CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, junho 14, 2026

POEMA DE DOMINGO (9)

 A arte deste domingo foi postada pelo Clube da Madrugada, produzida por seu presidente Jorge Tufic, com ilustração de Palheta, em coluna da agremiação em A Crítica, há 40 anos.

A Crítica, 26 maio 1986
    As árvores de mogno, a paineira

e a flor do mucunã,

testemunham que a pedra

é o modelo do olhar.

Maria Guilhermina esculpe com a luz

os contornos perdidos

que abrolham da terra.

O jaburu se interrompe

na cisma vertical.

As três bailarinas trocam de lugar

no espaço imaginário.

O movimento é visível

nas dimensões do objeto.

 

Uma família inteira de pedras

conversa neste bosque.

Algumas jazem, porém,

nem sempre factíveis ao tato

e ao som que revela

os ângulos internos da figura,

a visão de conjunto.

Mas são estas as formas

que já trazem, muitas vezes,

o olhar que nos falta.

 

E as mãos de Maria Guilhermina

enxugam simplesmente a ramela

dos seres que habitam

essas cavernas do átomo.


sexta-feira, dezembro 02, 2022

BENCHIMOL: CANUDOS E O ACRE

 

Ainda me impressiono com textos sobre a tragédia canudense (1897), que atraiu a Força Policial amazonense para aquela luta fratricida. Estudando o episódio, cheguei a Sena Madureira (AC), que foi inaugurado com a presença de Candido José Mariano, condutor da tropa contra os conselheiristas, e o segundo prefeito daquele município (1905-10).

Hoje esbarrei com este trecho do falecido mestre Samuel Benchimol, componente de seu livro O Romanceiro da batalha da borracha, inserido no Amazônia: um pouco-antes e além-depois (1977), que bastante me comoveu. Detalhe importante: a ilustração do livro foi feita pelo saudoso artista Jorge Palheta.

Dedico esta postagem ao Isaac Melo, pela dedicação aos estudos da Amazônia. 

Capa do livro de Benchimol

(...) Um dos cortes psicológicos predominantes no perfil do sertanejo feito imigrante é o destino. À primeira vista parecerá que esta expressão não possui valor; mas, analisando bem, poderemos apanhar o profundo interesse sociológico que ela contém. Todo imigrante tem um destino. E acredita nele. Existe em função dele e não gosta de contrariá-lo. "Ninguém esbarra o meu destino. Eu vou para o Acre". A frequência com que eu ouvi dizer — "o meu destino é o Acre" — fez-me pensar até na existência de uma espécie de messianismo sertanejo. Gostam de ver até onde o destino será capaz de conduzi-los. Deixam-se levar por ele: "Eu tomei o bonde errado, agora vou até o fim da linha. Eu sigo para o Acre mesmo".

A carga psicológica do destino talvez seja uma sobrevivência mística do sertão. Mística e beata. Uma espécie de sebastianismo messiânico, crendo, em vez do rei ou do Messias, no ouro-negro. O Acre tem alguma coisa de Juazeiro e Canudos.

Canudos na ilustração de
Palheta

De Plácido de Castra fizeram um arremedo de Antônio Conselheiro e Padre Cícero. Repare-se, por exemplo, neste veterano da guerra do Acre, Sérgio Bernardo Pinto: "Eu tenho honra em ser veterano do Acre. Lutei com Plácido de Castro. Aquilo é que era homem de verdade". Envolveram-lhe em lendas, até deram-lhe uma aparência sobrenatural, quase divina: "A palavra dele era um tiro, parecia que ele tinha um imã dado pela providência, para cativar a gente". Ele me disse que Plácido, ao morrer, mandou arrancar o coração para fazer presente à sua noiva...

O Conselheiro era a mesma coisa. A sua palavra também era um evangelho. Contagiava delírio na multidão beata. O Acre, assim, tem de Juazeiro a fé no destino. O misticismo da riqueza, a esperança de enricar, é uma tradução material da fé e do fanatismo. A seringa é a versão do milagre. Em vez da reza, o tiro; da promessa, a pontaria. De Canudos ele tem a reação violenta, audaciosa e única.

Plácido tinha, para isso, alguma coisa de bárbaro, pelo menos assim esse cearense o interpreta: "Era um homem como poucos, assisti ele mandar uma sentinela abrir a sua própria cova porque deixara passar um boliviano pelo seu posto..." O Acre também veio do "tirocínio brutal da fome, da sede, das fadigas, das angústias recalcadas, das misérias fundas".

