CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

17 de julho de 2012

FRANCISCA PEREIRA LIMA (1)



Francisca Lima, na formatura de
Corte&Costura
Há sessenta anos morria minha mãe, deixando órfãos, além de mim o primogênito, o Henrique e o Renato, este com apenas um ano. Inda me lembro do fato: aconteceu em nossa residência, à rua Inácio Guimaraes, nas proximidades do cine Vitória, portanto, no bairro de Educandos. Era a noite de 17 de julho.

Com a idade que possuía, não atinava para a enfermidade que consumia dona Francisca. Ainda jovem, com pouco mais de 30 anos... Lembro que a seguira ao Cambixe, no Careiro, em casa de parentes, para cumprir uma regra sanitária de antanho: doenças eram curadas em ambiente amplamente saudável. No Brasil, são conhecidos os refúgios que "proporcionavam" cura à tuberculose. Não era o caso do Cambixe!

Outra lembrança da época, o médico que atendeu minha mãe fora o doutor Jorge Abrahim, vereador da cidade, mas pouco recomendado como especialista. Dele se contavam pilhérias sobre sua prática medicinal.

Certo mesmo é que a gravidade da enferma progredira. As atenções foram redobradas. Uma delas, os três filhos foram acomodados na casa da irmã dela, minha saudosa tia, dona Raimunda Barbosa, que ano passado teve celebrado seu centenário de nascimento.

Raimunda era a filha mais velha dos Lima, e a Francisca, a caçula. Com a morte dos “velhos”, a primeira passou a cuidar da irmã. Por isso, foi a ela que meu pai se dirigiu quando resolveu namorar minha mãe. E, como a tia exigiu dele alguns detalhes próprios do galanteio da época, meu pai (ainda vivo aos 96 anos) guardou algum ressentimento da cunhada.
Casamento de Francisca e Manuel,
em Iquitos-Peru, 1944

Raimunda casou-se com seu Manoel Barbosa, e o casal se estabeleceu na “estrada” de Constantinópolis, hoje avenida Leopoldo Peres, bem no início da conhecida Baixa da Égua. Nesse endereço, os Lima Barbosa produziram pão e os filhos. E ali fui alimentado, também.

Era na casa desta tia que eu estava, quando fui levado apressadamente até a minha. Levado para tomar a benção de minha mãe, para assim me despedir dela. Embora tenha tomado e retomado sua benção, não houve resposta, não podia mais, minha mãe estava morrendo.

Então, vi o lamento, o choro dos presentes. Também derramei  minhas lágrimas infantis, confesso, sem entender bem aquele momento, sem entender a “indesejada visita”.

O enterro foi realizado a moda antiga: conduzido o féretro, o caixão (melhor dizendo) pelas ruas, com os acompanhantes revezando-se no transporte manual. Havia um tamborete para, aqui e ali, suportar o caixão, e permitiro pequena recuperação aos condutores. Enfim, para quem conhece ou não a distância, o sepultamento aconteceu no cemitério de São João Batista, saindo do bairro de Educandos. Foram alguns quilômetros.

Por décadas, não quis saber da causa mortis, da causa da perda de minha mãe. Então, como a saúde própria passou a me inquietar, pensava que o câncer fora a determinante. A explicação, todavia, estava facilmente ao meu alcance, bastava consultar o cartório. Assim fiz. E no atestado de óbito estava a dura resposta: tuberculose pulmonar havia causado a morte.

Casal Mendonça, com os filhos Roberto
(em pé) e Henrique (sentado), Rio 1950
Passei dias lamentando que, à época, não houvesse em Manaus os antibióticos, a penicilina capaz de intervir proveitosamente. Meu irmão Renato, morador de Niterói-RJ, ao ler o atestado, desabou. Contou-me que se refugiou no Campo de São Bento, ao lado de sua residência, e copiosamente chorou pela mãe, que a morte prematura impediu-o de desfrutar do carinho, do afago, do acalanto.

Até à eternidade, mãe!