS

Em janeiro de 1953, o prof. Aziz Nacib Ab’Saber, sócio efetivo da A.G.B., professor de Geografia Física da Faculdade de Filosofia "Sedes Sapientae" e assistente da cadeira de Geografia do Brasil da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, teve oportunidade de visitar a cidade de Manaus, fazendo observações e colhendo fotografias de interesse geográfico, que aqui aparecem devidamente comentadas. 
Duas experiências de grande significação geográfica estão reservadas ao pesquisador que tem a felicidade de entrar em contato com as paisagens físicas e humanas da região de Manaus. 
A primeira diz respeito ao esquema do mundo físico regional, no qual se destacam alguns elementos importantes, tais como: a topografia do tabuleiro terciário de Manaus, espécie de baixo planalto arenoso tabuliforme, esculpido nos arenitos da formação Manaus, réplica geológica e geomórfica dos tabuleiros da formação das Barreiras do Nordeste; a presença do flutuante Rio Negro, cuja amplitude de oscilação de nível em Manaus já alcançou a cota de 7,61m, por volta de 1922; a existência de uma alta e extensa "barreira" fluvial na margem esquerda do Rio Negro, verdadeiro paredão de solapamento lateral situado na margem de ataque do grande rio; o quadro geográfico e hidrológico da zona de confluência entre o Negro e o Solimões, guardando ensinamentos dos mais interessantes sobre os fenômenos naturais que se passam num ponto de encontro das águas de um grande rio "branco" com um grande rio "negro"; a trama dos igarapés que seccionam fundo a beirada das falésias fluviais do tabuleiro terciário e que constituem um elemento importante do sítio urbano de Manaus, segundo a observação criteriosa de Pierre Gourou (1949, p.392); a floresta da terra firme e das terras baixas alagáveis e a vegetação de gramíneas das várzeas e margens de lagoas e paranás; o labirinto hidrográfico das planícies de inundação do Solimões, em contraste extraordinário com os sulcos discretos da drenagem dendrítico-retangular (Sternberg, 1950) dos tabuleiros terciários ; enfim, entre outros, os problemas da fertilidade relativa das aluviões modernas da ilha do Careiro, em face do solo arenoso e pobre do tabuleiro terciário de Manaus. 
Mas há um segundo grupo de fatos importantes, que diz respeito sobretudo ao trabalho do homem nesse pequeno recanto da surpreendente Hileia: uma, grande cidade comercial do Norte do Brasil e das terras baixas centro-equatoriais da América do Sul; o maior porto tipicamente fluvial do país; o ponto terminal da navegação atlântica de grande calado que remonta o Amazonas e uma etapa importante para toda a navegação da Amazônia Ocidental a mais significativa e permanente experiência da conquista do homem em face do meio físico, no desmesurado interior da Amazônia Brasileira; enfim, uma cidade que, além de apresentar uma posição geográfica excepcional na hinterlândia amazonense, possui, também, um quadro de sítio urbano dos mais interessantes e inesperados dentre as grandes cidades brasileiras. 
Para muitos desses fatos, ora enumerados, o geógrafo Pierre Gourou voltou suas vistas, de maneira inédita, pondo em equação os aspectos geográficos essenciais em suas Observações geográficas na Amazônia (1949), no meio das quais há um belo sumário dos fatos principais do relevo, estrutura e solos regionais. 
De nossa parte, teceremos apenas alguns comentários em torno de uma série de fotografias tomadas na região de Manaus, em janeiro do corrente ano, quando visitamos a região na companhia dos Profs. Ary França e Wladimir Besnard, e por especial gentileza dos aviadores da FAB [Força Aérea Brasileira], capitães França e Tapié.

REFERÊNCIAS:
GOUROU, Pierre (1949) — Observações geográficas na Amazônia (Primeira parte) — Revista Brasileira de Geografia, ano XI, julho-setembro 1949, nº 3, pp. 355-408. Rio de Janeiro.

STERNBERG, Hilgard O'Reilly (1950) – Vales tectônicos na planície amazônica? Revista Brasileira de Geografia, ano XII, outubro-dezembro 1950, nº 4, pp. 511-534. Rio de Janeiro 


O rio Negro frente a Manaus, num período de estiagem moderada.

