CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

15 de outubro de 2014

ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA | 4



Alexandre Rodrigues Ferreira

Com esta postagem, encerro a publicação do texto sobre o cientista Alexandre Rodrigues Ferreira, de autoria do médico Alfredo Augusto da Matta, efetuada no Diário Oficial do Amazonas, de 7 de setembro de 1922 (1º centenário da Independência do Brasil).


O primeiro médico e naturalista brasileiro no Amazonas



Em 1842, e por ordem do Ministério do reino firmado por Antonio Bernardo da Costa Cabral, a Academia confiou os papéis, livros, mapas, desenhos, memórias, manuscritos e chapas de Alexandre R. Ferreira ao então ministro do Brasil em Portugal, Dr. Antonio Menezes de Vasconcelos Drumond, para – “serem enviados para o Brasil, e lá impressos por conta do governo brasileiro, depois do que deveriam ser restituídos ao Museu”.
O inventário, existente naquela Academia, reza a entrega de duzentos e cinquenta e nove trabalhos do inditoso baiano, conforme o recibo datado de 14 de janeiro de 1843.
Em diversos daqueles desenhos e chapas, destacam-se nítidos vários tipos de raças indígenas de antanho, com os nomes e as regiões, inclusive as do Amazonas. Assim os gentios de Aicurú, do rio Paraguai; Caraias, do Trombetas; Carapunas, que deveria ser Caripunas, das cachoeiras do rio Madeira, e das serras da margem ocidental do rio Yataqui; Manhas, do rio Cumiary; Miranha, do Solimões, entre os rios Japurá e Iça; Catauary, do rio Purus; Uariquena, das cachoeiras do Iaú, confluente do rio Negro; Mura, do rio Madeira; Cambeba, do rio Japurá; Curutús, do rio Apaporis; Uapixanas, das serras superiores do rio Branco...
Todos os desenhos, em grande parte devidos à competência profissional do Sr. Torres, companheiro de Ferreira em suas incursões, deveriam, e devem constituir verdadeira preciosidade em história etnográfica, porquanto referem-se a tribos hoje mui raras, ou extintas.
Nem todos esses desenhos foram, ou têm sido reproduzidos entre nós, com os relatórios respectivos, ao que me consta, nem muito menos foram dados à publicidade, desde aquela época e ano de 1843.
E por tudo isso, pela insídia e má vontade dos homens de seu tempo, e principalmente por ter estado “ao serviço de um governo em grande parte inepto”, e quiçá por negligência também de nossa gente do Brasil, teve o erudito baiano Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira a desdita de sábios estrangeiros usurparem o “justo e merecido galardão de seus sacrifícios e canseiras”, acrescidos da “indiferença, do desleixo e da inveja que tudo lhe arruinaram, até a própria saúde, como disse muito bem Matoso Santos, professor da Escola Politécnica de Lisboa, e quem melhor orientação me dispensou nas presentes linhas.
E eis porque Silvio Romero empós a frase – “Causa realmente pena a quem folheia os seus manuscritos, ver tanto esforço e tanta fadiga desperdiçados, esterilizados” – escreveu: “Fora do limitadíssimo círculo oficial de Lisboa ninguém sabia deles”, tudo “pela incúria do Governo que serviu um grande exemplo de trabalho nulificado!”
Ferreira “é uma curiosidade bibliográfica”, continuou Sílvio Romero, “porque o sábio brasileiro não pode ver os seus livros publicados fazerem o curso da Europa e, pelo menos, servirem de informação sobre a flora, a fauna, e a etnografia amazônica, tanto pior para ele; mas, antes e acima de tudo, tanto pior para nós. A história consignará ao menos que ele trabalhou...”
Mas, estes se esqueceram de apontar os principais motivos que isto determinaram, independentes todos da vontade de Ferreira.
De suas produções, assinalarei aqui as que tratam da —Propriedade e posse das terras do Cabo do Norte, com abundante documentação; A Constituição política dos índios, magnifico estudo analítico; Diário da viagem filosófica pela Capitania de S. José do Rio Negro, magistral memória, que deve sempre ser consultada pelos que estudam essa região; Descrição da gruta do Inferno em Cuiabá; Viagem à gruta das Onças; Observações gerais e particulares sobre os mamais nos territórios do Amazonas, rio Negro e Madeira; Memória histórica da ilha de Marajó; Memória sobre as tartarugas; Memória sobre as madeiras do Brasil; Participação geral do rio Negro e seu território; em sua maioria insertos na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.
Os trabalhos seguintes encontram-se nos Arquivos do Museu Nacional: Memória sobre o peixe Perá-Urucú (vol. XII, p.105, 1903); Memória sobre o peixe boi e o uso que lhe dão no Grão-Pará (vol. XII, p.169, 1903); Memória sobre Yuarete (vol. XII, p.181, 1903); A propósito de uma estampa representando um índio Cambeba (vol. XII, p.191, 1903); Febres da capitania de Mato Grosso (mandado imprimir pelo Dr. Martins Costa no Progresso Médico (vol. II, 1877).
Capa de livro sobre Alexandre Ferreira
O primeiro reconhecimento do beribéri no Brasil deve-se a Alexandre Ferreira, que, por esquisita probidade profissional, solicitara ao cirurgião Antonio José de Araújo Braga, aluno benemérito do Hospital S. José de Lisboa, lhe fornecesse elucidação e base para conferir as observações próprias com as de pessoa competente.
Em resposta, aquele cirurgião confirmou a existência daquela doença, declarando que a paralisia a que chamam beribéri, ou beriberium, acontece nesse país pela mesma causa e do mesmo modo que em Java (Afrânio Peixoto).
Concluindo as presentes notas, resta-me dizer que entristece nem sequer darem o merecido valor histórico aos esforços ingentes e à grande competência do Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, o médico naturalista brasileiro chefe da primeira missão científica ao Brasil Norte, em particular no território  do atual Estado do Amazonas, porquanto jamais deveríamos e devemos nos olvidar ter o nosso biografado desprendido o vagido inicial da vida nas majestosas e ridentes plagas de Santa Cruz, na cidade de Salvador, no nosso querido Brasil.