Ainda me impressiono
com textos sobre a tragédia canudense (1897), que atraiu a Força Policial
amazonense para aquela luta fratricida. Estudando o episódio, cheguei a Sena
Madureira (AC), que foi inaugurado com a presença de Candido José Mariano, condutor
da tropa contra os conselheiristas, e o segundo prefeito daquele município (1905-10).
Hoje esbarrei
com este trecho do falecido mestre Samuel Benchimol, componente de seu livro O
Romanceiro da batalha da borracha, inserido no Amazônia: um pouco-antes
e além-depois (1977), que bastante me comoveu. Detalhe importante: a
ilustração do livro foi feita pelo saudoso artista Jorge Palheta.
Dedico esta postagem
ao Isaac Melo, pela dedicação aos estudos da Amazônia.
 |
| Capa do livro de Benchimol |
(...) Um dos cortes psicológicos predominantes no
perfil do sertanejo feito imigrante é o destino. À primeira vista parecerá que
esta expressão não possui valor; mas, analisando bem, poderemos apanhar o
profundo interesse sociológico que ela contém. Todo imigrante tem um destino. E
acredita nele. Existe em função dele e não gosta de contrariá-lo. "Ninguém
esbarra o meu destino. Eu vou para o Acre". A frequência com que eu ouvi
dizer — "o meu destino é o Acre" — fez-me pensar até na existência de
uma espécie de messianismo sertanejo. Gostam de ver até onde o destino será capaz
de conduzi-los. Deixam-se levar por ele: "Eu tomei o bonde errado, agora
vou até o fim da linha. Eu sigo para o Acre mesmo".
A carga psicológica do destino talvez seja uma
sobrevivência mística do sertão. Mística e beata. Uma espécie de sebastianismo
messiânico, crendo, em vez do rei ou do Messias, no ouro-negro. O Acre tem
alguma coisa de Juazeiro e Canudos. |
Canudos na ilustração de Palheta |
De Plácido de Castra fizeram um arremedo de Antônio
Conselheiro e Padre Cícero. Repare-se, por exemplo, neste veterano da guerra do
Acre, Sérgio Bernardo Pinto: "Eu tenho honra em ser veterano do Acre.
Lutei com Plácido de Castro. Aquilo é que era homem de verdade".
Envolveram-lhe em lendas, até deram-lhe uma aparência sobrenatural, quase
divina: "A palavra dele era um tiro, parecia que ele tinha um imã dado
pela providência, para cativar a gente". Ele me disse que Plácido, ao
morrer, mandou arrancar o coração para fazer presente à sua noiva...
O Conselheiro era a mesma coisa. A sua palavra
também era um evangelho. Contagiava delírio na multidão beata. O Acre, assim,
tem de Juazeiro a fé no destino. O misticismo da riqueza, a esperança de
enricar, é uma tradução material da fé e do fanatismo. A seringa é a versão do
milagre. Em vez da reza, o tiro; da promessa, a pontaria. De Canudos ele tem a
reação violenta, audaciosa e única.
Plácido tinha, para isso, alguma coisa de bárbaro,
pelo menos assim esse cearense o interpreta: "Era um homem como poucos,
assisti ele mandar uma sentinela abrir a sua própria cova porque deixara passar
um boliviano pelo seu posto..." O Acre também veio do "tirocínio
brutal da fome, da sede, das fadigas, das angústias recalcadas, das misérias
fundas".
Por isso ele deve ser estudado em função desse
misticismo econômico que até hoje ainda não passou. "O Acre vai ser a
nossa salvação" — "eu vou ser feliz no Acre". "Aquilo é uma
terra santa", disse-me Sérgio Bernardo Pinto. O imigrante, portanto, não
largou essa fé no destino, ainda continua, dizendo: "O meu destino é o
Acre. Não quero contrariar o meu destino". Uma modalidade de fatalismo
aplicado na Amazônia. Não se pense que o sertanejo tenha entre nós abandonado
os seus caracteres conhecidos. Quando surge uma oportunidade, estes aparecem à
tona. O Acre é um desses casos. (...)
A ressureição sertaneja
acudindo à desilusão do cearense cansado. A procura do tempo perdido. O
arrependimento de uma vida atribulada. A volta ao campo de onde partira. A
roça, o galinheiro, o curral. A sua história termina assim: — "Minha
mulher morreu no Acre. Minha filha casou-se aqui. Eu estou só. Vou ver se o
Acre dá jeito. Se não der, não importa. Eu vim para enterrar os meus ossos nos
barrancos do Acre". A terra prometida irrompe, afinal, na psicologia do
seu destino: "O Acre é uma terra santa".