CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sexta-feira, maio 24, 2024

MANAUS: ANÚNCIOS DE MEDICAMENTOS (1906)

 Recolhidos do Jornal do Commercio (1906), inaugurado em 1904, quando renovou na capital do Amazonas a apresentação jornalística. Os anúncios eram produzidos fora de Manaus, cabendo ao técnico local o acréscimo do nome da farmácia vendedora. Nos dois recortes, a Drogaria Universal, que subsistiu por décadas na rua Marechal Deodoro. 

Tanto o perfume como o medicamento seguia a
mesma diretriz

Outra forma de divulgar os medicamentos era o emprego de figura da área médica, inclusive com a divulgação de sua foto, para melhor enfatizar as propriedades curativas. Nesta direção, vê-se o emprego do dr. Alfredo da Matta.  

Dr. Alfredo da Matta, médico-
propagandista

quinta-feira, outubro 31, 2019

POLVILHO SILVA FERRAZ

Parece estranho em nossos dias afeitos à propaganda televisiva, afinal os jornais impressos estão em fase de mudança, todavia, no início do século passado era comum – em jornais (único meio de comunicação), a declaração de médicos acerca de algum medicamento. Servia de anúncio. Outros profissionais também eram usados, assim como literatos, compondo em versos.


A postagem compartilhada do jornal Amazonas (junho de 1906) exemplifica o enunciado, em que o sempre lembrado dr. Alfredo da Matta atesta a eficiência de certo polvilho.

Alfredo Augusto da Matta, doutor em medicina pela Faculdade de Medicina e Farmácia da Bahia, diretor da Higiene Pública do Estado do Amazonas, ex-médico adjunto [do] Exército Nacional, clínico interno do Hospital da Santa Casa de Misericórdia e da Sociedade Portuguesa Beneficente de Manaus etc. etc.
Atesto que tenho empregado em minha clínica, sempre com excelente resultado, o Polvilho Antisséptico Silva Ferraz, em casos de eritema, principalmente no intertrigo, e em outras afecções cutâneas, o que afirmo in fide gradus. 
Manaus, 23 de agosto de 1903 
O Polvilho Antisséptico Silva Ferraz é o específico soberano para o tratamento radical das erupções da pele, (...)

quarta-feira, outubro 15, 2014

ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA | 4



Alexandre Rodrigues Ferreira

Com esta postagem, encerro a publicação do texto sobre o cientista Alexandre Rodrigues Ferreira, de autoria do médico Alfredo Augusto da Matta, efetuada no Diário Oficial do Amazonas, de 7 de setembro de 1922 (1º centenário da Independência do Brasil).


