CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, outubro 15, 2026

MEUS OITENTANOS (21)



Fascículo 21 

 1981

Ingressei naquele novo ano com a vida profissional em acentuado declínio, visto que, apesar de integrado numa seção do comando-geral, me encontrava no “corredor”, no jargão militar. E, na vida sentimental, ocorria outra turbulência. Fui transferido para os Bombeiros, porém, a maior complicação foi me desentender com o comandante-geral – coronel Wilson Raizer; o episódio mais grave foi minha presença na inauguração do quartel em Itacoatiara acompanhado de funcionárias civis. Em coisa nenhuma prosperou minha explicação: agi na condição de divorciado, disse-lhe; todavia, o comandante era evangélico convicto, por isso, não adiantaram minhas explicações. Outro disparate: Raizer costumava visitar a residência dos oficiais; quando comunicou a visita à minha família, reagi de forma descortês, ao cancelar a recepção alegando minha formação católica.  E mais. O inferno prosperava na Auditória, com a demanda que poderia me excluir da Polícia Militar. Para agravar, outra adversidade: a família de meu pai mudou-se da residência no Tiradentes para a rua Urucará, 1181-B, na Cachoeirinha, subúrbio com amplos recursos e ocupar uma casa que, apesar de geminada, dispunha de mais conforto. Intentei me manter na minha casa, para isso contratei alguns reparos, o principal foi a construção de mais um quarto, que não passou dos alicerces.

A bordo do catamarã, era
julho, e fazia friagem

Para usufruir as férias de julho, consegui com o governo passagens de barco para Tabatinga; segui em companhia do meu filho Roberto.  Saiu numa quarta-feira a excursão, que durou uma semana, pois era a viagem experimental do protótipo de embarcação, tipo catamarã, encomendado pelo governo Lindoso, e carecia conhecer o beiradão. Além da maleta, ao embarcar, reuni dois livros e os quatro jornais diários. Acomodado em um beliche, viajava com mais privacidade. E o catamarã subiu o rio Solimões, demorando-se em cada sede municipal, a fim de exibir a embarcação. A cada dia, após o café, com os mesmos jornais, me abancava na popa do barco, onde plagiava a leitura. Mas sempre se achegava um passageiro pedindo emprestado o jornal, para ler seu horóscopo; afastava-se sorridente com o diário, para logo voltar tristonho me recriminando pela desatualização do matutino. Passei aquela semana sem conhecer qualquer notícia do país, dada a inviabilidade de sintonizar o rádio – o único meio de comunicação – naquele fim de mundo.

Durante o trajeto conheci um negociante de Tabatinga que, muito prestativo, nos acolheu – a mim e meu filho Roberto – ao final da viagem. Ao atingir a cidade de Benjamin Constant, entrei em contato com a guarnição policial local, que me prestou uma acolhida calorosa. Afinal, na semana seguinte, ao atravessar o rio Solimões, desembarquei em Tabatinga. Decidi alcançar Iquitos, no Peru, na transição entre o Solimões e o Marañon – rio considerado a cabeceira do rio Amazonas – e consultei meu amigo, que me informou tratar-se de uma viagem efetuada apenas pela FAP (Força Aérea Peruana) em hidroavião. E me repassou instruções: não existe horário fixo – os voos chegam e partem imediatamente; o embarque ocorre no flutuante em Santa Rosa, já em território peruano na margem oposta; o pagamento é realizado nesse próprio flutuante e é obrigatório esperar ali pela chegada da aeronave. Enquanto aguardava o transporte, comi e bebi à vontade, como os demais passageiros. O avião chegou cerca das quatro horas da tarde, o embarque foi rápido e, após a decolagem, a tripulação informou ser impossível chegar em Iquitos. No ar, começou nova aventura para eu alcançar a pátria de meus antecessores peruanos. 

