CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Amazônia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amazônia. Mostrar todas as postagens

sábado, outubro 10, 2026

PRINCÍPES JAPONESES EM MANAUS

Na comemoração do cinquentenário da imigração japonesa na Amazônia, estiveram em Manaus os príncipes herdeiros Akihito e Michiko, quando visitaram as colônias japonesas das rodovias AM-010 e AM-070. Era junho de 1978, e eu estava no comando da Companhia de Rádio Patrulha, por isso, fui incluído no forte esquema de segurança. Segui com a comitiva para a colônia no km. 14 da Manaus-Manacapuru, quando a viagem começava com a travessia por balsa até o porto de Cacau Pirera. Nunca esqueci a atitude de reverência prestada pelos japoneses mais idosos, sempre de cabeça baixa, sem olhar diretamente o príncipe. 

Recorte de A Crítica, 24 junho 1978


Com a preocupação de não serem divulgados os horários, o príncipe Akihito e a princesa Michiko do Japão iniciam às primeiras horas da tarde de hoje a última etapa da visita oficial ao Brasil, passando cerca de 20 horas em Manaus. A atividade mais demorada que os príncipes herdeiros deverão cumprir nesta capital será o encontro de 30 minutos com a comunidade japonesa no Parque de Exposição da Estrada “Manaus – Itacoatiara” à altura do km 14 ainda na tarde de hoje.

Akihito e Michiko estão sendo esperados procedentes de Belém com uma comitiva de 26 membros e um cuidado especial quanto ao esquema de segurança, principalmente durante o encontro com membros da colônia japonesa, quando a exemplo do que ocorreu em Salvador os príncipes podem ser tentados a quebrarem o protocolo.

De acordo com a programação elaborada eles recebem os cumprimentos ainda no aeroporto internacional “Eduardo Gomes” seguindo então para o Tropical Hotel, na praia da Ponta Negra e dali para o Palácio Rio Negro onde serão recebidos pelo governador Henoch Reis. Do Palácio seguem para o quilômetro 14 da estrada “Manaus-Itacoatiara”, onde está instalado o Parque de Exposição da Colônia Japonesa. À noite, Akihito e Michiko serão recepcionados pelo governo estadual com um jantar no Tropical Hotel.

Ali estão previstos dois pronunciamentos: o do governador Henoch Reis saudando os hóspedes reais e destacando a contribuição japonesa para o desenvolvimento da região; e do príncipe herdeiro do Japão. Amanhã está prevista uma visito ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia — INPA, onde os príncipes poderão tomar contato com as experiências realizadas pelos técnicos do órgão envolvendo aspectos peculiares da região tanto em fauna como em flora. O viveiro do peixe-boi, espécie em extinção, será a atração principal. Akihito e Michiko ainda retornem ao hotel para depois, então, dirigirem-se ao aeroporto partindo com destino aos Estados Unidos. 

Anúncio do BASA circulado no Jornal do Commercio,
25 junho 1978

 

sábado, fevereiro 15, 2025

ROTEIROS DA AMAZÔNIA - SAMUEL BENCHIMOL (2)

Roteiros da Amazônia do saudoso mestre emérito Samuel Isaac Benchimol (1923-2002) é o título da

Conferência pronunciada a 21-11-1941 na Faculdade de Direito do Recife, na recepção feita pelo Diretório Acadêmico a uma entusiástica embaixada de estudantes amazonenses.

Benchimol era então calouro na FDA (Faculdade de Direito do Amazonas) onde se graduou em 1945. Possuía, pois, 18 anos de idade. Selecionei trechos da conferência, concluindo nesta postagem, com transcrição na ortografia vigente.

 


IV - O DRAMA DA BORRACHA

A conquista do Oeste se processou ligada ao drama da borracha. Aonde estivesse a seringueira lá estava o nordestino a sangrá-la, desafiando os perigos enlouquecido pelo delírio que dele se apossara. As seringueiras seriam então os marcos de nossa fronteira, e se a expansão continuasse no mesmo ritmo os nossos limites se estenderiam a toda a raia gomífera porque ele não conhece obstáculos, arreda, transpõe, luta, mas acaba vencendo.

