CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sexta-feira, janeiro 19, 2024

DIÁRIO OFICIAL TAMBÉM ERA POESIA

 Em nossos dias, o órgão oficial do Estado é um maçante desfilar de exclusivas decisões dos Poderes Estaduais. Nem sempre foi assim. Na década de 1980, o DOE encartava um caderno literário, como o recorte que aqui vai publicado. A página trazia um poema do saudoso poeta Alcides Werk (1934-2003), ilustrado pelo artista Van Pereira.


O poema vai transcrito abaixo:

NA PRAIA DA PONTA NEGRA

Alcides Werk

Às vezes tenho vontade

de andar de jeans, ser moderno,

fazer versos esquisitos,

gerar palavras estranhas,

somar asfalto com lua,

misturar brigas de rua com rosa, com cal e mar.

Mas, quando te sonho nua

na Praia da Ponta Negra,

com gestos de pré-amar,

todo o meu ser se acomoda,

e eu volto a ver-me menino

que sonhara ser poeta

em noites de romantismo,

e, conquistado, me esqueço

das conquistas que faria:

minha alma mansa flutua

nas águas pretas do rio

e esvoaça sobre a tua

como um pássaro no cio...

 

Ilustração – Van Pereira

domingo, abril 11, 2021

POESIA NA PANDEMIA

Me desculpem os cultores desta arte. Todavia, acabo de ler os Estudos do mestre Tenório Telles sobre o assunto, daí talvez esse meu capricho. Lembrando que enquanto catava papeis nos jornais de Manaus, recolhi um sem-número de poemas de abalizados e de anódinos poetas. 

Explico o fundamento: era costume na imprensa de anteontem a abertura de suas páginas para esse tipo de destreza intelectual. Em datas mais afetivas (Dia das Mães e dos Pais, festividades religiosas e patrióticas) a contribuição se aprofundava. Em cada periódico, uma coluna literária. Nesta postagem recolhi de O Jornal e do Jornal do Commercio.

Desse modo, seguem duas contribuições, esperando que nos distraia nesse tempo de ira e ranger de dentes. Mas, de Páscoa, aleluia!


Circulado em O Jornal, 29 julho 1956 

 Em noite de tufão, o mar raivoso

Embate as ondas no rochedo bruto.

Embalde o leme, o timoneiro astuto,

E sucumbe o batel leve e formoso.

          Amaina a tempestade, o vento iroso;

          O mar, com pena, cobre-se de luto,

          E num lamento triste e ininterrupto,

          Carpe o destino do batel, choroso.

Assim, minha alma, cheia de vaidade,

Cometeu a sublime crueldade

De fazer naufragar o nosso amor.

          Enquanto o sentimento me entristece,

          E o coração ingênuo não te esquece,

Tento afogar em versos minha dor!

  

Circulado em Jornal do Commercio, 25 abril 1958

Sempre ouvira falar da felicidade

Qual meiga fada para mim desconhecida.

Então parti a procurá-la pela vida

Com ardente desejo, com imensa vontade.

Busquei-a nos brilhantes píncaros da glória,

No deslumbrar das riquezas a ela não vi,

Nas ilusões fugazes busquei com frenesi,

Ainda nos triunfos não logrei vitória.

Onde está a felicidade que procuro?

Em vão meu peito fraco e inseguro,

Clamou por ela sem poder a encontrar.

Por fim, cansada voltei desiludida

E na humildade do meu ponto de partida,

A felicidade veio-me abraçar.

segunda-feira, março 19, 2018

MOBRAL: DETALHES


O Governo Militar (1964-85) criou o Movimento Brasileiro de Alfabetização, mais conhecido pela sua sigla – Mobral, destinado a superar o grande número de brasileiros analfabetos. Criado em 1968, o Mobral somente teve implementação no ano de 1971. 
Primeira página do jornal
Vale lembrar que, por mais de uma década, a atividade deste órgão levou jovens e adultos aos bancos escolares. No entanto, a recessão econômica manifesta nos anos 1980 travou o programa.
Encerrado o regime militar, a Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização tomou a denominação de Fundação Nacional para Educação de Jovens e Adultos (Educar). Finalmente, quase aos quarenta anos, em 1990, esta fundação também foi extinta.
Diversas iniciativas foram postas em prática: a circulação de jornal do programa (abaixo exposto) e a adoção de livros de autores regionais, como esta que alcançou o saudoso poeta Alcides Werk, conforme Jornal Cultura, em 1982.

MOBRAL ADOTA LIVRO DE ALCIDES WERK

O autor em postagem do Jornal Cultura, 1982
Para atender ao pedido de 7 mil exemplares do livro "Trilha D'água", de Alcides Werk, feito pelo MOBRAL, que passará a adotá-lo em suas escolas, em todo o país, a Editora Civilização Brasileira lançará brevemente a 2ª edição dessa obra, com tiragem prevista de 10.000 exemplares, trazendo capa e ilustrações de Van Pereira.
 "Trilha D'água", lançado recentemente em Manaus, é o segundo livro de Alcides Werk e, como o primeiro, subordina-se à temática amazônica, onde estão presentes o rio, a mata, as lendas, os mitos, o folclore etc.
Alcides Werk, que é o quinto escritor amazonense a merecer a preferência daquela grande editora, trabalha atualmente em uma nova obra, que espera lançar ainda este ano.