Roberto filho (à esq.) na travessia de Benjamin
Constant para Tabatinga, com direito à "segurança"

    O problema não estava em alcançar Iquitos, mas na proibição de aquela aeronave pousar – única alternativa – no lago Moronacocha, em razão da cor escura da sua superfície; o toque era autorizado até às dezessete horas, informou a tripulação. No entanto, passageiros brasileiros, estimulados pelos aperitivos, tentaram subornar aos militares, oferecendo uma contribuição coletiva. Nada feito. Pouco depois o avião aterrissou no leito do rio Marañón, próximo ao ancoradouro de um pelotão do Exército, que nos conduziu de lancha até a cidade de Pebas, então um lugarejo “perdido na selva”, desprovido de local para acomodar aproximadamente vinte passageiros e, para resumir a penúria, a energia elétrica foi desligada às 22 horas. Dormi bem, em razão do meu estado etílico e do silêncio que tomou a cidade; não reclamei do colchão, nem das carapanãs (mosquitos). De manhã, fui cobrado pela hospedagem; felizmente o cruzeiro (moeda brasileira) estava valendo bastante no câmbio. Até paguei a parte de um brasileiro que – sem grana – seguia a Iquitos para “aventurar a vida”. Enfim, cerca das 10 horas, o hidroavião de fabricação canadense me apresentou à cidade dos meus precursores.

quinta-feira, agosto 20, 2026

PRIMEIRA VIGEM AO PERU

Aproveitei as férias de julho de 1981, para viajar a Iquitos, no Peru, terra natal de meu pai. À época, José Lindoso exercia o cargo de governador do Estado e recebera um protótipo de barco – um catamarã – para emprego na região.  Como a viagem inaugural subiria o rio Solimões, vivenciei a prova de funcionamento. Parti de Manaus numa quarta-feira e só desembarquei na semana seguinte; sem recursos de comunicação, levei a semana sem qualquer notícia sobre o restante do país.

Autor no Callao - Peru, em julho de 1981

Em Tabatinga, procurei informações sobre a viagem até Iquitos; além do serviço aéreo da Cruzeiro do Sul, existia um hidroavião da FAP (Força Aérea Peruana), cujo atrativo era o preço da passagem.  Na margem peruana, o hidroavião embarcava os passageiros junto a um flutuante, onde também se comprava a passagem. Sem horário fixo, passei a tarde aguardando e tomando “umas e outras”. Por razões logísticas, o avião pousou num pelotão militar próximo à cidade de Pebas, onde pernoitei. Na manhã seguinte, desembarquei em Iquitos, sendo calorosamente recebido pelos familiares.

A família de tia Laura e filhos e nora na recepção,
em Iquitos, julho de 1981

Queria ir mais longe: a ida e volta à capital Lima foi encaminhada pelo parente Miranda, funcionário da Cruzeiro, que me adquiriu passagem como se fosse nacional. Em 26 de julho, embarquei em um DC-3 ou 4 da Faucett Perú, no aeroporto – Francisco Secada Vignetta, inaugurado em 1979; assentado à janela observei a mudança da selva amazônica para os picos nublados dos Andes e, por fim, as ondas do Pacifico. Um amigo da família me recepcionou no aeroporto Jorge Chavez, na província do Callao.

Avião da Faucett Peru, no aeroporto de Iquitos,
em 26 julho 1981.

Celebrei as “Festas Patrias” em Lima, junto aos amigos da família, ocasião em que visitei as principais atrações turísticas. No retorno a Iquitos, ainda pela Faucett Perú, fui assediado no aeroporto por inúmeras pessoas pedindo para levar uma “encomenda”. Lembrando a recomendação do Miranda: nada de transportar pacotes. Assim fiz. Em Iquitos, tomei passagem na Cruzeiro para Manaus, cujo voo fazia escala em Tabatinga e Tefé. Somente voltei a Iquitos em 2015.

terça-feira, agosto 04, 2026

AEROPORTO DE TABATINGA

 Há 50 anos (2 de agosto de 1976), a Comara concluiu a construção do aeroporto de Tabatinga (AM); na ocasião, o Boeing da Cruzeiro do Sul fez a inauguração da pista. Até então, o pouso era efetuado em Letícia (Colômbia), que implicava mais custos aos passageiros, como taxa de embarque e transporte para o município brasileiro. Aquele voo, desde 1965, era operado pela Cruzeiro entre Manaus e Iquitos (Peru). Em 1981, tomei esse voo em Iquitos, ao visitar os parentes naquela cidade, escalando em Tabatinga e Tefé, antes de desembarcar em Manaus. Poucos anos depois, esse voo foi suprimido. 

Recorte do jornal A Crítica, 02 agosto 1976
(acima e abaixo)

Desde ontem, os aparelhos “Boeings”, da Cruzeiro, estão fazendo escala em Tabatinga,             pouso este que há 11 anos vinha sendo feito em Letícia, na Colômbia, fronteira com o             Brasil. O pouso pioneiro do “Boeing” ocorreu às 11 horas, quando uma comitiva de                 autoridades convidadas pela diretoria da Cruzeiro do Sul se fez presente àquela viagem.

