CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, julho 23, 2026

PRAÇA RIBEIRO JÚNIOR (2)

 Há setenta e um anos, precisamente em 23 de julho de 1955, foi aberta ao público a então denominada Praça Ribeiro Junior, instalada no canteiro central da avenida Leovigildo Coelho e delimitada entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri. 2 anos depois, ela foi soterrada. A postagem – dividida em duas seções – expõe o texto do saudoso jornalista e acadêmico Arlindo Porto, publicada em A Crítica, em 23 julho de 1978.

Recorte do livro editado em Manaus
Detalhe do artigo de Arlindo Porto

                                                     SALVE  RIBEIRO JÚNIOR

Arlindo Porto

Tudo isso ocorreu após os eventos golpistas de 1964, nada tendo eu podido fazer a respeito, nem mesmo protestar contra a agressão à memória de Manaus, pois tangido pelas circunstâncias, me auto exilara e fixara residência por mais de 10 anos, no Rio de Janeiro. Manda a justiça que se proclame, no entanto, que atendendo a uma solicitação que eu lhe fizera, o prefeito Paulo Pinto Nery, no que se obedecia a uma recomendação do próprio mestre Branco e Silva, então já falecido, mandou pintar todos os anos, enquanto esteve à frente da Prefeitura, a herma de Ribeiro Junior com a cor bronzeada apropriada, o que levou muita gente, até hoje, a pensar que a peça fora elaborada naquele precioso metal. Esse trabalho na conservação somente deixou de ser feito após a saída de Paulo Nery da Prefeitura, com o consequente escorraçamento da herma da praça que tinha o nome do homenageado.

Quanto à herma, em nova avalanche modernizadora, esta já ocorrida na gestão atual do sr. Manoel Henriques Ribeiro, foi derrubada da anônima e anódina mureta em que fora depositada, e desapareceu. provavelmente soterrada nos trabalhos de nivelamento ocorridos na praça da Saudade.

Quanto à praça em si, penso que esta continua existindo oficialmente, tal como já afirmei antes. Pelo menos não é do meu conhecimento a aprovação de qualquer lei extintora da homenagem, pela Câmara Municipal. É bem verdade que ela não aparece na planta de Manaus impressa no catálogo telefônico da cidade, mas este não é um documento plenamente confiável, pois até chega a grafar o nome do grande Heliodoro Balbi, como “Heliodora Balisa'”... Até bem pouco tempo o nome de Ribeiro Júnior continuava aparecendo nas contas de água, luz e telefone. Agora já não sei.

É bem verdade que, com a expulsão e degredo da herma para a praça da Saudade e desaparecimento da passarela central, o logradouro que homenageava o “Redentor” perdeu visualmente a condição de praça, nada mais tendo que possa sequer lembrar haver existido ali, algum dia, aquela característica urbana.

Creio ser chegado o tempo daqueles que pugnam pela manutenção da memória de nosso Estado, tendo à frente o Instituto Geográfico e Histórico, de encetar uma campanha junto às autoridades competentes, no caso a Câmara Municipal e a Prefeitura, para que se nomeie uma outra área da cidade com o nome de Alfredo Augusto Ribeiro Junior e para ali se devolva, renovada, a sua herma, a fim de que as gerações que nos sucederem tenham a oportunidade de recordar a figura brava de um homem que, mesmo aqui não tendo nascido, não vacilou em arriscar sua carreira e o seu futuro em bem do povo amazonense.

terça-feira, julho 21, 2026

PRAÇA RIBEIRO JÚNIOR (1)

 Há setenta e um anos, precisamente em 23 de julho de 1955, foi aberta ao público a então denominada Praça Ribeiro Junior, instalada no canteiro central da avenida Leovigildo Coelho e delimitada entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri. Morei neste logradouro por seis anos, a partir de 1967, e acredito que até sua desativação teve, no máximo, 60 moradores; pois somente existiam residências de um lado, do outro, estava o muro do quartel da Polícia Militar, hoje Palacete Provincial. Ainda me recordo: residi no Edifício Lilac, nº 348, entre a casa do seu José – onde vivia com cerca de uma dezena de filhos – à direita, e, à esquerda, uma oficina mecânica. Sucediam-se a big residência do Ali Assi; a do Adriano, proprietário dos cinemas; uma casa onde no térreo funcionava um comércio de medicamentos e, na esquina da Lima Bacuri, a moradia do desembargador Lucio Resende.