De pressa, bem cedo, lá se vai o garimpeiro da selva. Terçado na cintura, lamparina na cabeça, espingarda a tiracolo. Fome de borracha. Aqui e ali, vai sangrando a árvore mártir, cirurgindo o seu lenho com o bisturi impiedoso de sua profissão. Carniceiro da selva, bem diríamos nós. Nada o detém na sua fúria vandálica. Para frente, para cima, por aqui, por ali – só Deus sabe – caminhando sempre. A borracha dominou, absorveu, envolveu a Amazônia. Segurou os seus destinos e comunicou-lhe o triunfo de sua força elástica. Ainda hoje é “o sismógrafo de nossa vida econômica”.

A borracha cocainizou a Amazônia envolvendo-a na volúpia de sua prodigalidade e de seus esbanjamentos, sugestionando-lhe uma visão arrebatadora, dando-lhe uma época de fastígio e esplendor. (...)

... E depois. Seringais abandonados sepultando em suas ruínas a história daquela civilização e a memória daquelas tragédias que o tempo vai apagando. A selva eliminando o homem no torcicolo de suas emboscadas, apagando o rastro humano com a esponja dos galhos e das folhas. O homem fugindo, fugindo de si mesmo, perdendo terreno, voltando ao Nordeste. E o caboclo, velho e prudente, que não se deixara iludir pela aventura aurinegra ficou para contar às gerações que a conquista da Amazônia tem que ser penosa, lenta, tenaz. Muitas tentativas se farão, fracassadas umas, vitoriosas outras, até que os séculos amadureçam a Terra Imatura.

Nada nos detém no nosso propósito. Iremos para frente, venha o que vier, fincaremos pé naquelas paragens dando o exemplo ao Brasil de nossa persistência na conquista do Oeste. E quem passar por Manaus, verá, ainda, desafiando na sua imponência majestática a cólera divina, um templo grandioso – o Teatro Amazonas – que é a própria audácia do seringueiro transformada em pedra – a Necrópole da Borracha... 

V - A AMAZÔNIA EM MARCHA

Depois de seus dias de fastígio a Amazônia mergulhou num marasmo desconcertante e acabrunhador. Explorado apenas pela veia literária de escritores medíocres que a deturpavam ou pelos homens de gênio, cinzeladores exímios de suas belezas, que a endeusavam, a Amazônia retornou à bravia rudeza selvagem, debatendo-se angustiosamente, sufocando-se na mais tremenda crise de uma vida abandonada e anônima.

Dias de miséria aqueles da grande derrocada. Mas mesmo combalida, esquálida, maltrapilha, continuou de pé. Os anos passaram e assistiram a sua decadência. Quase que cessara a lacto-hemoptise de suas veias de seringa que, em outras eras, edificara a inacreditável civilização equatorial brasílica. A reconstrução começou, a volta aos seringais abandonados inicia-se com a recente imigração nordestina, a economia pulou da hegemonia heveense para a policultura em vias de organização. (...)  “Estamos na hora amazônica do Brasil” e caminhamos conduzidos pelo patriotismo de Álvaro Maia para as grandes altitudes e ensaiando o nosso voo largo rumo aos eternos e infinitos horizontes brasileiros.

