CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de julho de 2015

HISTÓRIA DA POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS

Antigo brasão da corporação, circulado
nas festas de 1991 

 A transcrição do relatório abaixo ilumina mais uma etapa da história amazonense. Lance já esquecido, pela trivialidade de sua origem e, pior ainda, pela maneira como se disseminou. Nele, contudo, se pode observar a participação contundente da Polícia Militar do Amazonas (PMAM) em um episódio que fermentou a vida político-militar, na primeira década do século passado.

O motivo para tanta movimentação deveu-se a suposta prisão de dois magistrados amazonenses por um oficial do Exército do Peru, servindo na fronteira estabelecida pelo rio Solimões.

Uma busca em periódico da época, permitiu-me recolher as legítimas razões do episódio. Um episódio bem burlesco, que postarei em breve. 

Regimento Militar do Estado,

Manaus, 28 de dezembro de 1907

Ao senhor coronel

Antonio Emídio Pinheiro,

digníssimo comandante-geral do Regimento.

 

RELATÓRIO (*)

Em cumprimento a obrigação regulamentar venho com subida satisfação apresentar a vossa senhoria o relatório dos fatos ocorridos no alto desempenho de cargo com que fui distinguido e honrado, de comandante das forças do Estado em expedição à Tabatinga. Um traço de desacato e sangue à dignidade e bandeira motivou a expedição deste Regimento que, como todos supunham, iria logo enfrentar e castigar o estrangeiro ousado que tentara invadir o território deste Estado. A não ser, entretanto, a prisão de dois magistrados brasileiros que tanto exaltou o espírito público, porém medida estritamente policial e jurídica, perfeitamente compatível ao direito daquele País aonde se achavam na ocasião as referidas autoridades brasileiras, nada ocorreu nas fronteiras que justificasse qualquer desacato aos nossos brios de nação soberana e independente.
O Forte de Tabatinga (se é que à essa velharia descampada pode-se dar o nome de forte) lá está, como sempre, incólume e ocupado pelas forças do nosso exército, assinalando a sua existência apenas o pavilhão auriverde que no local tremula desfraldado ao vento para asseverar o domínio da República Brasileira naquelas regiões inóspitas e desabitadas. A suposta invasão de Tabatinga foi filha de um cérebro doentio atacado no momento de delírio febril. É esta a opinião mais corrente. 
Feitas estas considerações gerais que a suposta invasão territorial motivou, restringir-me-ei a narrar perfunctoriamente os fatos ocorridos com a força sob meu comando, desde a partida desta cidade até a nossa feliz chegada: De ordem do excelentíssimo senhor doutor Antonio Constantino Nery, então governador de Estado, a mim transmitida por vossa senhoria no dia dez de novembro deste ano, foi-me, por bondade vossa, confiado o comando de uma força de 100 praças, dois capitães e quatro alferes e um médico; desvanecendo-me sobremodo a vossa gentileza, agradeço-vos a minha escolha.
A presteza com que foi cumprida a ordem do excelentíssimo senhor doutor governador exultou de modo a nossa corporação a testemunha tão palpável da sua boa organização que não pude resistir a justa vaidade de consagrá-la neste relatório. 
Foi o dia treze de novembro uma verdadeira balburdia festiva no quartel do Regimento um torvelinho afanoso; oficiais e praças iam e vinham de um para outro lado do edifício fazendo os últimos preparativos para o embarque que na tarde daquele mesmo dia ir ter lugar. 
As quatro horas da tarde do dia treze de novembro, sob as vistas do excelentíssimo senhor doutor governador do Estado e de vossa senhoria, assim como das demais autoridades superiores do Regimento, embarcou o contingente em boas condições e ordem, pois assim permitiu a disciplina e ordem que tendes sabido implantar. Durante a viagem até Esperança [Benjamin Constant], lugar que, como sabe vossa senhoria, devia acantonar a força do Estado, tudo correria plenamente bem se no dia dezoito de novembro o estado de saúde do distinto médico doutor Zeferino Rodrigues, não se alterasse a ponto de nos causar sérios receios. Felizmente ao chegarmos no lugar aonde devíamos acantonar, para felicidade do contingente, o digno facultativo experimentou sensíveis melhoras, podendo em alguns dias restabelecer-se. 
O desembarque em Esperança foi feito na melhor ordem, porém ficaríamos sem abrigo se a generosidade do escrivão da mesa de rendas federal, senhor João Vieira de Freitas, não o obrigasse a ceder-nos o seu aposento particular até que pudéssemos construir barracas senão bastante confortáveis, mas que pudessem abrigar o pessoal do contingente. Para esse fim incumbi o senhor alferes Sérgio Rodrigues Pessoa Filho, do que deu satisfatório cumprimento. Vencidas essas primeiras dificuldades, tivemos mais tarde que nos haver com outras; assim é que do dia primeiro de dezembro em diante começaram a adoecer praças, chegando a estar no hospital vinte quatro doentes o que trouxe grandes apreensões ao médico do contingente e a mim, pois na ambulância não havia certos medicamentos necessários e eficazes para debelar o mal, e demais não havia no rancho que levamos alimentação leve prescrita, muita vez, atendendo ao estado grave do doente, pelo doutor Zeferino. Faltas essas que me obrigaram a, por mais de uma vez, despender do dinheiro que levei para suprir outras necessidades, a fim de com ele comprar esta ou aquela alimentação que exigia o estado grave do doente.