 

Detalhe da capa do livro
lançado em Manaus

A postagem – dividida em duas seções – expõe o texto do saudoso jornalista e acadêmico Arlindo Porto, que manifesta sua admiração pela Revolução de 1924 e ao altaneiro e sua maior expressão: tenente Ribeiro Junior.

SALVE  RIBEIRO JÚNIOR

Não estava de nenhuma forma destituída da razão a senhora Yara Ramos Ribeiro, filha de Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, quando afirmava, em 1985, à passagem do 47º aniversário da morte do instituidor do “Tributo da Redenção” no Amazonas, ocorrida em 29 de junho, que a memória do seu pai, o grande revoltoso de 1924, “está completamente esquecida dos amazonenses”. E ainda quando dizia que “o busto de Ribeiro Júnior está azinhavrando num pequeno nicho, num logradouro bem identificado pela palavra saudade”. Esta última afirmativa, por sinal, deve soar até agravada dois anos depois de feita, porque na realidade o busto, nas últimas reformas municipais procedidas na Praça da Saudade, tomou rumo ignorado, volatilizou-se. Coisas de uma terra que não cultiva a memória. 

Recorte do artigo de Arlindo Porto,
jornal A Crítica, 23 julho 1987

Cometia, no entanto, aquela querida amiga uma meia verdade, quando afirmava que “nada mais resta em Manaus que lembre essa figura histórica, nem mesmo a praça com o seu nome, inaugurada a 23 de julho de 1955”. Resta sim. A praça, embora visualmente desfigurada pela ação  municipal, ao tempo da gestão Jorge Teixeira, que no seu dinâmico afã de dar aos ônibus um corredor de trânsito que facilitasse saída dos grandes carros do centro urbano da cidade, mutilou completamente a avenida Floriano Peixoto, anulando a passarela central destinada aos pedestres, derrubando-lhe todas as árvores e, na prática, devolvendo-lhe, por descaracterização, o trecho que antes pela existência de um marco assinalativo, configurava a Praça Ribeiro Júnior.

Contudo, se esta não existe de fato, pelo menos existe de direito. Não é um grande consolo para ninguém afirmar tal coisa, mas a lei municipal que a criou está em plena vigência. Não foi anulada.

Permitam-me um depoimento pessoal: criei-me assistindo, todos os anos, no dia 23 de julho, uma comovente demonstração de lealdade à memória de Ribeiro Júnior, marcada por salvas de foguetões desde o alvorecer e por um lauto almoço, na Cachoeirinha, tudo promovido pela generosa e depreendida iniciativa de Philadelfo Moraes, que ainda na data famosa divulgava pela imprensa um artigo laudatório exaltando a figura do grande comandante da revolução de 1924.

Da pessoa de Ribeiro Junior eu me recordava apenas, e muito vagamente, como de um homem muito alto, imponente no envergar de sua farda de oficial do Exército, de quem certa vez estive bem perto, levado pela mão de meu padrinho e pai adotivo, o ser humano extraordinário que foi Aristeu Guimarães, também ele um grande admirador do Redentor. Recordo-me também, menino, das grandes concentrações humanas, ali pelo “roadway” da Manaus Harbour, quando Ribeiro Junior chegava a Manaus, de navio, e o povo ia recebê-lo, no cais.

Em 1955, aos 26 anos de idade, já atuando na imprensa de Manaus, provavelmente tocado pelas reminiscências da infância, dispus-me a fazer alguma coisa, diante da inexistência de qualquer homenagem oficial ou mesmo oficiosa ao homem que acorrera em favor dos amazonenses, humilhados e ofendidos diante de uma oligarquia corrupta, insurgindo-se 31 anos antes contra a situação constituída e derrubando um governo que não correspondia aos anseios do povo.

Encontrei apoio para aquela “alguma coisa”, na pessoa de Walter Scott da Silva Rayol, um saudoso amigo, também ele um inconformado com o esquecimento em que jazia a memória de Ribeiro Junior. Vereador à Câmara Municipal de Manaus, dos mais brilhantes que aquela Casa conheceu, ele se encarregou de apresentar à consideração dos seus pares a lei de criação da praça, em local por nós escolhidos, em meio a longos conciliábulos.