O primeiro médico e naturalista brasileiro no Amazonas



Em 1842, e por ordem do Ministério do reino firmado por Antonio Bernardo da Costa Cabral, a Academia confiou os papéis, livros, mapas, desenhos, memórias, manuscritos e chapas de Alexandre R. Ferreira ao então ministro do Brasil em Portugal, Dr. Antonio Menezes de Vasconcelos Drumond, para – “serem enviados para o Brasil, e lá impressos por conta do governo brasileiro, depois do que deveriam ser restituídos ao Museu”.
O inventário, existente naquela Academia, reza a entrega de duzentos e cinquenta e nove trabalhos do inditoso baiano, conforme o recibo datado de 14 de janeiro de 1843.
Em diversos daqueles desenhos e chapas, destacam-se nítidos vários tipos de raças indígenas de antanho, com os nomes e as regiões, inclusive as do Amazonas. Assim os gentios de Aicurú, do rio Paraguai; Caraias, do Trombetas; Carapunas, que deveria ser Caripunas, das cachoeiras do rio Madeira, e das serras da margem ocidental do rio Yataqui; Manhas, do rio Cumiary; Miranha, do Solimões, entre os rios Japurá e Iça; Catauary, do rio Purus; Uariquena, das cachoeiras do Iaú, confluente do rio Negro; Mura, do rio Madeira; Cambeba, do rio Japurá; Curutús, do rio Apaporis; Uapixanas, das serras superiores do rio Branco...
Todos os desenhos, em grande parte devidos à competência profissional do Sr. Torres, companheiro de Ferreira em suas incursões, deveriam, e devem constituir verdadeira preciosidade em história etnográfica, porquanto referem-se a tribos hoje mui raras, ou extintas.
Nem todos esses desenhos foram, ou têm sido reproduzidos entre nós, com os relatórios respectivos, ao que me consta, nem muito menos foram dados à publicidade, desde aquela época e ano de 1843.
E por tudo isso, pela insídia e má vontade dos homens de seu tempo, e principalmente por ter estado “ao serviço de um governo em grande parte inepto”, e quiçá por negligência também de nossa gente do Brasil, teve o erudito baiano Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira a desdita de sábios estrangeiros usurparem o “justo e merecido galardão de seus sacrifícios e canseiras”, acrescidos da “indiferença, do desleixo e da inveja que tudo lhe arruinaram, até a própria saúde, como disse muito bem Matoso Santos, professor da Escola Politécnica de Lisboa, e quem melhor orientação me dispensou nas presentes linhas.
E eis porque Silvio Romero empós a frase – “Causa realmente pena a quem folheia os seus manuscritos, ver tanto esforço e tanta fadiga desperdiçados, esterilizados” – escreveu: “Fora do limitadíssimo círculo oficial de Lisboa ninguém sabia deles”, tudo “pela incúria do Governo que serviu um grande exemplo de trabalho nulificado!”
Ferreira “é uma curiosidade bibliográfica”, continuou Sílvio Romero, “porque o sábio brasileiro não pode ver os seus livros publicados fazerem o curso da Europa e, pelo menos, servirem de informação sobre a flora, a fauna, e a etnografia amazônica, tanto pior para ele; mas, antes e acima de tudo, tanto pior para nós. A história consignará ao menos que ele trabalhou...”
Mas, estes se esqueceram de apontar os principais motivos que isto determinaram, independentes todos da vontade de Ferreira.
De suas produções, assinalarei aqui as que tratam da —Propriedade e posse das terras do Cabo do Norte, com abundante documentação; A Constituição política dos índios, magnifico estudo analítico; Diário da viagem filosófica pela Capitania de S. José do Rio Negro, magistral memória, que deve sempre ser consultada pelos que estudam essa região; Descrição da gruta do Inferno em Cuiabá; Viagem à gruta das Onças; Observações gerais e particulares sobre os mamais nos territórios do Amazonas, rio Negro e Madeira; Memória histórica da ilha de Marajó; Memória sobre as tartarugas; Memória sobre as madeiras do Brasil; Participação geral do rio Negro e seu território; em sua maioria insertos na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.
Os trabalhos seguintes encontram-se nos Arquivos do Museu Nacional: Memória sobre o peixe Perá-Urucú (vol. XII, p.105, 1903); Memória sobre o peixe boi e o uso que lhe dão no Grão-Pará (vol. XII, p.169, 1903); Memória sobre Yuarete (vol. XII, p.181, 1903); A propósito de uma estampa representando um índio Cambeba (vol. XII, p.191, 1903); Febres da capitania de Mato Grosso (mandado imprimir pelo Dr. Martins Costa no Progresso Médico (vol. II, 1877).
Capa de livro sobre Alexandre Ferreira
O primeiro reconhecimento do beribéri no Brasil deve-se a Alexandre Ferreira, que, por esquisita probidade profissional, solicitara ao cirurgião Antonio José de Araújo Braga, aluno benemérito do Hospital S. José de Lisboa, lhe fornecesse elucidação e base para conferir as observações próprias com as de pessoa competente.
Em resposta, aquele cirurgião confirmou a existência daquela doença, declarando que a paralisia a que chamam beribéri, ou beriberium, acontece nesse país pela mesma causa e do mesmo modo que em Java (Afrânio Peixoto).
Concluindo as presentes notas, resta-me dizer que entristece nem sequer darem o merecido valor histórico aos esforços ingentes e à grande competência do Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, o médico naturalista brasileiro chefe da primeira missão científica ao Brasil Norte, em particular no território  do atual Estado do Amazonas, porquanto jamais deveríamos e devemos nos olvidar ter o nosso biografado desprendido o vagido inicial da vida nas majestosas e ridentes plagas de Santa Cruz, na cidade de Salvador, no nosso querido Brasil.



ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA | 3




Trata-se da terceira parte da publicação sobre o cientista Alexandre Rodrigues Ferreira, de autoria do saudoso médico Alfredo Augusto da Matta, efetuada no Diário Oficial do Estado, de 7 de setembro de 1922 (1º centenário da Independência do Brasil).