A chegada do aparelho em Letícia (?) foi festiva, e a multidão superlotou todas as dependências daquele campo de aviação, construído pela Comara, com o apoio do Exército, através do Comando de Fronteira do Solimões. As autoridades, ao desembarcarem do “Boeing”, foram cumprimentadas pelo Comando do CF-SOL e por diversas outras autoridades presentes ao aeroporto. 

Viagem

O “Boeing 737”, de prefixo PP-CJN, partiu de Manaus por volta das 9 horas e 30 minutos, levando passageiros comuns da rota, autoridades civis e militares convidadas pela diretoria da Cruzeiro do Sul, como o coronel Alfredo Menescal, comandante da Base Aérea de Manaus, o coronel João Baptista Storino, diretor da INFRAERO; Dr. Lauro Gedeão, delegado da Receita Federal; Walmores Barbosa, superintendente da Polícia Federal, todos acompanhados de suas respectivas mulheres. O Comando Militar da Amazônia se fez representar por uma comitiva de oficiais superiores, o coronel Saraiva — do Serviço Militar; tenente-coronel Salvio — da 3ª Seção; tenente-coronel Lisboa da 6ª Seção; tenente-coronel Araripe — comando do QG e o coronel Walmir — Ajudante-Geral. Representando a imprensa amazonense, foram os jornalistas Mário Jorge Costa (A Crítica), Epaminondas Barahuna (J. Comércio) e Maria de Lourdes Archer Pinto (O Jornal).

Após os cumprimentos iniciais no aeroporto de Tabatinga, a comitiva chefiada pelo agente local da Cruzeiro do Sul, Sr. Ítalo Bianco, deslocou-se até à sede do Círculo Militar de Tabatinga, onde foi oferecido um coquetel. Enquanto o aparelho seguiu a viagem de rota para Iquitos, e no seu retorno apanhou a comitiva chegando a Manaus por volta das 17 horas.

quinta-feira, setembro 15, 2016

CATALINA DA FAB

O Catalina era um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), que operou nos primórdios da instalação dessa Força nessa região, quando o interior assistia ao pouso desta aeronave nos rios e seus afluentes. Deve ter operado até a década de 1970.
Tive a ventura de viajar uma única vez em um Catalina, na rota Belém-Altamira, já se vão mais de 40 anos. Diante de tantos recursos de transporte existentes, confesso, havia esquecido dessa aventura e do Catalina.


Remexendo no Almanaque Municipal Brasileiro (post anterior), nele encontrei, e o transcrevo como homenagem a esse meio de transporte que prestou enorme contribuição a região, como se pode ver pela leitura. Não há indicação do autor, mas creio que foi publicado no extinto jornal Província do Pará.


CATALINA, o “burro de carga da Amazônia”

Em outubro de 1969, o jornalista de A Província do Pará, Pedro Tupinambá, escreveu uma reportagem sob o título acima. Expressiva, real, oportuna, porque ninguém há de ignorar que, efetivamente, o Catalina foi o grande desbravador da Amazônia.

– Se o Douglas é o "cavalo dos céus", como afirmamos em crônica publicada em 1966 – diz Pedro Tupinambá – o Catalina é o "burro de carga da Amazônia", onde as estradas se contam nos dedos da mão, e nos rios – vias líquidas de comunicação – escasseiam as embarcações.

O Catalina, também chamado de "pata choca", relevantes serviços tem prestado ao setentrião e podemos dizer com convicção: é um dos fatores de progresso e desbravamento desta imensa região. Cruzando os céus da planície, ora pousando n’água, ora em terra, ele enfrenta as tempestades ou os rabos de CB com heroísmo e galhardia, pois sabe que de si dependem muitos fatores ligados à sobrevivência na selva amazônica, onde os núcleos populacionais são ilhas perdidas no mar verde.

Há vinte e tantos anos ele tomou a si esse encargo e jamais dele se esquivou ou procurou correr da raia.

Na sua marcha lenta, bem simbolizando o lema do [então] 1°/2° GAV sediado em Belém – "Devagar, mas chego lá" –, lembra uma gigantesca tartaruga voadora, deslocando-se pesadamente pra lá e pra cá, a conduzir padres e freiras, pastores protestantes e irmãs de caridade, militares e arigós, índios e caboclos, pequenos comerciantes e funcionários públicos, magistrados e prefeitos, igualando em seu bojo todas as profissões e cores, credos religiosos e castas sociais, num autêntico desafio aos preconceitos humanos.