Extensos comboios de barcos e canoas constituem as cenas mais pitorescas da movimentação humana do rio Negro, na região de Manaus. Às primeiras horas da tarde, os barcos que vieram abastecer a cidade com produtos da região (peixes, frutas, cereais, verduras, drogas e toda a sorte de produtos alimentícios), voltam para as zonas rurais ribeirinhas, rebocados por uma pequena lancha a motor.
A maior parte das barcaças e canoas proveem da ilha do Careiro e adjacentes (Cambixe, Terra Nova e Caldeirão). O extenso comboio já em "alto rio” recebe as embarcações retardatárias, que procuram encaixar-se em lugar apropriado, segundo o seu tamanho. Não raro: alguns desses comboios chegam a somar 50, 60 e, até mesmo, uma centena de canoas.
O rio Negro, no lugar onde foi tornada a fotografia possui aproximadamente 2.300m de largura. 

sábado, junho 27, 2015

GUARDA NACIONAL NO AMAZONAS (2)

Fundador da
Guarda Nacional
                   
No Amazonas, a Guarda Nacional foi organizada em 1882, com quatro Comandos Superiores e demais batalhões distribuídos pela capital e alguns municípios. Era presidente da Província, José Lustosa da Cunha Paranaguá.

Abaixo a terceira parte da publicação com os nomeados para a instituição:

COMARCA DO SOLIMÕES:

Tenente-coronel chefe do estado-maior, Gaudêncio Euclides Soares Ribeiro.
Majores ajudantes de ordens, Francisco Custodio da Cunha Corrêa e João Antonio de Lira Braga.
Capitão secretário-geral, Serapião Rodrigues de Oliveira.
Capitão quartel-mestre, Antonio Vieira Gualberto.

8º batalhão de infantaria – tenente-coronel comandante Carlos Augusto da Cunha Corrêa; major fiscal Pedro Tito Ribeiro.

9º batalhão de infantaria – tenente-coronel comandante Fernando Silvestre Alves da Silva; major fiscal Leopoldo Manuel da Silva Neves.

3º batalhão de artilharia – tenente-coronel comandante, capitão Isidoro José Ribeiro da Costa; major fiscal José Custodio Rabelo.         

1ª seção do batalhão da reserva – major comandante André Pereira de Oliveira.

Por atos desta Presidência foram nomeados, em 23 e 27 de janeiro, 7 e 9 de março deste ano, os seguintes oficiais:

MUNICÍPIO DE BORBA
5º BATALHÃO DE INFANTARIA

Estado maior: tenente ajudante José da Fonseca Coutinho, tenente-cirurgião Heliodoro Ferreira Bentes, alferes secretário Leopoldino Luiz da Fonseca, alferes porta-bandeira João Martins de Araújo.
1ª Companhia – capitão Francisco Ferreira Franco, tenente Clemente Cecilia de Abreu, alferes José Carlos da Fonseca Coutinho e Albino Antonio Ramos.

2ª Companhia – capitão Manuel José de Assunção, tenente Marcos da Fonseca Coutinho, alferes Prudêncio das Chagas de Abreu e Anacleto Antonio Moreira.

3ª Companhia – capitão Manuel Marques de Oliveira, tenente Francisco Pedro Batista de Oliveira, alferes Martim Antonio de Alfaia e Manuel José de Patrocínio.

4ª Companhia – capitão Luiz da Fonseca Coutinho, tenente Raimundo Vieira de Gusmão, alferes Francisco Rodrigues de Queiroz e Manuel Máximo de Goes.

5ª Companhia – capitão Manuel Rodrigues Paes, tenente Francisco Sabino Lopes Brandão, alferes Francisco Doroteu dos Santos e João Bernardo Rodrigues.

6ª Companhia – capitão Francisco Antonio Delgado, tenente Lauriano Theodoro Marques Rodrigues, alferes Camilo Bertoldo Gonçalves Capão e Luiz Pedro da Mota.    

sexta-feira, junho 19, 2015

GUARDA NACIONAL NO AMAZONAS

Porto de Manaus, livro Le pays des Amazones, 1885


Esta organização paramilitar legou ao país uma estranha história: criada em 1831, durante o período regencial, pelo Regente padre Diogo Antonio Feijó; foi reorganizada em 1850 e, novamente, reformada em 1873. Com a República, passou à direção do Ministério da Justiça, em 1892, e desmobilizada em 1922. Não conseguiu cumprir sua destinação, apesar das diversas alterações sofridas. Talvez por isso, restou conhecida na região pela ridícula alcunha imposta ao seu maior oficial – coronel de barranco.

No Amazonas, a Guarda Nacional foi organizada em 1882, com quatro Comandos Superiores e demais batalhões distribuídos pela capital e alguns municípios. Era presidente da Província, José Lustosa da Cunha Paranaguá.