E vivemos nós nesta embaixada de brasilidade amazônica para vos dizer que a Amazônia palpita convosco, pernambucanos, guiados pelo espirito condoreiro de Agamenon Magalhães. Que o Amazonas quer viver convosco, sentir a transformação da pátria engrandecida, tangida pelo surto de progresso da hora presente. Que o Amazonas vos abraça, pernambucanos, que destes o vosso sangue para a defesa do Brasil e para a conquista do Oeste amazônico. Que o Amazonas lá do alto do pico Roraima, sentinela avançada da soberania extremo-setentrional, vos saúda, pernambucanos, atalaias da ponta extremo leste brasileiro e num abraço simbólico deseja unir as duas grandes porções da nossa terra, traçando um diagonal de fraternidade e harmonia.

terça-feira, maio 28, 2024

NAVEGAÇÃO FLUVIAL NA AMAZÔNIA

 A maior rede de navegação a alcançar a Amazônia nacional e a Amazonia peruana (ao menos) foi realizada pelo SNAPP (Serviço de Navegação da Amazônia e de Administração do Porto do Pará) que, como indica a nomenclatura, estava sediado em Belém (PA). Seus navios de diversos calados frequentavam os rios mais destacados, como se pode concluir da leitura do anúncio aqui postado. Adiante, este serviço recebeu modernos navios fabricados na Holanda e, mais adiante, em 1967, mudou a denominação para ENASA (Empresa de Navegação da Amazônia SA), vindo a desaparecer.

Sede do SNAPP, em Belém, ainda existente

Anúncio retirado do Jornal do Commercio,
circulado em agosto de 1944.


sábado, fevereiro 03, 2018

GOVERNADOR DORVAL PORTO - 1930


No início de 1930, o gaúcho Dorval Pires Porto assumiu o governo do Estado do Amazonas, para o quadriênio seguinte. Todavia, seu mandato foi interrompido nove meses depois pelo Golpe de Estado, praticado por Getúlio Vargas, que assumiu a presidência da República. Coincidência, também gaúcho. A despeito da brevidade, seu nome segue batizando uma Escola Estadual, no bairro da Betânia.

Somente para relembrar saudosos partidários de Dorval Porto, que assumiram a gerência do Estado naquele ano, continuamente rememorado pela revolução getuliana, efetuo este compartilhamento.
A galeria foi copiada da revista Amazônia, de Carlos Mesquita, circulada em janeiro de 1930. Detalhe: todas as fotos trazem a marca do fotógrafo Gil, que deveria participar da direção da revista.





terça-feira, setembro 27, 2016

AMAZONAS, 1970

O AMAZONAS É ASSIM (*)
Capa da publicação

Vegetação

A ocorrência de uma densa cobertura florestal é o aspecto mais característico da Amazônia. Pelos limites exteriores da selva correm os limites da região natural. A mata amazônica, denominada "hileia" (Hyloea) por Humboldt, é a mais vasta floresta equatorial do mundo.

Vista de um avião, sua paisagem é de incrível monotonia. As copas das árvores, que se sucedem contínuas e de altura irregular, lembram a superfície de um colossal tapete verde-escuro, esponjoso, estendido até o horizonte, em todas as direções. Rasgões relativamente estreitos deixam apenas passar os rios, únicos caminhos por onde o homem pode esgueirar-se até o interior daquela compacta massa vegetal.

Vista desde o chão, porém, a uniformidade cede lugar a uma extrema variedade. Conforme o sítio em que se encontra, a floresta amazônica se subdivide em: mata de igapó, mata de várzea — que R. Rodrigues Lima ainda reparte em mata de várzea baixa e de várzea alta — e mata de terra firme. Cada uma delas tem um conjunto de plantas típicas, mas muitas espécies existem que crescem em várias formações.

Assim, a mata de igapó é muito rica em palmeiras, especialmente o jupati e o açaí; na mata da várzea vicejam em grande número a seringueira e a sumaúma, e a castanha-do-pará ergue-se dominadora em imensas extensões de mata de terra firme.
Quando uma estrada corta a mata virgem de terra firme – como a Manaus-Itacoatinga (sic), a Belém-Brasília ou a Brasília-Acre – pode-se observar com clareza a estrutura da hileia, a luta por um lugar ao sol e a adaptação dos indivíduos ao meio.