Em seus bancos sentam-se, lado a lado, o general e o soldado, o pé-rapado e o secretário de Estado, a madre-superiora e a mulher do povo, o prelado e o ateu.

– E a sua carga, qual é?

Desde a maleta grã-fina, último modelo, ao fardo de charque ou pirarucu, do caixote mal pregado, com gêneros, à gaiola de passarinho; sacos, sacolas, saquinhos, amarrados, caixas de papelão com medicamentos, malas de madeira de todos os tamanhos e feitios; da pele de borracha ou sernambi ao paneiro de farinha ou castanha; do engradado com peças e apetrechos, do saco de farinha de trigo ou açúcar com bugigangas; do tambor de óleo ou gasolina à caixa de ferramentas; dos sacos de lona de EBCT aos papagaios, periquitos, tucanos, araras, tartarugas, tracajás etc.

Em seu interior mistura-se o odor gostoso das madeiras regionais ao cheiro sui generis do pirarucu seco, dos perfumes das ervas aos vapores enjoativos da gasolina.

Quando chega em certos lugares, parece uma arca de Noé, tal a variedade de bichos que transporta.

Muitos têm se arrebentado por aí, menos por culpa sua, do que por outras causas.
Às vezes, na decolagem, quando está muito carregado, ele padece para sair da pista, roncando que nem um animal ferido.

Nas úmidas madrugadas ou nas auroras magníficas, o Catalina parte para suas missões, muita vez com sacrifícios inauditos, para cumprir as rotas dos rios Negro, Solimões, Tirós [sic], Cururu, Purus e Madeira, levando em suas asas (que ostentam a estrela brasileira e as letras da FAB) uma mensagem de civilização e carinho, aos nossos queridos irmãos espalhados pelos quadrantes longínquos da hinterlândia.


A tropa do Exército destacada em Tabatinga, em tempos idos, cantava à chegada do Catalina o "Hino da Pata Choca", acompanhada por uma charanga, a refletir seu reconhecimento e alegria pela volta, sempre ansiosamente aguardada, do avião da FAB àquelas plagas remotas. Era um dia de festas!

As irmãs de caridade do Rio Negro criaram um slogan: "A FAB é nossa". A FAB, na realidade, é das freiras e dos padres, é dos índios e dos caboclos, é de toda a gente deste Brasil imenso, rico e generoso.

Utilizado também no transporte de tropas armadas, de delegações estudantis ou esportivas, o Catalina é pau pra toda obra, incansável no seu mister patriótico ajudando a levar pra frente este gigante que é o Brasil.

Merecedor de nossa estima e gratidão, bem merece um monumento em praça pública, a atestar às gerações futuras o seu trabalho hercúleo e nobre, valioso e heroico. 

sábado, julho 04, 2015

HISTÓRIA DA POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS

Antigo brasão da corporação, circulado
nas festas de 1991 

 A transcrição do relatório abaixo ilumina mais uma etapa da história amazonense. Lance já esquecido, pela trivialidade de sua origem e, pior ainda, pela maneira como se disseminou. Nele, contudo, se pode observar a participação contundente da Polícia Militar do Amazonas (PMAM) em um episódio que fermentou a vida político-militar, na primeira década do século passado.

O motivo para tanta movimentação deveu-se a suposta prisão de dois magistrados amazonenses por um oficial do Exército do Peru, servindo na fronteira estabelecida pelo rio Solimões.

Uma busca em periódico da época, permitiu-me recolher as legítimas razões do episódio. Um episódio bem burlesco, que postarei em breve. 

Regimento Militar do Estado,

Manaus, 28 de dezembro de 1907

Ao senhor coronel

Antonio Emídio Pinheiro,

digníssimo comandante-geral do Regimento.