Assim, graças a ação de Zé do Parque (nome com que Rayol assinava seus pitorescos artigos sobre futebol), deu-se o nome de Ribeiro Junior ao trecho da avenida Floriano Peixoto compreendido entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri.  Com a total cobertura do “Jornal do Commercio”, do qual era eu o secretário da Redação, encetamos uma campanha e através de subscrições populares, obtivemos o dinheiro, primeiro para as placas da praça, que foram confeccionadas em mármore, pelo Mário Orofino, a preço que nem pagava a matéria-prima. Quanto ao busto, ou melhor, a herma do homenageado, como o dinheiro arrecadado fora pouco (o tempo era de vacas magérrimas) e não dava para que o confeccionássemos em bronze, material eterno, foi o mesmo modelado, sobre fotografia, pela arte de Branco e Silva, também engajado na campanha e que nada cobrou pelo trabalho. A composição final da estátua foi feita em liga de cimento, areia finíssima e colas, invenção do saudoso mestre amazonense, que pinta pelas suas mãos geniais, dava a nítida impressão de bronze.

Finalmente, no dia 23 de julho de 1955, com a presença em Manaus de Yara Ramos Ribeiro, filha do homenageado, inauguraram-se as placas, tornando a praça oficialmente existente, numa festa que não pude estar presente por me encontrar viajando. O ato seguinte foi a inauguração da herma, bem no centro da praça, o que se fez aos moldes de qualquer festa desse tipo, com oradores e tudo. Dentre estes, lembro-me que falou, com a mesma veemência de 31 anos antes, quando aplaudia a revolução das sacadas e palanques, o grande tribuno popular Hemetério Cabrinha.

Os anos correram, veio o Teixeirão e os seus executivos de obras, na febre de modernizar — e desumanizar? —  Manaus, devolveram a avenida Floriano Peixoto, que se pretendia bucólica e com uma passarela central arborizada, à condição de via trepidante e congestionada permanentemente. A obra foi impiedosa com a homenagem feita ao grande revolucionário de 1924, pois a herma em seu louvor, para memória das gerações sucessoras à sua, que estadeava no meio da praça com o seu nome, sobre um belo pedestal, foi dali arrancada e levada para um recanto especialmente construído na praça da Saudade, onde foi juntar-se a outros bustos e hermas para ali também exilados, juntamente com as placas alusivas. Destas, no correr dos tempos, se encarregaram os vândalos, pois foram todas destruídas. (SEGUE)

domingo, setembro 01, 2024

ARLINDO PORTO (1929-2024)

Aos 95 anos, morreu Arlindo Augusto dos Santos Porto, nome augusto bastante glorificado na cidade de Manaus, onde participou e presidiu com brilhantismo cargos políticos, administrativos e de agremiações culturais. Travei adequada amizade com este mestre ao ingressar no IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), e, com mais intensidade, quando ele passou a presidir o Instituto. A Casa de Bernardo Ramos estava deteriorada, reclamando ampla reforma que, afinal, ocorreu em seu mandato. 

 
Arlindo Porto

Sempre com um sorriso disponível, foi um homem continuamente disposto a descrever suas peripécias, seja onde for. Daí me vem à memória o fato ocorrido no velório do saudoso Mário Ypiranga Monteiro, na Funerária Almir Neves, situada na rua Monsenhor Coutinho. Sentado ao lado de Arlindo, não me contive ao final do causo por ele contado. Fui às gargalhadas e, quando me dei conta da situação de acolhimento, saí às pressas do recinto.

O site da Academia Amazonense de Letras publicou uma postagem subscrita pelo acadêmico Robério Braga, que ilustra com mais atributos, ainda que resumidamente, a trajetória de Arlindo Porto.

Desejo enfatizar que Arlindo foi o derradeiro remanescente dos presos políticos ao tempo do Governo ou da Ditadura Militar (como queira), recolhidos ao quartel do 27º BC, hoje 1º BIS, localizado no bairro de São Jorge. O penúltimo foi Amazonino Armando Mendes (governador do Estado). Outro augusto preso foi Luiz Augusto de Lima Ruas, sacerdote comunista.   

Para encerrar minha homenagem ao Arlindo, vem-me ao pensamento outro fato, que ele me narrou umas vezes. Certo dia, o bispo do Amazonas – dom João de Souza Lima, foi visitar o padre Luiz Ruas no presídio militar. Obviamente, ao redor dos encarcerados. Conversa vai e vem, Arlindo teve a ideia de escrever uma carta à família, a fim de serenar sua casa, para tanto solicitou ao prelado que servisse de correio. Dom João prontamente aquiesceu, fazendo uma visita à residência do remetente. Arlindo não deixou de ser espiritualista, todavia morreu penhorado ao pastor amazonense.

