CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

14 de julho de 2012

Tenente Anacleto Lisboa


Recorte de Diário do Amazonas, 15 julho 1992
Ainda no serviço ativo da Polícia Militar, em 1992, eu prestava serviço à presidência da Assembleia Legislativa do Estado, quando escrevi minha primeira contribuição na imprensa, no Diário do Amazonas. Aproveitei a data da morte do tenente Anacleto Lisboa como motivação, afinal este oficial, absolutamente esquecido na corporação, morrera após cumprir difícil missão no interior.

Portanto, na época da publicação, completavam-se 30 anos. E obtive duas gratas recompensas: falei com a viúva do falecido pelo telefone apenas, pois, magoada com o Estado, não desejava lembrar o absurdo. Outra, a filha deste oficial, que encontrou a publicação do jornal em seu local de trabalho, a Secretaria da Fazenda.

Reproduzo o texto, com alguns reparos, para lembrar o cinquentenário deste acontecimento.

ABUFARY, julho de 1962. Ainda existia este município, situado no rio Purus, fronteira ao de Canutama. Ao anoitecer do domingo, 15 daquele mês, índios Apurinã atacaram a propriedade de Antônio Carvalho de Moraes (Totinha). Resultado: -; mortos, incluída a esposa de Totinha, ferimentos graves em seu filho José Antônio e leves em mais cinco empregados.
Motivo da "vendeta", no relato de jornalista da época: a ancestral e renhida disputa pela posse da terra e a colheita de frutos.

O País submetia-se ao sistema parlamentarista, imposto à Nação como anteparo a atribulada atuação do presidente João Goulart. Empossado em substituição a Jânio Quadros, que renunciara havia um ano. Dois matutinos locais consultados (O Jornal e A Crítica) repetiam os fatos políticos: a queda do Ministério, a escolha do primeiro-ministro Brochado da Rocha.
No plano estadual, era governador (em primeiro mandato) Gilberto Mestrinho. Aquele ano era de eleição para governador. A oposição seguia com o doutor Paulo Nery e ocupava a Secretaria do Interior e Justiça, à qual estava subordinada a Polícia Militar, o doutor Assis Peixoto.

A notícia do ataque indígena chega a capital em 20, sexta-feira, tumultuando a cidade. No dia imediato, seguiu uma caravana policial-militar, acompanhada do deputado Arlindo Porto, então presidente da Assembleia Legislativa, e do doutor Vivaldo Frota, na condição de Delegado de Segurança Pública (ambos vivos para confirmar o acontecimento). No comando da tropa da Polícia Militar, o tenente Osvaldo Anacleto de Moraes Lisboa, a quem rendo mais uma vez homenagem com este relato.

Era prefeito de Abufary, o saudoso Mirabeau dos Santos (afrodescendente, dentista, todavia, simpático e histórico político). A comitiva deslocou-se para a cidade de Canutama, onde se encontravam as vítimas do massacre, em avião pertencente à Petrobras com a tripulação cedida pela Panair do Brasil. Autêntico ajuri para solucionar aquele desastre. A delegação saiu de Manaus às 6h e retornou às 14h, "dando tempo a que o deputado Arlindo Porto presidisse a reunião da Assembleia".

Arlindo Porto, hoje presidente da
Academia Amazonense de Letras

Comandado pelo recém-promovido tenente Lisboa (paraense, 34 anos, filho do major PM Manoel Lopes Lisboa), o pelotão seguiu para o local da chacina com a incumbência de prender os assassinos e conduzi-los para a capital.
Assim ocorreu, tendo a caravana policial com os presos aportado em Manaus a 2 de agosto. A missão estava cumprida com méritos, não fosse a morte deste oficial em 15 de agosto, em condições inexplicáveis. Segundo relato de integrantes da expedição, como o cabo da reserva Jairo Furtado, que integrou da equipe do Detran, o tenente Lisboa teria sido atingido pela água do rio, “envenenada” pelos índios.

A morte do oficial consternou a corporação, como se pode observar no necrológio publicado, por ocasião de seu enterro: "o militar falecido havia pouco galgado o oficialato desta Corporação, possuindo uma folha de serviços valiosa". E mais "tendo se distinguido pela prontidão com que aceitava e cumpria as missões mais delicadas que lhe eram confiadas". E conclui: "deixou viúva D. Francynaide Teixeira Lisboa e, na orfandade, um filhinho de dois anos". Assinado: coronel Osmail Stockler, comandante.

A comoção atingiu também a cidade de Itacoatiara, onde servira o oficial, tendo o então prefeito Acácio Leite telegrafado para transmitir à corporação aquele profundo pesar. Igualmente se pronunciaram entidades estudantis do Colégio Estadual do Amazonas, onde estudara o desafortunado policial.
Sobre o inditoso acontecimento escreveu brilhante crônica o festejado padre-poeta L.Ruas (1931-2000), como que externando a dor que assomou sobre a cidade.

Manaus, julho de 1992. São passados 30 anos, e tudo parece se repetir. Apenas que o indígena hoje possui tratamento diferenciado. A corporação descuidou de seu tão dileto, parecendo que cumprido o luto, esquecido o morto. A família, sim, esforçou-se por alguns anos para receber uma pensão especial. Já em 1968. Apenas sete anos depois foi revogada pelo governo estadual. Hoje se vale de um benefício concedido e pago pelo IPASEA.

Ao recordar o tenente Lisboa, na data de sua morte, espero que a cidade que o chorou, não continue virando-lhe as costas. Sua atuação, considerada heroica, concede-lhe o direito de constar no panteão dos heróis estaduais.