 

RELATÓRIO (*)

Em cumprimento a obrigação regulamentar venho com subida satisfação apresentar a vossa senhoria o relatório dos fatos ocorridos no alto desempenho de cargo com que fui distinguido e honrado, de comandante das forças do Estado em expedição à Tabatinga. Um traço de desacato e sangue à dignidade e bandeira motivou a expedição deste Regimento que, como todos supunham, iria logo enfrentar e castigar o estrangeiro ousado que tentara invadir o território deste Estado. A não ser, entretanto, a prisão de dois magistrados brasileiros que tanto exaltou o espírito público, porém medida estritamente policial e jurídica, perfeitamente compatível ao direito daquele País aonde se achavam na ocasião as referidas autoridades brasileiras, nada ocorreu nas fronteiras que justificasse qualquer desacato aos nossos brios de nação soberana e independente.
O Forte de Tabatinga (se é que à essa velharia descampada pode-se dar o nome de forte) lá está, como sempre, incólume e ocupado pelas forças do nosso exército, assinalando a sua existência apenas o pavilhão auriverde que no local tremula desfraldado ao vento para asseverar o domínio da República Brasileira naquelas regiões inóspitas e desabitadas. A suposta invasão de Tabatinga foi filha de um cérebro doentio atacado no momento de delírio febril. É esta a opinião mais corrente. 
Feitas estas considerações gerais que a suposta invasão territorial motivou, restringir-me-ei a narrar perfunctoriamente os fatos ocorridos com a força sob meu comando, desde a partida desta cidade até a nossa feliz chegada: De ordem do excelentíssimo senhor doutor Antonio Constantino Nery, então governador de Estado, a mim transmitida por vossa senhoria no dia dez de novembro deste ano, foi-me, por bondade vossa, confiado o comando de uma força de 100 praças, dois capitães e quatro alferes e um médico; desvanecendo-me sobremodo a vossa gentileza, agradeço-vos a minha escolha.
A presteza com que foi cumprida a ordem do excelentíssimo senhor doutor governador exultou de modo a nossa corporação a testemunha tão palpável da sua boa organização que não pude resistir a justa vaidade de consagrá-la neste relatório. 
Foi o dia treze de novembro uma verdadeira balburdia festiva no quartel do Regimento um torvelinho afanoso; oficiais e praças iam e vinham de um para outro lado do edifício fazendo os últimos preparativos para o embarque que na tarde daquele mesmo dia ir ter lugar. 
As quatro horas da tarde do dia treze de novembro, sob as vistas do excelentíssimo senhor doutor governador do Estado e de vossa senhoria, assim como das demais autoridades superiores do Regimento, embarcou o contingente em boas condições e ordem, pois assim permitiu a disciplina e ordem que tendes sabido implantar. Durante a viagem até Esperança [Benjamin Constant], lugar que, como sabe vossa senhoria, devia acantonar a força do Estado, tudo correria plenamente bem se no dia dezoito de novembro o estado de saúde do distinto médico doutor Zeferino Rodrigues, não se alterasse a ponto de nos causar sérios receios. Felizmente ao chegarmos no lugar aonde devíamos acantonar, para felicidade do contingente, o digno facultativo experimentou sensíveis melhoras, podendo em alguns dias restabelecer-se. 
O desembarque em Esperança foi feito na melhor ordem, porém ficaríamos sem abrigo se a generosidade do escrivão da mesa de rendas federal, senhor João Vieira de Freitas, não o obrigasse a ceder-nos o seu aposento particular até que pudéssemos construir barracas senão bastante confortáveis, mas que pudessem abrigar o pessoal do contingente. Para esse fim incumbi o senhor alferes Sérgio Rodrigues Pessoa Filho, do que deu satisfatório cumprimento. Vencidas essas primeiras dificuldades, tivemos mais tarde que nos haver com outras; assim é que do dia primeiro de dezembro em diante começaram a adoecer praças, chegando a estar no hospital vinte quatro doentes o que trouxe grandes apreensões ao médico do contingente e a mim, pois na ambulância não havia certos medicamentos necessários e eficazes para debelar o mal, e demais não havia no rancho que levamos alimentação leve prescrita, muita vez, atendendo ao estado grave do doente, pelo doutor Zeferino. Faltas essas que me obrigaram a, por mais de uma vez, despender do dinheiro que levei para suprir outras necessidades, a fim de com ele comprar esta ou aquela alimentação que exigia o estado grave do doente.
A disciplina e ordem ter-se-ia conservado incólume se na noite de seis para sete de dezembro eu não tivesse que lamentar o triste fato que já vos comuniquei, em ofício de nove do mesmo mês; apesar disso, ela foi logo restabelecida com a prisão do soldado perturbador da ordem. No dia quinze de dezembro chegou às minhas mãos o ofício no qual vossa senhoria determinava o regresso do contingente sob o meu com mando à esta capital; em obediência ao determinado no ofício, procurei cumprir o mais breve possível.