Enfim, Arlindo Porto, ad immortalitatem!

sábado, dezembro 22, 2018

PRAÇA RIBEIRO JUNIOR

Ribeiro Junior
Aproxima-se o centenário de um movimento militar, ocorrido em Manaus, em 23 de julho de 1924, que afastou do Poder o governador Cesar do Rego Monteiro (1921-24),  acusado de nepotismo e outros nefastos artifícios administrativos. Um dos chefes da rebelião - tenente EB Ribeiro Junior - assumiu o governo, que durou apenas um mês, porém, produziu resultados surpreendentes para o Estado. 
Seu nome ficou consagrado na história amazonense, tendo seus admiradores, enquanto vivos, lembrado nas letras e nos festejos seu nome.
Arlindo Augusto dos Santos Porto, um desses, ainda em condições de lembrar esse movimento, batalhou para que uma praça e um monumento fossem erigidos em memória deste soldado. E foram, conforme o compartilhamento abaixo. Todavia, a Praça Ribeiro Junior durou até o governo municipal de outro oficial, coronel EB Jorge Teixeira de Oliveira (1975-79), quando inovação urbanística na área central a suprimiu do mapa.

O texto do matutino A Gazeta (1º julho 1955) oferece detalhe da iniciativa do jornalista Arlindo Porto em prol da instalação da homenagem a Ribeiro Junior. 

Recorte do mencionado jornal


Um apelo vitorioso do nosso companheiro Arlindo Porto — O prefeito Walter Rayol sancionou a lei respectiva, no dia 25 último — A 23 próximo, aniversário da Revolução Redentora, a nova praça será inaugurada  

Chega ao seu término um encomiástico movimento há tempos iniciado pelo nosso companheiro Arlindo Porto, no sentido da cidade prestar uma homenagem, bem merecida, aliás, ao legendário comandante da revolução de 1924, que redimiu o Estado do Amazonas do guante oligárquico que se havia abatido sobre o seu povo, esfomeando-o, perseguindo-o, torturando-o, uma homenagem ao tenente Alfredo Augusto Ribeiro Junior.
O movimento encetado por aquele confrade, grande admirador da memória do revolucionário que instituiu o imortal “Tributo da Redenção”, ecoou perfeitamente no espírito de um outro “ribeirista”, o prefeito Walter Rayol, e este imediatamente atendeu as ponderações do nosso companheiro de trabalho, feitas em sucessivas crônicas, enviando mensagem ao Conselho da cidade.

Na manhã de hoje, a nossa reportagem apurou que no dia 25 último, depois de aprovada pela Câmara Municipal, foi sancionada pelo governador da cidade. A lei que dá à praça situada por trás do quartel da Polícia Militar do Estado, até então, um trecho da rua Floriano Peixoto, o nome de “Governador Ribeiro Junior”.

Soubemos mais que o confrade Arlindo Porto já esteve em entendimentos com o prefeito Walter Rayol, acertando este que a inauguração da placa da nova praça, será feita no próximo dia 23, aniversário da Revolução Redentora de 1924, em uma solenidade a ser realizada naquele local.

Em informações prestadas à reportagem, aquele jornalista anunciou a sua firme intenção de dar início a um movimento de subscrição popular, para a aquisição de recursos com que, em nome do seu povo, a cidade de Manaus homenageará Ribeiro Junior, fazendo erguer no centro da praça que agora tomou o seu nome, em um pedestal que ali já existe, o seu busto, em bronze, para perpetuação desse gesto com que a coletividade da capital amazonense renderá seu tributo de admiração ao valoroso campeão das liberdades públicas e da moralidade administrativa.


sábado, agosto 27, 2016

MOACIR ANDRADE (3)

Recorte da capa da revista
Em mais uma homenagem pessoal ao artista plástico Moacir Andrade, morto no mês passado, compartilho a publicação abaixo, sacada da extinta revista Informatur Amazônia, periódico mensal editado em Manaus, em 1980. Sua direção pertencia a Lourdes Archer Pinto e o editor-chefe era o respeitado jornalista Arlindo Porto.