Por isso ele deve ser estudado em função desse misticismo econômico que até hoje ainda não passou. "O Acre vai ser a nossa salvação" — "eu vou ser feliz no Acre". "Aquilo é uma terra santa", disse-me Sérgio Bernardo Pinto. O imigrante, portanto, não largou essa fé no destino, ainda continua, dizendo: "O meu destino é o Acre. Não quero contrariar o meu destino". Uma modalidade de fatalismo aplicado na Amazônia. Não se pense que o sertanejo tenha entre nós abandonado os seus caracteres conhecidos. Quando surge uma oportunidade, estes aparecem à tona. O Acre é um desses casos. (...)

A ressureição sertaneja acudindo à desilusão do cearense cansado. A procura do tempo perdido. O arrependimento de uma vida atribulada. A volta ao campo de onde partira. A roça, o galinheiro, o curral. A sua história termina assim: — "Minha mulher morreu no Acre. Minha filha casou-se aqui. Eu estou só. Vou ver se o Acre dá jeito. Se não der, não importa. Eu vim para enterrar os meus ossos nos barrancos do Acre". A terra prometida irrompe, afinal, na psicologia do seu destino: "O Acre é uma terra santa". 

domingo, outubro 17, 2021

DO FUNDO DO MEU SURRÃO

Em menino achei um dia

bem no fundo de um surrão

um frio tubo de argila

e fui feliz desde então;

Luiz Bacellar

Variações sobre um prólogo

in Frauta de Barro

 

e os primeiros achados são obras de Jorge da Silva Palheta (1953-2015). Palheta, com era bem conhecido, legou-me estas caricaturas de de alguns de nossos presidentes:

João Baptista Figueiredo

José Sarney

Tancredo Neves


quinta-feira, agosto 20, 2020

CINCO ANOS SEM JORGE PALHETA

 A "bendita" Internet me impediu, ontem, de homenagear ao saudoso artista Jorge Palheta, cuja morte completava um quinquênio. Para tanto, estou compartilhando parte de um seu trabalho produzido para o Suplemento Literário, anexo do Diário Oficial do Estado, que circulou em 1988/89.








sábado, maio 16, 2020

PALHETA NO SUPLEMENTO LITERÁRIO


O saudoso artista plástico Jorge Palheta (1953-2016) produziu e ilustrou inúmeros trabalhos e, vez por outra, encontro alguns desses perdidos pelos escaninhos. Como acaba de me ocorrer, ao revirar a coletânea do SLA (Suplemento Literário do Amazonas), publicação do Diário Oficial, no período de 1986-87.


Palheta assinou várias ilustrações, algumas das quais compartilho, com a indicação do título e do autor.

Meus avós, de Chloé Souto Loureiro,
em maio 1987

Segunda Elegia, de Guimarães de Paula,
em março de 1987

No Beco, os Gatos, de Lauro Vargas, em junho 1987

O Universo de Cobra Norato e a Antropofagia, de
Lígia Morrone Averbuck, agosto 1987

Poré - o pai do raio, de Altino Berthier, março 1987


quinta-feira, maio 14, 2020

MOMENTO CULTURAL (1)



Recorte da capa do SLA consultado 
Passeando pelas páginas do Suplemento Literário Amazonas (SLA), órgão do Diário Oficial do Amazonas, integrantes da coletânea que circulou entre novembro de 1986-87, encontrei de dois saudosos amigos essas pérolas. A produção poética pertence a Luiz Bacellar e as ilustrações, do artista plástico Jorge Palheta.

O Suplemento foi uma iniciativa de Alencar e Silva, quando diretor da folha oficial. De circulação mensal, reproduzia trabalhos literários de diversos autores; creio que sem remuneração. Bacellar colaborou em apenas duas oportunidades. Quanto ao Palheta, foi mais constante, tanto que estou recolhendo sua contribuição para uma publicação no Blog.

Merece relembrar a direção do SLA: editor – Alencar e Silva / programador visual – Artur Engrácio / secretária – Maria Lindalva de Mello / comissão editorial – Jorge Tufic, Anísio Mello, Rita Alencar e Silva e Socorro Santiago.

Este material compartilhei do SLA de dezembro de 1986 (Ano I número II).



domingo, fevereiro 05, 2012

Talento de Jorge Palheta


Palheta na capa da revista Plus, desta data
Acompanhei com certa angústia a peleja do artista plástico Jorge Palheta pela sua saúde. E assisti como a saúde dele andava fragilizada. Ajudei naquilo que pude. Confesso, agora, que me parecia uma luta perdida.