Assim, pois, como o comandante portador do ofício não levasse instruções certas, ser neste ou naquele navio o embarque do pessoal, resolvi reconhecendo a urgente necessidade de oficiais e praças para o serviço desta capital, embarcar no primeiro vapor que por ali passasse. Aproveitei por isso, a chegada do vapor “Virginia”, que por singular coincidência fora o mesmo que nos conduzira a Esperança, e ser este o primeiro vapor que por ali passava para, de acordo com o Sr. tenente-coronel José Lauriano da Costa, fazer o embarque do pessoal do contingente requisitar as respectivas passagens as quais foram requisitadas por conta do Ministério da Guerra.
Embarcadas as forças sem que houvesse caso algum anormal, chegamos a esta cidade no dia vinte e três de dezembro, fazendo-se o desembarque no dia vinte e quatro às sete horas da manhã, sob as vistas de vossa senhoria e demais autoridades superiores do Regimento. 
Antes de terminar o presente relatório devo testemunhar a minha gratidão e não poupar elogios ao comandante e mais oficiais vapor “Virginia” pelo desvelo com que cuidaram não só dos oficiais como das praças do contingente. 
Como havia vossa senhoria determinado a ida do senhor capitão Serafim Leopoldino de Carvalho para Benjamim Constant, em ofício número seiscentos e setenta e cinco, de treze de novembro, para lá seguiu esse senhor oficial com um destacamento de dez praças e 500 cartuchos, conforme já vos comuniquei em ofício de vinte e cinco do referido mês de novembro. Tendo eu que regressar a esta cidade com o contingente e como sobrassem ainda bastantes gêneros e fosse penoso o seu desembarque, resolvi lá vender uma parte, apurando na venda novecentos e oitenta e três mil e quinhentos réis, assim como também deixei em mão do senhor João Vieira de Freitas, escrivão da Mesa de Rendas Federais, trinta e quatro alqueires de farinha e trouxe o restante dos gêneros para esta capital, cuja relação acompanha este relatório. 
Por conta do segundo-sargento Tristão Cavalcante Melo, soldado José Justino da Silva, do segundo batalhão, e Severino Pereira da Paixão e Joaquim Eleutério de Sant'Ana, requisitei quatro passagens para as suas mulheres, cujo pagamento peço-vos ordeneis ao Sr. A. Pacheco comandante do vapor “Virginia”. 
E' um dever que cumpro em nas raias do presente relatório manifestar a minha satisfação, pelo modo digno e correto com que se mostrou o Dr. Zeferino Rodrigues. No lamentável fato de seis para sete de dezembro, infelizmente foram feridas três praças, sendo ao soldado do segundo batalhão Manoel Francisco do Nascimento necessária a intervenção cirúrgica. Apesar de estar ainda em convalescença prontificou-se a fazê-la o capitão doutor Zeferino Rodrigues, que fez com grande proficiência e zelo, enchendo o operado de tais confortos que já se acha quase restabelecido. Uma úlcera de caráter sifilítico manifestou-se no antebraço do soldado do 1º Batalhão Arthur José dos Santos, agravando-se de dia para dia, procurando o doente sempre escondê-la do médico. Essa incúria deu lugar a que se tornasse imprescindível por parte do médico intervir com a sua alta perícia cirúrgica, para conseguir debelar o mal visto já estar interessado osso, havendo nele um princípio de cárie que forçava a curetagem; a operação foi feita com tal perícia que o mal foi logo debelado. 
Apesar de terem ido ao hospital 24 homens, não tive que lastimar um só óbito graças a abnegação do ilustre médico. 
Devo também não poupar elogios aos meus companheiros de jornada por serem dignos deles; sinto-me orgulhoso de ter visto em todo eles uns moços cujo o caráter e zelo põe-nos à altura daqueles que se recomendam pela correção de suas ações. Cumpre-me em dentre eles enaltecer o brilho e zelo com que se houve o senhor capitão Antonio José Guimarães, como meu auxiliar imediato; sempre zeloso auxiliou-me para que a ordem fosse bem observada e, aos senhores alferes Sergio Rodrigues Pessoa Filho, Henrique Marques Pereira, Antonio Pereira da Costa e Manoel Bastos da Gama, oficiais zelosos e retos no cumprimento de seus deveres e todos em geral moços que com dignidade envergam a farda de oficiais do Regimento Militar do Estado. 
Entre as minhas muitas satisfações ainda tenho que salientar a não deserção de uma só praça; ao contrário, apresentou-se o soldado desertado que já vos cientifiquei em ofício de dezessete de novembro, sendo na ocasião preso. Devo dizer-vos que esse soldado prestou os mais inolvidáveis serviços a todo o contingente. 
Em suma, durante a minha estadia em Esperança, digo-vos satisfeito, que nunca veio uma só pessoa à minha presença queixar-se de um leve desrespeito por parte dos oficiais ou praças, fato este que ainda mais eleva o Regimento e mostra o empenho com que tendes sabido consagrar o tradicional nome do Regimento que criteriosamente dirigis. Junto remeto-vos as relações de alterações dos senhores oficiais e praças e mais papéis concernentes ao contingente. 
Saúdo-vos.