A disciplina e ordem ter-se-ia conservado incólume se na noite de seis para sete de dezembro eu não tivesse que lamentar o triste fato que já vos comuniquei, em ofício de nove do mesmo mês; apesar disso, ela foi logo restabelecida com a prisão do soldado perturbador da ordem. No dia quinze de dezembro chegou às minhas mãos o ofício no qual vossa senhoria determinava o regresso do contingente sob o meu com mando à esta capital; em obediência ao determinado no ofício, procurei cumprir o mais breve possível.
Assim, pois, como o comandante portador do ofício não levasse instruções certas, ser neste ou naquele navio o embarque do pessoal, resolvi reconhecendo a urgente necessidade de oficiais e praças para o serviço desta capital, embarcar no primeiro vapor que por ali passasse. Aproveitei por isso, a chegada do vapor “Virginia”, que por singular coincidência fora o mesmo que nos conduzira a Esperança, e ser este o primeiro vapor que por ali passava para, de acordo com o Sr. tenente-coronel José Lauriano da Costa, fazer o embarque do pessoal do contingente requisitar as respectivas passagens as quais foram requisitadas por conta do Ministério da Guerra.
Embarcadas as forças sem que houvesse caso algum anormal, chegamos a esta cidade no dia vinte e três de dezembro, fazendo-se o desembarque no dia vinte e quatro às sete horas da manhã, sob as vistas de vossa senhoria e demais autoridades superiores do Regimento. 
Antes de terminar o presente relatório devo testemunhar a minha gratidão e não poupar elogios ao comandante e mais oficiais vapor “Virginia” pelo desvelo com que cuidaram não só dos oficiais como das praças do contingente. 
Como havia vossa senhoria determinado a ida do senhor capitão Serafim Leopoldino de Carvalho para Benjamim Constant, em ofício número seiscentos e setenta e cinco, de treze de novembro, para lá seguiu esse senhor oficial com um destacamento de dez praças e 500 cartuchos, conforme já vos comuniquei em ofício de vinte e cinco do referido mês de novembro. Tendo eu que regressar a esta cidade com o contingente e como sobrassem ainda bastantes gêneros e fosse penoso o seu desembarque, resolvi lá vender uma parte, apurando na venda novecentos e oitenta e três mil e quinhentos réis, assim como também deixei em mão do senhor João Vieira de Freitas, escrivão da Mesa de Rendas Federais, trinta e quatro alqueires de farinha e trouxe o restante dos gêneros para esta capital, cuja relação acompanha este relatório. 
Por conta do segundo-sargento Tristão Cavalcante Melo, soldado José Justino da Silva, do segundo batalhão, e Severino Pereira da Paixão e Joaquim Eleutério de Sant'Ana, requisitei quatro passagens para as suas mulheres, cujo pagamento peço-vos ordeneis ao Sr. A. Pacheco comandante do vapor “Virginia”. 
E' um dever que cumpro em nas raias do presente relatório manifestar a minha satisfação, pelo modo digno e correto com que se mostrou o Dr. Zeferino Rodrigues. No lamentável fato de seis para sete de dezembro, infelizmente foram feridas três praças, sendo ao soldado do segundo batalhão Manoel Francisco do Nascimento necessária a intervenção cirúrgica. Apesar de estar ainda em convalescença prontificou-se a fazê-la o capitão doutor Zeferino Rodrigues, que fez com grande proficiência e zelo, enchendo o operado de tais confortos que já se acha quase restabelecido. Uma úlcera de caráter sifilítico manifestou-se no antebraço do soldado do 1º Batalhão Arthur José dos Santos, agravando-se de dia para dia, procurando o doente sempre escondê-la do médico. Essa incúria deu lugar a que se tornasse imprescindível por parte do médico intervir com a sua alta perícia cirúrgica, para conseguir debelar o mal visto já estar interessado osso, havendo nele um princípio de cárie que forçava a curetagem; a operação foi feita com tal perícia que o mal foi logo debelado. 
Apesar de terem ido ao hospital 24 homens, não tive que lastimar um só óbito graças a abnegação do ilustre médico. 
Devo também não poupar elogios aos meus companheiros de jornada por serem dignos deles; sinto-me orgulhoso de ter visto em todo eles uns moços cujo o caráter e zelo põe-nos à altura daqueles que se recomendam pela correção de suas ações. Cumpre-me em dentre eles enaltecer o brilho e zelo com que se houve o senhor capitão Antonio José Guimarães, como meu auxiliar imediato; sempre zeloso auxiliou-me para que a ordem fosse bem observada e, aos senhores alferes Sergio Rodrigues Pessoa Filho, Henrique Marques Pereira, Antonio Pereira da Costa e Manoel Bastos da Gama, oficiais zelosos e retos no cumprimento de seus deveres e todos em geral moços que com dignidade envergam a farda de oficiais do Regimento Militar do Estado. 
Entre as minhas muitas satisfações ainda tenho que salientar a não deserção de uma só praça; ao contrário, apresentou-se o soldado desertado que já vos cientifiquei em ofício de dezessete de novembro, sendo na ocasião preso. Devo dizer-vos que esse soldado prestou os mais inolvidáveis serviços a todo o contingente. 
Em suma, durante a minha estadia em Esperança, digo-vos satisfeito, que nunca veio uma só pessoa à minha presença queixar-se de um leve desrespeito por parte dos oficiais ou praças, fato este que ainda mais eleva o Regimento e mostra o empenho com que tendes sabido consagrar o tradicional nome do Regimento que criteriosamente dirigis. Junto remeto-vos as relações de alterações dos senhores oficiais e praças e mais papéis concernentes ao contingente. 
Saúdo-vos.

          Adolfo Cavalcante, tenente-coronel graduado.       


(*)  Extraído do Diário Oficial do Amazonas, 11  de janeiro de 1908