Os gigantes da mata são as árvores emergentes, com 35 metros ou mais de altura, que expandem suas copas por cima das demais, aqui e acolá, como ilhas num oceano revolto. Este oceano de verdura é formado pela abóbada foliar, entre 20 e 35 metros, onde, ao contrário, as copas das árvores se comprimem, alongando-se na direção vertical, em disputa da luz. Entre cinco e 20 metros, o andar arbóreo interior é constituído por árvores de troncos finos e poucas folhas que crescem à procura do nível superior da vegetação.

Rodovia Manaus-Porto Velho, 1970

Do solo até cinco metros, arbustos, samambaias e outras pequenas plantas formam o sub-bosque, cujas formas vegetativas são adaptadas à vida num ambiente de estufa morno, úmido e de penumbra. Muitas plantas deste andar têm folhas grandes, capazes de captar avidamente em seus estômagos a energia dos raros feixes de luz infiltrados através da verdura e que escorrem por suas pontas afiladas o excesso de água sobre elas acumulado.

A densidade vegetal da selva amazônica é ainda aumentada pelos cipós, pendentes das árvores mais altas e que ligam os diferentes andares; pelas epífitas, que crescem agarradas aos troncos e galhos das árvores, e pela infinidade de vegetais inferiores: os musgos, os líquens, os fungos, os cogumelos.

É uma ilusão de origem literária pensar que a hileia se apresenta, por toda parte, como uma floresta de folhas perenes. Certamente é a mata de várzea e, nas áreas de clima sempre úmido, como o do Alto Rio Negro, também a de terra firme. Nas partes onde a estação seca é pronunciada, entretanto, uma fração das árvores perde as folhas –particularmente as árvores emergentes – no auge da estiagem.

As raízes chatas, verticais e triangulares, chamadas "sapopembas", que apoiam como escoras certas árvores, dão uma impressão exagerada sobre a grossura das mesmas. Raríssimas devem ser aquelas cujos troncos, à altura do peito de um homem, alcançam dois metros de espessura. A natureza parece sugerir que a hileia é uma formação jovem, recém-instalada na Amazônia, fato que só pode ser comprovado, porém, através de um exame dendrológico sistemático ou do exame com carbono 14.

A complexidade da hileia tem chamado a atenção de muitos cientistas. Deffontaines informa, sobre este assunto, que, enquanto as florestas europeias, já meticulosamente estudadas, contêm 200 espécies arbóreas, na selva amazônica foram, até hoje, catalogadas mais de 400 árvores, e seu conhecimento completo está longe de ser atingido.

Tal riqueza botânica equivaleria a uma pobreza econômica, porque as florestas das zonas temperadas e frias, sendo mais homogêneas, permitiriam sua exploração a custo mais baixo, visto que as espécies de valor comercial se sucedem a pequena distância. A hileia já não é assim e a exploração dos seringais silvestres foi um exemplo disso. Mesmo nas concentrações naturais de hévea, no Acre e sudoeste do Amazonas, a distância a percorrer entre duas seringueiras mais próximas é da ordem de 300 metros, pelo menos.

Claro que tal condição é desfavorável à hileia para o extrativismo vegetal; contudo, nesta mesma forma econômica, a heterogeneidade da mata equatorial permite uma variedade muito maior de atividades extrativas que as florestas de coníferas.

A relativa dificuldade da produção coletora na selva amazônica reside sobretudo na falta de conhecimento empírico. No entanto, os caboclos da região sabem muito bem, por exemplo, que a castanha-do-pará se encontra, principalmente, no Médio Tocantins e no Itacaiúnas (Pará), bem como nos vales do Madeira e do Purus; que os vales seringueiros por excelência são os do Juruá, Purus e Madeira, e que as matas do Médio Araguaia são ricas em mogno.

Segundo assegura o prof. Lucio de Castro Soares, em seu livro Amazônia,    riquíssima em espécies botânicas, a hileia amazônica oferece quantidade incalculável de matérias-primas vegetais de grande valor industrial, algumas delas essenciais à  civilização moderna.

