Escreveu Sílvio Romero referindo-se ao
nosso biografado: “Ao serviço de um governo em grande parte inepto, mesquinho,
acumulou uma imensa rima de manuscritos que lá ficaram pelos arquivos para as
traças, e os fatos novos, as descobertas importantes ali reunidas permaneceram
como não existentes, e tiveram de ser produzidas de novo pela plêiade de
viajantes estrangeiros que nos últimos cem anos têm percorrido as regiões amazônicas”.
Nem tanto assim, embora muitos exemplares
do sábio Alexandre Ferreira glorificassem a estranhos, que jamais viram selvas,
florestas e campinas da Amazônia. E jamais se deverá olvidar aquela
atmosfera pressaga e de perenes indisposições, que envolveu o nosso biografado,
devida principalmente a má vontade do naturalista Mattiosi, ajudante de
Vanelli, e por sem dúvida mantida pela desafeição e hostilidades deste último
quanto a Ferreira.
Visaram ambos contrariar e prejudicar
sempre as justas e legitimas aspirações do malogrado naturalista, possuídos de
um herbário o mais rico de espécimes do Brasil, a que se conjugavam numerosíssimos
e raros tipos nos domínios da zoologia.
Reúnam a tais contrariedades, o enorme e incomparável
desgosto moral que o acompanhava desde a chegada, qual túnica de Nesso, quando
verificou a grande porção de exemplares, com desenhos e debuxos, dos reinos
vegetal e animal da região amazonense, muitíssimos deteriorados, e todos
confundidos atabalhoadamente no Gabinete da Ajuda, e não poucos sem etiquetas,
ou trocadas!
“Acrescenta ainda a tradição, escreveu o
célebre naturalista português conselheiro Dr. Barbosa du Bocage, que não fora isto
efeito do acaso, ou de desleixo; mas obra requintada da mais ruim maldade,
planeada e levada a execução por um empregado do Gabinete da Ajuda, a quem o ciúme
dos talentos do nosso grande naturalista, e porventura a esperança de o
desgostar prontamente de uma posição no Museu que ambicionava para si,
inspirara essa torpíssima ação. Console-nos ao menos, se a tradição não mente,
a certeza de que o autor de tamanha infâmia não era português”.
Mas o governo luso amparou semelhante
proceder; e foi surdo a todos os rogos, e auxílios solicitados por Ferreira!
E tudo isso foi, e nem podia ser outra
coisa, a resultante de manobras as mais pérfidas.
Tais ocorrências aniquilavam as potentes
energias do sábio naturalista, para quem a sorte avara lhe tinha reservado
golpe ainda mais cruel, quando, nas funções de ajudante do Gabinete da Ajuda
(Dr. Vanelli), teve conhecimento, ou assistiu, por sem dúvida, a entrega do seu
próprio herbário, com 1.114 exemplares que restavam, fruto de indigentes
esforços seus, a um estrangeiro, ao célebre naturalista francês Geoffroy de
Saint-Hilaire, em 1908, em obediência às ordens do general Junot.
Angústia suprema!!!
Experimentou deste modo aquele homem
forte e resoluto, intimorato e erudito, o mais violento e terrível dos golpes
que o destino poderia lhe desferir, e que se não satisfizera com as contrariedades
e óbices e decepções sofridas desde a sua chegada a Lisboa!
E a palavra autorizada de Barbosa du
Bocage isso ainda mais comprova: “Desde que voltou ao reino, ou pouco depois,
foi acometido de fatal melancolia, que inutilizou o seu vasto saber, e o lançou
na sepultura em 1815, após longos anos de uma lenta agonia” – desenlace ocorrido
no dia 23 de abril, aos 59 anos de idade.
Apesar desses contratempos e de tantas
contrariedades, dos combates surdos e cheiros de perfídia, dessa teia que a
inveja teceu e a maldade entreteve, parecia inesgotável o manancial em que
abeberara o saber e se dessedentara o talento de Alexandre Rodrigues Ferreira!
E assim, aos 15 de julho daquele mesmo
ano de 1815, a sua honrada viúva, D. Germana Pereira de Queiroz Ferreira,
procedia ainda a entrega de manuscritos vários e todos os desenhos restantes ao
então diretor do Gabinete da Ajuda, Dr. Felix de Avelar Brotero, o verdadeiro
fundador das coisas da história natural, em terras lusitanas, e todos mandados
ali arquivar pelo visconde de Santarém. Daquele Gabinete, foram removidos em
1836, com as demais coleções para a Academia Real de Ciências, de que era
correspondente o nosso biografado, e ali conservadas cuidadosamente.
(segue)