          Adolfo Cavalcante, tenente-coronel graduado.       


(*)  Extraído do Diário Oficial do Amazonas, 11  de janeiro de 1908

sábado, novembro 17, 2012

MUNICÍPIOS SEM BOMBEIROS

Capacetes usados no Corpo de Bombeiros
Militar do Amazonas
Assumo de antemão que o tema e parte do texto foram colados da revista Incêndio (ano XIV, agosto 2012, nº 85). O objetivo do periódico é divulgar alguns projetos, visando superar essa deficiência, a falta desse serviço especializado em mais de noventa por cento dos municípios brasileiros.

Para ilustrar essa questão tão alarmante, exponho quatro dados: 1) o Brasil possui 5.564 municípios, “cerca de 4.900 não possuem unidades do Corpo de Bombeiros Militar”; 2) o estado de Minas Gerais, o mais dotado de municípios, repartido em 843 destes, “apenas  44 possuem quartel do Corpo de Bombeiros”; 3) na Bahia, “os bombeiros estão presentes em somente 13 de seus 417 municípios”; e 4) o maior estado da Federação, o Amazonas, possui um número reduzidíssimo de municípios, solamente  61 e, destes, apenas 5 (Itacoatiara, Parintins, Manacapuru, Tefé e Tabatinga, os dois últimos em função do aeroporto) cobertos pelo serviço dos Bombeiros.
 
Quartel central dos Bombeiros do Amazonas, desde 1974
Lição ligeira de estatística nos permite afirmar que os índices estão próximos, em qualquer unidade federativa a escassez  de Bombeiros é mais que um desafio. Para superá-lo, o coronel Carlos Eduardo Casa Nova, presidente da Liga Nacional dos Bombeiros (Ligabom), sugere algumas fórmulas na parceria entre Estados e municípios.

Outra observação plausível é de que há municípios pobres e ricos. Para estes, é fácil apresentar soluções, sempre, porém, contando com ajuda estadual.  Duas propostas: “bombeiros civis voluntários” ou “bombeiros civis municipais”, ambos desvinculados da Polícia Militar. Alguns desses exemplos já funcionam todos no Sul.

O presidente da Ligabom ainda indica que existem “os quartéis mistos”. Nesse caso, os municipais são contratados como funcionários públicos, mas treinados por oficial ou sargento dos bombeiros militares. Em resumo, a prefeitura paga a folha de pagamento e o estado fornece viaturas e equipamentos.

Para os menos privilegiados, além dos modelos citados, há os “chamados consórcios de cidades”. Nesse caso, “grupos de municípios unem esforços” para a efetivação desse serviço. Ligados no objetivo, os municípios rateiam os custos e, novamente, o Estado fornece os equipamentos e veículos. Também exemplos desse quesito podem ser encontrados no Leste e no Sul. Tal não pode acontecer no Amazonas, porque os municípios da região encontram-se na beira de barrancos, portanto, absolutamente isolados.  

Da mesma revista transcrevo o texto abaixo, que me parece completar o exposto na ideia central, a superação da escassez de bombeiros.  Intitulada Bombeiros Voluntários, informa que, depois de quatro meses de discussão, a Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 001/2012, que permite aos municípios firmar convênios com os bombeiros voluntários para a realização de serviços de vistoria e fiscalização de obras. Com a aprovação, as associações de
bombeiros voluntários criadas até maio deste ano estão aptas a firmar convênios com prefeituras catarinenses para a fiscalização de projetos, edificações, obras e certificação.