Presença permanente de Moacir Andrade nas artes amazonenses


Página da revista
Modesto e simples, para o desespero hoje já resignado de sua mulher Graciema, a ponto de poder ser encontrado no principal mercado da cidade, por exemplo, sentado em um meio fio, trajando tranquilamente uma bermuda desfiada toda manchada de tintas, e lendo um jornal com um velho óculos maior que seu rosto, cavalitado no meio do nariz, Moacir Andrade, o grande pintor amazonense, é assim mesmo por formação e natureza e ninguém poderá mudá-lo jamais.

Diferentemente de outros grandes astros da pintura e das artes plásticas mundiais, que fazem da falsa excentricidade um meio de projeção, a simplicidade de Moacir Andrade, calmamente entrando nos lugares mais refinados de Manaus — e sendo recebido com a deferência que merece — com os pés enfiados em sandálias, é marca pessoal de berço desse caboclo nascido nas barrancas alcantiladas do interior do Amazonas, a quem as Musas da Pintura bafejaram criança ainda para que se tornasse o grande mensageiro das cores amazônicas para o mundo.

Do seu atelier, atafulhado de preciosidades, como telas de Di Cavalcanti, rascunhos de Portinari, esboços de Burle Max, marinhas de Djanira e peças outras que levam abaixo os nomes famosos dos seus autores, todas elas oferecidas ao famoso pintor e entalhador amazonense, este continua a fazer brotar um acervo de trabalhos maravilhosos que representam todo um conjunto harmonioso de primorosas demonstrações de intenso amor pela terra natal.

As telas e os entalhes de Moacir Andrade, refletindo sobretudo o conteúdo autêntico e realístico das coisas e gentes de sua terra natal, se constituem, por isso mesmo, em um documentário sociológico autêntico sobre o qual um dia poderão se debruçar os estudiosos da matéria e gizar através dele toda uma fase da existência dos herdeiros das icamiabas que tanto assustaram Orellana na sua passagem pelo Tapajós.

Quem o vê nessa simplicidade não imagina que já tenha realizado exposições e proferido conferências nas principais cidades do mundo como Tóquio, Estados Unidos (diversas cidades e universidades), Europa (Lisboa, Roma, Paris, Madri etc.). 
Assim Moacyr Andrade não é só um grande pintor do Amazonas, mas do Brasil, com renome internacional. 

Anúncio na revista

terça-feira, março 15, 2016

CENTENÁRIO DO IGHA: NOTAS

Na próxima semana, em 25 de março, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) completa 99 anos de existência. Seu presidente, Dr. Antonio Loureiro, já delineou a festa para marcar a data.
Recorte do matutino

Há muito, venho recolhendo dados sobre as diversas efemérides do IGHA, a fim de construir um trabalho para seu centenário. Incluem recortes pela passagem de seus aniversários, pela posse de seus membros, pela a outorga de prêmios a autoridades, entre outros assuntos. Todo esse material foi recolhido de publicações de jornais e revistas locais.

É desse arquivo a postagem que vai abaixo, veiculada em A Crítica, edição de 23 de outubro de 1986.

Mestrinho recebeu um título raro do IGHA

Ao receber, na noite de terça-feira última, o título de sócio Grande Benemérito do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, o governador Gilberto Mestrinho exortou as novas gerações de amazonenses a acreditarem cada vez mais nas potencialidades econômicas do Estado, afirmando que "o nosso Amazonas, na virada do século, será uma terra muito melhor de nela se viver do que nos dias de hoje, porque todas as potencialidades que aqui existem, em estado latente, irão explodir em um surto de grandeza, de desenvolvimento e de progresso para o nosso povo".

A reunião solene do IGHA, presidida por Robério Braga, teve a presença do mundo intelectual amazonense e de figuras representativas das camadas mais cultas da sociedade baré, e teve um ambiente de solenidade, como é marca registrada dos encontros realizados na história sede da Rua Bernardo Ramos.

Constituiu também um cunho de grande significação, por ser aquela, apenas a terceira vez em seus setenta anos de existência, que o Instituto concedeu aquele título a alguém, sendo os dois primeiros agraciados os desembargadores André Vidal de Araújo e João Rabelo Correia, ambos já falecidos.

