CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

7 de novembro de 2015

ALMIR DINIZ - DESDE 1929

Almir Diniz (1957)
Ontem, o acadêmico Almir Diniz de Carvalho aniversariou. Celebrou com a família 86 anos de bela existência. A celebração familiar, porém, não desanimou os chazistas que, apesar do impedimento do aniversariante, reunidos pela data comum, aproveitaram para cumprimentar (ainda que à distância) o vice-dirigente dessa agremiação. E foram lembranças pessoais e literárias, todos os presentes exigiram a palavra. Rolou, enfim, a leitura e a declamação ao violão do Mauri Mrq de poemas do Almir Diniz. 
Vida longa, nobre vice-presidente cháarmandista!

Aproveito a postagem para homenagear o cambixense Diniz com a reprodução de uma página de sua autoria, publicada no diário governamental do Estado.

“VELHO LINO” (*)
Almir Diniz

Tema para reminiscências da infância; motivo de recordações e saudades; razão para reconhecimento... Velho Lino.Velho Lino, é designativo de meu velho e pranteado tio Marcolino Carneiro da Rocha, um dos patriarcas da família. 
Recorte do Diário Oficial do Estado
Morava, o tio Lino, à altura do quilômetro 8 da Estrada de Rodagem do Cambixe, em companhia de seu filho Afonso.Ali, sentado à escada, via-o todas as manhãs, quando me dirigia à escola, vasculhando os campos até onde seus olhos cansados alcançavam. 
Então, tomava a expressão mortiça do tio Lino, como sintomas de caduquice. Sua expressão só, não. Também sua voz arrastada ao pronunciar o clássico "Deus te abençoe", após pedir-lhe a benção.
Para a meninada, era sinônimo de respeito. Menino não gritava, menino não ria, estando à vista o Velho Lino. Representava um hiato nos folguedos infantis dos escolares. 
Aos domingos, religiosamente, se dirigia à taberna do Anselmo, sol raiando, e tomava o seu "mata-bicho”: dois dedos de anis.
Hoje, aquela expressão cansada do tio Lino, tem outro significado. Aquilo nunca foi caduquice. Era, antes, profunda meditação... algo assim como um sonho, que é a vida da saudade ou a ilusão do porvir. Talvez, na cortina sombria de seus olhos, se desenhasse a tela multicor das queimadas sertanejas do seu querido Ceará, distante e inatingível... 
Assim, aparentemente extático, foi encontrá-lo Hilgard W. O’Reilly Sternberg, interessado que estava na elaboração de sua tese de concurso à cátedra de Geografia do Brasil da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Quando Hilgard laureou-se, conquistando a cátedra, já o Velho Lino havia desaparecido. 
Mas, às páginas da tese – A Água e o Homem na Várzea do Careiro – ficaram gravadas, para a posteridade, a história do Velho Lino, desde a sua partida do seu querido Acaraú em 1.888 até o seu desaparecimento aos 86 anos de idade, a 22 de maio de 1951, no Cambixe, de cuja região, compreendendo o Careiro, foi dos primeiros conquistadores. 
Quando Plínio Coelho, no afã de melhorar as condições do Careiro, através a higienização e valorização de seu principal produto, o leite, encomendou dois navios frigoríficos para resolver esse problema que é uma constante nas suas preocupações de cumprimento exato de seu programa, quis homenagear os desbravadores da selva careirense, dando os nomes dos patriarcas da região às ditas embarcações.Assim fazendo, estava o governador agindo de acordo com sua decisão anterior, em dando ao Grupo Escolar da sede do município, o nome do inesquecível amigo José de Melo Fiuza.
E, face a indicação do dileto companheiro de lutas Santos Oliveira e outros cambixenses, que palestravam com o governador e amigo Plínio Coelho, por ocasião de uma visita ao Careiro, resolveu Sua Excelência batizar um dos barcos frigoríficos com o nome Velho Lino. 
Como descendente do Velho Lino, neste final de crônica, resta-me agradecer ao governador e amigo Plínio Coelho, em nome de minha família, a distinção feita a um de seus mais respeitáveis membros.

(*) Diário Oficial do Estado23 de dezembro de 1958