Fui ver a “exposição” de seus quadros na loja Bemol, do Shopping Manauara; que tristeza, nas telas estava manifesta sua deficiência visual, sequer sua marca – Palheta – estava grafada com exatidão. Tudo estava anuviado, sinal da catarata em grave estado.

Aos poucos, ele foi melhorando, primeiro, recuperou a visão; e agora a vontade de pintar, de expor e vencer a disputa pela vida. Ao menos, esta é a sensação que me passa a publicação da revista Plus, encartada no Diário do Amazonas, de hoje.
Bastou-me observar a foto do Palheta, para me sentir contente com sua parcial, mas vibrante, recuperação.

Vida longa, camarada Palheta. Contato: (92) 3663-0397 / 8141-3307

domingo, agosto 07, 2011

EXPOSIÇÃO DE JORGE PALHETA

Ontem o jornal A Crítica divulgou a exposição Jorge Palheta: uma vida, uma arte. A mostra acontece em dependência da loja Bemol, situada no Manauara Shopping, e não tem data para terminar ou não foi anunciada pela reportagem. De qualquer sorte, fica o convite.

A Crítica, Manaus, 6 agosto 2011
O convite não é somente para ver, apreciar as cores vibrantes do Palheta, mas sim para adquirir as obras expostas, cuja arrecadação dará novo alento ao artista. Palheta vem lutando duramente contra doenças graves.

Os preços das telas variam de R$ 800, a R$ 1.500, para o tríptico intitulado Tambores de Ébano. E podem ser adquiridos diretamente com o artista pelos telefones (92) 3663-0397 e 8141-3307 ou em sua residência a rua Maués, 1120, bairro da Cachoeirinha.

Jorge da Silva Palheta nasceu em Manaus, no hospital Darcy Vargas, que funcionou no bairro de Educandos, em setembro de 1953.
Como desenhista publicitário, trabalhou na Oana Publicidades; J. Propaganda e Amazonas Publicidade. Na condição de desenhista técnico do Instituto Nacional de Pesquisas do Amazonas (INPA), efetuou ilustrações sobre peixes, aves, insetos, frutos regionais etc.

Em outra nuance de seu trabalho, ilustrou vários livros, talvez o mais destacado ou o mais volumoso seja Amazônia: um pouco antes e além depois, de Samuel Benchimol, cuja 2.ª edição saiu ano passado. Alinda deste autor, Palheta fez ilustrações para o Petróleo no Juruá e A Duodécada – reflexões e cenários amazônicos.

Igualmente produziu a capa e as ilustrações do Sermão da Selva, de Max Carphentier. E iustrou poemas expostos em jornais culturais, lembrando os poetas Anísio Mello, Duílio Gomes (Parábola do Roncador), Walmyr Ayala (Canto Amazônico), Maria José Hosannah (Tropel).

Enfim, quando da visita do papa Joao Paulo II a Manaus, em 1980, Palheta fez a doação ao Vaticano da tela Deus sobre a ecologia, tendo recebido agradecimentos assinados pelo cardeal E. Martines, secretário papal.

Agora, Palheta busca condições para curar os olhos, pois somente com este benefício pode prosseguir com seu trabalho, sua arte. Ainda há,todavia, a curar outras enfermidades, em síntese, Palheta pede socorro. 

segunda-feira, junho 20, 2011

Exposição: Legado de Anísio Mello

Anísio Mello (AM) no lápis do Palheta
Não consegui concretizar a exposição – Legado de Anísio Mello, já declarado em postagem anterior.

Por isso... Vou aproveitar este espaço para reproduzir algumas das obras que estariam na exposição. A partida será com as caricaturas de Anísio Mello, realizadas por alguns de seus amigos e frequentadores do Liceu de Artes Ester Mello, na av. Joaquim Nabuco.

O mais destacado, pelo número de produção é o artista plástico Jorge Palheta. Outros são os poetas Aureo Mello, Sérgio Pereira e J. Maciel e os internacionais: o chinês Fang, o boliviano T. e o peruano Maes.

AM visto pelo Palheta, 1986
AM pelo Palheta, 1986


AM pelo Palheta, 1986
AM no lápis do Palheta 1987



Anísio Mello por J. Maciel, 1982

Anísio por Aureo Mello, 1982

Anísio Melo por seu amigo Sérgio Pereira, 1991

Anísio Mello na pintura de Afranio Pires


Anísio visto por Fang, 1985