A longa relação dos agraciados será aqui reproduzida em partes.

Por decretos nos 8.521 a 8.524, de 13 de maio de 1882, foi reorganizada a Guarda Nacional da Província do Amazonas, sendo criados quatro comandos superiores com nove batalhões de infantaria, três de artilharia, um da reserva, uma seção de artilharia, duas de infantaria, duas da reserva, uma companhia avulsa e uma seção de companhia ambas da reserva. Os comandos ficaram organizados do seguinte modo:
 1º Comando Superior –  Nas comarcas da Capital e do Rio Negro, formado de um batalhão de artilharia, com seis companhias e a designação de 1º, uma seção de batalhão da mesma arma, com quatro companhias e a designação de primeira, três batalhões de infantaria do serviço ativo com oito companhias cada um e as designações de 1º, 2º e 3º, duas seções de batalhão também do serviço ativo, com quatro companhias cada uma e as designações de 1ª e 2ª, um batalhão de reserva com a designação de 1º e uma companhia avulsa desse serviço.
 Os referidos corpos foram organizados:
O 1º de artilharia, o 1º e 2º de infantaria e o 1º da reserva nas freguesias da cidade de Manaus; a 1ª seção de batalhão de infantaria na do rio Purus; o 3º batalhão de infantaria na de Codajás; a 1ª seção do batalhão de artilharia e a companhia avulsa da reserva na do município de Barcelos; a 2ª de infantaria na de São Gabriel.
 A força da reserva qualificada nas freguesias do rio Purus e Codajás foi adida aos corpos da ativa ali criados; e aplicado a este comando superior, na conformidade do decreto nº 5.542, de 3 de fevereiro de 1874, o regime especial do decreto nº 2.029, de 18 de novembro de 1857.
 2° Comando Superior – Nas comarcas de Itacoatiara e do Rio Madeira, formado de um batalhão de artilharia com seis companhias e a designação de 2º, dois batalhões de infantaria do serviço ativo, com seis companhias cada um e as designações de 4º e 5° e uma seção de batalhão da reserva, com quatro companhias e designação de 1º.
 O 4º batalhão de infantaria compreende as freguesias da cidade do Itacoatiara, ficando adido a este batalhão a força da reserva qualificada nas mesmas freguesias; o 2º de artilharia no distrito de Manicoré; o 5º de infantaria e a seção de batalhão da reserva no de Borba.
 Aos três últimos corpos foi aplicado o regime especial do decreto nº 2.029, de 18 de novembro de 1857.
 3º Comando Superior – Na comarca de Parintins, formado de dois batalhões de infantaria do serviço ativo, com seis companhias cada um e as designações de 6º e 7º, este organizado no município de Maués e aquele no da cidade de Parintins.
 Ficou adida aos corpos do serviço ativo, na forma do art. 7º do decreto de 21 de março de 1874, a força da reserva qualificada nos respectivos municípios.
 4º Comando Superior – Na comarca do Solimões, formado de um batalhão de artilharia com quatro companhias e a designação de 3º, dois de infantaria, com igual número de companhias e as designações de 8º e 9º, uma seção de batalhão da reserva com duas companhias e a designação de 2ª e uma seção de companhia do mesmo serviço.
 Estes corpos foram assim organizados:
O 8º batalhão e a seção de batalhão da reserva na cidade de Tefé, o 3º batalhão de artilharia no distrito de S. Paulo de Olivença, ficando adidos a este batalhão os guardas da reserva qualificados no mesmo distrito; o 9º batalhão de infantaria e a seção de companhia da reserva no município de Coari.
Foi aplicado a este comando superior, na conformidade do decreto nº 5.542, de 3 de fevereiro de 1874, o regime especial do decreto nº 2.029, de 18 de novembro de 1857.  
       
Foram nomeados por decreto de 10 de junho do ano passado Coronel comandante superior da comarca da Capital e Rio Negro, o capitão Guilherme José Moreira, das de Itacoatiara e Rio Madeira o capitão Victor da Fonseca Coutinho; da do Parintins o major José Augusto da Silva e da do Solimões o cidadão João da Cunha Corrêa. E tendo falecido este último, foi nomeado para substitui-lo o major José Domingos Soriano Alves da Silva. Por decreto de 2 de fevereiro último foi concedida a este a reforma no mesmo posto, e nomeado para substitui-lo o cidadão Isidoro Marques Pereira Praia. (segue)