Dentre estas matérias-primas contam-se madeiras para todos os fins, óleos e resinas para a indústria de tintas, vernizes e lubrificantes; vários látex producentes de borracha; fibras; frutos alimentícios. 


A abundância de alimentos e de água na floresta amazônica sustenta variadíssima fauna terrestre e aquática, donde serem a caça e a pesca importantes fontes de riqueza da Amazônia.

(*) Almanaque Municipal Brasileiro, ref. ao Amazonas, 1970

domingo, setembro 04, 2016

CAPAS E ANÚNCIO DE REVISTAS







quarta-feira, outubro 15, 2014

ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA | 4



Alexandre Rodrigues Ferreira

Com esta postagem, encerro a publicação do texto sobre o cientista Alexandre Rodrigues Ferreira, de autoria do médico Alfredo Augusto da Matta, efetuada no Diário Oficial do Amazonas, de 7 de setembro de 1922 (1º centenário da Independência do Brasil).


O primeiro médico e naturalista brasileiro no Amazonas



Em 1842, e por ordem do Ministério do reino firmado por Antonio Bernardo da Costa Cabral, a Academia confiou os papéis, livros, mapas, desenhos, memórias, manuscritos e chapas de Alexandre R. Ferreira ao então ministro do Brasil em Portugal, Dr. Antonio Menezes de Vasconcelos Drumond, para – “serem enviados para o Brasil, e lá impressos por conta do governo brasileiro, depois do que deveriam ser restituídos ao Museu”.
O inventário, existente naquela Academia, reza a entrega de duzentos e cinquenta e nove trabalhos do inditoso baiano, conforme o recibo datado de 14 de janeiro de 1843.
Em diversos daqueles desenhos e chapas, destacam-se nítidos vários tipos de raças indígenas de antanho, com os nomes e as regiões, inclusive as do Amazonas. Assim os gentios de Aicurú, do rio Paraguai; Caraias, do Trombetas; Carapunas, que deveria ser Caripunas, das cachoeiras do rio Madeira, e das serras da margem ocidental do rio Yataqui; Manhas, do rio Cumiary; Miranha, do Solimões, entre os rios Japurá e Iça; Catauary, do rio Purus; Uariquena, das cachoeiras do Iaú, confluente do rio Negro; Mura, do rio Madeira; Cambeba, do rio Japurá; Curutús, do rio Apaporis; Uapixanas, das serras superiores do rio Branco...
Todos os desenhos, em grande parte devidos à competência profissional do Sr. Torres, companheiro de Ferreira em suas incursões, deveriam, e devem constituir verdadeira preciosidade em história etnográfica, porquanto referem-se a tribos hoje mui raras, ou extintas.
Nem todos esses desenhos foram, ou têm sido reproduzidos entre nós, com os relatórios respectivos, ao que me consta, nem muito menos foram dados à publicidade, desde aquela época e ano de 1843.
E por tudo isso, pela insídia e má vontade dos homens de seu tempo, e principalmente por ter estado “ao serviço de um governo em grande parte inepto”, e quiçá por negligência também de nossa gente do Brasil, teve o erudito baiano Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira a desdita de sábios estrangeiros usurparem o “justo e merecido galardão de seus sacrifícios e canseiras”, acrescidos da “indiferença, do desleixo e da inveja que tudo lhe arruinaram, até a própria saúde, como disse muito bem Matoso Santos, professor da Escola Politécnica de Lisboa, e quem melhor orientação me dispensou nas presentes linhas.
E eis porque Silvio Romero empós a frase – “Causa realmente pena a quem folheia os seus manuscritos, ver tanto esforço e tanta fadiga desperdiçados, esterilizados” – escreveu: “Fora do limitadíssimo círculo oficial de Lisboa ninguém sabia deles”, tudo “pela incúria do Governo que serviu um grande exemplo de trabalho nulificado!”