Recorte da publicação do Diário Oficial


Escreveu Sílvio Romero referindo-se ao nosso biografado: “Ao serviço de um governo em grande parte inepto, mesquinho, acumulou uma imensa rima de manuscritos que lá ficaram pelos arquivos para as traças, e os fatos novos, as descobertas importantes ali reunidas permaneceram como não existentes, e tiveram de ser produzidas de novo pela plêiade de viajantes estrangeiros que nos últimos cem anos têm percorrido as regiões amazônicas”.

Nem tanto assim, embora muitos exemplares do sábio Alexandre Ferreira glorificassem a estranhos, que jamais viram selvas, florestas e campinas da Amazônia. E jamais se deverá olvidar aquela atmosfera pressaga e de perenes indisposições, que envolveu o nosso biografado, devida principalmente a má vontade do naturalista Mattiosi, ajudante de Vanelli, e por sem dúvida mantida pela desafeição e hostilidades deste último quanto a Ferreira.

Visaram ambos contrariar e prejudicar sempre as justas e legitimas aspirações do malogrado naturalista, possuídos de um herbário o mais rico de espécimes do Brasil, a que se conjugavam numerosíssimos e raros tipos nos domínios da zoologia.
Reúnam a tais contrariedades, o enorme e incomparável desgosto moral que o acompanhava desde a chegada, qual túnica de Nesso, quando verificou a grande porção de exemplares, com desenhos e debuxos, dos reinos vegetal e animal da região amazonense, muitíssimos deteriorados, e todos confundidos atabalhoadamente no Gabinete da Ajuda, e não poucos sem etiquetas, ou trocadas!

“Acrescenta ainda a tradição, escreveu o célebre naturalista português conselheiro Dr. Barbosa du Bocage, que não fora isto efeito do acaso, ou de desleixo; mas obra requintada da mais ruim maldade, planeada e levada a execução por um empregado do Gabinete da Ajuda, a quem o ciúme dos talentos do nosso grande naturalista, e porventura a esperança de o desgostar prontamente de uma posição no Museu que ambicionava para si, inspirara essa torpíssima ação. Console-nos ao menos, se a tradição não mente, a certeza de que o autor de tamanha infâmia não era português”.
Mas o governo luso amparou semelhante proceder; e foi surdo a todos os rogos, e auxílios solicitados por Ferreira!

E tudo isso foi, e nem podia ser outra coisa, a resultante de manobras as mais pérfidas.
Tais ocorrências aniquilavam as potentes energias do sábio naturalista, para quem a sorte avara lhe tinha reservado golpe ainda mais cruel, quando, nas funções de ajudante do Gabinete da Ajuda (Dr. Vanelli), teve conhecimento, ou assistiu, por sem dúvida, a entrega do seu próprio herbário, com 1.114 exemplares que restavam, fruto de indigentes esforços seus, a um estrangeiro, ao célebre naturalista francês Geoffroy de Saint-Hilaire, em 1908, em obediência às ordens do general Junot.

Angústia suprema!!!  

Experimentou deste modo aquele homem forte e resoluto, intimorato e erudito, o mais violento e terrível dos golpes que o destino poderia lhe desferir, e que se não satisfizera com as contrariedades e óbices e decepções sofridas desde a sua chegada a Lisboa!
E a palavra autorizada de Barbosa du Bocage isso ainda mais comprova: “Desde que voltou ao reino, ou pouco depois, foi acometido de fatal melancolia, que inutilizou o seu vasto saber, e o lançou na sepultura em 1815, após longos anos de uma lenta agonia” – desenlace ocorrido no dia 23 de abril, aos 59 anos de idade.

Apesar desses contratempos e de tantas contrariedades, dos combates surdos e cheiros de perfídia, dessa teia que a inveja teceu e a maldade entreteve, parecia inesgotável o manancial em que abeberara o saber e se dessedentara o talento de Alexandre Rodrigues Ferreira!

E assim, aos 15 de julho daquele mesmo ano de 1815, a sua honrada viúva, D. Germana Pereira de Queiroz Ferreira, procedia ainda a entrega de manuscritos vários e todos os desenhos restantes ao então diretor do Gabinete da Ajuda, Dr. Felix de Avelar Brotero, o verdadeiro fundador das coisas da história natural, em terras lusitanas, e todos mandados ali arquivar pelo visconde de Santarém. Daquele Gabinete, foram removidos em 1836, com as demais coleções para a Academia Real de Ciências, de que era correspondente o nosso biografado, e ali conservadas cuidadosamente.
(segue)