Agradecendo ao final dos trabalhos, encerrando a reunião numa deferência especial do presidente do IGHA, Robério Braga, o governador Gilberto Mestrinho disse da sua gratidão aos membros do Instituto pela concessão que lhe haviam feito, por unanimidade, mas que os méritos, "se existiam tantos que merecessem a homenagem, não pertenciam apenas a ele, mas à equipe de trabalho que obedecia ao seu comando, homens e mulheres que, no seu conjunto, com dedicação e sacrifício, ajudavam na obra de governar este Estado".

O novo sócio Grande Benemérito foi saudado pelo consócio Arlindo Porto, que em nome do IGHA, disse dos motivos que levavam o Instituto a conceder aquele raro galardão, relacionando o elenco de dotações feitas ao órgão pelo governador Gilberto Mestrinho e que "resultaram no engrandecimento cada vez maior desta Casa que é a guardiã dos conhecimentos passados e presentes do Amazonas, em bem das gerações futuras".

Mestrinho agradeceu as palavras de Arlindo Porto, afirmando que o Amazonas cresceu muito, "graças ao espirito de trabalho daqueles que são responsáveis pela sua administração e à magnifica compreensão do seu povo. Eu sou um homem feliz com a contribuição que pude dar à minha terra. Hoje posso chegar em qualquer lugar do Amazonas e olhar o meu povo com a cabeça erguida, consciente de que fiz aquilo que se esperava de nós, o governo, dedicando alma, coração e fé, na crença que deposito no futuro de minha terra natal".

As palavras de saudação do presidente Robério Braga foram marcadas pela emoção ainda latente pela perda recente do seu genitor, mas tiveram, com as de Arlindo Porto, um cunho de gratidão e reconhecimento ao governador do Estado por tudo quanto fez em favor do IGHA. Robério disse da sua fé no futuro da entidade e a sua certeza de que o Instituto continuará sendo sempre um templo de proteção e incremento a cultura do Amazonas".

O belo diploma de Sócio Grande Benemérito foi entregue ao agraciado por Platão Araújo e Ana Augusta Correia, descendentes presentes dos dois únicos Grandes Beneméritos do IGHA, ao longo de sua história. 

terça-feira, junho 16, 2015

RIBEIRO JUNIOR (1887-1938)


Capa do livro sobre
Ribeiro Junior, 1997
Personagem relevante da história do Amazonas, no século passado, Alfredo Augusto Ribeiro Junior foi excluído de nosso convívio, há algum tempo. Trata-se de oficial do Exército que, juntamente com outros camaradas, se rebelou contra o governo Rego Monteiro, em 23 de julho de 1924. Vitorioso, assumiu a administração que, embora curta, de cerca de 30 dias, deixou sua marca política na cidade. Tanto que posteriormente Ribeiro Junior representou o Amazonas na Câmara Federal.


Em 1955, o jornalista Arlindo Porto promoveu um movimento para cultuar a gratidão do Amazonas a esse benfeitor. Com sucesso, o nome de Ribeiro Junior batizou a praça organizada atrás do Quartel da Praça da Polícia, hoje Palacete Provincial. (Ali residi no nº 348, Edifício Lilac, ap 03). Neste logradouro foi instalada uma herma com o busto do homenageado, desaparecido com a reforma do prefeito Jorge Teixeira.


No cinquentenário da rebelião, organizou-se uma manifestação nesta praça, em que compareceu a filha de Ribeiro Junior, Yara Ramos Ribeiro, que pronunciou o discurso que abaixo vai reproduzido. Sua publicação ocorreu no diário A Crítica, em julho de 1974.  


CINQUENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO DE 1924
Yara Ramos Ribeiro

Bacharel Ribeiro Junior

Não pretendo fazer um relato histórico sobre a REVOLUÇÃO DE 23 DE JULHO DE 1924. Não pretendo, tão pouco, retratar a figura do Militar, do Revolucionário, do Político, do Governador, do Parlamentar, do Homem de Estado, enfim, do Redentor do Amazonas.

Quero, apenas, neste 23 de julho de 1974, pedir ao Povo de Manaus - que, por gratidão, perpetuou a imagem de seu Redentor no bronze - que compareça à Praça Ribeiro Júnior, para saudar o Cinquentenário da Revolução de 1924.

Quero, tão somente, como amazonense que sou, dizer OBRIGADA, MUITO OBRIGADA, MEU PAI. 