Ferreira “é uma curiosidade bibliográfica”, continuou Sílvio Romero, “porque o sábio brasileiro não pode ver os seus livros publicados fazerem o curso da Europa e, pelo menos, servirem de informação sobre a flora, a fauna, e a etnografia amazônica, tanto pior para ele; mas, antes e acima de tudo, tanto pior para nós. A história consignará ao menos que ele trabalhou...”
Mas, estes se esqueceram de apontar os principais motivos que isto determinaram, independentes todos da vontade de Ferreira.
De suas produções, assinalarei aqui as que tratam da —Propriedade e posse das terras do Cabo do Norte, com abundante documentação; A Constituição política dos índios, magnifico estudo analítico; Diário da viagem filosófica pela Capitania de S. José do Rio Negro, magistral memória, que deve sempre ser consultada pelos que estudam essa região; Descrição da gruta do Inferno em Cuiabá; Viagem à gruta das Onças; Observações gerais e particulares sobre os mamais nos territórios do Amazonas, rio Negro e Madeira; Memória histórica da ilha de Marajó; Memória sobre as tartarugas; Memória sobre as madeiras do Brasil; Participação geral do rio Negro e seu território; em sua maioria insertos na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.
Os trabalhos seguintes encontram-se nos Arquivos do Museu Nacional: Memória sobre o peixe Perá-Urucú (vol. XII, p.105, 1903); Memória sobre o peixe boi e o uso que lhe dão no Grão-Pará (vol. XII, p.169, 1903); Memória sobre Yuarete (vol. XII, p.181, 1903); A propósito de uma estampa representando um índio Cambeba (vol. XII, p.191, 1903); Febres da capitania de Mato Grosso (mandado imprimir pelo Dr. Martins Costa no Progresso Médico (vol. II, 1877).
Capa de livro sobre Alexandre Ferreira
O primeiro reconhecimento do beribéri no Brasil deve-se a Alexandre Ferreira, que, por esquisita probidade profissional, solicitara ao cirurgião Antonio José de Araújo Braga, aluno benemérito do Hospital S. José de Lisboa, lhe fornecesse elucidação e base para conferir as observações próprias com as de pessoa competente.
Em resposta, aquele cirurgião confirmou a existência daquela doença, declarando que a paralisia a que chamam beribéri, ou beriberium, acontece nesse país pela mesma causa e do mesmo modo que em Java (Afrânio Peixoto).
Concluindo as presentes notas, resta-me dizer que entristece nem sequer darem o merecido valor histórico aos esforços ingentes e à grande competência do Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, o médico naturalista brasileiro chefe da primeira missão científica ao Brasil Norte, em particular no território  do atual Estado do Amazonas, porquanto jamais deveríamos e devemos nos olvidar ter o nosso biografado desprendido o vagido inicial da vida nas majestosas e ridentes plagas de Santa Cruz, na cidade de Salvador, no nosso querido Brasil.



ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA | 3




Trata-se da terceira parte da publicação sobre o cientista Alexandre Rodrigues Ferreira, de autoria do saudoso médico Alfredo Augusto da Matta, efetuada no Diário Oficial do Estado, de 7 de setembro de 1922 (1º centenário da Independência do Brasil).

Recorte da publicação do Diário Oficial


Escreveu Sílvio Romero referindo-se ao nosso biografado: “Ao serviço de um governo em grande parte inepto, mesquinho, acumulou uma imensa rima de manuscritos que lá ficaram pelos arquivos para as traças, e os fatos novos, as descobertas importantes ali reunidas permaneceram como não existentes, e tiveram de ser produzidas de novo pela plêiade de viajantes estrangeiros que nos últimos cem anos têm percorrido as regiões amazônicas”.