Quero relembrar a alegria imensa, o enorme orgulho que experimentei, a 23 de julho de 1955, quando inaugurei a Praça Ribeiro Junior, e pisei o chão da minha terra ali mesmo, junto ao 27 BC de onde saiu meu pai, a 23 de julho de 1924 para devolver ao povo do Amazonas o que lhe fora roubado num governo de tirania.

Ali, onde ecoava ainda o timbre possante de sua voz, na palavra fluente de Hemetério Cabrinha. Ali, ao lado de Filadelfo de Moraes, seu melhor e mais fiel soldado. Ali, junto a Elda Biton e Eunice Serrano, representantes da Mulher Amazonense, que participou ativamente da Revolução de 1924.

Ali, naquele pedaço de terra onda nasci, para perpetuar a figura do Revolucionário, para agradecer, junto ao meu Povo, o que meu pai fez pelo Amazonas. Ali, pera saudar Ribeiro Júnior, como sei que foi e será sempre saudado pelo povo do Amazonas.

Ali, para saudar seus companheiros de luta, comandante Simas – o único que tive a satisfação da conhecer pessoalmente – Azamor, Lemos Cunha, Barata, Dubois e tantos outros que tomaram parte na Revolução de 1924.

Cinquenta anos são passados.  Poucos daqueles que participaram da Revolução, que a assistiram, ainda estão vivos. Mas, em cada amazonense, há de restar a lembrança da palavra de um pai, de um irmão, de um parente, enfim, que o fez conhecer Ribeiro Júnior.

Ribeiro Junior, esse homem, cuja própria vida, tão curta, não passou de um cinquentenário vivido intensamente, marcado pela inteligência, pela disciplina, pela honestidade, pela perseverança, pela força intensa de sua personalidade marcante, que o levou ao mais alto lugar que um homem pode aspirar: o seu lugar na História de sua Pátria.

Do Aspirante que, em Porto Alegre, rapaz ainda, encontrou a companheira de sua vida na gauchinha que só a desposou depois de sua maioridade, por imposições de família; do tenente que chegando a Manaus em março de 1924, a 23 de julho do mesmo ano depõe um Governo de tirania, redimindo um povo sofredor e oprimido; do Governador justiceiro e honesto, que realizou o Tributo da Redenção; do tributo que encantava as plateias com sua voz retumbante, firme e sempre esperançosa; do Oficial que lutou em seu posto, até o fim, mesmo perseguido implacavelmente por seus inimigos políticos; do líder, enfim, que sempre se destacou em qualquer de suas atividades, em todas as fases de sua vida, ficou o homem que se integrou na História do Amazonas, na História de sua Pátria.

O tempo não destrói a história, nem seus ídolos e heróis. Ao contrário, os faz renascer; ressalta-os e transporta-os para os tempos atuais.  Surpreendi-me, em 1955, ao chegar a Manaus para inaugurar a Praça Ribeiro Junior, e deparar com a enorme multidão que aguardava a filha de Ribeiro Junior, no Aeroporto de Ponta Pelada. Guardo, com imenso carinho, recortes de jornais e fotos desse meu Povo todo, dos amigos de meu Pai, saudando sua memória, fazendo-o eterno na gratidão dos Amazonenses.

Assim como nós, seus filhos, faremos eterno através da lembrança sempre presente, de sua imagem exuberante, de sua figura homem íntegro, da sua inteligência, de todos os seus feitos, que se transportam para seus netos e seus bisnetos, na história dos tempos, através de um legado precioso, de uma herança de que tanto nos orgulhamos.

 Em seu livro Razões de Estado, dedicado à minha Mãe, está escrito: "Deste-me os Filhos; aqui tens o Livro. Nossos filhos plantarão as árvores". Frutificamos à sombra da semente plantada, alimentada   por magníficos exemplos, gerando frutos belos e sadios. À sombra dessa frondosa árvore, à sua sombra, à sombra de nossa Mãe.

Hoje, seguindo cada exemplo, ditados aos mais novos todos os ensinamentos, podemos ver, à sombra da árvore com tanto amor plantada, nossa Família, que cresce e perpetua o nome que tanto nos orgulha. Foram 9 filhos, são 17 netos e 23 bisnetos, que ramificam essa enorme árvore, fazendo-a crescer, cada vez mais e sempre.

quarta-feira, setembro 17, 2014

ENERGIA ELÉTRICA



Na metade do século passado, Manaus sofria com a falta de energia elétrica, depois de ter sido a segunda cidade do país a desfrutar desse benefício. Acabara toda a pompa da belle époque e o pequeno reforço econômico prestado durante a 2ª Guerra.
Somente os “amigos do rei”, no entanto, desfrutavam de um privilégio, o de ter energia fornecida pelo Cabo C. Simplesmente o desvio da eletricidade produzida pela geradora do Porto de Manaus, ainda uma relíquia dos ingleses.
Arlindo Porto, então jornalista atuante, escreveu a crônica abaixo, transcrita de O Jornal, de 6 de dezembro de 1955.


CABO C...

Arlindo Porto

Na falta de lenha, as fornalhas dos Serviços Elétricos do Estado estão devorando cavaco de pau-rosa. Resultado: energia cheirosa, mas em compensação anêmica, racionada, moribunda a botar fosforescências de pirilampo em férias, no bojozinho de lâmpadas 60 por 60...
Os chefes de oficinas, nos jornais, já estão na maioria carecas, de tanto arrancar cabelos da cabeça. De pura raiva. As máquinas param, o chumbo esfria, a "bucha" demora, o jornal atrasa. Já nem o Cabo-C, o cabinho milagroso que põe voz nos rádios e eletrolas e que dá frio pra dentro das geladeiras, escapa.
De vez em quando dá suas sumidinhas, enchendo de horror aos seus felizes proprietários, tão pouco afeitos as trevas perenes que já se tornaram companhia noturna constante, dos moradores dos bairros, dos que berravam "já ganhou" até a rouquidão e que voltavam pra casa, depois dos comícios, suados, mas vitoriosos. 

De ventas irritadas com o fedor das velas (há coisinha melhor pra dar a sensação de um defunto dentro de casa?), resolvi adquirir o meu Serviçozinho Elétrico particular e ato continuo procedi uma coleta de preços, na praça, disposto como estava a comprar um "Wilson Sons", destes movidos a querosene. Ganhou a concorrência a Central de Ferragens, onde a simpatia do Alfredo Soares, na hora do pagamento, ainda suavizou o abatimento. A compra saiu por 50 mil-réis, redondos.

Olhando para o exemplo do meu congênere maior, o lá do Plano Inclinado, que está asmático, dizem, em consequência da falta de uma peça sobressalente que somente pode vir da Inglaterra e como não desejasse, por meu turno, ficar sujeito às chatices das quantas Sumoc, Cacex, GEMIAS, LADROEX, FURTOC e RAPINIMS que existem por este cabralino e carnavalesco país, em caso de me ver, futuramente, em igualdade de condições, adquiri, logo, e a aquisição ficou na conta de presente da Central, mais um pavio e mais uma manga, novinha em folha, a última até com um flosô na beira, lembrando aqueles antigos candeeirões lusitanos que a vovó espetava no meio da sala de jantar, para presidir os serões noturnos, no tempo em que a luz da Manaus Tramueis era um luxo para os "de posse". Estou armadíssimo, pois, para os blecautis decretados pelo xavaníssimo (sic) casarão da Praça Oswaldo Cruz. 

A escuridão, essa inimiga feroz da claridade, essa motogeradora de caçuás de nomes feios, sempre que uma canela desavisada entra em beligerância súbita com uma quina da cadeira, está derrotada lá no barraco. Tão logo o sol se deita na cama do horizonte, para o seu repouso noturno e a treva chega, pimponando festões de negrume por todos os lados, a chave da luz é posta em teste: não há energia.
Não há porque desesperar. É cuidar de fazer funcionar o "Wilson Sons" manual, que ali já está, sorridente e lambeia, de mangas limpinhas e pavio acertado, pronto para a trabalheira iluminativa de noitada que mais e mais se acentua. Um riscar de fósforo, um aproximar da fitinha branca que vem lá da barriguinha do bicho, bebinho do querosene Jacaré, do melhor, e pronto!

Eis-nos com luz sem variações, sem trocamentos de lâmpadas, sem incômodos de ligamentos e desligamentos, sem impropérios, sem vaso de desaparecer de um momento para o outro, com o advento muito natural de pragas, imprecações e quejandos, sem nada disso que se vê, quando se depende, única e exclusivamente, da “empambada” e rogadíssima energia dos S.E.E (Serviços de Eletricidade do Estado). Às vezes, Cesar para ter o que é de Cesar, tem de procurar...
Não há dúvidas: também agora estou com o Cabo-C (candeeiro)...