Nem tanto assim, embora muitos exemplares do sábio Alexandre Ferreira glorificassem a estranhos, que jamais viram selvas, florestas e campinas da Amazônia. E jamais se deverá olvidar aquela atmosfera pressaga e de perenes indisposições, que envolveu o nosso biografado, devida principalmente a má vontade do naturalista Mattiosi, ajudante de Vanelli, e por sem dúvida mantida pela desafeição e hostilidades deste último quanto a Ferreira.

Visaram ambos contrariar e prejudicar sempre as justas e legitimas aspirações do malogrado naturalista, possuídos de um herbário o mais rico de espécimes do Brasil, a que se conjugavam numerosíssimos e raros tipos nos domínios da zoologia.
Reúnam a tais contrariedades, o enorme e incomparável desgosto moral que o acompanhava desde a chegada, qual túnica de Nesso, quando verificou a grande porção de exemplares, com desenhos e debuxos, dos reinos vegetal e animal da região amazonense, muitíssimos deteriorados, e todos confundidos atabalhoadamente no Gabinete da Ajuda, e não poucos sem etiquetas, ou trocadas!

“Acrescenta ainda a tradição, escreveu o célebre naturalista português conselheiro Dr. Barbosa du Bocage, que não fora isto efeito do acaso, ou de desleixo; mas obra requintada da mais ruim maldade, planeada e levada a execução por um empregado do Gabinete da Ajuda, a quem o ciúme dos talentos do nosso grande naturalista, e porventura a esperança de o desgostar prontamente de uma posição no Museu que ambicionava para si, inspirara essa torpíssima ação. Console-nos ao menos, se a tradição não mente, a certeza de que o autor de tamanha infâmia não era português”.
Mas o governo luso amparou semelhante proceder; e foi surdo a todos os rogos, e auxílios solicitados por Ferreira!

E tudo isso foi, e nem podia ser outra coisa, a resultante de manobras as mais pérfidas.
Tais ocorrências aniquilavam as potentes energias do sábio naturalista, para quem a sorte avara lhe tinha reservado golpe ainda mais cruel, quando, nas funções de ajudante do Gabinete da Ajuda (Dr. Vanelli), teve conhecimento, ou assistiu, por sem dúvida, a entrega do seu próprio herbário, com 1.114 exemplares que restavam, fruto de indigentes esforços seus, a um estrangeiro, ao célebre naturalista francês Geoffroy de Saint-Hilaire, em 1908, em obediência às ordens do general Junot.

Angústia suprema!!!  

Experimentou deste modo aquele homem forte e resoluto, intimorato e erudito, o mais violento e terrível dos golpes que o destino poderia lhe desferir, e que se não satisfizera com as contrariedades e óbices e decepções sofridas desde a sua chegada a Lisboa!
E a palavra autorizada de Barbosa du Bocage isso ainda mais comprova: “Desde que voltou ao reino, ou pouco depois, foi acometido de fatal melancolia, que inutilizou o seu vasto saber, e o lançou na sepultura em 1815, após longos anos de uma lenta agonia” – desenlace ocorrido no dia 23 de abril, aos 59 anos de idade.

Apesar desses contratempos e de tantas contrariedades, dos combates surdos e cheiros de perfídia, dessa teia que a inveja teceu e a maldade entreteve, parecia inesgotável o manancial em que abeberara o saber e se dessedentara o talento de Alexandre Rodrigues Ferreira!

E assim, aos 15 de julho daquele mesmo ano de 1815, a sua honrada viúva, D. Germana Pereira de Queiroz Ferreira, procedia ainda a entrega de manuscritos vários e todos os desenhos restantes ao então diretor do Gabinete da Ajuda, Dr. Felix de Avelar Brotero, o verdadeiro fundador das coisas da história natural, em terras lusitanas, e todos mandados ali arquivar pelo visconde de Santarém. Daquele Gabinete, foram removidos em 1836, com as demais coleções para a Academia Real de Ciências, de que era correspondente o nosso biografado, e ali conservadas cuidadosamente.
(segue)